terça-feira, 18 de maio de 2021

Vago lume noturno

 

Vago lume noturno

 

Eis o que foi dito por sicrano:

Desperto no meio da noite escura. Nem abro os olhos. Sei que o quarto está imerso na escuridão. Vai alta a madrugada. Desprotegida, a minha careca está gelada. Não confiro, afirmo. E isso me basta.

Posso estar errado. Por podê-lo, erro com moderação. Uso a mente para relacionar alho com bugalho. Confundo as coisas, torno dificultoso apontar qual o joio, qual o trigo.

Vislumbro sem detença um campo dourado, não apenas receptivo à luminosidade do sol. Tal horizonte me fascina. Afeito à beleza, deixo que o desejo de um bem-estar momentâneo me ofusque.

Deslumbrado com a amplitude do espaço aberto, me pego a pensar o infinito. Magnífica, é realidade revestida como ideia sem fim.

Que visão soberba. Sobrevivo aos meus instintos que me querem projetando uma lua nas retinas estressadas.

Adoro o vento noturno. Tenho os olhos ardendo, sinto que o vento pode me abrandar o incômodo que há dias me aborrece.

Não vou voltar a dormir. Estou aliviado por estar acordado.

Se a lógica turvasse o pensamento, seria besteira.

Tomo a tolice como veneno que a mim me fortalece. Portanto, não tenho sono, estou de olho. Mais forte, estou mentalmente habilitado a me julgar imparcial.

Senhor da razão, vejo o que vejo e sinto o que sinto.

Não estou disposto a lamentar que o mundo insista em contradizer os meus mais verdadeiros sentimentos. Veridicamente sinceros, uma vez que os acabei de gerar.

De olhos fechados na escuridão, não me dispenso de contar o que sei. Sigo sensato, deixo a respiração controlar os fluxos cerebrais.

Certo de que estou errado, percebo uma dormência no olhar.

Reforço, o sono não mastigará o meu entusiasmo de ter descoberto que o universo quer queimar os meus neurônios.

Esperto, continuo respirando. Desperto, não deliro fora da noite.

Sinto-me bem, com minhas faculdades mentais me estimulando.

Pois é, o chato na cama só fica ocupado com conversinha?

Chega a ser grotesco respingar dúvidas na cachola que sabe que não sonha de olhos amargurados. Estou calmo. Minha consciência diz o campo que jorra ouro ao sol que obscurece o éter das esferas.

Desnecessário querer me corrigir, pois o ar que me mantém vivo é o mesmo ar que me oxigena a mente.

Feito vento a renovar o ar do quarto, o colírio da madrugada faz um bem danado. Não abro as janelas nem os olhos porque a brisa noturna é desintoxicante.

Enxergo de olhos mareados. Náufrago de pijama, posso enxergar o que meus olhos querem que eu veja quando não me enxergo a seco.

Nem penso nisso.

E que sensação boa! E que instante brilhante!

Este instante pede que a sua história seja contada. Que beleza. É momento tão, tão luminoso que até me seduz.

Tantas são as platitudes que fomento que algum sobressalto me faz recordá-lo outro?

Não é lorota o que não minto.

Dito até que foi, mas beltrano fez que se esqueceu de ouvir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2021.

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