terça-feira, 25 de maio de 2021

A balada das vidraças alvoroçadas

 

A balada das vidraças alvoroçadas

 

Na rua, em situação desgraçada, catando rejeitos de abacaxis mal descascados, atalhando pelo arroz com feijão das marquises varridas por crachás bem-ajambrados, espera que as vidraças aflorem o vento que anuncia outra tarde retumbante das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

À  janela, com pulmões carunchados, ataviando alegrias de coração bem passado, aviando tristezas de diamante mal lapidado, espera que as vidraças impecáveis permitam bendizer a ciranda entusiasmada das contagiantes velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

De olhar demiúrgico, focal, afetando um rosto despido das rusgas mal resolvidas, confeitando uma carinha lavada por saliva bem acética, espera que as vidraças inabaláveis sigam surdas a maldições rogadas à roda das adoráveis velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Na lona, sem bolsos remendados, ciscando uns passinhos tímidos de frango na muda, cercando as galinhas imaginárias que cacarejam à solta, espera que as vidraças indevassáveis resguardem as virtudes das veneráveis velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Na bossa novidadeira, feraz, gorando gerânios ungidos por urina de sal descalibrado, gozando asseclas de cassetetes de tacanha atitude, espera que as vidraças tão solidárias protejam mais do que a fachada intocável das velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Neste chão mundano, sacrifiquem-se olhos petrificados pelas dores crônicas, mumifiquem-se andrajos pestilentos; curem-se do mal curtido no bem negado ꟷ não espere que as vidraças infrangíveis estilhacem as velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Sem abismos intransponíveis que hipnotizam, escolhendo arestas íngremes vencidas por braços indomáveis, escalando planos arejados por revoltas não sufocantes, não espere que as vidraças alérgicas aos ares renovados não asfixiem como velhas amizades velhas.

Velhos amigos velhos cirandam.

Velhas amigas velhas cirandam.

Com amores tolhidos na fonte, sequioso de viver a serviço da vida, desejoso de revolucionar o mundo, redirecione as energias aviltadas, revele às arrogantes vidraças hostis o ódio regenerador que solapa as pervertidas, abjetas e velhas, velhas amizades velhas.

Velhas amigas velhas cirandam.

Velhos amigos velhos cirandam.

Por amar alvoradas, por querer auroras, por cantar as primaveras, por brindar o sol coradouro, por aspirar ao meio-dia a luz que dissipa a névoa dos ossos, que a balada frutifique em amizades novas.

Para que cirandem as amigas e os amigos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2021.


Nenhum comentário:

Postar um comentário