Ele
disse: “não”, “não sei” e “já falei que não sei”.
Com
tantos nãos ditos em sequência, sua mente tinha mesmo que enveredar por
algum caminho menos sombrio.
Sem
ligar para a garoa na careca, desceu a rua em vez de subir.
Entrou
no comércio da esquina. Todavia, só entrou ali para ganhar distância de um pitbull
invocado que vinha protegido por um bombado brutamontes sem focinheira. Numa
hora dessas, sobreviver é vacina.
Nem
bem estando dentro, a ajuda que não carecia foi-lhe oferecida com a presteza de
quem sufocado por dívidas a granel.
Aceitou
que precisava urgentemente de sementes de girassol.
Que
realmente eram necessários dois pacotes para atender a sua demanda, no entanto,
já era um sinal evidente de uma impressionante habilidade humana, a telepatia.
Espantado
com a interação mental, pagou no cartão. E o fez porque o dinheiro ainda não
tinha asas para vir cantar bonito na sua carteira.
Que
alívio ter carteira no bolso. Que alegria redobrada ter cartão de crédito no
bolso. Que espetáculo poder sorrir satisfeito por ainda dispor de algum crédito.
Ou o cartão seria só mais um objeto inútil, de plástico vagabundo, tão inimigo
da natureza.
Tinha
esquecido que a agência saíra do seu trajeto como algo bem natural, sem deixar
sequelas, tiques ou inflexões imponderáveis.
Afinal,
nem se lembrava de que economizar três reais numa compra de um quilo extra de
comida para passarinho era sua imprescindível e incontornável prioridade.
Opalá!
A memória piscou o alerta.
Parado
à porta do estabelecimento de viva importância a sua atual condição de pessoa
não portadora de bicho engaiolado, uma dúvida mostrou-se atroz: semente de
girassol alimenta aves de que tipo?
Como
lhe foi prontamente comunicado, muitos são os tipos de aves comedoras de sementes
de girassol.
Tem
ave: que canta de madrugada; que canta na hora do almoço; que canta sem que sol
e chuva influenciem na cantoria.
Que
diversidade surpreendente.
Tanto
diversa quanto misteriosa é a natureza, emendou o vendedor com a tarimba visionária
para morder feliz um bom dinheiro, já o senhor fique sabendo que o sabiá, sim,
o nosso velho amigo sabiá que canta nas madrugadas, muita gente tem a
facilidade de chamar o bichinho de sabiaúna, sabiatinga, da restinga, da praia,
do campo, do sertão, da campina, capoeira, tropeiro, da mata-virgem, do
mato-grosso, ferreiro, sabiapoca, cachorro, cara-de-gato, coleira, barranco,
branco, cinzento, piri, laranja, laranjeira, barriga-vermelha, verdadeiro, ponga,
gongá, e, o senhor nem me olhe torto porque sei disso tudo, tem quem chame o inocente
de sabichão-do-papo-amarelo.
Caçamba!
E
pensar que todo este conhecimento poderia permanecer ignorado se o cidadão não
tivesse participado de modo tão positivo da pesquisa eleitoral. Apesar do
número desconhecido.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 01 de junho de 2021.