terça-feira, 11 de maio de 2021

Gênio forte

 

Gênio forte

 

Que a realidade tem vida própria e uma assombrosa quantidade de eventos acontece simultaneamente em cada milímetro do planeta são constatações que não me espantam.

O que me choca é saber que um milésimo de segundo faz muita diferença na vida de cada criatura que há na Terra.

E pensar nos seres vivos e nos mortos, cujos átomos estão em transformação permanente e inesgotável, muito me põe perplexo.

Como o primeiro bombom que vejo, tamanha a perturbação.

Ainda que minha baixíssima imaginação não me habilite a ir além de um ponto vago, informe, abstrato, bem aquém de qualquer esboço grosseiro que alguém dotado de um mínimo de ousadia criativa seria capaz de configurar, não evito a tentação de querer ter uma ideia da coisa toda.

Aqui em casa, por exemplo, na sala, na cozinha, no quarto da mãe e no meu, em cada um destes cômodos há um relógio.

Tenho para mim que é meu dever prioritário consultar o relógio do celular para acertar todos os demais pela hora oficial que o telefone diz qual é, porque o aparelho eletrônico tem recursos para corrigir as distorções automaticamente.

A preocupação leva-me a comer outro bombom, um de flocos.

Aliás, meu dia começou esquisito. Acordei para a minha situação: ridícula. Pois a impaciência me fez exagerar o desconforto de lembrar que logo mais terei de ficar na fila para entrar em uma agência de um banco do qual nem sou correntista, ou o boleto ficará para depois.

Preciso encontrar uma saída que não me faça sofrer tanto.

Sim, a minha cabeça tem dessas de esquentar, ferver, entrar em ebulição, e isso, por sua vez, causa avarias no meu estômago, que também esquenta e ferve. O azedo do bafo tem origem certa.

Faz bem devorar outro bombom? De maracujá.

Um pouco mais calmo, posso me trocar e ajeitar a máscara sem maiores transtornos. Afinal, passarei por contrariedades de variados graus. E como os dias são longos quando as filas não saem do lugar.

Ataco o bombom crocante de amendoim.

Mordo errado. A precipitação me faz mal. Abocanho a casca dura do bombom justo com o dente que está bichado, cuja obturação está comprometida pela cárie, com uma boa parte perdida.

Gargarejo com sal. Tomo aspirina. Ponho um pano quente sobre o lugar. A dor só diminui, não passa.

Acho suportável viver com essa dorzinha chata.

Chata, tão chata, que trato de ir mordiscando um bombom de licor de cacau com muita cautela.

Não sendo nenhum tarado nem nenhum traumatizado, sinto uma ponta de orgulho ao admitir que a minha paciência me permite manter os ponteiros alinhados. Além da inveja da minha resignação a mim, confesso-me confortável em viver atualizado com o mundo. Uma vez que, infalível e impreterivelmente, entre 23h59 e 00h01, há o instante em que um dia acaba e outro começa e é por meio deste momento que o todo se completa e o ciclo segue retornando à permanência da sua transfiguração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário