domingo, 16 de maio de 2021

Linhas tortas

 

Linhas tortas

 

ꟷ Está perdido, poeta?

Era evidente que não. Estava aborrecido. O acesso à minha conta fora barrado pelo sistema. Isto é, meu dedão não tivera reconhecida a informação biométrica cadastrada como pertencente a mim.

Sem cabeça para amolações bisonhas, pois tinha recebido convite para falar a estudantes, queria pensar com carinho de que modo iria abordar o tema que me foi indicado: a escrita.

Então, chegou este Luisinho com sua leitura equivocada da minha cara. Logo ele que é camarada amigo, sujeito que me conhece muito bem porque convivemos desde miúdos, falantes em fraldas.

Que decepção. Uma pessoa tão íntima achar-me mergulhado em especulações metafísicas, representante do perfil que tantos atribuem aos poetas. Como se este versejador desiludido me condenasse ao lugar comum de sonhador que vive em uma torre de marfim a tirar a água que bebe das nuvens etéreas do mundo da lua.

Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade que gostava de se definir jornalista, cujo ofício é lidar com a realidade questionando-se como o real tem vez no dia a dia do vasto mundo.

Jornalista, este cético cronista da vida cotidiana, escruta as pedras do caminho, e, assim, vai mapeando as veredas pelas quais o amor, a beleza e a justiça contrastam o terreno infestado de tão profundas desigualdades, deformidades e brutalidades.

Querendo sondar feridas não cicatrizadas, alguns profissionais da escrita, enviesando o olhar pelas entrelinhas das linhas tortas, sabem ouvir “o que se deposita no fundo do fundo do mar de nós mesmos”, conforme diz o itabirano na crônica A mão esquerda.

Todavia, não me afogo no raso do pouco que conheço de mim. As minhas pretensões são modestas, e bem acanhadas diante da vida.

Quem dera tivesse uma gota da agudeza de Clarice Lispector que, mascando um chiclete pela primeira vez, como se ele fosse “bala que dura a vida inteira”, pôs em voz inimitável a tal vivência em Medo da eternidade.

De pronto, a mão traduz em palavras as ideias do escriba?

O que toca fica gravado, a mente, então, trabalha imagens, sons e sentidos. Sim, escrever tem regras marcadas. Mas aposto, não passo o tempo repassando pensamentos. Escrevo, logo jogo.

Contudo, busco o tom próprio ao que escrevo. Nisso, há alegrias e tristezas, êxitos e frustrações. Mas um texto não me agrada de todo, sempre quero aprimorá-lo. Isso desperta sensações viciantes. Assim, antes que a semente apodreça, publico.

Gol de placa?

Para cumprir à risca a escrita desse meu dia, digitei os números que me foram solicitados. Duro foi constatar que o meu dinheiro não era suficiente sequer para o saque mínimo.

Com a cachorra, de cara amarrada, com o reflexo do Luisinho no vidro do caixa a me enxotar “para o inferno da rua inundada de luz”, tratei de ir cuidar da orquídea púrpura que ansiava alguma sobrevida com uns dedinhos de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2021.

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