Alguma
prosa
Não é porque seja outono, nem que seja
maio, nem mesmo que a posição do Brasil no globo terrestre tenha relação com o
fato, nada disso, é porque o sol tem este costume de seguir as suas regras de
maneira cristalina: para dar um pulo no Japão, há o crepúsculo.
Então, quando a noite começa, tem quem defina
o momento como uma experiência única. Alguns até se entusiasmam e a consideram
a mais romanticamente poética do dia. Para alegria desses nefelibatas, a Terra
gira e, todos os dias, ocorre a maravilha que os encantam.
Assim, com a escuridão coalhando-se de
estrelas, os amantes de retinas aguçadas viram mariposas em torno de ideia tão
brilhante.
Baixadas as portas, meu amigo e eu tocamos
a nossa prosa.
Nossos olhos sabem do caminho enquanto
vamos. Os nossos pés conhecem as pedras pelas passadas que prevemos. Nossas
palavras trazem a noite, o céu estrelado e o deslumbramento dos apaixonados sem
nos determos. A realidade não basta, por isso não calamos.
Conversamos banalidades, falamos
misérias, e logo as discórdias frutificam. O silêncio entre as frases não é um
monstro a nos fustigar os neurônios. Opinamos com tristeza: casmurros são os outros.
Tragamos nossos cigarros, batemos nossas
cinzas e a conversa que mantemos nem toca em cigarros e cinzas. Não fumamos
porque falamos. Falando e fumando, vamos indo. Ainda que nossos pulmões andem
precisando de um rastro menos tóxico, fumamos a céu aberto.
Não digo que somos tão imbecis, pois temos
clareza sobre o que nos afeta. Antagônicos, quando vejo na lua o espelho do
sol, ele nem pisca ao me enquadrar poeta com esse luar feito um reflexo.
Ora, toleramos um ao outro porque as
nossas querelas insolúveis dão vida a essa ternura a contrapelo que tanto cultivamos.
Sabe aquela história de oito ou oitenta?
Se não fôssemos tão radicais em nossas
visões, não haveria este lugar que temos em comum: a amizade.
Quando verdadeiro, o amigo estranha
contradições numa pessoa pudorosa quanto a manter-se coerente no dia a dia.
Todavia humanos, improvisamos.
Inflamos nosso bote com o ar que
expelimos quando disparamos a querer justificar nossas incongruências de
náufragos amadores. Só que não nos contenta sobrevivermos, experimentamos o sal
da água e bolamos engenhocas que tornem doce o amargo. Ao fim e ao cabo,
bebemos os nossos perdigotos.
Ao meu novo aceno à multidão que acha
que vive de nuvens, ele toma da sua realidade o que melhor embase o seu ponto:
há um pai e um filho que vivem nas ruas, nem por isso merecem dele o mesmo
tratamento.
Sem estardalhaço, o menino cumprimenta
ao entrar, tira o boné ao sentar-se, come o prato feito que lhe é servido e,
agradecido, sai.
Aos gritos, o outro quer pinga, moedas,
as sobras do almoço e vai amaldiçoando a mão nada solidária.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra?
À flor da lua, especulo: aprendo a nadar
nadando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de maio de 2021.
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