domingo, 9 de maio de 2021

Talvez

 

Talvez

 

Meio atrasado ou meio adiantado? Isso depende de você.

Se está indo, pode estar por pouco, bem perto, quase chegando, com a mão acenando um olá faceiro de quem sabe que teve tempo, que valeu a pena ter mantido o passo, nada de colocar o coração na boca, então, com uma pressa cadenciada, está atrasado.

Agora, se está vindo, pode ser que esteja distante, naquela lonjura que dá uma ansiedade que enerva, os olhos não querendo alcançada a danada da chegada, com o mundo podando nos pés o que parece mais voador do que bala de canhão, portanto, está adiantado.

Pouco mais ou muito menos? Isso depende de mim.

Se estou com fome, querendo tirar da cabeça a estrada que ainda vou percorrer no sol, bebo a saliva que me perturba a ponto de, com o queixo estalando, partir a ideia em bocadinhos que até uma criança engula sem morder, assim, o juízo me acalenta um pouco mais.

Se me pego irritado, mordiscando o lábio inferior, pedindo por uma musiquinha boa para embalar minha soneca depois de uma feijoada esperta, viro fingir ter na ponta da língua a justificativa que não alivia o estresse, repelindo a preguiça, sinto que me agito por muito menos.

Desbragadamente doido ou sutilmente cerebral?

Isso depende de um terceiro.

Sutilmente cerebral, sem pânico, quem está ferrado vai pedindo o direito a ter reconhecida a pretensão da seriedade, como se tivesse sobrando uns pruridos de sabedoria, mesmo que no escuro não use a lanterna com pilhas novas, mesmo com o ar recendendo a mofo, temendo que aranhas e percevejos venham a se aninhar no ouvido e na garganta, torcendo para que uma saída apareça de uma vez por todas, o desbragadamente doido decide bater, então, ele bate, bate furioso na porta somente encostada.

Apático ou atlético? Isso tem tendência a patético.

Com a criançada empoleirada naquela amoreira irresistivelmente carregada de frutinhas carnudas, um fulano metido a dono daquele éden das amoras acha de soltar a matilha de dálmatas, dobermans, perdigueiros e pastores, assim, pulo eu e pula você e todos pulamos, pulgas pipocando em frigideira fervendo, daí caímos fora.

Paranoia de poeta ou tremelique de pateta? Defende-se o enigma.

E uma vez protegido, o enigma cresce como pé de feijão durante a madrugada amena da meia-estação, quando a primavera doce abre mais cedo o seu cândido manto azul sobre quem não para, quando a manhã transpira café com leite e pão com manteiga, repasto bom que embaça a lente dos olhos, mas o escriba respeita o respiro da escrita.

Meio santo, meio tonto? Isso depende da garrafa.

Se for de vinho, tonto. Enrola a língua, perde a estribeira, se mete na salada russa de ficar falando nada com nada, todo besta.

Já a incolor de olor bendito faz o santo que não fecha a matraca, e muge que nem vaca, carpe feito bode e cisca como galinha.

A leveza do juízo pede a ingestão pesada do riso, sim ou não?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2021.

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