quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Vira, vira, vira

 

Vira, vira, vira

 

Aristeu! Aristeu!

Agora já nem me falta essa, ser acordado porque esse tal de Aristeu custa atender quem está se esgoelando debaixo da minha janela.

Ainda que o meu relógio biológico tenha dado duas horas a mais no aconchego do travesseiro, nem dá pra espreguiçar.

Aristeu! Aristeu!

Da cama à janela, faço dois metros num pé. O chão, sólido, nem se desmancha quando pisoteado pelo brutamonte em disparada, uma vez que a elegância paga com o escarcéu a gritaria descabelada a martelar os meus tímpanos de beija-flor.

Colérico, enfurecido, pela boca da janela, aberta num tranco, vomito uma revoada de palavrões cabeludos. E tomo uma lufada ensolarada, porque a energia cósmica que bafeja as coisas todas nem repara neste espírito, de pessoa sentida com o mundo.

Aristeu! Aristeu!

Portanto, faço o diabo pra tornar claro, muito claro, que Aristeu não dará as caras porque está com birra. Nada de ficar com essa balbúrdia dos infernos porque o danado do caipora tem o sangue do cão, e nem surdo não tem como não ouvir tamanha algazarra.

Em termos prudentes, traduzo:

Ê maritaca, maritaca das alvoradas, pare com o alvoroço.

Não é que funciona? Mesmo sem o Aristeu, a escandalosa voa.

Isso de ter jeito pra lidar com bicho é novidade. Talvez eu mude de profissão e vire adestrador. Sem gabolice, devo ter nascido pra isso.

Será que é fácil arregimentar uma clientela grande pra ficar rico e ir morar em apartamento com piscina e churrasqueira?

Chega de casa. Quero um apê que tenha piscina na sacada. Um lar maravilhoso que traga o mundo dos sonhos pro valor do IPTU.

Vou me esbaldar. Vou deitar no solário de jacarandá até que o sol torre os miolos. Chamarei na viola ponteios rasgados até que a alegria espiche o olho pro meu terraço. Beberei aquela água benta pela beleza da cana que nem urubu há de urucar com o bico torto.

Sim, quero muito ir viver num condomínio chique com jardineiro pra cuidar de tulipas, cravos, begônias, rododendros, rosas e samambaias.

Bailarina de vento, samambaia é admirável, leve.

As rosas, essas terão que ser amarelas, que é pra dourar o sussurro da brisa como prenda às samambaias.

Viverei no prédio chamado Fortaleza, que terá um heliporto no topo; os outros seis do condomínio também terão, porque vai ser bom pairar pelo mundo feito gaivota.

Serão sete, é que o número atrai fluidos excelentes, ou a semana não teria sete dias ou o arco-íris não teria sete cores ou a Branca de Neve não teria os sete anões pra protegê-la da Rainha da Maçã ou o sétimo filho não viraria lobisomem ou a independência não seria no sétimo dia de setembro ou as maravilhas do mundo não seriam sete nem as artes seriam.

E pra não errar na conta, brindo às sete dezenas da Virada.

Pois é o que digo, não falto à sinceridade quando falo que não minto que não falto à verdade quando digo que invento.

Eu não minto. Não minto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2021.


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