Gênio
forte
Que a realidade tem vida própria e uma assombrosa
quantidade de eventos acontece simultaneamente em cada milímetro do planeta são
constatações que não me espantam.
O que me choca é saber que um milésimo
de segundo faz muita diferença na vida de cada criatura que há na Terra.
E pensar nos seres vivos e nos mortos, cujos
átomos estão em transformação permanente e inesgotável, muito me põe perplexo.
Como o primeiro bombom que vejo, tamanha
a perturbação.
Ainda que minha baixíssima imaginação não
me habilite a ir além de um ponto vago, informe, abstrato, bem aquém de
qualquer esboço grosseiro que alguém dotado de um mínimo de ousadia criativa
seria capaz de configurar, não evito a tentação de querer ter uma ideia da
coisa toda.
Aqui em casa, por exemplo, na sala, na
cozinha, no quarto da mãe e no meu, em cada um destes cômodos há um relógio.
Tenho para mim que é meu dever prioritário
consultar o relógio do celular para acertar todos os demais pela hora oficial
que o telefone diz qual é, porque o aparelho eletrônico tem recursos para
corrigir as distorções automaticamente.
A preocupação leva-me a comer outro
bombom, um de flocos.
Aliás, meu dia começou esquisito. Acordei
para a minha situação: ridícula. Pois a impaciência me fez exagerar o
desconforto de lembrar que logo mais terei de ficar na fila para entrar em uma
agência de um banco do qual nem sou correntista, ou o boleto ficará para
depois.
Preciso encontrar uma saída que não me
faça sofrer tanto.
Sim, a minha cabeça tem dessas de esquentar,
ferver, entrar em ebulição, e isso, por sua vez, causa avarias no meu estômago,
que também esquenta e ferve. O azedo do bafo tem origem certa.
Faz bem devorar outro bombom? De
maracujá.
Um pouco mais calmo, posso me trocar e
ajeitar a máscara sem maiores transtornos. Afinal, passarei por contrariedades
de variados graus. E como os dias são longos quando as filas não saem do lugar.
Ataco o bombom crocante de amendoim.
Mordo errado. A precipitação me faz mal.
Abocanho a casca dura do bombom justo com o dente que está bichado, cuja
obturação está comprometida pela cárie, com uma boa parte perdida.
Gargarejo com sal. Tomo aspirina. Ponho
um pano quente sobre o lugar. A dor só diminui, não passa.
Acho suportável viver com essa dorzinha
chata.
Chata, tão chata, que trato de ir
mordiscando um bombom de licor de cacau com muita cautela.
Não sendo nenhum tarado nem nenhum
traumatizado, sinto uma ponta de orgulho ao admitir que a minha paciência me
permite manter os ponteiros alinhados. Além da inveja da minha resignação a
mim, confesso-me confortável em viver atualizado com o mundo. Uma vez que, infalível
e impreterivelmente, entre 23h59 e 00h01, há o instante em que um dia acaba e
outro começa e é por meio deste momento que o todo se completa e o ciclo segue retornando
à permanência da sua transfiguração.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de maio de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário