domingo, 28 de novembro de 2021

Força maior

 

Força maior

 

Dispensando garfo e faca, devorando o galeto gorduroso, pururuca, felicidade a passarinho, num assanhamento moleque, nutrido por uma gula incontrolável, numa comilança pornográfica, dando adeus à carne saborosa, tão tentadora, caprichada, então, realidade, não estrague os prazeres desse instante fora do tempo.

Gozando não saber o que seja moderação, a boca fica babando, e peço. Quero a alegria de um pedaço de pudim. Quero-a toda, que seja infinita, apetitosamente doce, gostosa, abundante, irresistível.

Faço as contas, posso comer outras fatias, e peço. Quero a balança condicionada à aleivosia de estar tudo bem, que ela não penda contra esta minha álacre destemperança.

Assim, a questão não tem raízes no quanto de grana trago no bolso. É por causa dos açúcares que vão juntar forças com meus triglicérides, tão mais frenéticos com estes olhos muito ávidos.

Não estou com fome, curto a animação. Eu posso comer, quero. Só não mastigo devagar, não engulo devagar, não vivo devagar e sempre: tasco o pudim a colheradas que é uma loucura, deixo que me consuma a parcimônia, abocanho-o.

Apreensivo, chamo pelo garçom, que nem liga pro desespero deste freguês que deseja desgraçadamente um sorvete, um banana-real.

Agora! E não depois de acabar o papinho.

E uma mulher vai de mesa em mesa. E vindo, chega à minha.

Fala e aponta, seu cão fugiu de casa. Já faz dez dias. Caso veja o cãozinho, é favor mandar um zap pro telefone indicado no cartaz. Se estiver com o fujão, ótimo!, avise de pronto e irá buscá-lo conforme for conveniente.

Digo que a vi colando este cartaz, que informa tratar-se de pedido de socorro, pelo desaparecimento de bichinho tão estimado.

A dona do totó perdido nas ruas tem mais pra falar.

No começo, só lhe dou a atenção que a minha educação me orienta à gentileza de agir em solidariedade, que muitas dores nos aproximam, e, uma vez que me apiedo, aprovo a causa.

Gozada a cabeça da gente, né?

Engraçado que não vou ao restaurante vizinho na esquina de casa, prefiro andar cinco minutos pra vir sentar-me neste cruzamento de ruas mais movimentadas, barulhentas, poluídas, e muito perigosas.

Quando a mãe diz que o seu filho mais novo está sofrendo, admito que o vi retirando algo dos postes que vejo da varanda.

Não há de ver que o primogênito foi mordido pelo cachorro quando estava dando uma surra no menor, uma coisa feia que ficou nas duas pernas, mordida sobre mordida. Foi preciso ir fazer curativo no hospital e o seu menino vai tomar vacina antirrábica por seis meses.

Confesso que notei que o caçula ia tirando cartaz por cartaz que o irmão mais velho ia colando de poste em poste.

A mãe arremata:

ꟷ O amor faz dessas graças, o maior quer o cachorro de volta em casa, porque foi presente de aniversário do irmãozinho e o pequenino não quer saber mais de animal que ataca quem ele tanto ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2021.

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