terça-feira, 30 de novembro de 2021

Chovendo no sapato

 

Chovendo no sapato

 

Direto ao ponto que fica na rodoviária, porque sapatos precisam de graxa regularmente, uma vez por semana. Não sou homem de ostentar tênis em batizado, o que muito me envergonharia. Não fica nada bem padrinho aquém do esperado, que a palavra conselheira, para que não se questione o garbo da autoridade, demanda o rigor de terno, gravata, camisa de colarinho limpo e sapatos apresentáveis.

Convite aceito, quero engraxado o par escolhido pra cerimônia.

Passo pela praça, onde fui desembestado, e tão menino.

No tempo que andava mais descalço do que arrastando chinelo, era eu quem oferecia os serviços batendo escova na caixa, e, como agrado à clientela, o trabalho em dobro de tinta e graxa gerava desconto. Além do mais, divertido era cantar o pano no couro, até ficar um brinco.

Descalço entre descalços, porém com as unhas aparadas, recordo o cerco dos descontentes, pois eu poderia trabalhar no bazar da minha mãe. Todavia, minha prosa era fácil e, por obra e graça dessa lábia tão loquaz, eis que já ia tirando a poeira dos sapatos de meio mundo.

Fui defendido no direito de engraxar, nem que fosse pelo cigarrinho de chocolate e meia dúzia de dadinhos, que isso era assunto meu. Que terceiros trocassem figurinhas com os bons homens da terra.

E essa gente era boa de papo, e boa em gorjetas minguadas.

Pois agora me recordo, chovia há dias e o barro untava tudo que ia cruzando as ruas, pelas alamedas e vielas, por poças e alagados, que todos os caminhos acabavam na Matriz, esse umbigo a fiéis e outros devotos, os trabalhadores com hostilidades a hóstias.

Numa guerra contínua.

Em nome da paz universal, que sapatos, carteiras, bolsas e cintos sejam fabricados com couro bioético, que o engenho humano escolha replicar bovinos, jacarés, cobras e lagartos.

Como não pego em armas nem as vendo, e porque calço sapatos, vou àquele ponto, ao que já não há na rodoviária.

Removido por pessoas que gostam de pisar com firmeza, uma vez que, do salto alto das suas prerrogativas de fino trato, elas dão leis pra que sejam cumpridas a valer, não no sapatinho, que nem aperta o calo.

Tomado de raiva ao ficar vendo latas-velhas atulhadas de sardinhas abatidas, pico a mula.

Passo por um carrinho de churros, o cheiro é fogo; e um de pipoca, já o barulho dá água na boca; mais outro, o de maçã do amor, um dente dói desde ontem.

Surpresa! O carrinho do milho faz parar.

Tem curau, pamonha, tortas doce e salgada, biju, polenta, sorvete, espiga no alho, tem hambúrguer de milho.

A folha de milho, o biju, vem quente da infância.

Experimento o x-milho, e dou nota dez ao sanduba.

Tentado a aprovar a polenta recheada de ricota: é uma pepita!

De repente, o rádio toca Being Alive. Nuvens chegaram que nem vi. Bernadette Peters, do nada? Uma euforia súbita me pega sem chapéu, e penso. O corpo sabe de cor, está chovendo no meu sapato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2021.

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