quinta-feira, 6 de maio de 2021

Coração de mãe

 

Coração de mãe

 

O homem está sentado à mesa; tem fome, mas não se deixa levar pela tentação daquela lasanha. Fumegante e suculento, o objeto gera desconforto, infernal por girar-me do sensato ao incontrolável. Então, transbordando uma rebarba de muçarela espetacularmente apetitosa, acabou difícil segurar nas entranhas os vermes do prazer capital.

Além de olhos e boca assanhados, ele tem o fígado e sua vesícula sobrecarregados por tantas delícias causadoras de crises mentais e febres físicas, mas olhos e boca, corajosos seduzidos, não assumem a parte da autoria que lhes cabe.

Sejamos indecorosamente honestos, as posteriores condenações peremptórias do abuso não passam de inútil remorso, sentimento que não nega bulhufas o arco-íris do desdém ao rancor.

Entre o homem que odeia querer daquela forma uma bela lasanha gordurosa e o realizado senhor que ama a altivez funcional das suas vísceras, reina uma zona sombria.

Por um lapso, entre sombras, o opaco parece um norte.

Em pé: à frente, a pia cuja torneira me dará a água fria quando me for necessária; ao lado, as bananas, peras e maçãs que comprei de manhã; às costas, colocando-me no meio de um triângulo com lados quase iguais, sei apenas que tenho lugar à mesa.

Perdido?

Com o mundo teimando querer-se fixado nas minhas retinas, com a realidade cometendo os seus truques tão manjados, com a ilusória estagnação da vida renovando seus malabarismos de salão, com os acontecimentos sem parar de retomar o passado como se o já vivido ancorasse o futuro nos corpos extenuados na luta contra o marasmo, com o instante insistindo em ludibriar meus olhos contrariados, quero entender e compreender o que tanto me aborrece, angustia e aflige.

Isso me orienta e estorva, alegra e irrita, alenta e derrete.

Quando o presente fica represado por uma espiral de notícias que acarretam mais e mais notícias, a mim me escandaliza permanecer enredado pelas tramas fantasmagóricas desse pretenso contínuo.

Feito mosca a suplicar que a brisa do meio-dia me mostre como a teia está ligada às árvores do desgosto, dou importância aos fatos. E os fatos me devoram sem trégua, dia e noite, pois fatos importantes têm fama alavancada por minha audiência de míope impressionado pela avalanche que me encarcera na atenção de pessoa embaçada.

Invisível pela exposição excessiva, obsediante pela presença sem folga, o instante que não passa me quer preso ao agora.

Agora?

Na falta de pão, armam o circo.

Na falta criminosa de vacinas, multiplicam-se os óbitos.

Na falta monstruosa de compaixão, é infame quem odiento.

Entre este memorioso melancólico que mistura banana amassada com aveia em flocos e este esperançoso que não comerá os próprios dedos, penso outra hora, vivo pela aurora, trabalho um outro agora.

Já!

Por seu coração em que amores florescem, saúdo Dona Hermínia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2021.

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