Céu
a gosto
Imagine você que uma das minhas alegrias
das festas de dezembro está perdida, a reunião à mesa. Já bem antes de a
pandemia acentuar as tristezas, tinha me decidido a não tomar parte de ceias de
Natal nem fazer a contagem regressiva pro Ano Bom. Porém, entenda-me, não é
porque fuja das comilanças esfuziantes que também tenha me tornado avesso aos
balanços reflexivos.
Faço-os com discrição, pois os meus rancores
costumam provocar arroubos delirantes, como se as implosões da mente gerassem
apenas sussurros da imaginação, mas, passado, chego a gritar.
De lápis à mão, luto comigo; e ferido,
titubeio.
Com tantas mágoas dolorosas, que às
vezes as percebo latejantes sem que palavras possam traduzi-las de modo
inteiramente inteligível, luto por querê-las registradas por escrito. Luto e
fracasso.
Embora sofra o tanto que tento evitar, procuro
não capitular e dobro a aposta. Combato a tentação de dispersar-me, uma vez
que, distraído pelos demônios do colapso, acabaria anotando as lembranças
ligeiras, não as recordações relevantes, perturbadoras, que agem em silêncio.
Não que o azar da vida seja desprezível
ou nem mereça crédito, só que vivo em trânsito, indo e vindo, entre o afável e
a rispidez, o cômico e o dramático, o atrevimento e a prudência.
Cobro-me, assim, a lucidez de reconhecer
que a vida até pode estar restrita ao sofrimento, mas, se vivesse em dor contínua,
enlouqueceria ou, esgotado, morreria.
Fiel a mim, o quanto possível, acredito
que estou consciente de que costumo me enganar achando que busco equilíbrio à
vida, estabilidade ao caminhar, amortecimento ao impacto do pé chapinhando onda.
Pensando bem, a página do meu diário
permanece em branco. Ora, se estou no comando, por que nada sobe à flor branca
da folha?
Por amor ao texto, não aceito que o
fortuito agite as águas, turve o límpido e a crônica suba à linha d’água como
tábua de salvação.
Embora não tenha escrito a respeito na
época nem tenha fotografia que me confirmem que estive realmente lá em 1981,
não mais que de repente, brota o mar como o vi pela primeira vez. Recordo que
garoava, subia uma neblina do mar. E tinha aquele taxista falando do crime que
houve ali, houvera logo ali, com o corpo no Chapéu dos Pescadores.
Não há mar, há palavras.
E elas me escapolem, contradizem a
vontade de comer uma pera: pegá-la da fruteira; escolhê-la por sua aparência e
sua carne apetitosa; depois de lavada devagar, mordê-la sem afobação; mordê-la.
Ainda que o bom senso ache o amor uma coisa
de louco, feito bobo, aprimora-me o riso, cultiva-me a lucidez, cativa-me o
humor; apuro-me com o jogo.
Sem saber como a felicidade faz pra sumir
com uma dor de cabeça chata, acontece: UM GOSTO DE SOL ganha minha atenção; com
CÉU colada nos ouvidos, esqueço o baixo astral, e consigo dançar, assobiar e
respirar, tudo isso ao mesmo tempo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2021.