O
filme da minha vida
Com um baita tigre-de-bengala no meu
encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio, caramba, a fera nada melhor do que
eu, que situação terrível a minha, pois meu cachorrinho é horrível, sério, e o
bicho não desiste, já deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés, puxa vida, e
tenho tanto medo que nem olho, e como me angustio, minha nossa, engulo tanta
água que desesperadamente tusso.
Impede-me a tosse de perpetrar uma
barbaridade, a de me achar o último caçador de bestas com vontade aguda de
matar. E tossir não apaga a manhã ensolarando a minha coragem de mentiroso.
Com a goela seca, até parece que saio do
sonho de alma lavada.
Por meus botões, esses conselheiros da
consciência nem sempre alerta, descubro que o meu otimismo gosta de reclamar à
esperança a insatisfação de algum desejo. Fonte de segredos tornados públicos
quando falha na vigilância dos meus recônditos irrequietos, a minha cabeça trama
que me sacie a luta pelo que me falta.
Em outras palavras, não há felicidade
que me convença a ficar em paz quando as meias úmidas me transportam pelo
pesadelo de ter os pulmões tomados por bacilos tão ativos.
E reajo à brevidade de um dia?
Ajoelho-me.
Não rezo nem rezarei, mantenho os
calcanhares sensíveis ao tiro de largada. Olho em linha reta; a fita a cem
metros; ouço os aplausos. Segundos depois, a sensação do desastre. Porque o
bloco está solto, os tênis fustigam os calos, um sabiá canta a um milésimo do
disparo, a arquibancada está vazia, tenho alergia a ouro.
Com a coroa de louros exalando o cheiro
da sensatez, inebria-me pensar que consigo dissimular o meu bem-estar. Como
quem faz do fracasso a base do sucesso, entrego a redação à professora.
Posso negar a alegria de estar no alto
do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios, olímpicos ou chinfrins. Porém,
quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se
fosse algo imperativo, e, quiçá convincente, cubro a cara com um sorriso.
Por quê? Rugas ficam simpáticas quando
sorrio.
Com um fraco para tibiezas, vejo no
bagre um salmão, e felicito a água em cuja fluidez plácida piranhas não pululam.
Acenando, desejo fartura aos pescadores atrás de comida e alguns quilos para
venda.
Flutuando, deixo-me fisgar pelo cochilo.
Indolente, bebendo uma cachaça, não ministro a tilápias um vale-sonho. Lambendo
os beiços, avivo o fogo que liberta das postas fragrâncias saborosíssimas.
Sem vocação para pregar jejuns a um faquir,
não defendo o meu pão como um ator que se alimenta das câmeras.
Quero defender a pele da gatinha
espevitada das garras do gatão mal-humorado, entra em cena este coitado lavando
as unhadas e a bocada na minha destra. Pena que o sabão seja apenas detergente
e não tenha superpoderes, porque eu queria a minha canhota inábil o bastante
para digitar com maior comicidade a derradeira palavra:
SIM
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de maio de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário