Ato
criminoso
Talvez o ângulo não seja dos melhores,
isso, porém, não autoriza imaginar situações mirabolantes em que o destino do
mundo esteja em jogo. A sua cabeça delira por bem pouco; então, o que tinha ali
era um pacote provavelmente esquecido por alguém distraído.
Nada de tomá-lo como material tóxico ou bomba,
que isso, sim, cairia bem em um filme espetacular, arrasa-quarteirão, no qual
até os mocinhos são vilões na bravura tão eletrizante, sensacional e pueril.
Pelas circunstâncias do andamento do
caso, estando impedido de ver-se ao se deparar com o tal embrulho na mureta da
escolinha de educação infantil, seria de bom-tom avisá-lo de que a sua expressão
era de um tolo pego com um mistério apocalíptico nas mãos.
Mergulhado nesta fantasia mandraque de enxergar-se
destinado à glória, achega-se um ruidoso trio: avó, seu filho e a sua neta.
Você conhece o quadro: no abraço
camarada, para disfarçar o seu constrangimento, a mão estendida, escandalosamente
não apertada, dá tapinhas anêmicos nas costas cordiais daquela pessoa, cujo
nome acaba preso na ponta da língua.
A senhora que sempre fica satisfeita em
dar um beijinho na face direita resolve, sem aviso nenhum, que um só não basta
e tasca outro na cara de quem busca desesperadamente um buraco no chão.
E a menina malvada ri das suas maçãs
ruborizadas.
Pense bem, a vergonha tem olhos que não
sabem como disfarçar a timidez que embaraça tanto, e de tal forma, que magoa.
Esse olhar magoado, no entanto,
raramente brota em quem tem o que dizer e diz. Os olhos, em quem não duvida da
necessidade de ter o que dizer, têm o brilho perturbador de gente certa da
mensagem a ser dita. Com voz firme e olhos vidrados, diz e pronto.
Assim devidamente ignorado, flor sem
água, seu olhar murcha.
Enquanto o homem segue falando de si e vai
acrescentando mais outras camadas de si, a avó (mãe do enfadonho tagarela) e a
filha do umbigo do mundo (a sua amada netinha) se entreolham e, sardônicas e
cúmplices, elas piscam e sorriem.
Neste ponto, já que a realidade não tem
camarins para que possa alegar urgência em preparar-se para uma cena menos deprimente,
os seus lábios tremem de leve, tartamudos, a querer contar algo.
Aquela esquina, há muito, fora um
terreno baldio. Naquele tempo, o rapazote, longe dos trajetos que costumava fazer,
passava e, para seu assombro, deparou-se com o circo.
Tinha visto um na TV. Além do formato, a
lona trazia estampado o nome em mágicas cores vivas: Circo-Teatro Sonhos do
Mundo.
Entretanto, aquela recordação singela,
de uma tristeza serena, foi cortada pela algazarra da criança que teimava em
tirar-lhe das mãos aquela peça de vidro.
O que será?
Não é um crânio nem suas mãos são as de
Laurence Olivier a dar às gentes uma fala de Hamlet, o objeto é um reles, e
muito útil, copo.
Devolvê-lo à caixa não o inocentará do
papelão de tê-la aberto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de abril de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário