A balada das vidraças alvoroçadas
Na
rua, em situação desgraçada, catando rejeitos de abacaxis mal descascados,
atalhando pelo arroz com feijão das marquises varridas por crachás bem-ajambrados,
espera que as vidraças aflorem o vento que anuncia outra tarde retumbante das
velhas amizades velhas.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Velhas
amigas velhas cirandam.
À janela, com pulmões carunchados, ataviando
alegrias de coração bem passado, aviando tristezas de diamante mal lapidado, espera
que as vidraças impecáveis permitam bendizer a ciranda entusiasmada das contagiantes
velhas amizades velhas.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Velhos
amigos velhos cirandam.
De
olhar demiúrgico, focal, afetando um rosto despido das rusgas mal resolvidas, confeitando
uma carinha lavada por saliva bem acética, espera que as vidraças inabaláveis sigam
surdas a maldições rogadas à roda das adoráveis velhas amizades velhas.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Na
lona, sem bolsos remendados, ciscando uns passinhos tímidos de frango na muda, cercando
as galinhas imaginárias que cacarejam à solta, espera que as vidraças indevassáveis
resguardem as virtudes das veneráveis velhas amizades velhas.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Na
bossa novidadeira, feraz, gorando gerânios ungidos por urina de sal descalibrado,
gozando asseclas de cassetetes de tacanha atitude, espera que as vidraças tão
solidárias protejam mais do que a fachada intocável das velhas amizades velhas.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Neste
chão mundano, sacrifiquem-se olhos petrificados pelas dores crônicas,
mumifiquem-se andrajos pestilentos; curem-se do mal curtido no bem negado ꟷ não
espere que as vidraças infrangíveis estilhacem as velhas amizades velhas.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Sem
abismos intransponíveis que hipnotizam, escolhendo arestas íngremes vencidas
por braços indomáveis, escalando planos arejados por revoltas não sufocantes, não
espere que as vidraças alérgicas aos ares renovados não asfixiem como velhas
amizades velhas.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Com
amores tolhidos na fonte, sequioso de viver a serviço da vida, desejoso de
revolucionar o mundo, redirecione as energias aviltadas, revele às arrogantes vidraças
hostis o ódio regenerador que solapa as pervertidas, abjetas e velhas, velhas
amizades velhas.
Velhas
amigas velhas cirandam.
Velhos
amigos velhos cirandam.
Por
amar alvoradas, por querer auroras, por cantar as primaveras, por brindar o sol
coradouro, por aspirar ao meio-dia a luz que dissipa a névoa dos ossos, que a
balada frutifique em amizades novas.
Para
que cirandem as amigas e os amigos.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 25 de maio de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário