quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pensamento positivo

 

Pensamento positivo

 

Depois do almoço, com os afazeres em dia, vou zanzando, certo de que o assunto para crônica aparecerá, e tal certeza põe-me tranquilo.

A tranquilidade colabora para a digestão, do que comi à mesa e do que acontece enquanto ando. Sem que esta atrapalhe aquela de modo desastroso, embora fatalmente os acasos trombem comigo.

Satisfeito da vida, creio que consigo me manter ligado ao entorno. Basta a realidade não me levar a escolher alternativas nem pensadas e tudo vai seguir sem sobressaltos.

No entanto, dou azar, porque esta minha figura sossegada passa a impressão de pessoa que não corre de cachorro que late. Acham-me capaz de manter a fleuma mesmo com bicho de presas arreganhadas a me confrontar. Como não sou de fazer de conta que tenho a valentia dos heróis, nem bem a fera ameace atacar, arredo pé.

Adeus, distinto cavalheiro.

E a rua conhece este fracote, medroso, mais um sobrevivente, tão logo furo sinal vermelho, ignoro faixa de pedestre e tiro a máscara de gente boa, de ponderado.

Tomado pelo embaraço desta vexatória atuação, esbaforido, suado e melindroso, já entro pedindo uma dose de caninha enquanto sumo no banheiro.

Com a esperança de ter vencido a sanha humana de rir de minhas canelas muito pouco treinadas, volto e viro o copo no balcão.

Seguro o fogo nas tripas e digo boas-tardes a todos. Todo mundo e mais o dono, a quem dirijo o sorrisinho de bom moço que sabe das coisas do mundo pelo mundo mesmo. Uma vez que assisto a canais de notícias e leio jornais e revistas. E não duvido que isso me instrui, educa e faz de mim outro homem.

Alguém melhor, que não fuma, dorme cedo, masca folhas de boldo.

Melhor seria se parasse de beber, mas cachaça é tão danada que a paz da minha alma depende de mais uma. Aliás, me controlo.

Já meio alegrinho, a felicidade que me anima sabe que a razão tem ilusões. Faço o condutor parar no lugar certo, na hora certa.

Sim, o universo conspira a meu favor. Tenho fé, afinal sei manter o juízo. E raciocino rápido quando fico bebum.

Convicto de minhas virtudes, bem no momento que estou virando a terceira ou quarta dose, quem não me conhece chega grunhindo para o meu lado.

Bufando suas fumaças, vem babando uma palavra atrás de outra. Sem tirar nem pôr, diz que o seu maior pecado é ser gente que gosta de gente. O que o torna alvo de quem o inveja. Que a malícia afia as línguas que o destratam. Coisa dos sóbrios de maldade.

Prefiro a TV. Queria ver a sessão política, só que a baba voa beijar meus óculos. Queria muito que aqueles perdigotos dessem-me força para ir embora, porém, entre a antipatia e a simpatia, há esse fogo que atiça os vermes.

Gargalhando como o quê, o fanfarrão apita que o general da banda faz fanfarra para farda, fardão e bandalheiras.

Caraca! A besta tem pulmões tão potentes que lhe pago uma birita em troca do apito, que guardo no bolso para não enguiçar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2021.

 

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