quinta-feira, 29 de abril de 2021

Ato criminoso

 

Ato criminoso

 

Talvez o ângulo não seja dos melhores, isso, porém, não autoriza imaginar situações mirabolantes em que o destino do mundo esteja em jogo. A sua cabeça delira por bem pouco; então, o que tinha ali era um pacote provavelmente esquecido por alguém distraído.

Nada de tomá-lo como material tóxico ou bomba, que isso, sim, cairia bem em um filme espetacular, arrasa-quarteirão, no qual até os mocinhos são vilões na bravura tão eletrizante, sensacional e pueril.

Pelas circunstâncias do andamento do caso, estando impedido de ver-se ao se deparar com o tal embrulho na mureta da escolinha de educação infantil, seria de bom-tom avisá-lo de que a sua expressão era de um tolo pego com um mistério apocalíptico nas mãos.

Mergulhado nesta fantasia mandraque de enxergar-se destinado à glória, achega-se um ruidoso trio: avó, seu filho e a sua neta.

Você conhece o quadro: no abraço camarada, para disfarçar o seu constrangimento, a mão estendida, escandalosamente não apertada, dá tapinhas anêmicos nas costas cordiais daquela pessoa, cujo nome acaba preso na ponta da língua.

A senhora que sempre fica satisfeita em dar um beijinho na face direita resolve, sem aviso nenhum, que um só não basta e tasca outro na cara de quem busca desesperadamente um buraco no chão.

E a menina malvada ri das suas maçãs ruborizadas.

Pense bem, a vergonha tem olhos que não sabem como disfarçar a timidez que embaraça tanto, e de tal forma, que magoa.

Esse olhar magoado, no entanto, raramente brota em quem tem o que dizer e diz. Os olhos, em quem não duvida da necessidade de ter o que dizer, têm o brilho perturbador de gente certa da mensagem a ser dita. Com voz firme e olhos vidrados, diz e pronto.

Assim devidamente ignorado, flor sem água, seu olhar murcha.

Enquanto o homem segue falando de si e vai acrescentando mais outras camadas de si, a avó (mãe do enfadonho tagarela) e a filha do umbigo do mundo (a sua amada netinha) se entreolham e, sardônicas e cúmplices, elas piscam e sorriem.

Neste ponto, já que a realidade não tem camarins para que possa alegar urgência em preparar-se para uma cena menos deprimente, os seus lábios tremem de leve, tartamudos, a querer contar algo.

Aquela esquina, há muito, fora um terreno baldio. Naquele tempo, o rapazote, longe dos trajetos que costumava fazer, passava e, para seu assombro, deparou-se com o circo.

Tinha visto um na TV. Além do formato, a lona trazia estampado o nome em mágicas cores vivas: Circo-Teatro Sonhos do Mundo.

Entretanto, aquela recordação singela, de uma tristeza serena, foi cortada pela algazarra da criança que teimava em tirar-lhe das mãos aquela peça de vidro.

O que será?

Não é um crânio nem suas mãos são as de Laurence Olivier a dar às gentes uma fala de Hamlet, o objeto é um reles, e muito útil, copo.

Devolvê-lo à caixa não o inocentará do papelão de tê-la aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2021.

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