domingo, 2 de maio de 2021

O filme da minha vida

 

O filme da minha vida

 

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio, caramba, a fera nada melhor do que eu, que situação terrível a minha, pois meu cachorrinho é horrível, sério, e o bicho não desiste, já deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés, puxa vida, e tenho tanto medo que nem olho, e como me angustio, minha nossa, engulo tanta água que desesperadamente tusso.

Impede-me a tosse de perpetrar uma barbaridade, a de me achar o último caçador de bestas com vontade aguda de matar. E tossir não apaga a manhã ensolarando a minha coragem de mentiroso.

Com a goela seca, até parece que saio do sonho de alma lavada.

Por meus botões, esses conselheiros da consciência nem sempre alerta, descubro que o meu otimismo gosta de reclamar à esperança a insatisfação de algum desejo. Fonte de segredos tornados públicos quando falha na vigilância dos meus recônditos irrequietos, a minha cabeça trama que me sacie a luta pelo que me falta.

Em outras palavras, não há felicidade que me convença a ficar em paz quando as meias úmidas me transportam pelo pesadelo de ter os pulmões tomados por bacilos tão ativos.

E reajo à brevidade de um dia?

Ajoelho-me.

Não rezo nem rezarei, mantenho os calcanhares sensíveis ao tiro de largada. Olho em linha reta; a fita a cem metros; ouço os aplausos. Segundos depois, a sensação do desastre. Porque o bloco está solto, os tênis fustigam os calos, um sabiá canta a um milésimo do disparo, a arquibancada está vazia, tenho alergia a ouro.

Com a coroa de louros exalando o cheiro da sensatez, inebria-me pensar que consigo dissimular o meu bem-estar. Como quem faz do fracasso a base do sucesso, entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios, olímpicos ou chinfrins. Porém, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse algo imperativo, e, quiçá convincente, cubro a cara com um sorriso.

Por quê? Rugas ficam simpáticas quando sorrio.

Com um fraco para tibiezas, vejo no bagre um salmão, e felicito a água em cuja fluidez plácida piranhas não pululam. Acenando, desejo fartura aos pescadores atrás de comida e alguns quilos para venda.

Flutuando, deixo-me fisgar pelo cochilo. Indolente, bebendo uma cachaça, não ministro a tilápias um vale-sonho. Lambendo os beiços, avivo o fogo que liberta das postas fragrâncias saborosíssimas.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, não defendo o meu pão como um ator que se alimenta das câmeras.

Quero defender a pele da gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado, entra em cena este coitado lavando as unhadas e a bocada na minha destra. Pena que o sabão seja apenas detergente e não tenha superpoderes, porque eu queria a minha canhota inábil o bastante para digitar com maior comicidade a derradeira palavra:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2021.

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