O
astro
Era domingo. Não era um domingo
qualquer, pois o Dia das Mães mexia com ela. Não era por toda aquela gente na
sua casa, dormira mal porque seus lapsos aumentaram na véspera. Não que fossem
de repente, só que não atinava alguma explicação aceitável. O dever de limpar
as mãos com álcool em gel vinha depois do erro cometido, e a cabeça
censurava-a. Que fosse menos aérea.
Como o domingo teria emoções em
profusão, teria de sossegar-se o quanto conseguisse. Precisava ser compreensiva
com os demais e consigo. Ou acabaria reduzida a tristezas.
Não era segredo que ficava muito triste quando
os filhos, à mesa, discutiam. Para que os bolos e os pudins pudessem ser trazidos
sem atropelamento, que não atacassem as saladas com suas entranhas.
Óbvio que nem veriam o quanto tinha
caprichado: por temperos, legumes e verduras foi à feira bem cedo; pelas carnes
selecionadas com olhar rigoroso foi ao açougue no sábado; pela ilusão de alguma
paz no almoço, dispôs cada uma das dezessete pessoas.
Seria bom que patadas não demolissem as
fantasias.
Pelo amor aos filhos, amor que a alimentava
confiante, sorria, pois o amor de ser condenado a amar a tinha escolhido.
Sorrindo, que o seu sorriso lembrasse os
meninos que eles nunca perdessem o respeito a certos valores: a mão solidária
nas horas de aperto; o ombro firme nos momentos de aflição.
Para fugir ao mal-estar franco, não abriu
a boca. Ter a lucidez de desconfiar dos exageros previne que a razão a enlouqueça.
Sim, que a dor permita andar o fio como
sombrinha à consciência. Sim, quando o corpo pende para o lado de quem a faz
sofrer, básico é ceder à lentidão que a estabilize e, mantido o juízo,
deixar-se doer à medida da recusa a este amor que a quer desequilibrada.
Não, o avesso também a faz padecer. Não
deseja tornar-se fonte de dor a quem ama. Que a cautela oriente o jogo de
corpo, uma vez que o fio continua desafiador; só que não há de fortalecer a
teimosia de estar certa. Que tal presunção não a faça perder o alcance da dor
que provoca.
Dizem que uma porta se abre quando outra
se fecha. Angustiada, na sua frente tinha a porta que fechara, pois, afobada,
nem notou que rodara cento e oitenta graus.
Se estava gira? Faltava açúcar.
Ladrãozinho miserável que rouba a
atenção sem que ninguém se dê conta da sua artimanha enquanto a realiza, escapulido
no quintal, embriagado por uma felicidade de pimpão exibicionista, Astor pôs-se
a farejar aquelas ausências indiscretas: pelo perfume do xampu que lhe era familiar,
frustrou-o identificar o rastro do bichano atrevido que desfilou o muro de
ponta a ponta; pelo odor fortíssimo, verificou que a poça, entre o latão de
lixo e o pé da parede da cozinha, foi deixada por um rato.
Amoroso a seu modo, o vira-lata foi deitar-se
bem perto do portão. Que a dona abençoada ditasse com o cheiro de pão quentinho
qual o fim de tarde menos vazio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de maio de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário