Vago
lume noturno
Eis o que foi dito por sicrano:
Desperto no meio da noite escura. Nem
abro os olhos. Sei que o quarto está imerso na escuridão. Vai alta a madrugada.
Desprotegida, a minha careca está gelada. Não confiro, afirmo. E isso me basta.
Posso estar errado. Por podê-lo, erro
com moderação. Uso a mente para relacionar alho com bugalho. Confundo as coisas,
torno dificultoso apontar qual o joio, qual o trigo.
Vislumbro sem detença um campo dourado,
não apenas receptivo à luminosidade do sol. Tal horizonte me fascina. Afeito à
beleza, deixo que o desejo de um bem-estar momentâneo me ofusque.
Deslumbrado com a amplitude do espaço
aberto, me pego a pensar o infinito. Magnífica, é realidade revestida como
ideia sem fim.
Que visão soberba. Sobrevivo aos meus
instintos que me querem projetando uma lua nas retinas estressadas.
Adoro o vento noturno. Tenho os olhos
ardendo, sinto que o vento pode me abrandar o incômodo que há dias me aborrece.
Não vou voltar a dormir. Estou aliviado
por estar acordado.
Se a lógica turvasse o pensamento, seria
besteira.
Tomo a tolice como veneno que a mim me
fortalece. Portanto, não tenho sono, estou de olho. Mais forte, estou
mentalmente habilitado a me julgar imparcial.
Senhor da razão, vejo o que vejo e sinto
o que sinto.
Não estou disposto a lamentar que o
mundo insista em contradizer os meus mais verdadeiros sentimentos. Veridicamente
sinceros, uma vez que os acabei de gerar.
De olhos fechados na escuridão, não me
dispenso de contar o que sei. Sigo sensato, deixo a respiração controlar os
fluxos cerebrais.
Certo de que estou errado, percebo uma dormência
no olhar.
Reforço, o sono não mastigará o meu
entusiasmo de ter descoberto que o universo quer queimar os meus neurônios.
Esperto, continuo respirando. Desperto,
não deliro fora da noite.
Sinto-me bem, com minhas faculdades
mentais me estimulando.
Pois é, o chato na cama só fica ocupado
com conversinha?
Chega a ser grotesco respingar dúvidas
na cachola que sabe que não sonha de olhos amargurados. Estou calmo. Minha
consciência diz o campo que jorra ouro ao sol que obscurece o éter das esferas.
Desnecessário querer me corrigir, pois o
ar que me mantém vivo é o mesmo ar que me oxigena a mente.
Feito vento a renovar o ar do quarto, o
colírio da madrugada faz um bem danado. Não abro as janelas nem os olhos porque
a brisa noturna é desintoxicante.
Enxergo de olhos mareados. Náufrago de pijama,
posso enxergar o que meus olhos querem que eu veja quando não me enxergo a seco.
Nem penso nisso.
E que sensação boa! E que instante
brilhante!
Este instante pede que a sua história
seja contada. Que beleza. É momento tão, tão luminoso que até me seduz.
Tantas são as platitudes que fomento que
algum sobressalto me faz recordá-lo outro?
Não é lorota o que não minto.
Dito até que foi, mas beltrano fez que se
esqueceu de ouvir.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de maio de 2021.
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