terça-feira, 4 de maio de 2021

Alguma prosa

 

Alguma prosa

 

Não é porque seja outono, nem que seja maio, nem mesmo que a posição do Brasil no globo terrestre tenha relação com o fato, nada disso, é porque o sol tem este costume de seguir as suas regras de maneira cristalina: para dar um pulo no Japão, há o crepúsculo.

Então, quando a noite começa, tem quem defina o momento como uma experiência única. Alguns até se entusiasmam e a consideram a mais romanticamente poética do dia. Para alegria desses nefelibatas, a Terra gira e, todos os dias, ocorre a maravilha que os encantam.

Assim, com a escuridão coalhando-se de estrelas, os amantes de retinas aguçadas viram mariposas em torno de ideia tão brilhante.

Baixadas as portas, meu amigo e eu tocamos a nossa prosa.

Nossos olhos sabem do caminho enquanto vamos. Os nossos pés conhecem as pedras pelas passadas que prevemos. Nossas palavras trazem a noite, o céu estrelado e o deslumbramento dos apaixonados sem nos determos. A realidade não basta, por isso não calamos.

Conversamos banalidades, falamos misérias, e logo as discórdias frutificam. O silêncio entre as frases não é um monstro a nos fustigar os neurônios. Opinamos com tristeza: casmurros são os outros.

Tragamos nossos cigarros, batemos nossas cinzas e a conversa que mantemos nem toca em cigarros e cinzas. Não fumamos porque falamos. Falando e fumando, vamos indo. Ainda que nossos pulmões andem precisando de um rastro menos tóxico, fumamos a céu aberto.

Não digo que somos tão imbecis, pois temos clareza sobre o que nos afeta. Antagônicos, quando vejo na lua o espelho do sol, ele nem pisca ao me enquadrar poeta com esse luar feito um reflexo.

Ora, toleramos um ao outro porque as nossas querelas insolúveis dão vida a essa ternura a contrapelo que tanto cultivamos.

Sabe aquela história de oito ou oitenta?

Se não fôssemos tão radicais em nossas visões, não haveria este lugar que temos em comum: a amizade.

Quando verdadeiro, o amigo estranha contradições numa pessoa pudorosa quanto a manter-se coerente no dia a dia.

Todavia humanos, improvisamos.

Inflamos nosso bote com o ar que expelimos quando disparamos a querer justificar nossas incongruências de náufragos amadores. Só que não nos contenta sobrevivermos, experimentamos o sal da água e bolamos engenhocas que tornem doce o amargo. Ao fim e ao cabo, bebemos os nossos perdigotos.

Ao meu novo aceno à multidão que acha que vive de nuvens, ele toma da sua realidade o que melhor embase o seu ponto: há um pai e um filho que vivem nas ruas, nem por isso merecem dele o mesmo tratamento.

Sem estardalhaço, o menino cumprimenta ao entrar, tira o boné ao sentar-se, come o prato feito que lhe é servido e, agradecido, sai.

Aos gritos, o outro quer pinga, moedas, as sobras do almoço e vai amaldiçoando a mão nada solidária.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra?

À flor da lua, especulo: aprendo a nadar nadando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2021.

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