domingo, 26 de dezembro de 2021

Céu a gosto

 

Céu a gosto

 

Imagine você que uma das minhas alegrias das festas de dezembro está perdida, a reunião à mesa. Já bem antes de a pandemia acentuar as tristezas, tinha me decidido a não tomar parte de ceias de Natal nem fazer a contagem regressiva pro Ano Bom. Porém, entenda-me, não é porque fuja das comilanças esfuziantes que também tenha me tornado avesso aos balanços reflexivos.

Faço-os com discrição, pois os meus rancores costumam provocar arroubos delirantes, como se as implosões da mente gerassem apenas sussurros da imaginação, mas, passado, chego a gritar.

De lápis à mão, luto comigo; e ferido, titubeio.

Com tantas mágoas dolorosas, que às vezes as percebo latejantes sem que palavras possam traduzi-las de modo inteiramente inteligível, luto por querê-las registradas por escrito. Luto e fracasso.

Embora sofra o tanto que tento evitar, procuro não capitular e dobro a aposta. Combato a tentação de dispersar-me, uma vez que, distraído pelos demônios do colapso, acabaria anotando as lembranças ligeiras, não as recordações relevantes, perturbadoras, que agem em silêncio.

Não que o azar da vida seja desprezível ou nem mereça crédito, só que vivo em trânsito, indo e vindo, entre o afável e a rispidez, o cômico e o dramático, o atrevimento e a prudência.

Cobro-me, assim, a lucidez de reconhecer que a vida até pode estar restrita ao sofrimento, mas, se vivesse em dor contínua, enlouqueceria ou, esgotado, morreria.

Fiel a mim, o quanto possível, acredito que estou consciente de que costumo me enganar achando que busco equilíbrio à vida, estabilidade ao caminhar, amortecimento ao impacto do pé chapinhando onda.

Pensando bem, a página do meu diário permanece em branco. Ora, se estou no comando, por que nada sobe à flor branca da folha?

Por amor ao texto, não aceito que o fortuito agite as águas, turve o límpido e a crônica suba à linha d’água como tábua de salvação.

Embora não tenha escrito a respeito na época nem tenha fotografia que me confirmem que estive realmente lá em 1981, não mais que de repente, brota o mar como o vi pela primeira vez. Recordo que garoava, subia uma neblina do mar. E tinha aquele taxista falando do crime que houve ali, houvera logo ali, com o corpo no Chapéu dos Pescadores.

Não há mar, há palavras.

E elas me escapolem, contradizem a vontade de comer uma pera: pegá-la da fruteira; escolhê-la por sua aparência e sua carne apetitosa; depois de lavada devagar, mordê-la sem afobação; mordê-la.

Ainda que o bom senso ache o amor uma coisa de louco, feito bobo, aprimora-me o riso, cultiva-me a lucidez, cativa-me o humor; apuro-me com o jogo.

Sem saber como a felicidade faz pra sumir com uma dor de cabeça chata, acontece: UM GOSTO DE SOL ganha minha atenção; com CÉU colada nos ouvidos, esqueço o baixo astral, e consigo dançar, assobiar e respirar, tudo isso ao mesmo tempo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O sol de cada um

 

O sol de cada um

 

A vida não facilita, e retribuo na mesma moeda. Não tergiverso, pois admito que não sou fã de gente que espera viver num mar de rosas de facilidades benévolas. Tenho o gosto de complicar; e tanto não facilito que me alegra dificultar o que a simplicidade considera prático.

Sei, não, acho muito conveniente tratar o mundo como se ele fosse uma caravana que empaca de repente.

Lamento dizer, mas o comboio do circo para na estrada mesmo sem acostamento ou porque tem pneu furado pela topada no buraco ou ficar bebendo um copo atrás do outro foi acumulando água nos joelhos.

Donde se conclui que motorista pisa no freio quando não tem como impedir o funcionamento dos rins encharcados de birita.

Aliviar a bexiga, aliás, não altera em nada essa maravilha dionisíaca que é encher o rabo de goró. Desce mais, nem penso, e desço cervas, vinho e cachaça. Tomo porque gosto, mas exagero. Machuca, dói, e já não chega, e já não paro.

Na praça, sem imitar um bêbado que quer trocar pneu com a banda passando, não lamento que o pernilongo tenha decidido que não tinha como ignorar a falta de sangue no organismo hematófago.

Não sei de onde vem o vampiro: seja morcego que ataca vaca, boi ou bezerro; seja carrapato que chupa canelas moças ou senhorinhas; seja o chupão na minha nuca.

Decidi deixar o bicho em paz. Que me esquecesse, buscasse outra disposição. Sem febre, mas deitado no escuro, com a mente obcecada em fixá-lo, entraria em transe com o mantra:

ꟷ Vá, pernilongo, vá ser feliz na parede.

A minha mente anda fraca, sem gerar magnetismos psíquicos, pois o dito sugador de sangue não foi dormir em parede alguma nem entrou pros hematófagos anônimos.

Posto que não nasci pra facilitar a vida de ninguém, sequer a minha, nasci pra pensar que tenho multiplicados os pensamentos porque não sei dominar as forças do pensamento, e elas brincam comigo de modo implacável, insondável, já irrespirável.

Como uma Jolly Roger tremulando pilhada ao sol do Caribe, e pirata de tapa-olho, perna de pau e um papagaio chamado Errol Flynn, salto do lado obscuro da mente pra Rua das Flores bem na horinha em que o verão começa.

Não tenho como explicar, mas a minha cachola me põe em Curitiba ao mesmo tempo que estou em Ibiúna, chupando sorvete. Sim, sim, lá como cá, chupo um delicioso sorvete de brigadeiro com a cobertura de caramelo.

Opa!

Desconfio: há razão pra tudo, até pra isso.

Se é para complicar a bagaça, então, complico-a todinha.

E este todo inclui o Vampiro caminhando em paz. Sem boné, óculos escuros ou uma pasta 007. Uma da tarde, e Dalton Trevisan passa que nem aí pro Dalton Trevisan que muita gente projeta que ele seja.

Opa! Opa!

E tudo se encaixa. Encaixando, a crônica não entra pelo cano. Com isso, pra ir indo pra cucuia, a vida segue não fazendo sentido. E porque não faz ideia do absurdo, a graça de viver aí está, derretendo-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2021.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Carta singela

 

Carta singela

 

Agradeço-lhe, bom velhinho, ter aberto mágoas profundas entre as carnes do meu corpo. Que esta alma antiga andava suspirando tédios, caminhava idiota no fio do abismo, incapaz de identificar esforços a me disciplinar ao luxo de poder caminhar por alamedas floridas, sobrevoar enseadas paradisíacas, cantarolar a melodia afortunada de quem sabe ignorar as minhas ofensas doídas, que a elas nem eu as louvava. Pois, meus nervos precisavam dos estímulos de rancor, inveja, desamor.

Por depositar a minha esperança, como fé no juízo dos homens que ainda têm dentes pra mastigar: de boca aberta pra escancarar o prazer de encarar uma feijoada sem pé de frango ou de boca fechada pra não escandalizar a odaliscas despidas de pé de galinha.

Não que o senhor, bom velhinho, esteja a fim de escutar os pedidos, pedidos não, que tenho um, apenas um: que neve nos polos no inverno ou até que os ursos se sintam à vontade pra destroçar bonecos de gelo e os pinguins vibrem ao petecar bolas de neve.

Bem vejo que comecei mal, porque o senhor, bom velhinho do gorro vermelho, talvez enfeze logo de cara, fique aperreado comigo que nem ando fazendo coisas simples e prazenteiras, mas, tenho consciência, não quero encher o saco com querelas ressentidas.

Posso dizer, de coração, que peço justiça a quem obra por um real a mais depois do quinto dia útil, e, tocado por uma sadia benevolência, que haja sol aos sábados e nos feriados.

Ficarei grato com o senhor, bom velhinho da pança avantajada por colarinho de chope bem tirado, leia esta carta como quem não esbanja os poderes mágicos com problemas insolúveis, pois a vida tem jeito, e o senhor, solidário do grande saco, o senhor tem como dar um jeito.

Permita-me insistir, reiterar, querer que o senhor tome partido, meu partido, o lado de quem pega no seu pé porque a coisa tá feia.

Coisa que pego fácil é doença. Tem gente que pede pra pegar leve e não pisar no calo de quem viaja num trem lotado. Tem quem me peça pra pegar o bonde andando, isso não faço, porque não corro pra sentar na janelinha. Outro pede pra pegar pé de vento, porém ando descalço de habilidade tão singular, de modo que não assobio para engarrafar o que não quero pegar. Vem pessoa malandra que chega a mim como quem usa o sorrisinho feito rede para deitar e rolar, pedindo que pegue o touro à unha, mas tenho a carne fraca, e não sei fingir a covardia que demonstro ter, se não tramo que nos ossos tem bicharada dançando, é porque tem, sim.

Bom senhor, velhinho de barba branca de profeta bonachão, que o senhor me perdoe a certeza que deposito na sua destreza de fazer que o ano bom aconteça nestas bandas.

Tomando posse da prece, querido chapa bem velhinho, se apresse, ponha foco na vinda, se acerte, venha ajudar a tirar o pé da jaca, venha comer o abacaxi que não paro de descascar.

Bom velhinho da escuta cordial, até breve.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2021.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Um berço esplêndido

 

Um berço esplêndido

 

ꟷ Falaí, tudo tranquilo?

Tudo está tranquilo, e há de estar porque tem o que fazer.

Sentado de costas pra sala, ele enche uma bexiga. Está tentando.

Como tem a cadeira voltada para fora, pode ficar incomodado. Pois não é difícil se desconcentrar, pois aquela janela imensa parece uma tela de TV, mostrando nuvens.

Com tantas nuvens no céu, com tantas formas parecendo com tanta coisa conhecida, parava de encher o balão quando tinha facilidade pra enxergar uma tartaruga, uma arara ou um barquinho.

E o barquinho boiando tem essa insolência de ficar mais tempo que a vassoura, o chapéu, uma tartaruga. O barquinho dura, e vai durando, e essa permanência o alvoroça. O barquinho não passa, dissimula que passa devagar; tal descompasso entre a mudança e o que não parece se transformar, é isso que tanto o fascina, bestificando-o.

Quieto, mas sem babar, o seu rosto congelado naquela transmissão diz que janela não trava, não enguiça e não tem a luz cortada.

Sabe empenhar-se. Nem que fosse pedido a ele que falasse o que estava pensando, que comentasse sobre o que estava vendo, ignorava e ia ignorando.

Sem irritação, mas coçando o lóbulo da orelha que andava coçando tão logo se enxugou. Coçando-se depois de enxugado, tem mesmo do que reclamar, e dispensa fazê-lo.

A toalha tinha sido usada, ninguém achou necessário trocá-la. Que toalha, ainda mais quando é jogo de toalhas de banheiro, tem sempre que ser trocada depois que uma pessoa se lava.

E isso é inegociável, porque o desconforto vem da sujeira que fica impregnada no tecido. Que sensação desagradável: estar espalhando o que a água não conseguiu livrar do corpo. É coisa de gente porca.

Um outro homem com crachá vem avisá-lo de que as toalhas estão trocadas. Ele não se dirige ao enfermeiro que o incomodou. Não tem o que compartilhar com gente que se julga a tal só porque tem a cara no jaleco branco, alvíssimo, no guarda-pó novíssimo.

A causa de seu nojo, seguramente, é pela sua fala baixinha, mansa, de gente preparada, que se porta como quem tem permissão pra dizer o que não pode fazer, pra falar o que deixa fazer e insiste que conte o que mais gostaria de fazer. Fala, e só isso.

Toma um banho, o terceiro em três horas. Pra não beber as águas do chuveiro, segura a boca. Já quer almoçar. Lambe a espuma e urina. Sem querer, bate o cotovelo no box.

Volta pra mesma sala. Senta-se na mesma cadeira voltada pra fora. Quer encher aquela bexiga, o mesmo balão amarelo que há pouco quis enchido. No entanto, o céu está limpo de nuvens, tem um azul uniforme pegando o horizonte inteiro.

Dá, sim, para creditar aos remédios a calma em ficar segurando um balão vazio enquanto fica olhando o passarinho pousado na mureta do terraço. Dá pra ver que o joão-de-barro acorda o coração talhado pelas palpitações da eternidade.

Não vai perguntar quanto falta pro almoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

A essência do mundo

 

A essência do mundo

 

Mordendo e assoprando, cheguei a pensar que conseguiria domar o vento quente do pastel, mas meu alento foi uma bobagem doce que a física dissipou sem peteleco. A língua não o conteve e, tuft, o ar teve a decepcionante evolução esperada: perder-se do encanto.

Seria complicado considerar o desencanto como algo inexplicável, reação absurda a contradizer o equilíbrio termodinâmico das coisas do universo. Seria assim natural caso a natureza assim fosse, algo a pedir reavaliações, mas o disparate está nesta minha inclinação a perceber tudo numa fração que reduzo pormenorizadamente a algo aferível.

Pois é, tenho uma queda pro desequilíbrio. Platônico, e inútil.

O que me deixa tenso, e muito bobo, pois não me refiro tão somente às trocas entre calor e frio. Noto que uma ponta de melancolia toca o ponto nevrálgico que em mim me faz atento ao sintomático, ao anotado como irrelevante, acentuando-o, borrando seus limites. O que me deixa com um pé atrás, e cabisbaixo, que olho o mundo de soslaio. Sem ficar dando palpite sobre deus e o diabo, como quem da família, alguém que está em casa e pode muito bem tacar o pezão em cima da mesa.

Preciso parar de alimentar essa fraqueza. Nem sei explicar o desejo de tornar tangível o que o lirismo sente que pode compreender, como se à realidade coubesse adequar-se, resignar-se, acomodar-me.

Viro daqui e mexo dali, só pra dar em frustração. E quando forço a barra, o que me frustra cresce além do razoável, me pego angustiado, entristecido e apalermado, duvidando de minha sobriedade, da minha sóbria racionalidade. Entrevejo-me um outro, já uma pessoa esquisita. Por isso, nem tento arrumar desculpa; prefiro agir feito criança que fica encasquetando com o pastel de queijo que não é de carne seca.

Mordendo e assoprando, consegui. Se comi um, poderia mais um.

Para espanto desta pessoa ansiosa, aguardei a vez.

Com tanto assunto pra colocar em dia, a garçonete estava sentada à mesa ao lado. Entre as garotas da sua idade, de uns treze pra catorze anos, nem me ocorreu que ela trabalhasse ali. Tão simpática.

Uma alma esperta afetada pela curiosidade de cheirar como se seu nariz captasse a essência das coisas do mundo resvalando-lhe a pele. O seu segredo estava em puxar o livro, acariciá-lo com os dedinhos e inspirar o aroma de objeto novo cuja capa tinha uma magia toda sua, de portal pra outro universo, a ser revelado. Que descobriria se tivesse tempo ou se o instinto não a pusesse ressabiada.

Vagabundeando ou o quê?

Fui educado, respondi. Eu tinha ficado muito tempo debruçado num texto e as letrinhas do computador começaram a bailar e deram essa dor de cabeça bem chata.

E pastel curava?

Ela mesma acrescentou que o bafo quente do pastel ia ajudar a tirar as sujeiras que pegam nas lentes, e um escritor precisa de olhos limpos pra ver a realidade da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2021.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O rebelde

 

O rebelde

 

Está quente. Faz calor. Tem um sol de uns quarenta graus forçando a cabeça a forrar-se de pensamentos. No entanto, decidida a esvoaçar alguns dos fios da cabeleira, a cachola topa dançar a céu aberto.

Dançar é modo de dizer, pois a pessoa não deseja provocar sustos nem quer simular-se embaraçada. Sorrindo, não arrisca, e joga.

A figurinha ridícula, sem os tremeliques dos gestos espontâneos, já ensaiadinha, um robô que não acerta o passo pelo sopro do vento, ela cai em tentação por querer-se autoridade que baila sozinha. Que o seu quadril duro se finja de malemolente, festeiro, que não passe a imagem de que lhe falta o molejo do suingue.

Em polvorosa, esta mente em foco não sente que o tempo quente, abafado, anuncia chuva logo logo, que tem o calor subindo da terra do quintal. Nem liga pro sol ardendo os quarenta graus, tem o cai-que-cai no catiço de um demônio dominante, a sua razão.

Sem chapéu e sem peruca, falta uma mangueira pra dar um banho de água morna na consciência chapada de tanto suor encruado.

Caso fosse possível relacionar o corpo com as condições do mundo ao meio-dia, seria lógico sentir na pele os efeitos das mudanças que o homem não se cansa de projetar como samba, de bamba no pé.

Destrava? Atreve-se.

O bom da tarde ensolarada está em bailar como se baila na tribo, e na sua tribo tem cacique, pajé e pajem da mais nobre natureza, que a sua cara transpira liberdade, exala o ar perfumado da expressão livre, e dá abrigo ao pensamento que não tem vergonha de ser feliz do jeito que se é, ora, ora.

Faz calor. Está quente. O sol de rachar convida a ficar do meio-dia às duas, a hora de almoço todinha, saracoteando ajuizado, e lindo.

Com tamanho preparo, não é nenhuma besta quadrada.

Então, está quente, faz calor, o sol manda ver os quarenta graus à sombra. Essa terra nua não sabe como segurar o mormaço que sobe. As maritacas espiam o diabo dessa pessoa que acha que sabe dançar quando não parece nem mangueira na pressão da água que jorra solta, em tudo parecida com serpente tomada pelo feitio de uma múmia.

A falta de água deve-se às mudanças climáticas, ao racionamento por causa das mudanças climáticas, à mangueira conectada à torneira que nem foi aberta.

O nó da questão está em atar os fios: a pessoa e a sua moringa.

Se a guerra entre homem e conhecimento de si não está declarada, fica adiada a busca pelo diálogo entre estas partes sensíveis.

O bom de conhecer as regras é poder desobedecê-las, mas o bom da desobediência está em viver desalinhado ao momento oportuno.

A resistência pede que a cabeça invente de curtir o tempo sem ficar pensando como a gente pode ser curada da falta de gingado.

Tá legal! Quede a rumba, o xaxado, o chá-chá-chá e a umbigada?

Sem essa de não suar, não melar a cueca. De não em não, nada.

Quão séria é a sutileza: herói que não bate o pé na terra, o rebelde bebe coca-cola gelada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2021.

domingo, 12 de dezembro de 2021

A árvore

 

A árvore

 

Tenho que desmontar a árvore!

Caramba, carambola, difícil desmontar o nem montado.

Tem o lado bom, acordei cedo. Era madrugada, estava escuro, não porque nem tivesse amanhecido, era porque eu estava matutando de olhos fechados.

Nem sei se buscava algum alívio, apenas acordei de repente.

O curioso é que, no sonho interrompido, acontecia um encontro de pessoas que há um bom tempo não vejo reunidas. Na vida imaginária, então, bota um bruto de um tempão, já roçando o inalcançável.

A aurora deu-se por piados, grasnados, grunhidos. O suspiro triste, coube a mim soltá-lo.

Precipito-me, acho que a fantasia rola solta como taco solto produz ruídos numa sala vazia.

Peraí! Que não consigo me recordar de como foi a mudança, sequer lembro quem arrumou poltronas, sofás e os badulaques no novo lar.

Taco solto num piso novo, todavia, não bate direito com o desejado de uma casa recém-construída.

A cabeça assoreada de entulhos contraditórios ou confusos sugere que o vazio da sala soa como oco e o que está oco pode ser ocupado e ocupar é preencher e algo preenchido estimula e os estímulos fazem com que eu queira conviver, pois, convivendo, minha pessoa tem a sua cara refletida, entre a TV e a janela, no espelho falso de Magritte.

Formou-se a meia-lua com as poltronas por nós ocupadas.

Dona Marinalva, que foi a professora que me pôs no caminho suave do alfabeto, nem sei se segue assando a tentadora torta de atum que, ô encontro bom, eu ia comendo feito um morto de fome.

Como gostamos de ler crônicas, Luisinho e eu trocamos bombons: ganhei Vento Vadio; dei O espalhador de passarinhos.

Embora a cereja que não poderia faltar estivesse presente, ter Nina, a gata, lagarteando sobre Os sabiás da crônica no tampo da mesinha é o sinal de que a realidade se põe incômoda quando ilusória.

Porque fajuto de tão sedutor, o onírico do mundo polariza.

Tanto dou trela ao que se oferece como falso, algo tosco, farragem, miscelânea, uma mistureba de coisas banais com ostensivas raízes no extraordinário, que salivo.

Pode-se pensar que o sortido tem lá a sua gloriosa desimportância, certo sabor a marmelada de chuchu. Talvez facilite a compreensão do que vive, como se atropelamentos, acarretamentos e descarrilamentos armassem o chão, o corriqueiro do cotidiano.

Baixo a bola, e abro a janela.

Deixando de chupar a manga azeda do desespero, percebo: tenho que buscar oxigênio no instante em que vivo.

Entretanto, viver implica renovação.

Considerando este seis de dezembro como dia de são Nicolau: com pedaços de palha seca de milho, a cestinha é a manjedoura; a arvoreta de papel com uns dez centímetros de singeleza dá um toque artesanal; dois bumbinhos dourados estão desgarrados; comparada aos demais elementos, a bolona vermelhona fica bem sobranceira.

Neste cantinho redecorado do meu coração ateu, faz Natal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Uma gracinha

 

Uma gracinha

 

O bebê está botando coisas na boca. Tudo em que vai pondo a mão vira um treco passível de divertido abocanhamento. Tudo mesmo, sem exceção, seja um objeto delicioso como um biscoito ou uma bugiganga asquerosa como um pente.

A criaturinha, de repente, tira aquele som batuta do troço cheio de dentes. Um bocado batuta, tanto que ela ri dengosa.

Babando, e repetindo o achado daquele som. É conquista travessa que não dá sentido algum ao mundão ao seu redor, mas que dá motivo pra rir à beça, isso dá.

E esta fofurinha bebê ri, ri, ri. Escandalosamente ri, tão feliz da vida, uma pequena fonte de criatividade a experimentar-se inventora a fazer do pente de plástico uma harpa nas mãos de uma Godelieve Schrama tocando À l’espagnole de Andre Caplet.

Que diabo eu tô fazendo?

Era pra eu ter lido uma crônica, cuja leitura foi indicada por jornalista a quem levo a sério porque escreve em jornal impresso, e não vou ficar com picuinha com nenhum dos nossos profissionais de imprensa.

Como não faço biquinho sequer quando deixo de lado o que deveria ter feito por prazer, se não li o cronista sugerido, fiquei maravilhado ao ler uma resenha crítica musical; e mais ainda, ouvindo Divertissement!, disco gravado pela c/o chamber orchestra, assim em minúsculas, que dispensa maestro regente ou músico condutor.

Estou pisando em ovos. Melhor seria parar, todavia não paro. Ando selvagem de tanta alegria.

Anárquicos gozadores, meus neurônios acalantam a menininha em fraldas que faz uma música adorável com o pente de bolso achado no chão da sala empanturrada de adultos bem passados.

Putz. Quero mais é me divertir feito bebê.

Na vida ideal, a diversão impediria o mundo de produzir desgraças em série. Nada disso acontece; por obra do riso, só bem-estar.

Um bem-estar em minha cabeça, tão repleta de minhocas a adubar culpas, à espera do próximo salvador da pátria, que me tire os pecados endiabrados que me fabricam o andar ligeiro, seja devagar como quem lambe um pirulito, seja chupando sorvete sob sol a pino.

Ligeiramente imbecil, entendo que, indo morro abaixo, não estou na banguela, não vou em ponto morto e não quero puxar o freio. Prefiro ir na maciota, na corda bamba de galochas, tirando fina da tinta fresca e passando ao largo de bocomocos bocós.

À cabeceira, o poderoso paizão vai dizendo como a banda deveria tocar, mas a nora encrenqueira refuta-o, ponto por ponto.

Sem fazer careta, a mulher do pai vê-se forçada a abrir outro vinho, que não para de multiplicar-se.

Um dos genros, talvez o menos interesseiro, esse não diz nada que contrarie as concordâncias generalizadas que sua cabeça pontua. Ora a favor da guerra contra os mosquitos da dengue, ora a favor da venda das estatais que tiram o couro dos homens de bem deste país.

Santo! Santíssimo!

Sem nunca antes ter andado, a bebê dá a primeira engatinhada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2021.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A caixa

 

A caixa

 

Por favor, um instante.

Quando a vida cobra de mim mais do que aguento oferecer, então, a um passo de chamar urubu de meu louro, o jeito é pedir água, ter um momento para desfrutar da paz.

Ninguém gosta de gente que sai dando patada e depois se desculpa com a cara de pau de sincerão. O honesto ousa chorar pela bezerra; e fica um amorzinho depois de ter tomado um café, chupado um sorvete, enfiado o bigode do chope no enfezado de tanta brabeza.

Só um segundo, por gentileza.

É que preciso espraiar um tanto, que não sou maledicente pra jogar nos ombros dos outros o sarrafo que tomo no lombo quando contrario quem não suporta ser confrontado.

Não barganho comigo alguma decência, escolho a firmeza que não aborreça. É, não escarro de volta quando cospem em mim.

Espelho, espelho meu, antes eu do que você.

Como não conheço a mágica de engolir a seco, pra não tripudiar na mesma moeda dos prepotentes, busco sentir no rosto a brisa das ruas, quero ouvir o burburinho dos sonhos ainda não atendidos ou opto pelos abraços que o acaso acabe por me presentear.

Quando faço conta de ser agraciado pela sorte, roo as unhas. É que a demora parece maior que a minha fibra de valente. É que a coragem que julgo expor nos dentes cerrados vira confissão.

Pra não acabar maluco, já que tento me equilibrar meio doido, meio são, vou ao léu dos passos, desacelerando a cabeça agitada.

E tem rolinhas zanzando na calçada, curto observá-las. Graciosas, não ficam irritadas com a cegueira de humanos azafamados.

E vejo vira-latas cheirando uns aos outros; aí, fico na minha.

Putisgrila! Qual é a minha?

Quando fico cheio de grilos, tiro a viola do saco e vou gastar sapato de loja em loja, salivando, calçando, vestindo e experimentando tudo o que não me serve, não me agrada, não me convence a ficar longe do sol, que a tarde é uma criança, criança que gosta da gente embalada.

Viva! Vida que me faz desarvorado. Viva! Minha vida de coqueiros, palmeiras e outras pupunhas, quero cantá-la à toa, destoando, errando letras e cifrões. Me permita, ó vida, que me perca a caminho de casa.

No entanto, peço licença pra lamentar os pares de tênis espalhados debaixo da cama.

Será sinal da ziquizira dos infernos?

Que o silêncio seja quebrado, que sua quebra me estimule a pensar fora da caixa, pois na caixinha guardo as receitas, as bulas e restos de remédios, os vencidos e os válidos.

De verdade, no centro da cachola rego a flor dos desejos dando-lhe um toque pra que não murche nem seque. E como preservá-la viçosa, potente e vigorosa que nem aspirina consiga atingi-la?

Como não finjo que sou idiota, não avivo o fogo nas tripas comendo o que sobra da calabresa quatro queijos.

Além disso, não preciso de mais uma caixa, até porque não traria outro tênis pra ficar pegando poeira com os quatro pares, todos pretos, do mesmo modelo, da mesma marca. Que troço mais doido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2021.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Objeto de consumo

 

Objeto de consumo

 

A mesinha em que escrevo está rangendo. De uns dias para cá, as juntas também deram de bambear, de parecer que estão folgando um tanto a cada dia. Tem bicho comendo-a por dentro.

E pelo jeito está roendo sem cessar. Pela sobrevivência a qualquer custo. Pelo instinto de permanência da genética da espécie.

Digo à guisa de explicação científica, uma vez que julgo apropriada e coerente a ciência que divulgo. Sem medo do ridículo, pois a entendo lógica. Sem que esteja conforme ao que o animal faminto possa trazer na fisiologia, está de acordo com o que pondero.

Isso é o óbvio, tão óbvio, como pensador aldrabão a defender ideias radicalmente estapafúrdias, parece dispensável dizê-lo, todavia minha estupidez traça tramoias com fala adocicada.

Não sendo o porta-voz da consciência nem seu boneco ventríloquo, noto com felicidade que um dedo de delírio me deixa fácil.

Por impulso dramático, o louco vem dar uma espiadinha no mundo: a noite está caminhando para a alvorada; constato que faz sol e tenho frio nos pés; me certifico de que o cobertor dobrado ainda cobre minhas pernas, da canela para baixo.

Depois que o meu vô morreu, descobri que ele tinha o hábito de pôr uma coberta dobrada que nem esta minha mania de fazê-lo.

Descontraído, observo: a mesinha deve estar achando graça, pois faz décadas que está no batente.

Primeiro foi bancada para a máquina de costura de pedal que vovó usava para os pequenos consertos e a feitura de roupas novas a partir de moldes. E vários macacões vieram ao mundo por sua indústria.

Com vocação pra sorrisos, quando a elogiavam por seu talento pra luvas e cachecóis, vovó abria o sorrisão caliente.

A vida cortou o fio da meada, e a máquina restou calada.

Assim, propenso a confundir linhas e agulhas com palavras, pus o laptop no tampo que recobri com um tipo de papel colante, cujo padrão arremedava a madeira.

Não vou recorrer à fadiga e ao estresse de insone como impeditivos da clareza, a mesa é: real, objeto de quatro pernas com tampo pedindo outra demão de contact.

Nada de inovar, querer pôr pele de oncinha, porque nem posando de secretária de jacarandá ficaria mais linda, sexy, a miss mobília.

Entretanto, estou aborrecido, querendo contar o sonho que me veio enquanto apoiava meus cotovelos no tampo judiado.

Com quatro cadeiras, a mesa é outra.

O conjunto não se alinha com os polos terrestres. Em vão querê-las dispostas no eixo norte/ sul; não satisfeitas, as cinco danadas dialogam com o noroeste/sudeste e o nordeste/sudoeste.

Parece que tem alguma coisa impelindo à mudança.

Tem alguma coisa impelindo à mudança.

A coisa impelindo à mudança parece um cacto.

Este cacto que impele à mudança parece coisa fora do normal, algo muito sério: a anomalia animal que porta gorro de motoqueiro.

Peste de cacto?

Atesto que não, pois a mesa está possuída por cupim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Batalha de confetes

 

Batalha de confetes

 

Não foi a qualquer um que ela se dirigiu ao entrar no salão:

ꟷ Fique o senhor sabendo que é o cozinheiro mais competente que eu conheço.

A senhora é muito direta, disse o homem que fritava coxinhas num tacho enorme.

ꟷ Então, continue trabalhando duro para conquistar o topo.

ꟷ Se dependesse da senhora, seria arremessado pro topo.

ꟷ Direto e reto, com direito a postagens laudatórias na internet, pois pessoas como o senhor merecem que lhe puxem o saco.

ꟷ Se a senhora tivesse um, também o puxaria. Então, me contento a invejar sua inteligência. Porém a invejo saudavelmente, que a inveja boa louva a pessoa que trabalha sem trégua pelo melhor de si.

ꟷ O bom precisa que lhe tirem as traves do olho, pois o mundo anda carente da alegria de elogiar quem põe paio no feijão para a boca sentir o gosto de passar muito bem.

ꟷ Só espero que nenhum bêbado venha atrás das coxinhas.

ꟷ Sei, não. Porque nem comem nada, cachaça com fritura vira uma bomba no estômago dos cachaceiros.

ꟷ A senhora tem mente apurada, realça o ponto certo, o ponto que, encurralado no cotidiano, passaria despercebido.

ꟷ O senhor, mestre do fogão, torna simples o que a vulgaridade faz difícil, pois é fácil confundir quem não diferencia o cozido do cru.

ꟷ A pessoa vulgar confunde o cru com os glúteos.

ꟷ O chulo vai ao calão pra trocar nádegas por...

ꟷ É gente que abunda uma anca no quadril.

ꟷ E põe panca de gente cheia de marra.

ꟷ É marra de quem balança a pança como se pintada de ouro.

ꟷ Já suas coxinhas douradas e molhadinhas não são avacalhadas.

ꟷ Eu frito minhas coxinhas no fogo certo, frito-as bem, deixando-as no ponto que agrade ao paladar refinado, cuidando que não mordam a casca dura, intragável, com o rançoso de óleo velho.

ꟷ Quanta sabedoria na cabeça, soberbo mestre-cuca.

ꟷ O mundo instrui a cada dia, a cada hora, a todo instante.

ꟷ E quem é mestre de mão firme não fica cagando regras, regrando o mundo, preso ao mundano da vida, que isso é coisa mais besta. Tão besta, como se a coroa desse majestade ao rei, mas ninguém exibe a majestade que não tem. Pode rir de boca cheia, pois conhece a glória de nunca errar a mão. O senhor engendra o belo. Com mãos técnicas, elegantes, que amoldam, seguras na habilidade, mãos comandantes, que trabalham pelo prazer real, comestível.

ꟷ Só sei que vou do cru ao ponto.

ꟷ Um artesão... Um artista... Artista al dente, é quem o senhor é.

ꟷ E a senhora é gentil, sempre nobre ao enaltecer o que julga bom. Se o fraco tem um fraco por se mostrar tão pusilânime, a senhora fala certa do que diz.

ꟷ Que posso fazer? Foram meus pais que me ensinaram a dar valor a quem merece. Aliás, quem merece nem costuma ouvir pessoas que dispensam perícia pra identificar o perito bem-preparado. Fazer o quê! Continuarei dizendo a verdade, buscando elevar a autoestima de quem nem se envaidece com os fatos.

ꟷ Quem é grande não se engrandece.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de dezembro de 2021.

 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Chovendo no sapato

 

Chovendo no sapato

 

Direto ao ponto que fica na rodoviária, porque sapatos precisam de graxa regularmente, uma vez por semana. Não sou homem de ostentar tênis em batizado, o que muito me envergonharia. Não fica nada bem padrinho aquém do esperado, que a palavra conselheira, para que não se questione o garbo da autoridade, demanda o rigor de terno, gravata, camisa de colarinho limpo e sapatos apresentáveis.

Convite aceito, quero engraxado o par escolhido pra cerimônia.

Passo pela praça, onde fui desembestado, e tão menino.

No tempo que andava mais descalço do que arrastando chinelo, era eu quem oferecia os serviços batendo escova na caixa, e, como agrado à clientela, o trabalho em dobro de tinta e graxa gerava desconto. Além do mais, divertido era cantar o pano no couro, até ficar um brinco.

Descalço entre descalços, porém com as unhas aparadas, recordo o cerco dos descontentes, pois eu poderia trabalhar no bazar da minha mãe. Todavia, minha prosa era fácil e, por obra e graça dessa lábia tão loquaz, eis que já ia tirando a poeira dos sapatos de meio mundo.

Fui defendido no direito de engraxar, nem que fosse pelo cigarrinho de chocolate e meia dúzia de dadinhos, que isso era assunto meu. Que terceiros trocassem figurinhas com os bons homens da terra.

E essa gente era boa de papo, e boa em gorjetas minguadas.

Pois agora me recordo, chovia há dias e o barro untava tudo que ia cruzando as ruas, pelas alamedas e vielas, por poças e alagados, que todos os caminhos acabavam na Matriz, esse umbigo a fiéis e outros devotos, os trabalhadores com hostilidades a hóstias.

Numa guerra contínua.

Em nome da paz universal, que sapatos, carteiras, bolsas e cintos sejam fabricados com couro bioético, que o engenho humano escolha replicar bovinos, jacarés, cobras e lagartos.

Como não pego em armas nem as vendo, e porque calço sapatos, vou àquele ponto, ao que já não há na rodoviária.

Removido por pessoas que gostam de pisar com firmeza, uma vez que, do salto alto das suas prerrogativas de fino trato, elas dão leis pra que sejam cumpridas a valer, não no sapatinho, que nem aperta o calo.

Tomado de raiva ao ficar vendo latas-velhas atulhadas de sardinhas abatidas, pico a mula.

Passo por um carrinho de churros, o cheiro é fogo; e um de pipoca, já o barulho dá água na boca; mais outro, o de maçã do amor, um dente dói desde ontem.

Surpresa! O carrinho do milho faz parar.

Tem curau, pamonha, tortas doce e salgada, biju, polenta, sorvete, espiga no alho, tem hambúrguer de milho.

A folha de milho, o biju, vem quente da infância.

Experimento o x-milho, e dou nota dez ao sanduba.

Tentado a aprovar a polenta recheada de ricota: é uma pepita!

De repente, o rádio toca Being Alive. Nuvens chegaram que nem vi. Bernadette Peters, do nada? Uma euforia súbita me pega sem chapéu, e penso. O corpo sabe de cor, está chovendo no meu sapato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2021.

domingo, 28 de novembro de 2021

Força maior

 

Força maior

 

Dispensando garfo e faca, devorando o galeto gorduroso, pururuca, felicidade a passarinho, num assanhamento moleque, nutrido por uma gula incontrolável, numa comilança pornográfica, dando adeus à carne saborosa, tão tentadora, caprichada, então, realidade, não estrague os prazeres desse instante fora do tempo.

Gozando não saber o que seja moderação, a boca fica babando, e peço. Quero a alegria de um pedaço de pudim. Quero-a toda, que seja infinita, apetitosamente doce, gostosa, abundante, irresistível.

Faço as contas, posso comer outras fatias, e peço. Quero a balança condicionada à aleivosia de estar tudo bem, que ela não penda contra esta minha álacre destemperança.

Assim, a questão não tem raízes no quanto de grana trago no bolso. É por causa dos açúcares que vão juntar forças com meus triglicérides, tão mais frenéticos com estes olhos muito ávidos.

Não estou com fome, curto a animação. Eu posso comer, quero. Só não mastigo devagar, não engulo devagar, não vivo devagar e sempre: tasco o pudim a colheradas que é uma loucura, deixo que me consuma a parcimônia, abocanho-o.

Apreensivo, chamo pelo garçom, que nem liga pro desespero deste freguês que deseja desgraçadamente um sorvete, um banana-real.

Agora! E não depois de acabar o papinho.

E uma mulher vai de mesa em mesa. E vindo, chega à minha.

Fala e aponta, seu cão fugiu de casa. Já faz dez dias. Caso veja o cãozinho, é favor mandar um zap pro telefone indicado no cartaz. Se estiver com o fujão, ótimo!, avise de pronto e irá buscá-lo conforme for conveniente.

Digo que a vi colando este cartaz, que informa tratar-se de pedido de socorro, pelo desaparecimento de bichinho tão estimado.

A dona do totó perdido nas ruas tem mais pra falar.

No começo, só lhe dou a atenção que a minha educação me orienta à gentileza de agir em solidariedade, que muitas dores nos aproximam, e, uma vez que me apiedo, aprovo a causa.

Gozada a cabeça da gente, né?

Engraçado que não vou ao restaurante vizinho na esquina de casa, prefiro andar cinco minutos pra vir sentar-me neste cruzamento de ruas mais movimentadas, barulhentas, poluídas, e muito perigosas.

Quando a mãe diz que o seu filho mais novo está sofrendo, admito que o vi retirando algo dos postes que vejo da varanda.

Não há de ver que o primogênito foi mordido pelo cachorro quando estava dando uma surra no menor, uma coisa feia que ficou nas duas pernas, mordida sobre mordida. Foi preciso ir fazer curativo no hospital e o seu menino vai tomar vacina antirrábica por seis meses.

Confesso que notei que o caçula ia tirando cartaz por cartaz que o irmão mais velho ia colando de poste em poste.

A mãe arremata:

ꟷ O amor faz dessas graças, o maior quer o cachorro de volta em casa, porque foi presente de aniversário do irmãozinho e o pequenino não quer saber mais de animal que ataca quem ele tanto ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2021.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Vira, vira, vira

 

Vira, vira, vira

 

Aristeu! Aristeu!

Agora já nem me falta essa, ser acordado porque esse tal de Aristeu custa atender quem está se esgoelando debaixo da minha janela.

Ainda que o meu relógio biológico tenha dado duas horas a mais no aconchego do travesseiro, nem dá pra espreguiçar.

Aristeu! Aristeu!

Da cama à janela, faço dois metros num pé. O chão, sólido, nem se desmancha quando pisoteado pelo brutamonte em disparada, uma vez que a elegância paga com o escarcéu a gritaria descabelada a martelar os meus tímpanos de beija-flor.

Colérico, enfurecido, pela boca da janela, aberta num tranco, vomito uma revoada de palavrões cabeludos. E tomo uma lufada ensolarada, porque a energia cósmica que bafeja as coisas todas nem repara neste espírito, de pessoa sentida com o mundo.

Aristeu! Aristeu!

Portanto, faço o diabo pra tornar claro, muito claro, que Aristeu não dará as caras porque está com birra. Nada de ficar com essa balbúrdia dos infernos porque o danado do caipora tem o sangue do cão, e nem surdo não tem como não ouvir tamanha algazarra.

Em termos prudentes, traduzo:

Ê maritaca, maritaca das alvoradas, pare com o alvoroço.

Não é que funciona? Mesmo sem o Aristeu, a escandalosa voa.

Isso de ter jeito pra lidar com bicho é novidade. Talvez eu mude de profissão e vire adestrador. Sem gabolice, devo ter nascido pra isso.

Será que é fácil arregimentar uma clientela grande pra ficar rico e ir morar em apartamento com piscina e churrasqueira?

Chega de casa. Quero um apê que tenha piscina na sacada. Um lar maravilhoso que traga o mundo dos sonhos pro valor do IPTU.

Vou me esbaldar. Vou deitar no solário de jacarandá até que o sol torre os miolos. Chamarei na viola ponteios rasgados até que a alegria espiche o olho pro meu terraço. Beberei aquela água benta pela beleza da cana que nem urubu há de urucar com o bico torto.

Sim, quero muito ir viver num condomínio chique com jardineiro pra cuidar de tulipas, cravos, begônias, rododendros, rosas e samambaias.

Bailarina de vento, samambaia é admirável, leve.

As rosas, essas terão que ser amarelas, que é pra dourar o sussurro da brisa como prenda às samambaias.

Viverei no prédio chamado Fortaleza, que terá um heliporto no topo; os outros seis do condomínio também terão, porque vai ser bom pairar pelo mundo feito gaivota.

Serão sete, é que o número atrai fluidos excelentes, ou a semana não teria sete dias ou o arco-íris não teria sete cores ou a Branca de Neve não teria os sete anões pra protegê-la da Rainha da Maçã ou o sétimo filho não viraria lobisomem ou a independência não seria no sétimo dia de setembro ou as maravilhas do mundo não seriam sete nem as artes seriam.

E pra não errar na conta, brindo às sete dezenas da Virada.

Pois é o que digo, não falto à sinceridade quando falo que não minto que não falto à verdade quando digo que invento.

Eu não minto. Não minto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2021.