Coração
de mãe
O homem está sentado à mesa; tem fome, mas
não se deixa levar pela tentação daquela lasanha. Fumegante e suculento, o
objeto gera desconforto, infernal por girar-me do sensato ao incontrolável. Então,
transbordando uma rebarba de muçarela espetacularmente apetitosa, acabou
difícil segurar nas entranhas os vermes do prazer capital.
Além de olhos e boca assanhados, ele tem
o fígado e sua vesícula sobrecarregados por tantas delícias causadoras de
crises mentais e febres físicas, mas olhos e boca, corajosos seduzidos, não
assumem a parte da autoria que lhes cabe.
Sejamos indecorosamente honestos, as posteriores
condenações peremptórias do abuso não passam de inútil remorso, sentimento que
não nega bulhufas o arco-íris do desdém ao rancor.
Entre o homem que odeia querer daquela
forma uma bela lasanha gordurosa e o realizado senhor que ama a altivez
funcional das suas vísceras, reina uma zona sombria.
Por um lapso, entre sombras, o opaco
parece um norte.
Em pé: à frente, a pia cuja torneira me
dará a água fria quando me for necessária; ao lado, as bananas, peras e maçãs que
comprei de manhã; às costas, colocando-me no meio de um triângulo com lados
quase iguais, sei apenas que tenho lugar à mesa.
Perdido?
Com o mundo teimando querer-se fixado
nas minhas retinas, com a realidade cometendo os seus truques tão manjados, com
a ilusória estagnação da vida renovando seus malabarismos de salão, com os
acontecimentos sem parar de retomar o passado como se o já vivido ancorasse o
futuro nos corpos extenuados na luta contra o marasmo, com o instante insistindo
em ludibriar meus olhos contrariados, quero entender e compreender o que tanto
me aborrece, angustia e aflige.
Isso me orienta e estorva, alegra e
irrita, alenta e derrete.
Quando o presente fica represado por uma
espiral de notícias que acarretam mais e mais notícias, a mim me escandaliza
permanecer enredado pelas tramas fantasmagóricas desse pretenso contínuo.
Feito mosca a suplicar que a brisa do
meio-dia me mostre como a teia está ligada às árvores do desgosto, dou
importância aos fatos. E os fatos me devoram sem trégua, dia e noite, pois
fatos importantes têm fama alavancada por minha audiência de míope
impressionado pela avalanche que me encarcera na atenção de pessoa embaçada.
Invisível pela exposição excessiva,
obsediante pela presença sem folga, o instante que não passa me quer preso ao agora.
Agora?
Na falta de pão, armam o circo.
Na falta criminosa de vacinas,
multiplicam-se os óbitos.
Na falta monstruosa de compaixão, é
infame quem odiento.
Entre este memorioso melancólico que
mistura banana amassada com aveia em flocos e este esperançoso que não comerá
os próprios dedos, penso outra hora, vivo pela aurora, trabalho um outro agora.
Já!
Por seu coração em que amores florescem,
saúdo Dona Hermínia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de maio de 2021.
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