Retrato
falado
A fim de se preservar impressionante,
dono de vozeirão intimidador, já que era muito homem pra falar grosso, ele falava
pouco.
Não era exibido pra esgoelar denunciando
ter tomado gol contra em plena peleja. Não preferia tal discrição, via-se
obrigado a viver naquele mundo estreito. Nem que a partida começasse na chuva, com
o campo que só lama, nem que estivesse atrasado, mal tendo o jogo começado, era
bom no cumprimento de tabela.
Nunca adiassem nenhum jogo, uma vez que
estava treinado a não escancarar o vexame. Sabia como garantir um honesto WO.
Sem pinta de competidor debelado,
disfarçado perdedor contumaz, não chegava solando sem piedade. Não precisava
nem tirar o pé, pois dificilmente entrava em dividida com quem lhe apontava a
marca maior dos derrotados: o emparedamento pelas quatro linhas.
Com horror aos pigarros de comandante de
trovoadas, que a quarta parede jamais desabasse na testa como vaia, ou o barco
erraria longe do cais da sua tão almejada boa fortuna, dando rumo certo à
sorte.
E tinha voz firme, forte, grossa, com
filigranas de grosseria pontuais, pois ao jogo de cena fosse admitida a plateia
hipnotizada, vidrada, sem condições de notar a cortina de fumaça como efeito do
gelo seco.
Truque, ou artimanha, que ficasse
invisível a falta de encantamento. Seguisse a vida como se viver dispensasse a
graça dos afetos. Agisse com o gesto preciso à palavra bem-posta. Que fosse
absurdo o desejo de ver-se como pessoa trancafiada numa voz de impostor,
tonitruante.
Véu ajustado do rosto, a voz era a chave
para não oferecer a face oculta. Pois só um raríssimo pio (nada, nada ocasional)
tinha o condão pra denunciá-lo em maus lençóis, como fantasma despido do medo e
da ameaça de dar medo.
Falando grosso, falando pouco, falava ao
ponto.
Temia as tramoias do improviso.
Em pânico, pensando-se uma chuva
passageira, um chuvisco leve, garoa que derrubaria pandorgas, mas não
derrubaria urubus nem faria aviões serem desviados das rotas.
Como tinha que sustentar com a voz essa nuvem
aterradora, de um chumbo enfurecido por raios mil, os seus olhos não sorriam.
A cara, reparando bem, não tinha como
defendê-lo do quanto tinha recolhido do sereno das esferas escoado para o fundo
dos vales. Sério, podia imaginar como não se revelar tão humano quanto alpinistas
mais preparados. Rindo, vivia a um passo de ver aflorados seus solecismos de
solipso embromador.
Embora seus vulcões fossem gordurosos,
marcantes, cicatrizados, mapeava-os minúsculos, muito pequenos, que suas rugas não
fossem bastantes nem suficientes, fossem tão ínfimas, as menores possíveis, dos
tamanhos que permitissem o engenho da malícia engendrar a voz da montanha sobre
a planície.
Aparecida, Auxiliadora e Socorro, as
suas três estrelinhas, todavia, estatelavam-no um tartamudo todo afônico.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2021.