Vira,
vira, vira
Aristeu! Aristeu!
Agora já nem me falta essa, ser acordado
porque esse tal de Aristeu custa atender quem está se esgoelando debaixo da
minha janela.
Ainda que o meu relógio biológico tenha
dado duas horas a mais no aconchego do travesseiro, nem dá pra espreguiçar.
Aristeu! Aristeu!
Da cama à janela, faço dois metros num pé.
O chão, sólido, nem se desmancha quando pisoteado pelo brutamonte em disparada,
uma vez que a elegância paga com o escarcéu a gritaria descabelada a martelar os
meus tímpanos de beija-flor.
Colérico, enfurecido, pela boca da
janela, aberta num tranco, vomito uma revoada de palavrões cabeludos. E tomo uma
lufada ensolarada, porque a energia cósmica que bafeja as coisas todas nem repara
neste espírito, de pessoa sentida com o mundo.
Aristeu! Aristeu!
Portanto, faço o diabo pra tornar claro,
muito claro, que Aristeu não dará as caras porque está com birra. Nada de ficar
com essa balbúrdia dos infernos porque o danado do caipora tem o sangue do cão,
e nem surdo não tem como não ouvir tamanha algazarra.
Em termos prudentes, traduzo:
Ê maritaca, maritaca das alvoradas, pare
com o alvoroço.
Não é que funciona? Mesmo sem o Aristeu,
a escandalosa voa.
Isso de ter jeito pra lidar com bicho é
novidade. Talvez eu mude de profissão e vire adestrador. Sem gabolice, devo ter
nascido pra isso.
Será que é fácil arregimentar uma
clientela grande pra ficar rico e ir morar em apartamento com piscina e
churrasqueira?
Chega de casa. Quero um apê que tenha
piscina na sacada. Um lar maravilhoso que traga o mundo dos sonhos pro valor do
IPTU.
Vou me esbaldar. Vou deitar no solário
de jacarandá até que o sol torre os miolos. Chamarei na viola ponteios rasgados
até que a alegria espiche o olho pro meu terraço. Beberei aquela água benta pela
beleza da cana que nem urubu há de urucar com o bico torto.
Sim, quero muito ir viver num condomínio
chique com jardineiro pra cuidar de tulipas, cravos, begônias, rododendros, rosas
e samambaias.
Bailarina de vento, samambaia é admirável,
leve.
As rosas, essas terão que ser amarelas, que
é pra dourar o sussurro da brisa como prenda às samambaias.
Viverei no prédio chamado Fortaleza, que
terá um heliporto no topo; os outros seis do condomínio também terão, porque vai
ser bom pairar pelo mundo feito gaivota.
Serão sete, é que o número atrai fluidos
excelentes, ou a semana não teria sete dias ou o arco-íris não teria sete cores
ou a Branca de Neve não teria os sete anões pra protegê-la da Rainha da Maçã ou
o sétimo filho não viraria lobisomem ou a independência não seria no sétimo dia
de setembro ou as maravilhas do mundo não seriam sete nem as artes seriam.
E pra não errar na conta, brindo às sete
dezenas da Virada.
Pois é o que digo, não falto à
sinceridade quando falo que não minto que não falto à verdade quando digo que
invento.
Eu não minto. Não minto.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 25 de novembro de 2021.
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