Pensamento
positivo
Depois do almoço, com os afazeres em
dia, vou zanzando, certo de que o assunto para crônica aparecerá, e tal certeza
põe-me tranquilo.
A tranquilidade colabora para a
digestão, do que comi à mesa e do que acontece enquanto ando. Sem que esta
atrapalhe aquela de modo desastroso, embora fatalmente os acasos trombem comigo.
Satisfeito da vida, creio que consigo me
manter ligado ao entorno. Basta a realidade não me levar a escolher alternativas
nem pensadas e tudo vai seguir sem sobressaltos.
No entanto, dou azar, porque esta minha
figura sossegada passa a impressão de pessoa que não corre de cachorro que
late. Acham-me capaz de manter a fleuma mesmo com bicho de presas arreganhadas
a me confrontar. Como não sou de fazer de conta que tenho a valentia dos
heróis, nem bem a fera ameace atacar, arredo pé.
Adeus, distinto cavalheiro.
E a rua conhece este fracote, medroso,
mais um sobrevivente, tão logo furo sinal vermelho, ignoro faixa de pedestre e
tiro a máscara de gente boa, de ponderado.
Tomado pelo embaraço desta vexatória
atuação, esbaforido, suado e melindroso, já entro pedindo uma dose de caninha enquanto
sumo no banheiro.
Com a esperança de ter vencido a sanha humana
de rir de minhas canelas muito pouco treinadas, volto e viro o copo no balcão.
Seguro o fogo nas tripas e digo
boas-tardes a todos. Todo mundo e mais o dono, a quem dirijo o sorrisinho de
bom moço que sabe das coisas do mundo pelo mundo mesmo. Uma vez que assisto a
canais de notícias e leio jornais e revistas. E não duvido que isso me instrui,
educa e faz de mim outro homem.
Alguém melhor, que não fuma, dorme cedo,
masca folhas de boldo.
Melhor seria se parasse de beber, mas
cachaça é tão danada que a paz da minha alma depende de mais uma. Aliás, me
controlo.
Já meio alegrinho, a felicidade que me
anima sabe que a razão tem ilusões. Faço o condutor parar no lugar certo, na
hora certa.
Sim, o universo conspira a meu favor.
Tenho fé, afinal sei manter o juízo. E raciocino rápido quando fico bebum.
Convicto de minhas virtudes, bem no
momento que estou virando a terceira ou quarta dose, quem não me conhece chega grunhindo
para o meu lado.
Bufando suas fumaças, vem babando uma
palavra atrás de outra. Sem tirar nem pôr, diz que o seu maior pecado é ser
gente que gosta de gente. O que o torna alvo de quem o inveja. Que a malícia
afia as línguas que o destratam. Coisa dos sóbrios de maldade.
Prefiro a TV. Queria ver a sessão
política, só que a baba voa beijar meus óculos. Queria muito que aqueles
perdigotos dessem-me força para ir embora, porém, entre a antipatia e a
simpatia, há esse fogo que atiça os vermes.
Gargalhando como o quê, o fanfarrão
apita que o general da banda faz fanfarra para farda, fardão e bandalheiras.
Caraca! A besta tem pulmões tão potentes
que lhe pago uma birita em troca do apito, que guardo no bolso para não
enguiçar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de maio de 2021.
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