Linhas
tortas
ꟷ Está perdido, poeta?
Era evidente que não. Estava aborrecido.
O acesso à minha conta fora barrado pelo sistema. Isto é, meu dedão não tivera
reconhecida a informação biométrica cadastrada como pertencente a mim.
Sem cabeça para amolações bisonhas, pois
tinha recebido convite para falar a estudantes, queria pensar com carinho de
que modo iria abordar o tema que me foi indicado: a escrita.
Então, chegou este Luisinho com sua
leitura equivocada da minha cara. Logo ele que é camarada amigo, sujeito que me
conhece muito bem porque convivemos desde miúdos, falantes em fraldas.
Que decepção. Uma pessoa tão íntima
achar-me mergulhado em especulações metafísicas, representante do perfil que tantos
atribuem aos poetas. Como se este versejador desiludido me condenasse ao lugar
comum de sonhador que vive em uma torre de marfim a tirar a água que bebe das
nuvens etéreas do mundo da lua.
Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade
que gostava de se definir jornalista, cujo ofício é lidar com a realidade questionando-se
como o real tem vez no dia a dia do vasto mundo.
Jornalista, este cético cronista da vida
cotidiana, escruta as pedras do caminho, e, assim, vai mapeando as veredas
pelas quais o amor, a beleza e a justiça contrastam o terreno infestado de tão profundas
desigualdades, deformidades e brutalidades.
Querendo sondar feridas não
cicatrizadas, alguns profissionais da escrita, enviesando o olhar pelas
entrelinhas das linhas tortas, sabem ouvir “o que se deposita no fundo do fundo
do mar de nós mesmos”, conforme diz o itabirano na crônica A mão esquerda.
Todavia, não me afogo no raso do pouco
que conheço de mim. As minhas pretensões são modestas, e bem acanhadas diante
da vida.
Quem dera tivesse uma gota da agudeza de
Clarice Lispector que, mascando um chiclete pela primeira vez, como se ele fosse
“bala que dura a vida inteira”, pôs em voz inimitável a tal vivência em Medo
da eternidade.
De pronto, a mão traduz em palavras as
ideias do escriba?
O que toca fica gravado, a mente, então,
trabalha imagens, sons e sentidos. Sim, escrever tem regras marcadas. Mas
aposto, não passo o tempo repassando pensamentos. Escrevo, logo jogo.
Contudo, busco o tom próprio ao que escrevo.
Nisso, há alegrias e tristezas, êxitos e frustrações. Mas um texto não me agrada
de todo, sempre quero aprimorá-lo. Isso desperta sensações viciantes. Assim,
antes que a semente apodreça, publico.
Gol de placa?
Para cumprir à risca a escrita desse meu
dia, digitei os números que me foram solicitados. Duro foi constatar que o meu dinheiro
não era suficiente sequer para o saque mínimo.
Com a cachorra, de cara amarrada, com o
reflexo do Luisinho no vidro do caixa a me enxotar “para o inferno da rua
inundada de luz”, tratei de ir cuidar da orquídea púrpura que ansiava alguma
sobrevida com uns dedinhos de água.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de maio de 2021.
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