A
promessa do futuro existe, você a vê. Por poder distingui-la como o ponto que
vem de lá, daquela névoa em que o mar oceano e o céu oceano suspendem a clareza,
comove-se ao vê-la. Onde floresce um, onde germina outro? Pois tal perspectiva
sugere uma ansiedade que mobiliza, e você a aceita, acolhe e aconchega.
Nutre-se pela promessa de que é possível uma esperança menos cerrada, pois o
encontro do mar com o céu dá horizonte a quem trancafiado no íntimo de si, como
a abrir-se à ideia de ser que o faz humano a pensar-se:
Flui
quem não sou porque já fui quem serei sendo quem flui.
Você
não dispensa filosofar como pessoa que pensa além dos pés calçados por chinelos
a ostentar aquelas unhas por cortar e aquém do sorvete de coco a derreter
porque, matutando, custa a lambê-lo.
Longe,
bem longe, num lugar que lhe escapa da capacidade mental de calcular com alguma
precisão, você se arrisca a batizar como barco de pesca a embarcação que
navega, quiçá uma tainheira que volta.
Ainda
que nomeá-lo barco de pescadores de tainhas seja apenas uma aposta necessária a
você para ultrapassar o bando de surfistas que está interposto entre o vórtice
extremo dessa figura em cujo ângulo reto sua moringa ferve ao sol, que fecha a
forma.
A
alegria de banhar-se nessas águas de ondinhas mansas acaba definhando em sua
mente, porque aquela areia toda o desanima.
Ainda
que banhistas gritem felicidades mil, fervilham as micoses. Ainda que moças
continuem papeando sobre esteirinhas, você não se mexe. Ainda que crianças
empinem pipas, o seu lugar é ali.
Há
um gavião sobranceiro na caçamba que não comporta sequer mais um saco de lixo.
Todo este resto só aumenta porque a cupidez o define material inútil,
descartável; o que é, no fundo, contestável.
Desancorar-se
dessa lógica geométrica transpira açodamentos.
Avisando
que tem e-mail novo, o telefone vibra. Você arremessa o palito na lixeira, e
acerta. Quer saber de quem é a mensagem, e bufa mais ainda depois de ler a
caixa-alta que berra o assunto:
PARIS
É UMA FESTA!
Não
era sem tempo que o exibido iria se manifestar. Com a Cidade Luz renascendo,
era óbvio que o bacana iria à forra. Nada mais certo que esteja armando o
manjado: outra festança.
Mas
as fronteiras não estão fechadas a brasileiras e brasileiros?
Ora,
você não duvida que o finório ande fazendo uma finesse.
Se
Paris barra quem tão vivamente a louva sempre radiante, uma soirée
culturelle viria a calhar.
Que
o Louvre venha brilhar no seu lar. Que a Mona Lisa sorria aos seus adoradores.
Que A Barca de Dante não naufrague na ignorância. Que A Rendeira siga tecendo em
dignidade sutil.
Está
na cara que o espertalhão deve ter instalado uma big de uma gigantesca
tela de borda infinita para exceder em realismo com zilhões de pixels,
cuja vista humana nem pode alcançar.
Para
não embarcar nessa insanidade, você apaga o e-mail.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 23 de maio de 2021.
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