terça-feira, 1 de junho de 2021

Felicidade condicional

 

Felicidade condicional

 

Ele disse: “não”, “não sei” e “já falei que não sei”.

Com tantos nãos ditos em sequência, sua mente tinha mesmo que enveredar por algum caminho menos sombrio.

Sem ligar para a garoa na careca, desceu a rua em vez de subir.

Entrou no comércio da esquina. Todavia, só entrou ali para ganhar distância de um pitbull invocado que vinha protegido por um bombado brutamontes sem focinheira. Numa hora dessas, sobreviver é vacina.

Nem bem estando dentro, a ajuda que não carecia foi-lhe oferecida com a presteza de quem sufocado por dívidas a granel.

Aceitou que precisava urgentemente de sementes de girassol.

Que realmente eram necessários dois pacotes para atender a sua demanda, no entanto, já era um sinal evidente de uma impressionante habilidade humana, a telepatia.

Espantado com a interação mental, pagou no cartão. E o fez porque o dinheiro ainda não tinha asas para vir cantar bonito na sua carteira.

Que alívio ter carteira no bolso. Que alegria redobrada ter cartão de crédito no bolso. Que espetáculo poder sorrir satisfeito por ainda dispor de algum crédito. Ou o cartão seria só mais um objeto inútil, de plástico vagabundo, tão inimigo da natureza.

Tinha esquecido que a agência saíra do seu trajeto como algo bem natural, sem deixar sequelas, tiques ou inflexões imponderáveis.

Afinal, nem se lembrava de que economizar três reais numa compra de um quilo extra de comida para passarinho era sua imprescindível e incontornável prioridade.

Opalá! A memória piscou o alerta.

Parado à porta do estabelecimento de viva importância a sua atual condição de pessoa não portadora de bicho engaiolado, uma dúvida mostrou-se atroz: semente de girassol alimenta aves de que tipo?

Como lhe foi prontamente comunicado, muitos são os tipos de aves comedoras de sementes de girassol.

Tem ave: que canta de madrugada; que canta na hora do almoço; que canta sem que sol e chuva influenciem na cantoria.

Que diversidade surpreendente.

Tanto diversa quanto misteriosa é a natureza, emendou o vendedor com a tarimba visionária para morder feliz um bom dinheiro, já o senhor fique sabendo que o sabiá, sim, o nosso velho amigo sabiá que canta nas madrugadas, muita gente tem a facilidade de chamar o bichinho de sabiaúna, sabiatinga, da restinga, da praia, do campo, do sertão, da campina, capoeira, tropeiro, da mata-virgem, do mato-grosso, ferreiro, sabiapoca, cachorro, cara-de-gato, coleira, barranco, branco, cinzento, piri, laranja, laranjeira, barriga-vermelha, verdadeiro, ponga, gongá, e, o senhor nem me olhe torto porque sei disso tudo, tem quem chame o inocente de sabichão-do-papo-amarelo.

Caçamba!

E pensar que todo este conhecimento poderia permanecer ignorado se o cidadão não tivesse participado de modo tão positivo da pesquisa eleitoral. Apesar do número desconhecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2021.

domingo, 30 de maio de 2021

Espetacular

Espetacular

 

Aplaudindo, mas apenas depois de reaberta a cortina, uma vez que a trupe saiu de cena assim que a história acabara de ser contada. Sim, do começo ao fim, o fio da meada não foi cortado nem enrolado. Afinal, era história conhecida, por isso querer dar voltas ou pular algum trecho seria errar o tom. Não, da cortina aberta até a cortina fechada, o rumo bem ensaiado foi seguido à risca pelo pessoal: bravo!

Conforme todo mundo sabe, uma das regras não escritas da nossa sociedade fala que uma criança, qualquer criança que esteja cativada em sua inocência, é esperta o suficiente para chiar no exato momento em que cortes ou mudanças interfiram no andamento do aguardado.

A criançada não deixa por menos e cobra fidelidade ao já trilhado, portanto não convém querer inventar. Sim, insistir em enfiar novidades em algo mais do que testado pode muito bem magoar a audiência.

Decepcionada, mais e mais entristecida ao testemunhar surpresas que soam como ruído frustrante, a meninada olha, pede que seu olhar seja compreendido, comunica a perda do entusiasmo e suplica que o seu aborrecimento tenha o valor de uma bruta vaia.

Não alimente falsas esperanças, pois meninas e meninos educados pelo respeito à estupidez de terceiros não são de ficar resmungando, apupando, atirando tomates, botando para correr estrelas que julgam caídas em desgraça. Sem dar bobeira, elas e eles abrem o berreiro.

Viva! Que os astros condenados sumam no abismo.

A questão não é pedir reembolso; o ponto é simples: voltem e façam direito o que tinha de ser feito direito. Ora essa, se a coisa está errada, é muito simples: basta começar de novo, mas recomeçar sabendo que o certo de uma história bem contada é mantê-la igual a si mesma.

Entretanto, os benditos foram salvos e punidos os malditos:

ꟷ Bravíssimo!

Aplaudindo protocolarmente o elenco de apoio.

Aplaudindo, assoviando e batendo os pés nas tábuas da plateia, quando um a um dos personagens que tinham nome inclinavam-se em respeito ao afago do público.

Aplaudindo, soltando pequenos gritos, saltitando na arquibancada, isso porque, magnética, sol magistral a capturar com os mil tentáculos da sua visão, avançou a Chapeuzinho.

Que maravilha!

Feliz da vida com o espetáculo que não enganou ninguém, montou na bicicleta sem rodinhas e, quando ia tomando a direção de casa, uma bicicleta com cestinha junto ao guidão barrou-lhe o caminho.

Sem aquele macacão de pelos ensebados, sem aquele focinho de dentes assustadores, só que ainda exibindo a maquiagem escura ao redor dos olhos, era o Lobo.

A voz... A voz era mesmo a do monstro.

E viera falar com ele. Logo com quem nem tinha reparado que a fera da apresentação tão bacana o tinha visto no meio de toda gente.

Caraca, o rapazinho dos seus onze para doze anos nem se lembrou de que tinha língua ao ser presenteado com um belíssimo beijo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2021.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Meia laranja basta

 

Meia laranja basta

 

A tarde transcorria quase tediosa; quase, porque ficaria sendo, não fosse a delícia de chupar laranja, daquelas bem doces, uma lima.

A doçura da fruta era tanta que nem carecia pensar nisso, seria uma desfeita, pois o bom era se entregar ao agradável de desfrutar do sumo daqueles gomos sem projetar algum senão.

Era mesmo docinha, mas tão docinha, que parecia que tinha sido adoçada com mel.

Isto, aliás, é uma adição redundante, um adendo dispensável, sem relação alguma com a realidade da fruta em sua essência.

Assim, a mente juntava o prazer do sossego com a vagareza de ir chupando a tal preciosidade. E a boca se enchia de água, de tanto que deleitava poder usufruir aquilo sem aflição alguma.

Todavia, como gato não sabe chupar laranja nem dá a mínima para pessoa que gosta de apreciar algo bom sem interrupção, veio a gatinha miar sem dó.

Olhando para o trinco da porta, miava. E não parava.

Era um bicho que miava. Era um ser determinado que dava a ver o que tinha em mente através do miado.

O que estaria dizendo?

Com o olhar fixo no alto, a danada pedia que a chave fosse virada, a lingueta da trava, recolhida, e a folha da porta admitisse passagem.

Portanto, o miado não pedia que tudo isso fosse executado de uma vez por todas; miando, o insistente e pequenino animal exigia.

Que abrissem a porta. Viessem abri-la. E ela teria de ser aberta.

Contudo, aquela laranja, sem nada de ácida, nem um pouco azeda, merecia uma degustação tranquila, gomo a gomo, como uma flor que se abre lentamente, pétala a pétala, liberando um perfume aprazível, e que encanta, seduz, faz a gente respirar com serenidade.

Quando o odor maravilha, atrai e cativa, a gente não abusa?

Ele estava bastante incomodado. E sabia como bancar o chato.

Para não desperdiçar sequer uma gota daquele néctar sem igual, lambia os dedos com a maior calma do mundo.

A gata que miasse até ir-se dali para brincar com uma bolinha de papel, que muitas pelotas estavam espalhadas pela casa.

E fosse logo.

Afinal, a sua cara, que tinha papilas que bem conheciam o quanto de açúcar o suculento pomo oferecia ao paladar, queria silêncio.

Pela inteireza da gustação desse fruto tão magnânimo, somente as sementes deveriam acabar no lixo. Sem fiapos do bagaço.

Sim, o bagaço. Que tinha que ser macerado, dilacerado e triturado com a convicção de quem age com gosto, ciente de estar vivendo um prazer que não tem como ser dito sem parecer fútil ou ridículo.

Qualquer tentativa de traduzir o sentimento de estar gozando o que se faz enquanto se está fazendo resulta em singela estultice.

Nesse caso, no instante de tão mansa fruição, a boca queria mais era mastigar trinta, trinta e uma, trinta e duas.

Todavia, gato algum mia por inércia.

Então, já tendo metade da laranja sido saboreada soberanamente, a porta foi aberta; que a gatinha continuasse a miar, mas lá fora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de maio de 2021.

terça-feira, 25 de maio de 2021

A balada das vidraças alvoroçadas

 

A balada das vidraças alvoroçadas

 

Na rua, em situação desgraçada, catando rejeitos de abacaxis mal descascados, atalhando pelo arroz com feijão das marquises varridas por crachás bem-ajambrados, espera que as vidraças aflorem o vento que anuncia outra tarde retumbante das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

À  janela, com pulmões carunchados, ataviando alegrias de coração bem passado, aviando tristezas de diamante mal lapidado, espera que as vidraças impecáveis permitam bendizer a ciranda entusiasmada das contagiantes velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

De olhar demiúrgico, focal, afetando um rosto despido das rusgas mal resolvidas, confeitando uma carinha lavada por saliva bem acética, espera que as vidraças inabaláveis sigam surdas a maldições rogadas à roda das adoráveis velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Na lona, sem bolsos remendados, ciscando uns passinhos tímidos de frango na muda, cercando as galinhas imaginárias que cacarejam à solta, espera que as vidraças indevassáveis resguardem as virtudes das veneráveis velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Na bossa novidadeira, feraz, gorando gerânios ungidos por urina de sal descalibrado, gozando asseclas de cassetetes de tacanha atitude, espera que as vidraças tão solidárias protejam mais do que a fachada intocável das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Neste chão mundano, sacrifiquem-se olhos petrificados pelas dores crônicas, mumifiquem-se andrajos pestilentos; curem-se do mal curtido no bem negado ꟷ não espere que as vidraças infrangíveis estilhacem as velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Sem abismos intransponíveis que hipnotizam, escolhendo arestas íngremes vencidas por braços indomáveis, escalando planos arejados por revoltas não sufocantes, não espere que as vidraças alérgicas aos ares renovados não asfixiem como velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Com amores tolhidos na fonte, sequioso de viver a serviço da vida, desejoso de revolucionar o mundo, redirecione as energias aviltadas, revele às arrogantes vidraças hostis o ódio regenerador que solapa as pervertidas, abjetas e velhas, velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Por amar alvoradas, por querer auroras, por cantar as primaveras, por brindar o sol coradouro, por aspirar ao meio-dia a luz que dissipa a névoa dos ossos, que a balada frutifique em amizades novas.

Para que cirandem as amigas e os amigos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2021.


domingo, 23 de maio de 2021

Sensatez

Sensatez

 

A promessa do futuro existe, você a vê. Por poder distingui-la como o ponto que vem de lá, daquela névoa em que o mar oceano e o céu oceano suspendem a clareza, comove-se ao vê-la. Onde floresce um, onde germina outro? Pois tal perspectiva sugere uma ansiedade que mobiliza, e você a aceita, acolhe e aconchega. Nutre-se pela promessa de que é possível uma esperança menos cerrada, pois o encontro do mar com o céu dá horizonte a quem trancafiado no íntimo de si, como a abrir-se à ideia de ser que o faz humano a pensar-se:

Flui quem não sou porque já fui quem serei sendo quem flui.

Você não dispensa filosofar como pessoa que pensa além dos pés calçados por chinelos a ostentar aquelas unhas por cortar e aquém do sorvete de coco a derreter porque, matutando, custa a lambê-lo.

Longe, bem longe, num lugar que lhe escapa da capacidade mental de calcular com alguma precisão, você se arrisca a batizar como barco de pesca a embarcação que navega, quiçá uma tainheira que volta.

Ainda que nomeá-lo barco de pescadores de tainhas seja apenas uma aposta necessária a você para ultrapassar o bando de surfistas que está interposto entre o vórtice extremo dessa figura em cujo ângulo reto sua moringa ferve ao sol, que fecha a forma.

A alegria de banhar-se nessas águas de ondinhas mansas acaba definhando em sua mente, porque aquela areia toda o desanima.

Ainda que banhistas gritem felicidades mil, fervilham as micoses. Ainda que moças continuem papeando sobre esteirinhas, você não se mexe. Ainda que crianças empinem pipas, o seu lugar é ali.

Há um gavião sobranceiro na caçamba que não comporta sequer mais um saco de lixo. Todo este resto só aumenta porque a cupidez o define material inútil, descartável; o que é, no fundo, contestável.

Desancorar-se dessa lógica geométrica transpira açodamentos.

Avisando que tem e-mail novo, o telefone vibra. Você arremessa o palito na lixeira, e acerta. Quer saber de quem é a mensagem, e bufa mais ainda depois de ler a caixa-alta que berra o assunto:

PARIS É UMA FESTA!

Não era sem tempo que o exibido iria se manifestar. Com a Cidade Luz renascendo, era óbvio que o bacana iria à forra. Nada mais certo que esteja armando o manjado: outra festança.

Mas as fronteiras não estão fechadas a brasileiras e brasileiros?

Ora, você não duvida que o finório ande fazendo uma finesse.

Se Paris barra quem tão vivamente a louva sempre radiante, uma soirée culturelle viria a calhar.

Que o Louvre venha brilhar no seu lar. Que a Mona Lisa sorria aos seus adoradores. Que A Barca de Dante não naufrague na ignorância. Que A Rendeira siga tecendo em dignidade sutil.

Está na cara que o espertalhão deve ter instalado uma big de uma gigantesca tela de borda infinita para exceder em realismo com zilhões de pixels, cuja vista humana nem pode alcançar.

Para não embarcar nessa insanidade, você apaga o e-mail.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2021.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pensamento positivo

 

Pensamento positivo

 

Depois do almoço, com os afazeres em dia, vou zanzando, certo de que o assunto para crônica aparecerá, e tal certeza põe-me tranquilo.

A tranquilidade colabora para a digestão, do que comi à mesa e do que acontece enquanto ando. Sem que esta atrapalhe aquela de modo desastroso, embora fatalmente os acasos trombem comigo.

Satisfeito da vida, creio que consigo me manter ligado ao entorno. Basta a realidade não me levar a escolher alternativas nem pensadas e tudo vai seguir sem sobressaltos.

No entanto, dou azar, porque esta minha figura sossegada passa a impressão de pessoa que não corre de cachorro que late. Acham-me capaz de manter a fleuma mesmo com bicho de presas arreganhadas a me confrontar. Como não sou de fazer de conta que tenho a valentia dos heróis, nem bem a fera ameace atacar, arredo pé.

Adeus, distinto cavalheiro.

E a rua conhece este fracote, medroso, mais um sobrevivente, tão logo furo sinal vermelho, ignoro faixa de pedestre e tiro a máscara de gente boa, de ponderado.

Tomado pelo embaraço desta vexatória atuação, esbaforido, suado e melindroso, já entro pedindo uma dose de caninha enquanto sumo no banheiro.

Com a esperança de ter vencido a sanha humana de rir de minhas canelas muito pouco treinadas, volto e viro o copo no balcão.

Seguro o fogo nas tripas e digo boas-tardes a todos. Todo mundo e mais o dono, a quem dirijo o sorrisinho de bom moço que sabe das coisas do mundo pelo mundo mesmo. Uma vez que assisto a canais de notícias e leio jornais e revistas. E não duvido que isso me instrui, educa e faz de mim outro homem.

Alguém melhor, que não fuma, dorme cedo, masca folhas de boldo.

Melhor seria se parasse de beber, mas cachaça é tão danada que a paz da minha alma depende de mais uma. Aliás, me controlo.

Já meio alegrinho, a felicidade que me anima sabe que a razão tem ilusões. Faço o condutor parar no lugar certo, na hora certa.

Sim, o universo conspira a meu favor. Tenho fé, afinal sei manter o juízo. E raciocino rápido quando fico bebum.

Convicto de minhas virtudes, bem no momento que estou virando a terceira ou quarta dose, quem não me conhece chega grunhindo para o meu lado.

Bufando suas fumaças, vem babando uma palavra atrás de outra. Sem tirar nem pôr, diz que o seu maior pecado é ser gente que gosta de gente. O que o torna alvo de quem o inveja. Que a malícia afia as línguas que o destratam. Coisa dos sóbrios de maldade.

Prefiro a TV. Queria ver a sessão política, só que a baba voa beijar meus óculos. Queria muito que aqueles perdigotos dessem-me força para ir embora, porém, entre a antipatia e a simpatia, há esse fogo que atiça os vermes.

Gargalhando como o quê, o fanfarrão apita que o general da banda faz fanfarra para farda, fardão e bandalheiras.

Caraca! A besta tem pulmões tão potentes que lhe pago uma birita em troca do apito, que guardo no bolso para não enguiçar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2021.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Vago lume noturno

 

Vago lume noturno

 

Eis o que foi dito por sicrano:

Desperto no meio da noite escura. Nem abro os olhos. Sei que o quarto está imerso na escuridão. Vai alta a madrugada. Desprotegida, a minha careca está gelada. Não confiro, afirmo. E isso me basta.

Posso estar errado. Por podê-lo, erro com moderação. Uso a mente para relacionar alho com bugalho. Confundo as coisas, torno dificultoso apontar qual o joio, qual o trigo.

Vislumbro sem detença um campo dourado, não apenas receptivo à luminosidade do sol. Tal horizonte me fascina. Afeito à beleza, deixo que o desejo de um bem-estar momentâneo me ofusque.

Deslumbrado com a amplitude do espaço aberto, me pego a pensar o infinito. Magnífica, é realidade revestida como ideia sem fim.

Que visão soberba. Sobrevivo aos meus instintos que me querem projetando uma lua nas retinas estressadas.

Adoro o vento noturno. Tenho os olhos ardendo, sinto que o vento pode me abrandar o incômodo que há dias me aborrece.

Não vou voltar a dormir. Estou aliviado por estar acordado.

Se a lógica turvasse o pensamento, seria besteira.

Tomo a tolice como veneno que a mim me fortalece. Portanto, não tenho sono, estou de olho. Mais forte, estou mentalmente habilitado a me julgar imparcial.

Senhor da razão, vejo o que vejo e sinto o que sinto.

Não estou disposto a lamentar que o mundo insista em contradizer os meus mais verdadeiros sentimentos. Veridicamente sinceros, uma vez que os acabei de gerar.

De olhos fechados na escuridão, não me dispenso de contar o que sei. Sigo sensato, deixo a respiração controlar os fluxos cerebrais.

Certo de que estou errado, percebo uma dormência no olhar.

Reforço, o sono não mastigará o meu entusiasmo de ter descoberto que o universo quer queimar os meus neurônios.

Esperto, continuo respirando. Desperto, não deliro fora da noite.

Sinto-me bem, com minhas faculdades mentais me estimulando.

Pois é, o chato na cama só fica ocupado com conversinha?

Chega a ser grotesco respingar dúvidas na cachola que sabe que não sonha de olhos amargurados. Estou calmo. Minha consciência diz o campo que jorra ouro ao sol que obscurece o éter das esferas.

Desnecessário querer me corrigir, pois o ar que me mantém vivo é o mesmo ar que me oxigena a mente.

Feito vento a renovar o ar do quarto, o colírio da madrugada faz um bem danado. Não abro as janelas nem os olhos porque a brisa noturna é desintoxicante.

Enxergo de olhos mareados. Náufrago de pijama, posso enxergar o que meus olhos querem que eu veja quando não me enxergo a seco.

Nem penso nisso.

E que sensação boa! E que instante brilhante!

Este instante pede que a sua história seja contada. Que beleza. É momento tão, tão luminoso que até me seduz.

Tantas são as platitudes que fomento que algum sobressalto me faz recordá-lo outro?

Não é lorota o que não minto.

Dito até que foi, mas beltrano fez que se esqueceu de ouvir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2021.

domingo, 16 de maio de 2021

Linhas tortas

 

Linhas tortas

 

ꟷ Está perdido, poeta?

Era evidente que não. Estava aborrecido. O acesso à minha conta fora barrado pelo sistema. Isto é, meu dedão não tivera reconhecida a informação biométrica cadastrada como pertencente a mim.

Sem cabeça para amolações bisonhas, pois tinha recebido convite para falar a estudantes, queria pensar com carinho de que modo iria abordar o tema que me foi indicado: a escrita.

Então, chegou este Luisinho com sua leitura equivocada da minha cara. Logo ele que é camarada amigo, sujeito que me conhece muito bem porque convivemos desde miúdos, falantes em fraldas.

Que decepção. Uma pessoa tão íntima achar-me mergulhado em especulações metafísicas, representante do perfil que tantos atribuem aos poetas. Como se este versejador desiludido me condenasse ao lugar comum de sonhador que vive em uma torre de marfim a tirar a água que bebe das nuvens etéreas do mundo da lua.

Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade que gostava de se definir jornalista, cujo ofício é lidar com a realidade questionando-se como o real tem vez no dia a dia do vasto mundo.

Jornalista, este cético cronista da vida cotidiana, escruta as pedras do caminho, e, assim, vai mapeando as veredas pelas quais o amor, a beleza e a justiça contrastam o terreno infestado de tão profundas desigualdades, deformidades e brutalidades.

Querendo sondar feridas não cicatrizadas, alguns profissionais da escrita, enviesando o olhar pelas entrelinhas das linhas tortas, sabem ouvir “o que se deposita no fundo do fundo do mar de nós mesmos”, conforme diz o itabirano na crônica A mão esquerda.

Todavia, não me afogo no raso do pouco que conheço de mim. As minhas pretensões são modestas, e bem acanhadas diante da vida.

Quem dera tivesse uma gota da agudeza de Clarice Lispector que, mascando um chiclete pela primeira vez, como se ele fosse “bala que dura a vida inteira”, pôs em voz inimitável a tal vivência em Medo da eternidade.

De pronto, a mão traduz em palavras as ideias do escriba?

O que toca fica gravado, a mente, então, trabalha imagens, sons e sentidos. Sim, escrever tem regras marcadas. Mas aposto, não passo o tempo repassando pensamentos. Escrevo, logo jogo.

Contudo, busco o tom próprio ao que escrevo. Nisso, há alegrias e tristezas, êxitos e frustrações. Mas um texto não me agrada de todo, sempre quero aprimorá-lo. Isso desperta sensações viciantes. Assim, antes que a semente apodreça, publico.

Gol de placa?

Para cumprir à risca a escrita desse meu dia, digitei os números que me foram solicitados. Duro foi constatar que o meu dinheiro não era suficiente sequer para o saque mínimo.

Com a cachorra, de cara amarrada, com o reflexo do Luisinho no vidro do caixa a me enxotar “para o inferno da rua inundada de luz”, tratei de ir cuidar da orquídea púrpura que ansiava alguma sobrevida com uns dedinhos de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2021.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O astro

 

O astro

 

Era domingo. Não era um domingo qualquer, pois o Dia das Mães mexia com ela. Não era por toda aquela gente na sua casa, dormira mal porque seus lapsos aumentaram na véspera. Não que fossem de repente, só que não atinava alguma explicação aceitável. O dever de limpar as mãos com álcool em gel vinha depois do erro cometido, e a cabeça censurava-a. Que fosse menos aérea.

Como o domingo teria emoções em profusão, teria de sossegar-se o quanto conseguisse. Precisava ser compreensiva com os demais e consigo. Ou acabaria reduzida a tristezas.

Não era segredo que ficava muito triste quando os filhos, à mesa, discutiam. Para que os bolos e os pudins pudessem ser trazidos sem atropelamento, que não atacassem as saladas com suas entranhas.

Óbvio que nem veriam o quanto tinha caprichado: por temperos, legumes e verduras foi à feira bem cedo; pelas carnes selecionadas com olhar rigoroso foi ao açougue no sábado; pela ilusão de alguma paz no almoço, dispôs cada uma das dezessete pessoas.

Seria bom que patadas não demolissem as fantasias.

Pelo amor aos filhos, amor que a alimentava confiante, sorria, pois o amor de ser condenado a amar a tinha escolhido.

Sorrindo, que o seu sorriso lembrasse os meninos que eles nunca perdessem o respeito a certos valores: a mão solidária nas horas de aperto; o ombro firme nos momentos de aflição.

Para fugir ao mal-estar franco, não abriu a boca. Ter a lucidez de desconfiar dos exageros previne que a razão a enlouqueça.

Sim, que a dor permita andar o fio como sombrinha à consciência. Sim, quando o corpo pende para o lado de quem a faz sofrer, básico é ceder à lentidão que a estabilize e, mantido o juízo, deixar-se doer à medida da recusa a este amor que a quer desequilibrada.

Não, o avesso também a faz padecer. Não deseja tornar-se fonte de dor a quem ama. Que a cautela oriente o jogo de corpo, uma vez que o fio continua desafiador; só que não há de fortalecer a teimosia de estar certa. Que tal presunção não a faça perder o alcance da dor que provoca.

Dizem que uma porta se abre quando outra se fecha. Angustiada, na sua frente tinha a porta que fechara, pois, afobada, nem notou que rodara cento e oitenta graus.

Se estava gira? Faltava açúcar.

Ladrãozinho miserável que rouba a atenção sem que ninguém se dê conta da sua artimanha enquanto a realiza, escapulido no quintal, embriagado por uma felicidade de pimpão exibicionista, Astor pôs-se a farejar aquelas ausências indiscretas: pelo perfume do xampu que lhe era familiar, frustrou-o identificar o rastro do bichano atrevido que desfilou o muro de ponta a ponta; pelo odor fortíssimo, verificou que a poça, entre o latão de lixo e o pé da parede da cozinha, foi deixada por um rato.

Amoroso a seu modo, o vira-lata foi deitar-se bem perto do portão. Que a dona abençoada ditasse com o cheiro de pão quentinho qual o fim de tarde menos vazio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de maio de 2021.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Gênio forte

 

Gênio forte

 

Que a realidade tem vida própria e uma assombrosa quantidade de eventos acontece simultaneamente em cada milímetro do planeta são constatações que não me espantam.

O que me choca é saber que um milésimo de segundo faz muita diferença na vida de cada criatura que há na Terra.

E pensar nos seres vivos e nos mortos, cujos átomos estão em transformação permanente e inesgotável, muito me põe perplexo.

Como o primeiro bombom que vejo, tamanha a perturbação.

Ainda que minha baixíssima imaginação não me habilite a ir além de um ponto vago, informe, abstrato, bem aquém de qualquer esboço grosseiro que alguém dotado de um mínimo de ousadia criativa seria capaz de configurar, não evito a tentação de querer ter uma ideia da coisa toda.

Aqui em casa, por exemplo, na sala, na cozinha, no quarto da mãe e no meu, em cada um destes cômodos há um relógio.

Tenho para mim que é meu dever prioritário consultar o relógio do celular para acertar todos os demais pela hora oficial que o telefone diz qual é, porque o aparelho eletrônico tem recursos para corrigir as distorções automaticamente.

A preocupação leva-me a comer outro bombom, um de flocos.

Aliás, meu dia começou esquisito. Acordei para a minha situação: ridícula. Pois a impaciência me fez exagerar o desconforto de lembrar que logo mais terei de ficar na fila para entrar em uma agência de um banco do qual nem sou correntista, ou o boleto ficará para depois.

Preciso encontrar uma saída que não me faça sofrer tanto.

Sim, a minha cabeça tem dessas de esquentar, ferver, entrar em ebulição, e isso, por sua vez, causa avarias no meu estômago, que também esquenta e ferve. O azedo do bafo tem origem certa.

Faz bem devorar outro bombom? De maracujá.

Um pouco mais calmo, posso me trocar e ajeitar a máscara sem maiores transtornos. Afinal, passarei por contrariedades de variados graus. E como os dias são longos quando as filas não saem do lugar.

Ataco o bombom crocante de amendoim.

Mordo errado. A precipitação me faz mal. Abocanho a casca dura do bombom justo com o dente que está bichado, cuja obturação está comprometida pela cárie, com uma boa parte perdida.

Gargarejo com sal. Tomo aspirina. Ponho um pano quente sobre o lugar. A dor só diminui, não passa.

Acho suportável viver com essa dorzinha chata.

Chata, tão chata, que trato de ir mordiscando um bombom de licor de cacau com muita cautela.

Não sendo nenhum tarado nem nenhum traumatizado, sinto uma ponta de orgulho ao admitir que a minha paciência me permite manter os ponteiros alinhados. Além da inveja da minha resignação a mim, confesso-me confortável em viver atualizado com o mundo. Uma vez que, infalível e impreterivelmente, entre 23h59 e 00h01, há o instante em que um dia acaba e outro começa e é por meio deste momento que o todo se completa e o ciclo segue retornando à permanência da sua transfiguração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2021.

domingo, 9 de maio de 2021

Talvez

 

Talvez

 

Meio atrasado ou meio adiantado? Isso depende de você.

Se está indo, pode estar por pouco, bem perto, quase chegando, com a mão acenando um olá faceiro de quem sabe que teve tempo, que valeu a pena ter mantido o passo, nada de colocar o coração na boca, então, com uma pressa cadenciada, está atrasado.

Agora, se está vindo, pode ser que esteja distante, naquela lonjura que dá uma ansiedade que enerva, os olhos não querendo alcançada a danada da chegada, com o mundo podando nos pés o que parece mais voador do que bala de canhão, portanto, está adiantado.

Pouco mais ou muito menos? Isso depende de mim.

Se estou com fome, querendo tirar da cabeça a estrada que ainda vou percorrer no sol, bebo a saliva que me perturba a ponto de, com o queixo estalando, partir a ideia em bocadinhos que até uma criança engula sem morder, assim, o juízo me acalenta um pouco mais.

Se me pego irritado, mordiscando o lábio inferior, pedindo por uma musiquinha boa para embalar minha soneca depois de uma feijoada esperta, viro fingir ter na ponta da língua a justificativa que não alivia o estresse, repelindo a preguiça, sinto que me agito por muito menos.

Desbragadamente doido ou sutilmente cerebral?

Isso depende de um terceiro.

Sutilmente cerebral, sem pânico, quem está ferrado vai pedindo o direito a ter reconhecida a pretensão da seriedade, como se tivesse sobrando uns pruridos de sabedoria, mesmo que no escuro não use a lanterna com pilhas novas, mesmo com o ar recendendo a mofo, temendo que aranhas e percevejos venham a se aninhar no ouvido e na garganta, torcendo para que uma saída apareça de uma vez por todas, o desbragadamente doido decide bater, então, ele bate, bate furioso na porta somente encostada.

Apático ou atlético? Isso tem tendência a patético.

Com a criançada empoleirada naquela amoreira irresistivelmente carregada de frutinhas carnudas, um fulano metido a dono daquele éden das amoras acha de soltar a matilha de dálmatas, dobermans, perdigueiros e pastores, assim, pulo eu e pula você e todos pulamos, pulgas pipocando em frigideira fervendo, daí caímos fora.

Paranoia de poeta ou tremelique de pateta? Defende-se o enigma.

E uma vez protegido, o enigma cresce como pé de feijão durante a madrugada amena da meia-estação, quando a primavera doce abre mais cedo o seu cândido manto azul sobre quem não para, quando a manhã transpira café com leite e pão com manteiga, repasto bom que embaça a lente dos olhos, mas o escriba respeita o respiro da escrita.

Meio santo, meio tonto? Isso depende da garrafa.

Se for de vinho, tonto. Enrola a língua, perde a estribeira, se mete na salada russa de ficar falando nada com nada, todo besta.

Já a incolor de olor bendito faz o santo que não fecha a matraca, e muge que nem vaca, carpe feito bode e cisca como galinha.

A leveza do juízo pede a ingestão pesada do riso, sim ou não?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2021.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Coração de mãe

 

Coração de mãe

 

O homem está sentado à mesa; tem fome, mas não se deixa levar pela tentação daquela lasanha. Fumegante e suculento, o objeto gera desconforto, infernal por girar-me do sensato ao incontrolável. Então, transbordando uma rebarba de muçarela espetacularmente apetitosa, acabou difícil segurar nas entranhas os vermes do prazer capital.

Além de olhos e boca assanhados, ele tem o fígado e sua vesícula sobrecarregados por tantas delícias causadoras de crises mentais e febres físicas, mas olhos e boca, corajosos seduzidos, não assumem a parte da autoria que lhes cabe.

Sejamos indecorosamente honestos, as posteriores condenações peremptórias do abuso não passam de inútil remorso, sentimento que não nega bulhufas o arco-íris do desdém ao rancor.

Entre o homem que odeia querer daquela forma uma bela lasanha gordurosa e o realizado senhor que ama a altivez funcional das suas vísceras, reina uma zona sombria.

Por um lapso, entre sombras, o opaco parece um norte.

Em pé: à frente, a pia cuja torneira me dará a água fria quando me for necessária; ao lado, as bananas, peras e maçãs que comprei de manhã; às costas, colocando-me no meio de um triângulo com lados quase iguais, sei apenas que tenho lugar à mesa.

Perdido?

Com o mundo teimando querer-se fixado nas minhas retinas, com a realidade cometendo os seus truques tão manjados, com a ilusória estagnação da vida renovando seus malabarismos de salão, com os acontecimentos sem parar de retomar o passado como se o já vivido ancorasse o futuro nos corpos extenuados na luta contra o marasmo, com o instante insistindo em ludibriar meus olhos contrariados, quero entender e compreender o que tanto me aborrece, angustia e aflige.

Isso me orienta e estorva, alegra e irrita, alenta e derrete.

Quando o presente fica represado por uma espiral de notícias que acarretam mais e mais notícias, a mim me escandaliza permanecer enredado pelas tramas fantasmagóricas desse pretenso contínuo.

Feito mosca a suplicar que a brisa do meio-dia me mostre como a teia está ligada às árvores do desgosto, dou importância aos fatos. E os fatos me devoram sem trégua, dia e noite, pois fatos importantes têm fama alavancada por minha audiência de míope impressionado pela avalanche que me encarcera na atenção de pessoa embaçada.

Invisível pela exposição excessiva, obsediante pela presença sem folga, o instante que não passa me quer preso ao agora.

Agora?

Na falta de pão, armam o circo.

Na falta criminosa de vacinas, multiplicam-se os óbitos.

Na falta monstruosa de compaixão, é infame quem odiento.

Entre este memorioso melancólico que mistura banana amassada com aveia em flocos e este esperançoso que não comerá os próprios dedos, penso outra hora, vivo pela aurora, trabalho um outro agora.

Já!

Por seu coração em que amores florescem, saúdo Dona Hermínia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2021.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Alguma prosa

 

Alguma prosa

 

Não é porque seja outono, nem que seja maio, nem mesmo que a posição do Brasil no globo terrestre tenha relação com o fato, nada disso, é porque o sol tem este costume de seguir as suas regras de maneira cristalina: para dar um pulo no Japão, há o crepúsculo.

Então, quando a noite começa, tem quem defina o momento como uma experiência única. Alguns até se entusiasmam e a consideram a mais romanticamente poética do dia. Para alegria desses nefelibatas, a Terra gira e, todos os dias, ocorre a maravilha que os encantam.

Assim, com a escuridão coalhando-se de estrelas, os amantes de retinas aguçadas viram mariposas em torno de ideia tão brilhante.

Baixadas as portas, meu amigo e eu tocamos a nossa prosa.

Nossos olhos sabem do caminho enquanto vamos. Os nossos pés conhecem as pedras pelas passadas que prevemos. Nossas palavras trazem a noite, o céu estrelado e o deslumbramento dos apaixonados sem nos determos. A realidade não basta, por isso não calamos.

Conversamos banalidades, falamos misérias, e logo as discórdias frutificam. O silêncio entre as frases não é um monstro a nos fustigar os neurônios. Opinamos com tristeza: casmurros são os outros.

Tragamos nossos cigarros, batemos nossas cinzas e a conversa que mantemos nem toca em cigarros e cinzas. Não fumamos porque falamos. Falando e fumando, vamos indo. Ainda que nossos pulmões andem precisando de um rastro menos tóxico, fumamos a céu aberto.

Não digo que somos tão imbecis, pois temos clareza sobre o que nos afeta. Antagônicos, quando vejo na lua o espelho do sol, ele nem pisca ao me enquadrar poeta com esse luar feito um reflexo.

Ora, toleramos um ao outro porque as nossas querelas insolúveis dão vida a essa ternura a contrapelo que tanto cultivamos.

Sabe aquela história de oito ou oitenta?

Se não fôssemos tão radicais em nossas visões, não haveria este lugar que temos em comum: a amizade.

Quando verdadeiro, o amigo estranha contradições numa pessoa pudorosa quanto a manter-se coerente no dia a dia.

Todavia humanos, improvisamos.

Inflamos nosso bote com o ar que expelimos quando disparamos a querer justificar nossas incongruências de náufragos amadores. Só que não nos contenta sobrevivermos, experimentamos o sal da água e bolamos engenhocas que tornem doce o amargo. Ao fim e ao cabo, bebemos os nossos perdigotos.

Ao meu novo aceno à multidão que acha que vive de nuvens, ele toma da sua realidade o que melhor embase o seu ponto: há um pai e um filho que vivem nas ruas, nem por isso merecem dele o mesmo tratamento.

Sem estardalhaço, o menino cumprimenta ao entrar, tira o boné ao sentar-se, come o prato feito que lhe é servido e, agradecido, sai.

Aos gritos, o outro quer pinga, moedas, as sobras do almoço e vai amaldiçoando a mão nada solidária.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra?

À flor da lua, especulo: aprendo a nadar nadando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2021.

domingo, 2 de maio de 2021

O filme da minha vida

 

O filme da minha vida

 

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio, caramba, a fera nada melhor do que eu, que situação terrível a minha, pois meu cachorrinho é horrível, sério, e o bicho não desiste, já deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés, puxa vida, e tenho tanto medo que nem olho, e como me angustio, minha nossa, engulo tanta água que desesperadamente tusso.

Impede-me a tosse de perpetrar uma barbaridade, a de me achar o último caçador de bestas com vontade aguda de matar. E tossir não apaga a manhã ensolarando a minha coragem de mentiroso.

Com a goela seca, até parece que saio do sonho de alma lavada.

Por meus botões, esses conselheiros da consciência nem sempre alerta, descubro que o meu otimismo gosta de reclamar à esperança a insatisfação de algum desejo. Fonte de segredos tornados públicos quando falha na vigilância dos meus recônditos irrequietos, a minha cabeça trama que me sacie a luta pelo que me falta.

Em outras palavras, não há felicidade que me convença a ficar em paz quando as meias úmidas me transportam pelo pesadelo de ter os pulmões tomados por bacilos tão ativos.

E reajo à brevidade de um dia?

Ajoelho-me.

Não rezo nem rezarei, mantenho os calcanhares sensíveis ao tiro de largada. Olho em linha reta; a fita a cem metros; ouço os aplausos. Segundos depois, a sensação do desastre. Porque o bloco está solto, os tênis fustigam os calos, um sabiá canta a um milésimo do disparo, a arquibancada está vazia, tenho alergia a ouro.

Com a coroa de louros exalando o cheiro da sensatez, inebria-me pensar que consigo dissimular o meu bem-estar. Como quem faz do fracasso a base do sucesso, entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios, olímpicos ou chinfrins. Porém, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse algo imperativo, e, quiçá convincente, cubro a cara com um sorriso.

Por quê? Rugas ficam simpáticas quando sorrio.

Com um fraco para tibiezas, vejo no bagre um salmão, e felicito a água em cuja fluidez plácida piranhas não pululam. Acenando, desejo fartura aos pescadores atrás de comida e alguns quilos para venda.

Flutuando, deixo-me fisgar pelo cochilo. Indolente, bebendo uma cachaça, não ministro a tilápias um vale-sonho. Lambendo os beiços, avivo o fogo que liberta das postas fragrâncias saborosíssimas.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, não defendo o meu pão como um ator que se alimenta das câmeras.

Quero defender a pele da gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado, entra em cena este coitado lavando as unhadas e a bocada na minha destra. Pena que o sabão seja apenas detergente e não tenha superpoderes, porque eu queria a minha canhota inábil o bastante para digitar com maior comicidade a derradeira palavra:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2021.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Ato criminoso

 

Ato criminoso

 

Talvez o ângulo não seja dos melhores, isso, porém, não autoriza imaginar situações mirabolantes em que o destino do mundo esteja em jogo. A sua cabeça delira por bem pouco; então, o que tinha ali era um pacote provavelmente esquecido por alguém distraído.

Nada de tomá-lo como material tóxico ou bomba, que isso, sim, cairia bem em um filme espetacular, arrasa-quarteirão, no qual até os mocinhos são vilões na bravura tão eletrizante, sensacional e pueril.

Pelas circunstâncias do andamento do caso, estando impedido de ver-se ao se deparar com o tal embrulho na mureta da escolinha de educação infantil, seria de bom-tom avisá-lo de que a sua expressão era de um tolo pego com um mistério apocalíptico nas mãos.

Mergulhado nesta fantasia mandraque de enxergar-se destinado à glória, achega-se um ruidoso trio: avó, seu filho e a sua neta.

Você conhece o quadro: no abraço camarada, para disfarçar o seu constrangimento, a mão estendida, escandalosamente não apertada, dá tapinhas anêmicos nas costas cordiais daquela pessoa, cujo nome acaba preso na ponta da língua.

A senhora que sempre fica satisfeita em dar um beijinho na face direita resolve, sem aviso nenhum, que um só não basta e tasca outro na cara de quem busca desesperadamente um buraco no chão.

E a menina malvada ri das suas maçãs ruborizadas.

Pense bem, a vergonha tem olhos que não sabem como disfarçar a timidez que embaraça tanto, e de tal forma, que magoa.

Esse olhar magoado, no entanto, raramente brota em quem tem o que dizer e diz. Os olhos, em quem não duvida da necessidade de ter o que dizer, têm o brilho perturbador de gente certa da mensagem a ser dita. Com voz firme e olhos vidrados, diz e pronto.

Assim devidamente ignorado, flor sem água, seu olhar murcha.

Enquanto o homem segue falando de si e vai acrescentando mais outras camadas de si, a avó (mãe do enfadonho tagarela) e a filha do umbigo do mundo (a sua amada netinha) se entreolham e, sardônicas e cúmplices, elas piscam e sorriem.

Neste ponto, já que a realidade não tem camarins para que possa alegar urgência em preparar-se para uma cena menos deprimente, os seus lábios tremem de leve, tartamudos, a querer contar algo.

Aquela esquina, há muito, fora um terreno baldio. Naquele tempo, o rapazote, longe dos trajetos que costumava fazer, passava e, para seu assombro, deparou-se com o circo.

Tinha visto um na TV. Além do formato, a lona trazia estampado o nome em mágicas cores vivas: Circo-Teatro Sonhos do Mundo.

Entretanto, aquela recordação singela, de uma tristeza serena, foi cortada pela algazarra da criança que teimava em tirar-lhe das mãos aquela peça de vidro.

O que será?

Não é um crânio nem suas mãos são as de Laurence Olivier a dar às gentes uma fala de Hamlet, o objeto é um reles, e muito útil, copo.

Devolvê-lo à caixa não o inocentará do papelão de tê-la aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2021.