domingo, 4 de julho de 2021

Logística

 

Logística

 

Quando a manhã está destinada à glória de não mais desaparecer no esquecimento das eras, cada ação conta para contrariar o banal de estar vivendo só mais outro dos dias sempre rotineiros.

A começar pelo grito vindo do terraço do prédio em frente de casa, comigo na varanda a ultimar a ilustríssima leitura das notícias.

Achando que era um cumprimento urbano, retribuí com um aceno, como ao bom-dia protocolar retribuísse com igualmente, vizinho.

O morador do lado ensolarado da rua estava ouriçado, tagarelando, e eu o consegui compreender apenas supostamente.

Como almoçaríamos quibe de forno, deixei-o fixando na mureta do seu apê aquela bandeira com o inconfundível tucano azul e amarelo.

Pra colher hortelã, foi com essa intenção que fui pros fundos.

A gatinha veio ver o que estava ocorrendo, cheirou tudo, caçou no ar um inseto ou outro. Satisfeita de ter feito o que tinha pra fazer, voltou dormir no sofá, o seu cantinho predileto da casa.

Sem saber o que mais teríamos no almoço, não tinha me esquecido de que o arroz pedia cubos de bacon e provolone. Bastava ir comprar, e, porque responsável pela minha parte, fui de uma vez.

Um sujeito interpelou-me, como não traduzi aquele grunhido, fiz um positivo com o dedão. E segui em meu caminho.

Entre a fila de frios no fundo do mercado, cujo ar gelado não negava que estava condicionado pela plenitude do inverno, e o fundo do prato fundo do qual encheria sem moderação a colher de sopa com o fubá com a couve cortada finíssima, houve esse trânsito ao qual não fugi.

Macambúzio pelo desejo imaginário da sopa, cruzei com o mesmo sujeito, que, assim que me viu, passou a gesticular mais enfático, mais enfurecido, provavelmente ralhando comigo por algo que não teria feito nem na ida nem na volta.

Com o dito cujo controlando a esquina?

A ele não fiz nenhum sinal, sequer levantei a cabeça. Tratei de ir no meu passo, sem transmitir o desconforto daquele incômodo.

Com tamanha agressividade, queria que tirasse a máscara.

Nem sob vara iria tirar do rosto a proteção, ainda mais com aqueles perdigotos possuídos pela demência. Não ficaria exposto àquela baba contaminada pelo vírus do que há de pior à solta. Jamais me sujeitaria àquela saliva infecta, de pessoa que prefere vituperar contra a saúde coletiva, o bem-estar comunitário e a consciência individual. Nem a pau que iria me permitir fraquejar, ainda mais com toda aquela pantomima de gente autoritária desmascarada no passeio público.

Mesmo com as lentes embaçadas, não tropiquei. Fui em paz.

E fui logo cortando tomate, pimentão e cebola, pondo sal à vontade e algumas gotas de azeite. Todavia, pra ir misturando-os com o patinho moído, teria de ter espremido o alho e amassado a hortelã. Então, por meia hora, desde que tivesse ligado o forno a 300 graus...

Lógico!

E a gata? A sumida estaria no guarda-roupa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2021.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A flor viva

 

A flor viva

 

Alguma coisa poderia estar acontecendo. Bem que poderia, só que não está. Parece que tudo está numa paralisia. Estranhíssimo, parece que o tempo está congelado. Nada tem acontecido de modo natural, a vida de sempre está outra. Prevalece essa sensação.

Como se o congelamento na ponta dos dedos fosse por causa do sangue. Como se o íntimo do corpo estivesse mais frio do que fora.

Poderia estar ocorrendo algo menos angustiante. Neste momento, porém, permanece o esquisito de que o ar em volta está preso, como se alguma coisa pudesse pará-lo. Como se o fotograma de um filme seguisse travado. Está faltando que a realidade volte a rodar a vinte e quatro quadros por segundo. Alguma coisa parecida.

Um passo à frente, talvez. Que seja. Para achegar-se à porta, pôr o ouvido na folha fechada. Que fosse para escutar algum ruído de vida que venha lá de dentro. A vida está silenciada, presa a um silêncio que atordoa, como se houvesse uma promessa sendo adiada.

Um abraço forte no amigo que vem, talvez. Ainda que traga notícias tristes, que chegue abrir a porta e receba o abraço urgente que o corpo tem retesado. Aquela porta empenada pelo frio que a neblina da aurora teima em tornar emperrada.

Poderia estar chegando o momento de abrir a porta. Urge ter quem a venha abrir. Ainda que haja desconfiança, haja quem esteja a pensar que talvez haja quem não a queira aberta. Então, para que o cerco seja rompido, que surja alguém pra forçá-la, que não desista de tê-la aberta. Torta e difícil de ser aberta, que haja quem a queira escancarada.

É preciso trazer à porta quem está fechado há bem mais tempo que o razoável. Talvez tresloucado, tendo ultrapassado o limite suportável. Pela recusa de escutar o alarme quando o dia e a noite ainda brotavam separados, não mais passível desta (óbvia) identificação.

Há de haver quem saiba atender a porta, e venha.

Bem poderia ter chegado o instante de relembrar o riso, recordar o rosto que sabe soltar-se às gargalhadas, sem vexar.

Por fugaz que seja a sua lembrança, avalie-se o ato.

Sem temor, vai sorrir; depois, rir; e voltará a gargalhar, sem hesitar.

Naturalmente, a pessoa encerrada em si, ensimesmada há tempos, ainda que lhe falte o espontâneo, a cara mais simpática, faça-se justiça a essa pessoa à porta. Uma vez que esteja disposta.

Sendo gente encerrada por mais tempo que o tolerável, haverá de perceber-se renascendo. Uma vez renascendo, haverá de perceber-se morta. Ainda que respire, morta. Reconhecendo o quanto amordaça a morbidez das janelas encalacradas, desencarcerando-se dessa noite que não quer passar.

Noite tenebrosa que mofa o ar dos cômodos, as lâmpadas de teto, a TV sem luz e os jornais enfiados pelo vão da porta.

Pois.

Com rara energia, a singela orquídea florescida resiste, se mantém viva, e florescida. Em flor: pela loucura, se não for pela utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2021.

terça-feira, 29 de junho de 2021

A céu aberto

 

A céu aberto

 

Se a mim me fosse permitida a alegria de organizar uma noite de pizza, sem alimentar dores de cabeça, assim comporia a mesa: a mãe numa das pontas; num lado o meu irmão e a minha cunhada no outro; eu ficaria na outra cabeceira.

Quanto ao meu sobrinho, já que, nos seus bem-vividos treze anos, o rapazote pratica o isolamento, físico, detonando cabecinhas, virtuais, às centenas por dia, ele merece umas palavrinhas a mais.

Como tiozão hipócrita, haveria de condená-lo, uma vez que enxergo nesta sua prática, de horas e horas a fio, o mesmo tipo de adolescente que um dia já fui. Todavia, em vez de aniquilar a realidade circunstante ressecando os olhos cativados na tela de computador, eu costumava incendiar a massa cinzenta de carona no tapete mágico de Xerazade.

Em outras palavras, não dou asas ao menino doido que há em mim, pois a época pede maturidade, juízo e compromisso com os próximos. Por respeitar os demais quanto a mim mesmo, não vou tirar a máscara da criança desmiolada que deixa a virulência humana dar campo livre ao vírus da carnificina genocida. Pra não ir junto, seguro a língua e não solto a mão suicida. Ou seja, não vou às nuvens por nenhum voo cego.

Isso tudo para dizer que tenho declinado quando me convidam para almoço íntimo da família, café somente com os amigos mais chegados, um vinhozinho seleto entre amantes emocionalmente comedidos.

Cansado, ando me calando mais do que pudesse imaginar ser-me possível. Tenho percebido que circunstâncias de acidez amargosa têm prevalecido. Tenho sentido a boca cheia de sal, e isso me põe cabreiro, tanto que evito petrificar o espelho com esta minha face de ranzinza. Sinto certa urgência em encontrar um modo de aquietar a minha verve de bonachão que sabe como avivar nas cinzas o que as brasas querem muito bem escondidinho, o tirador de sarro.

Como as pessoas se desentendem conversando, prefiro tirar o meu burro da chuva. Não me empolgo com as discussões pouco amigáveis que volta e meia pipocam entre gente que julgava ponderada, de bem com a vida e ótima companhia nas madrugadas sem luar.

Fulano diz que o político A acha que a esquerda tem estofo moral para detonar o político B pela postura negacionista diante da epidemia. Beltrano fulmina com emojis enfurecidos esta postura de quem se acha na posição A só porque repete chavões pseudocientíficos fabricados pela mídia politizada. Sicrano, contudo, opta por não acompanhar nem um nem outro, pois a realidade vai do A ao Z, que existe ainda que os sabidos omitam o trágico deste mundão.

Abracadabra!

Estressado, encaro o meu fogo. Não apago a vaidade, apenas saio do aplicativo.

Antes que suma a imagem de fundo do celular, a Nebulosa do Véu, penso: somos átomos, mas não simplesmente uns átomos quaisquer, somos uma aberração no cosmo, somos átomos com micro-ondas pra esquentar o leitinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2021.

domingo, 27 de junho de 2021

Tudo normal

 

Tudo normal

 

Melhor não sair. Espiou pela fresta que a rua estava exibida, como convite irrecusável à pessoa pega de surpresa com o alarido vivo das cores em volumes variados, de pessoas e cães. Melhor ficar em casa, ou passaria todo o tempo a entrar em fria, seja nas filas com gente tão precisada de abrir-se ao próximo porque tomada pela dor incontrolável de viver o cotidiano como um abismo voraz, seja levado a comprar uns cacarecos que inevitavelmente quedariam ignorados depois do fervor de ver rejuvenescida com novidades a casa sempre cômoda. Melhor é botar os fones, largar as pernas na cama e curtir um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, como o Meu Recôncavo do Paulo Costta que escutara tão logo levantou. Será melhor mesmo.

E o melhor para si nem sempre tem explicação, como se houvesse razão explícita ꟷ lógica ou inteligível ꟷque permita o entendimento de que alguma coisa ou alguma sensação tenham base compreensível, a sobrepor-se a emoções, que distraem ou divertem com as suas névoas que não se dissipam porque têm regras tornadas evidentes.

Ora, gosta de música porque ela lhe faz bem. Desconfia que traçar um circuito que o faça visualizar como a música leva os seus neurônios a produzirem bem-estar e paz, desconfia que isso o deixará borocoxô, meio triste por materializar o que o afeta sem nem mesmo saber como nomear ou direcionar fluxos. Para longe do desespero, óbvio.

“Temendo aqueles que atiram facas”, ouve Circo até o fim. Mesmo se sentindo uma lona carcomida por cupins, compreende, pode acabar sendo envolvido. Não deseja desmontar a canção para refletir como a melodia cativa os seus tímpanos com tônicas e sétimas. Sabe que não há mágica, que bemóis e sustenidos encantam. Ora, o que sobremodo o toca é desfrutar da melancolia que a audição da música proporciona.

Haja vista que é inexplicável o que o põe no clima.

O clima é de serenidade, sem traço algum de angústia ou pesadelo. Com cada bugiganga no seu devido lugar, sem sinal de desassossego inenarrável, incomunicável, de transcendental revelação apocalíptica.

Nada de ter o computador emitindo ruídos esquisitos, de entranhas prestes a siricuticos eletrônicos, à beira de uma implosão misteriosa.

Nada de ficar imaginando que a impressora de repente vai começar a cuspir folhas, páginas cheias de gráficos vistosamente coloridos, mas obscuros, sobre algo que nem se sabe o que seja.

Nada de ir aos Provérbios para dizer com verdadeiro entusiasmo as palavras essenciais que expulsem do ventilador o ente que o faz girar as suas pás, sem nem mesmo estar ligado na força elétrica.

Nada de batucar nas teclas da máquina de escrever um texto vindo de dentro, sem controle, como se o inconsciente estivesse trazendo ao papel a chave-mestra do universo.

Assim, flutuando afinado à harmonia da estérea bonança, a barriga dispara roncar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2021.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Sem comentários

 

Sem comentários

 

O homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, na boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo. Eram conhecidos.

Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. Bem bão. Isso, muito bão. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Digo o mesmo, abração. Abração.

Gentes de fino trato. Mesmo que uma esteja sempre apoiando os críticos de governos que capinam os matos que circundam o chafariz sem água da velha praça dos domingos namoradeiros e outra viva para pedir mudanças profundas de postura a quem nunca teve o nome dito em quaisquer das reuniões oficiadas pelos eleitos do público.

Gente bem-educada, que nem se apressa ocupar o lugar que julga ter por direito de nascença, que nem precisa pensar que tem direito a ter este direito, uma vez nascida no local em que os seus antepassados nasceram.

Só não se comenta que pinhão se come no inverno.

O inverno...

A natureza segue o seu curso, pensa o calvo que palitará os dentes após comer a feijoada. Nem precisa de cestinha, veio pegar um vinho para logo mais à noite. E pensa na feijoada. Às quartas, tem feijoada, como faz há vinte anos. Enfim, uma verdade não deve ser questionada, porque isso é como a natureza. O homem sabe que não inventa a roda, dispensa pensar de outro modo, como se houvesse resposta diferente para dois mais dois. De fato, é natural que o bom da vida faça bem.

Que fique claro: o inverno realmente começou.

Segundo fontes informadas, a estação mais fria do ano teve início oficialmente na data prevista. Sem que o calendário fosse contestado, uma vez que nada houve que desabonasse a sua chegada como sói fazer todo ano.

Hoje em dia tem aparecido quem pratique esse esporte curioso que é o de pôr em dúvida a lógica das coisas óbvias, como se inquietações momentâneas tivessem prioridade em relação aos planos cósmicos.

Que escândalo!

A desordem que se vê, e é preciso falar nas enchentes e nas secas que pululam por todas as latitudes e todas as longitudes, onde crescem parreiras carregadas de uvas tenras, onde nadam trutas em riachinhos mansos, onde o leite não demanda adulterações genéticas, pois bem, a mim me parece que esse caos mundo afora pode ser porque mãos sem conhecimento das precisões da terra têm violado a ordem natural do universo.

Escandaloso?

Pessoa que acende vela mesmo quando não acaba a força, pego meio quilo de pinhão, e, só de imaginar um pinguinzinho zanzando nas areias de Cananeia, sorrio.

Vou sorrindo pelas ruas. Mesmo com gente que passa por mim com aquela cara de que o louco sou eu, sigo sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2021.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Carne de pescoço

 

Carne de pescoço

 

(Desde já, a crônica está passada. Desde o título, passada. Porque o fogo que vai prometido, cabotino a perder de vista, queima o filé do narrador a querer-se comedido em autoficção. Poderia firmar-se como um sarcástico pastiche cínico, como se estivesse possuída pelo mais que manjado Jonathan Swift, porquanto um fantasma, o velho trágico fantasma da fome, campeia por estas terras brasílicas, grassando por estes dias de tão daninha crueldade requentada. Todavia, a carne cara de engolir está na mesa, posta pelos fatos. Sem piedade: a postos!)

O gás acabou. Peguei o telefone, pois era o caso de providenciar a reposição sem pestanejar. Por nada, passava do meio-dia. Porque era domingo, e pelo adiantado da hora, a venda de botijões tinha fechado.

Ainda bem que não havia ninguém que me atendesse, uma vez que ao meu dispor nem tinha dinheiro suficiente para um marmitex, sequer para o pastel na feira. Com os míseros quatro reais na carteira, o acaso encarregou-se de me poupar da vergonha de passar um carão. Que a minha ladainha lamurienta, na certa, passaria por trote.

Aliviado, e sem rubores automáticos, abri a geladeira. Era domingo, e as noites de sábado sempre proporcionam sobras de pizza, apanhei tudo o que me restava da marguerita. Tinha uma fatia e meia.

Com o fornecimento de eletricidade sem corte, pus no forninho uma assadeira com a gororoba que me cairia bem como almoço. Desde que o rango me viesse quente, teria uma refeição supimpa.

Será exagero de esfomeado, supimpa? Comeria algo palatável, até agradável. Por conta de que nem precisaria ir ao banco retirar dinheiro, algo mais que agradável, uma coisa cômoda. Mais do que cômoda, já que fatalmente gastaria com petiscos gordurosos que me destruiriam o estômago, seria solução bem-venturosa.

Ter a saúde salva pela falta de fundos, ô glória.

Assim, certo de estar contribuindo de maneira consciente, e correta, para despiorar o atendimento caótico de clínicas, postinhos e hospitais, afinal, a ida de menos um cidadão acometido de uma gastrite evitável, sendo eu a dita cuja pessoa de boca politicamente conscienciosa, isso muito me convinha, porque desanuviava meu coração aflito.

Sim, punha-me alegre saber-me um indivíduo capaz de administrar os impulsos, mesmo os que vinham de baixo, das entranhas cheias de entusiasmos nada módicos, desses que não se dão por satisfeitos nem quando estão empanturrados, nem quando um grãozinho de arroz já é a evidência de um crime, do pecado da gula.

Se a sorte resolveu sorrir com o jeitão de uma desgraça, osso duro de roer, tasquei pimenta sem clemência: das três colheres de sopa de arroz sem sal, duas conchas de feijão-fradinho temperado por cominho e uma pornográfica colherada de purê (ou maçaroca) de mandioquinha puxada no bacon?

Sobrou o prato, que nem precisei lavar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2021.

domingo, 20 de junho de 2021

Contraponto

 

Contraponto

 

Uma das bonitezas da vida, dizia o meu avô, está em tirar relação proveitosa com o mundo.

Não tem graça ficar horas à beira d’água sem levar para casa uma fieira boa de tilápias, lambaris e carás.

O meu avô sabia disso. E tinha estratégias.

Uma semana antes da pescaria, todos os dias, por sete noites, lá ia ele jogar quireras e a lavagem das refeições do dia. Agindo assim, dava o sinal de que aquela área cheia de comida era lugar bom para comer sem gastar energia sondando a água ao acaso. Agia pelos peixes.

Passando essa mensagem de modo recorrente, os peixes ficavam menos ariscos e aceitavam que encontraram um recanto maravilhoso, e vinham comer. Os peixes aos poucos acabavam por acreditar que a comida estava garantida. Os peixes, assim, acabavam convencidos de que podiam negar a desconfiança de que a comida garantida tinha uma origem esquisita. Convencidos de que a comida oferecida de modo tão milagroso merecia ser devorada, os peixes aceitavam a maravilha de ter encontrado o melhor lugar para passar o dia. Comendo sem pressa, nadando sem medo, dormindo ali apenas para garantir a conquista.

Então, o avô chegava de manhãzinha, bem na hora que os peixes, cativados pela oferta boa de comida, estavam refestelando-se, e lerdos pela opulência de tantas joias, magnetizados pelo tanto de alimento.

Ele vinha, aprumava o seu banquinho, ajeitava uma meia dúzia de varas, arrumava as latas com as iscas, bebia um gole de café, e, então, pedia graças com o chapéu e passava a pôr minhoca nos anzóis.

Já cevados para a morte, os peixes vinham que vinham para morder aquela comida viva, que se debatia bem diante dos olhos gulosos.

Devidamente orientados pela ilusão de não deixar nada sobrando na água, tais peixes amestrados morriam pelo insaciável na boca.

Todavia, o meu avô sabia que isso do predador gabar-se ao ter nos dentes a presa pode muito bem malbaratá-lo.

No porão da casa deste meu mestre contumaz apareciam troféus de quando em quando. Surpreendentes e desconcertantes, aliás.

O seu método consistia em me levar a crer que o rabo de tatu atrás da porta nada tinha que ver com o ensopado por ele preparado, e não pela minha avó, que sempre apurava as rações cotidianas.

Ledo engano de minha parte, porque, diante da jaguatirica à mostra na lavanderia, interditada pela presença da fera indomável, li a cena como demonstração da astúcia do homem sobre a besta.

Franco e rude pela franqueza, vovô mostrou as canelas arranhadas e disse que perdera horas, de sol a sol, que aquele animal fugia da luz e zanzava, cruzando rios, tramando um rastro sobre outro.

Numa lógica só dele, talvez pela lua cheia que raiou no céu da sexta noite, outra sexta-feira qualquer, o bicho ficou à mercê, e até fingiu que queria fora de cima do corpo pintado a rede atirada.

Não me contive:

ꟷ Jaguatirica de seis vidas?

O vô grunhiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2021.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Requebrado

 

Requebrado

 

Acredito que lá fora faça um dia lindo, com pássaros cantando nos floridos ipês amarelos. Acredito, a escuridão está delimitada por quatro paredes, feita de tijolos, erguida por mãos experientes, firmes. Assim, ainda que meus olhos vermelhos ardam para caramba, nada de pensar que a bolha vai estourar de uma hora para outra, como nas fantasias de um desajustado, alguém fora do prumo, como se a solidez do chão estivesse à prova. Pois não está nem nunca esteve. Essa escuridão, o cubo escuro em que estou nem é luva que me sirva, doendo estão os miolos cansados.

Então, serve para quê? Para circunscrever-me.

No que a minha percepção dá como um nó, a carcaça sem cachaça perde a graça. Do cósmico nada absoluto ao relativo vazio existencial, esqueço que a cabeça não tem paredes, mas o diálogo da consciência comigo sugere um desarranjo, como se as forças não estivessem coisa nenhuma por um fio, como se bastasse mais um passo para despenhar ribanceira abaixo, na apoplexia de um instante, a indicar-me que estou abismado, de olhos abertos.

Desconfio que minha sensatez supõe ter alguma imparcialidade, já que não tenho remorso. A ponto de dizer adeus? O meu siso tem que parar de dizer que sou eu essa pessoa que confronta quem acho que poderia ser, caso estivesse dormindo.

E dormir para quê? Para ter algum alívio.

Quando a tensão vai aumentando, aumentando, numa progressão que faz os pintassilgos nos ipês amarelos virarem urubus nos postes de eucalipto, então, o corpo acaba subjugado.

Apaga. Desaba. Sem escolha, acaba adormecido.

O repouso leva a quê? Põe recomposto o corpo.

Recompor-me para prosseguir? Para retomar de onde estou.

Desde onde parei. Não parei, o meu corpo apagou. Desabei. Vi-me obrigado a dormir. Por esgotamento. O corpo não conseguiu mais se sustentar, foi apagado por dentro. A mente não pôde mais se controlar, viu-se desabada. Meu esqueleto precisa de uma boa reconfiguração. Refazer-me outro, livre de sentir-me esgotado.

Mas corpo e mente não têm unidade? Unidos em eclipse.

Como o corpo não se separa da mente e a mente não se separa do corpo, eu, assim como todo ser humano que tem consciência de si no mundo em que vive, aceito como natural me sujeitar à restauração das funcionalidades através do sono.

Do sono, sim. Da inércia, não.

Porque uma pessoa apagada por exaustão não se sente no limite, e o ultrapassa. Distraída, com tanta coisa para cuidar, ocupada com as trampas do mundo, a pessoa sorri quando aprovam o que faz. Todavia, nem se vê vivendo a realizar tarefas, a cumprir os prazos, a pedir pela próxima tarefa, pelo próximo prazo, até que...

Até que a vida fique um troço chatíssimo.

Então? Sem conseguir manter-me em pé, eu danço, e sucumbo. De tão cansado, nem percebo que nem penso direito, tanto que...

Fazendo um dia maravilhoso lá fora, ronco, e ronco que nem porco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2021.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Desejo caliente

 

Desejo caliente

 

Estava decidido: iria sair. Não porque fosse preciso, porque decidiu que precisava fazê-lo. Pondo, tirando, emparelhando, relacionando os argumentos como se permitissem estabelecer um ponto médio: o lugar razoável do equilíbrio momentâneo.

Já que era ser humano a mover-se entre emoções, tinha chegado à conclusão de que tinha mesmo de sair de casa.

E precisava ir-se naquele instante, antes que a posição favorável à saída se visse convertida no oposto, quando condenações à decisão resultassem em um sentimento vergonhoso, a projetá-lo uma pessoa irracional, dada a rompantes, mesquinha, que só pensa em atender os próprios desejos. Verdadeiramente irrefreáveis, esses desejos, porque orientados pela pacificação mental.

Brasileiro, sempre foi de dar de si o seu melhor. E no presente caso, o melhor a fazer era ir comprar uma proteção para a sua careca ou os seus humores ficariam ácidos, deixando-o intragável.

Ainda era outono, mas o frio incomodava um bocado. Como pensar com calma, sem azedumes irreprimíveis quando a temperatura média andava pela casa dos dez graus?

Não foi à toa que Dante fez do núcleo do inferno um antro glacial, inospitamente feito somente de gelo, um buraco terrível destinado aos condenados irremissíveis, eternamente incorrigíveis, sem perdão.

Portanto, cobrir a careca era uma questão de preservação da mente como fonte de pensamentos ordenados, fundamentados e socialmente aprovados, porque, bem aquecida a cabeça, a consciência não sofreria oscilações bruscas, mantendo-se a racionalidade intacta.

O homem razoável, que pondera sem se ver constrangido a vencer abismos a cada passo, é aquele que se decide pelo bem comum, uma vez que sabe pôr-se no lugar do próximo. Alguém calmo e solidário.

A solidariedade fortalece a individualidade, não a envenena como expressão egocêntrica da subjetividade absoluta. Quem está disposto a conviver produz bem-estar coletivo, e isso, ao fim e ao cabo, resulta em postura saudável para si. Pois o solidário é de fato alguém gregário.

Como cidadão de saúde mental energizada pela felicidade pública, ele estava certo de que precisava de uma boina. Não queria um boné nem um chapéu, queria mesmo era uma boina.

Contra o boné pesava a imagem daqueles jovens que andam em turma, todos com a viseira virada para trás, porém, que diacho!, a nuca não tem olhos, logo não fica ofuscada pela exuberância do Sol.

O horror ao chapéu... Tinha idade para lembrar-se dos faroestes em que John Wayne matava peles-vermelhas como se não fossem gente como a gente, mortos feito búfalos.

A favor da boina?

Da memória, o rosto ꟷ Décio Pignatari. Trigêmeo concretista, com hambre do explicitamente sutil, o hombre do Panteros.

Pois bem, um brasileiro não faz o melhor pelo Brasil?

Pra uma nascente alegria em mim, uma boina existe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2021.

domingo, 13 de junho de 2021

Porta portão

 

Porta portão

 

Ultimamente, faz um pouco mais de um ano, ficar esperando que a porta tome coragem para abrir-se como um sorriso desabrochando as suas pétalas de convivência solar é pedir muito.

Muito mesmo, já que uma falta (uma carência que brota latejante; essa dificuldade intensa para lidar consigo como se fosse uma pessoa sem perspectiva que não a felicidade) faz dela uma inconformada com a tristeza reinante. Por isso, pede, sorrindo pede o que tanto adora.

Para que servem os aplicativos descoladíssimos?

Não a queiram desmobilizada, afeita às solidões acabrunhadas de quem vive para suplicar desavergonhadamente abraços calorosos dos familiares, como se os houvera de fato desejado apaixonadamente em pensamento.

O que sua mente insone tem produzido?

Admite, porque tem razão de sobra para admitir-se conectada com o mais além do que a vista alcança, que dá ouvidos, sim, à campainha do telefone, que toca esplendorosamente os seus avisos, uma vez que gente amiga não se nega a abraçá-la à distância de um clique.

Sua boca de lábios carmesins sabe dizer sim, e tem dito tantos.

E ela gosta de estimular respostas, que o fluxo da vida alegra o seu coração oxigenado pelos relacionamentos múltiplos.

Fiel ao seu tempo, ela tem olhos lépidos, habilitados a piscadelas, dando prova de estar atenta e forte, sem medo de compartilhar-se.

Para seus três dedinhos de vodca uma mordida de pizza, pois isso dá liga e agiliza a cachola, que sintoniza a noite de sábado com o dia seguinte, voando logo pro almoço vindouro.

Claro, claro, puxa vida. Sua louca, que anda tão confusa que quase deixa de lado o mais importante: combinar a hora certa para começar a comer aquele frango assado regado à teleconversa informal.

Sem colocar em risco os demais como a si mesmo, a positividade do mundo depende do alto-astral de cada qual.

Está bem, está certo, a honestidade é que deve prevalecer.

Ela assume que não usa máscara dentro de casa, nem para tomar banho nem para dormir. Prefere viver de alma lavada, como pessoinha devidamente harmonizada por um ansiolítico porreta.

Que o insondável permaneça um mistério, isso basta e conforta.

Se dá azar?

Quando a moringa solta umas neblinas úmidas que grudam no céu da boca, bom é botar um Chet Baker para sussurrar aqueles riachinhos que têm sol manso afinando as suas águas. Porque há sons que portas não barram, nem borram.

Todavia, aquela porta sem olho mágico, que se acha a principal, ela mesmo não passa de uma filha de uma...

Essa é a porta que descreve dores em quem não sofre. É porta que dispensa angústias a quem não chora. Porta para pântanos viscerais a quem não nega um gole d’água.

Musa prafrentex, sempre transando outros transes, abriga a galinha da gema de ouro pelo portão adentro, que, no fundo, jamais há de estar fechada com o sumo cabidela das pérolas das ostras do desgosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2021.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Visão impoluta

 

Visão impoluta

 

Na varanda do nono andar daquele edifício, o homem a fumar o seu cachimbo estava a ponto de encontrar alguma resposta à pergunta que o engasgava desde cedo. Parecia que estava realmente se acercando de alguma coisa que o pusera na condição de pessoa a questionar-se. Afinal, em meio à calma do sofá, alguém parecia ter reavivado aquilo; da televisão parecia ter vindo novamente à baila algum detalhe fulcral; algo do que se ia comentando na TV acabou por imiscuir-se aos seus pensamentos. Sim, ele era dessa espécie de gente que conjectura que cabe ao ser humano esperto conduzir a própria vida sem vacilação.

Blang!

Pelo som de elevadíssimos decibéis, sem a necessidade de que um técnico empunhasse alguma geringonça captadora de espanto sonoro, tinha ocorrido um incidente.

A mulher que falava ao telefone virou-se tão logo ouviu o estrondo. O homem que se abaixara para pegar do meio-fio a bagana levantou a cabeça sem indício de comoção. Apavorada, a menina que já estava choramingando passou a berrar alucinada. Tomada de irritação, a mãe tratou de sacudi-la, insistindo que parasse, como se agitá-la com tanta firmeza cortasse aquela palhaçada, uma chatice, coisa de bobocona.

Na varanda lá no alto do prédio da esquina, o homem fumou o seu cachimbo convicto de que aquele acontecimento era passível de outra abordagem, menos passional. O universo passava-lhe outro dos seus recados: a vida tem fundamentos que escapam ao contato direto. Não iria lamber o sangue para sabê-lo sangue, pois bastava vê-lo e isso, o exercício de observar à distância, pouco interferia no prazer de fumar. Além disso, não pensava com a boca nem com os pulmões.

A mulher que falava ao celular cortou a falação porque lembrou que o aparelho teria melhor utilidade se filmasse a situação todinha.

O homem atrás de bitucas estava certo de que não iria tirar proveito algum da distração, pois fumar era uma prioridade. E comer, também precisava comer. Ele cheirou os restos de um marmitex. A feijoada era gorda. Antes que surgisse algum vira-lata, devorou tudo.

A menina que esgoelava aumentou o estardalhaço ao ver o sangue se espalhando das mãos para as roupas de quem foi acudir o rapaz da bicicleta estrebuchando no asfalto.

A mãe da menina passou a suplicar pela vida daquele entregador de água, cujo sangue jorrava da barriga rasgada.

O homem que procurava as palavras para auxiliá-lo a entender-se com suas ideias, uma vez que a linguagem permitia-lhe pensar-se no mundo sem que sua realidade acabasse abstraída, como se a pedrada na vidraça prescindisse da pedra para estilhaçar a fachada, perplexo, sem ter outra opção, ele decidiu que iria descer à rua.

Apto a revestir o acontecimento de modo irretocável, convencido da relevância do seu relato, ele contou que teve despertada a curiosidade pelo fato quando:

Bleng!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2021.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Burro n'água

 

Burro n’água

 

Sucede que estou atrás de um documento, mas não lembro qual. A informação sobre alguma coisa tem importância para alguém que não sei mais quem seja. É pessoa que me enviou e-mail, cujo rastro está apagado na caixa postal. Devo ter deletado por descuido, ou num dos meus acessos de faxina geral. Depois da limpeza repentina, não tenho como encontrar uma vírgula sequer do que poderia estar buscando nos interstícios siderais dessa realidade paralela, a virtual.

Sucede, então, que desisto.

Dane-se a procura da materialidade da pesquisa. Em vão querê-la concreta. Inútil lamentá-la perdida. O dia, afinal, tem outros pedidos, e cabe a mim atendê-los.

Ô diabo! Como posso prestar conta do que faço se nem sei bem o que ando fazendo?

Já faz um tempo que estou jogando palavras na memória, mas as recordações mais desencontradas é que vêm comer os farelos dessa minha ceva ingênua. Algo desesperado, já implicante, frustro-me.

Cão sem dono, a realidade toca viola para se livrar das pulgas mais irritantes, as que não se contentam com picadinhas intermitentes, mas não caça o próprio rabo por si só, que isso funcionaria como uma dica.

Não vou dizer que o mundo costuma pôr os distraídos para uivar à lua ou que talvez os melancólicos acabem minguantes sem saber que estão definhando a cada uivo.

Boa! Encontrado o cardume, mergulho o anzol.

Todavia, Rachel de Queiroz corta o fio da minha empolgação ao me sugerir que a minguante que morre na madrugada não é louvada nas cantigas nem preside as serenatas.

Tiro da água o meu anzol lavado em fracasso, amoldo a isca com os dedos que digitam NUDEZ em vez de LUA.

Todavia, Rubem Braga desfaz a emenda, que o lacinho singelo não dá liga aos meus pensamentos soltos que os forço lógicos e plausíveis, como a sustentar que a minha visão do mundo precisa de mim para dar a ela, a essa perspectiva de filósofo iluminado, o viés circunspecto de persona racional, e coerente.

Oxe, o Sabiá da Crônica canta que estou nu em minha vulgaridade barata a querer Marilyn Monroe como sereia nessas minhas águas de umbigo, balão inflado pelas fumaças desse meu ego, que acha espelho o que nem tem reflexo. Oxe, vampirizo o Velho Braga.

Terá cura esta cepa da minha estupidez?

Todavia, Ivan Lessa refaz o retrato que venho compondo.

Sim, disse o jornalista que a cada quinze anos o brasileiro esquece o que fez nos últimos quinze anos.

Sim, de quinze em quinze segundos rompe-se o fio do que penso.

Caramba! Dá-se o estalo como crônica: Não ande nu por aí.

Cercado de gravidade por todos os lados, já que sou um homem no cosmos, encontra-me súbito o que procuro.

Veja só como a minha cabecinha desnorteada age sem atinar nada com nada, pois vim erguendo em labirinto esta falta de semancol.

Quem sou eu para criticar Jeff Bezos que pode torrar o seu dinheiro para levar o maninho ver a Terra lá da estratosfera?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2021.

domingo, 6 de junho de 2021

Força estranha

 

Força estranha

 

O sol está disposto a aquecer até mesmo os seres que porventura nem queiram o seu radioso calor. A estrada não espera que a utilizem como escoadouro de frustrações banais, nem por isso finge não ver os caminhantes que acreditam estar indo com a certeza das suas justas necessidades. Não, não é possível reconhecer que o momento da vida que a cena registra diz a quem vive que há mortos sem sepultura.

Nesse contexto de tão fundo prosaísmo, eis um homem que briga consigo para desenlouquecer-se sem dar na vista de ninguém. Se bem que, justamente porque ocupado com o que possa estar aparentando, ele não se permite escapar como um desapontamento a outrem, e isso, por sua vez, orienta-lhe a transparecer-se como um cara tranquilo.

O que não quer dizer que essa tranquilidade de rosto e gestos faça dele um bom papo, afável, gente que bebe o seu pingado enquanto vai palpitando sobre fatos mundanos.

Além da porta, o caminho veste-se de via pública animada, com as pessoas indo em uma única direção.

Mais calado do que o normal, está consciente de que essa maneira discreta chama a atenção de quem o conhece de outras tantas manhãs ensolaradas.

Tem um desejo incontrolável de um raio de paz, mas o astro rei de sua majestosa manhã pouco tem de luminoso ou pacífico. A querer-se em paz, inquieta-se. Ao ansiar-se longe do turbilhão que o assombra, percebe pontas sem nexo, um emaranhado de histórias mal-acabadas, descontinuadas, que o angustiam por obrigá-lo a ter um pouco mais de desfaçatez, de ostentar-se uma pessoa sensata, de juízo calmo.

Ele quer manter a sobriedade dos empáticos, pois tem que seguir convivendo com quem anda participando da sua jornada.

Urbana, a rua não se lamenta do aumento do movimento.

Pudera, lá do alto, um sol tremendo nem liga diferenciar os corpitos, que bem se assemelham a animais ─ os orgânicos se embebedam de caninha, os mecânicos explodem com carbono sem açúcar.

Em outras palavras, o pai de família não bebe um dedo de cachaça porque não está livre das aporrinhações da função a que está sujeito. Desde o momento da gravidez aparecida daquela noite inigualável, é camarada responsável, sem direito a uma vida de estripulias.

Nada de inventar ter um tempinho para uma cerveja, um truco, uma olhada maliciosa para a mulher do cartaz ao lado da porta do banheiro, uma vez que a rua não para de lembrá-lo que tem de conferir se a mãe dos seus meninos já se encontra no lugar combinado.

O ronco do batalhão de motocicletas não impede o pensamento de conjuminar a boca carrancuda com onde está. Não haja desculpa, pois um bar, todo bar, é antro de perdição.

Ainda que as suas costas doam, o marido levanta o isopor, que está bem pesado.

Do lado de cá do rio, cestas despejam mortadelas, salames, lombos e caixinhas de leite, suco e chá.

Mesmo barrentas, as águas fazem que não vêm das cordilheiras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2021.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Monólogo a duas vozes

 

Monólogo a duas vozes

 

Pegue jeito, sonso. Tome o controle, tonto. Mas não seja impulsivo. Porque o precipitado perde-se. E perdido, vira reclamar que tem razão. Quando quer algo, meça. Saiba medir e aja, não fique só no desejo. Desde que realmente saiba, não fuja do que de fato deseja tanto.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando os seus sinos com dois minutos de atraso, como se fosse possível ter controle sobre a ansiedade, como se os sons chegassem do passado, querendo com isso apontar que a recordação do que se está vivendo apurasse a realidade pelo que tenha sido vivido, assim, aja.

Sobre a vontade, tome pulso. Queira ratificar-se como ser vivo que pensa e diz a própria experiência de estar vivo enquanto vive. Dê esse passo, e faça andar o mundo. Ande no mundo, não enrole. Porque um querer a mais não move moinho. Não basta. Não vacile, aja. Vacilante, aja com educação. Ponha os bons modos à frente, porque alguém que sabe o que quer tem o pudor de não se fingir de indeciso.

Assim como o relógio da matriz tem semana que passa badalando os seus sinos com três minutos adiantados, como se fosse provável o controle sobre o futuro, como se os sons trouxessem o que ainda não se sabe ter vivido segundo o que se quer enquanto destino, como se a conjunção das possibilidades nem decorresse do que se faz, faça-se.

Agora? Hoje. Hoje? Então, que seja momento único. Inesquecível. Uma noite de gala. Noite de gala? Noite de pizza. Noite de pizza? Que seja. Mesmo não sendo sábado? Mesmo. Pense bem, a semana tem sido puxada. Bastante puxada. O ar está pesado. O chão foge dos pés. Os remédios não têm dado conta do sufoco. A pressão é tanta que nem as pílulas para baixar a pressão têm funcionado. Haja calmante. Pois é, amigão, a semana tem que acabar numa pizza. Tem sido tensa. Tão exaustiva. Muito exasperante. Para hoje? Agora.

Meio a meio? Portuguesa e calabresa. Ou portuguesa e de atum. Ou de atum e quatro queijos. Que alivie o estresse. Para que ao menos o estresse não extrapole. O estômago? A noite ronca. O estômago não dorme. Não dá trégua. Por inteiro. Inteiramente. Tão irritante. Muito. Tem havido um estresse desumano. Insuportável. Que derruba quem acha que suporta. Não aguenta o peso. Entra em colapso. Afunda.

Que troço chato. Chato para dedéu. Melhor mudar de assunto. Para falar do quê? Da casa suja. Das folhas rasgadas no chão do quarto? Pelo quarto todo. Anotações de um diário ilegível. Que língua esquita que não diz nada sobre o momento! Pois é.

Ora, você poderia ter sido menos idealista. Mais real? Menos bobo. Alguém parecido comigo neste instante? Você é uma pessoa que tem telefone. Mas, então? Então, peça aquela pizza sem igual que apenas você sabe o quanto precisa, mas coma curtindo cada mordida.

Comer antes que esfrie? Coma.

Mas comida quente não queima a língua?

Zonzo, queimemos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de junho de 2021.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Felicidade condicional

 

Felicidade condicional

 

Ele disse: “não”, “não sei” e “já falei que não sei”.

Com tantos nãos ditos em sequência, sua mente tinha mesmo que enveredar por algum caminho menos sombrio.

Sem ligar para a garoa na careca, desceu a rua em vez de subir.

Entrou no comércio da esquina. Todavia, só entrou ali para ganhar distância de um pitbull invocado que vinha protegido por um bombado brutamontes sem focinheira. Numa hora dessas, sobreviver é vacina.

Nem bem estando dentro, a ajuda que não carecia foi-lhe oferecida com a presteza de quem sufocado por dívidas a granel.

Aceitou que precisava urgentemente de sementes de girassol.

Que realmente eram necessários dois pacotes para atender a sua demanda, no entanto, já era um sinal evidente de uma impressionante habilidade humana, a telepatia.

Espantado com a interação mental, pagou no cartão. E o fez porque o dinheiro ainda não tinha asas para vir cantar bonito na sua carteira.

Que alívio ter carteira no bolso. Que alegria redobrada ter cartão de crédito no bolso. Que espetáculo poder sorrir satisfeito por ainda dispor de algum crédito. Ou o cartão seria só mais um objeto inútil, de plástico vagabundo, tão inimigo da natureza.

Tinha esquecido que a agência saíra do seu trajeto como algo bem natural, sem deixar sequelas, tiques ou inflexões imponderáveis.

Afinal, nem se lembrava de que economizar três reais numa compra de um quilo extra de comida para passarinho era sua imprescindível e incontornável prioridade.

Opalá! A memória piscou o alerta.

Parado à porta do estabelecimento de viva importância a sua atual condição de pessoa não portadora de bicho engaiolado, uma dúvida mostrou-se atroz: semente de girassol alimenta aves de que tipo?

Como lhe foi prontamente comunicado, muitos são os tipos de aves comedoras de sementes de girassol.

Tem ave: que canta de madrugada; que canta na hora do almoço; que canta sem que sol e chuva influenciem na cantoria.

Que diversidade surpreendente.

Tanto diversa quanto misteriosa é a natureza, emendou o vendedor com a tarimba visionária para morder feliz um bom dinheiro, já o senhor fique sabendo que o sabiá, sim, o nosso velho amigo sabiá que canta nas madrugadas, muita gente tem a facilidade de chamar o bichinho de sabiaúna, sabiatinga, da restinga, da praia, do campo, do sertão, da campina, capoeira, tropeiro, da mata-virgem, do mato-grosso, ferreiro, sabiapoca, cachorro, cara-de-gato, coleira, barranco, branco, cinzento, piri, laranja, laranjeira, barriga-vermelha, verdadeiro, ponga, gongá, e, o senhor nem me olhe torto porque sei disso tudo, tem quem chame o inocente de sabichão-do-papo-amarelo.

Caçamba!

E pensar que todo este conhecimento poderia permanecer ignorado se o cidadão não tivesse participado de modo tão positivo da pesquisa eleitoral. Apesar do número desconhecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2021.

domingo, 30 de maio de 2021

Espetacular

Espetacular

 

Aplaudindo, mas apenas depois de reaberta a cortina, uma vez que a trupe saiu de cena assim que a história acabara de ser contada. Sim, do começo ao fim, o fio da meada não foi cortado nem enrolado. Afinal, era história conhecida, por isso querer dar voltas ou pular algum trecho seria errar o tom. Não, da cortina aberta até a cortina fechada, o rumo bem ensaiado foi seguido à risca pelo pessoal: bravo!

Conforme todo mundo sabe, uma das regras não escritas da nossa sociedade fala que uma criança, qualquer criança que esteja cativada em sua inocência, é esperta o suficiente para chiar no exato momento em que cortes ou mudanças interfiram no andamento do aguardado.

A criançada não deixa por menos e cobra fidelidade ao já trilhado, portanto não convém querer inventar. Sim, insistir em enfiar novidades em algo mais do que testado pode muito bem magoar a audiência.

Decepcionada, mais e mais entristecida ao testemunhar surpresas que soam como ruído frustrante, a meninada olha, pede que seu olhar seja compreendido, comunica a perda do entusiasmo e suplica que o seu aborrecimento tenha o valor de uma bruta vaia.

Não alimente falsas esperanças, pois meninas e meninos educados pelo respeito à estupidez de terceiros não são de ficar resmungando, apupando, atirando tomates, botando para correr estrelas que julgam caídas em desgraça. Sem dar bobeira, elas e eles abrem o berreiro.

Viva! Que os astros condenados sumam no abismo.

A questão não é pedir reembolso; o ponto é simples: voltem e façam direito o que tinha de ser feito direito. Ora essa, se a coisa está errada, é muito simples: basta começar de novo, mas recomeçar sabendo que o certo de uma história bem contada é mantê-la igual a si mesma.

Entretanto, os benditos foram salvos e punidos os malditos:

ꟷ Bravíssimo!

Aplaudindo protocolarmente o elenco de apoio.

Aplaudindo, assoviando e batendo os pés nas tábuas da plateia, quando um a um dos personagens que tinham nome inclinavam-se em respeito ao afago do público.

Aplaudindo, soltando pequenos gritos, saltitando na arquibancada, isso porque, magnética, sol magistral a capturar com os mil tentáculos da sua visão, avançou a Chapeuzinho.

Que maravilha!

Feliz da vida com o espetáculo que não enganou ninguém, montou na bicicleta sem rodinhas e, quando ia tomando a direção de casa, uma bicicleta com cestinha junto ao guidão barrou-lhe o caminho.

Sem aquele macacão de pelos ensebados, sem aquele focinho de dentes assustadores, só que ainda exibindo a maquiagem escura ao redor dos olhos, era o Lobo.

A voz... A voz era mesmo a do monstro.

E viera falar com ele. Logo com quem nem tinha reparado que a fera da apresentação tão bacana o tinha visto no meio de toda gente.

Caraca, o rapazinho dos seus onze para doze anos nem se lembrou de que tinha língua ao ser presenteado com um belíssimo beijo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2021.