quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pensamento positivo

 

Pensamento positivo

 

Depois do almoço, com os afazeres em dia, vou zanzando, certo de que o assunto para crônica aparecerá, e tal certeza põe-me tranquilo.

A tranquilidade colabora para a digestão, do que comi à mesa e do que acontece enquanto ando. Sem que esta atrapalhe aquela de modo desastroso, embora fatalmente os acasos trombem comigo.

Satisfeito da vida, creio que consigo me manter ligado ao entorno. Basta a realidade não me levar a escolher alternativas nem pensadas e tudo vai seguir sem sobressaltos.

No entanto, dou azar, porque esta minha figura sossegada passa a impressão de pessoa que não corre de cachorro que late. Acham-me capaz de manter a fleuma mesmo com bicho de presas arreganhadas a me confrontar. Como não sou de fazer de conta que tenho a valentia dos heróis, nem bem a fera ameace atacar, arredo pé.

Adeus, distinto cavalheiro.

E a rua conhece este fracote, medroso, mais um sobrevivente, tão logo furo sinal vermelho, ignoro faixa de pedestre e tiro a máscara de gente boa, de ponderado.

Tomado pelo embaraço desta vexatória atuação, esbaforido, suado e melindroso, já entro pedindo uma dose de caninha enquanto sumo no banheiro.

Com a esperança de ter vencido a sanha humana de rir de minhas canelas muito pouco treinadas, volto e viro o copo no balcão.

Seguro o fogo nas tripas e digo boas-tardes a todos. Todo mundo e mais o dono, a quem dirijo o sorrisinho de bom moço que sabe das coisas do mundo pelo mundo mesmo. Uma vez que assisto a canais de notícias e leio jornais e revistas. E não duvido que isso me instrui, educa e faz de mim outro homem.

Alguém melhor, que não fuma, dorme cedo, masca folhas de boldo.

Melhor seria se parasse de beber, mas cachaça é tão danada que a paz da minha alma depende de mais uma. Aliás, me controlo.

Já meio alegrinho, a felicidade que me anima sabe que a razão tem ilusões. Faço o condutor parar no lugar certo, na hora certa.

Sim, o universo conspira a meu favor. Tenho fé, afinal sei manter o juízo. E raciocino rápido quando fico bebum.

Convicto de minhas virtudes, bem no momento que estou virando a terceira ou quarta dose, quem não me conhece chega grunhindo para o meu lado.

Bufando suas fumaças, vem babando uma palavra atrás de outra. Sem tirar nem pôr, diz que o seu maior pecado é ser gente que gosta de gente. O que o torna alvo de quem o inveja. Que a malícia afia as línguas que o destratam. Coisa dos sóbrios de maldade.

Prefiro a TV. Queria ver a sessão política, só que a baba voa beijar meus óculos. Queria muito que aqueles perdigotos dessem-me força para ir embora, porém, entre a antipatia e a simpatia, há esse fogo que atiça os vermes.

Gargalhando como o quê, o fanfarrão apita que o general da banda faz fanfarra para farda, fardão e bandalheiras.

Caraca! A besta tem pulmões tão potentes que lhe pago uma birita em troca do apito, que guardo no bolso para não enguiçar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2021.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Vago lume noturno

 

Vago lume noturno

 

Eis o que foi dito por sicrano:

Desperto no meio da noite escura. Nem abro os olhos. Sei que o quarto está imerso na escuridão. Vai alta a madrugada. Desprotegida, a minha careca está gelada. Não confiro, afirmo. E isso me basta.

Posso estar errado. Por podê-lo, erro com moderação. Uso a mente para relacionar alho com bugalho. Confundo as coisas, torno dificultoso apontar qual o joio, qual o trigo.

Vislumbro sem detença um campo dourado, não apenas receptivo à luminosidade do sol. Tal horizonte me fascina. Afeito à beleza, deixo que o desejo de um bem-estar momentâneo me ofusque.

Deslumbrado com a amplitude do espaço aberto, me pego a pensar o infinito. Magnífica, é realidade revestida como ideia sem fim.

Que visão soberba. Sobrevivo aos meus instintos que me querem projetando uma lua nas retinas estressadas.

Adoro o vento noturno. Tenho os olhos ardendo, sinto que o vento pode me abrandar o incômodo que há dias me aborrece.

Não vou voltar a dormir. Estou aliviado por estar acordado.

Se a lógica turvasse o pensamento, seria besteira.

Tomo a tolice como veneno que a mim me fortalece. Portanto, não tenho sono, estou de olho. Mais forte, estou mentalmente habilitado a me julgar imparcial.

Senhor da razão, vejo o que vejo e sinto o que sinto.

Não estou disposto a lamentar que o mundo insista em contradizer os meus mais verdadeiros sentimentos. Veridicamente sinceros, uma vez que os acabei de gerar.

De olhos fechados na escuridão, não me dispenso de contar o que sei. Sigo sensato, deixo a respiração controlar os fluxos cerebrais.

Certo de que estou errado, percebo uma dormência no olhar.

Reforço, o sono não mastigará o meu entusiasmo de ter descoberto que o universo quer queimar os meus neurônios.

Esperto, continuo respirando. Desperto, não deliro fora da noite.

Sinto-me bem, com minhas faculdades mentais me estimulando.

Pois é, o chato na cama só fica ocupado com conversinha?

Chega a ser grotesco respingar dúvidas na cachola que sabe que não sonha de olhos amargurados. Estou calmo. Minha consciência diz o campo que jorra ouro ao sol que obscurece o éter das esferas.

Desnecessário querer me corrigir, pois o ar que me mantém vivo é o mesmo ar que me oxigena a mente.

Feito vento a renovar o ar do quarto, o colírio da madrugada faz um bem danado. Não abro as janelas nem os olhos porque a brisa noturna é desintoxicante.

Enxergo de olhos mareados. Náufrago de pijama, posso enxergar o que meus olhos querem que eu veja quando não me enxergo a seco.

Nem penso nisso.

E que sensação boa! E que instante brilhante!

Este instante pede que a sua história seja contada. Que beleza. É momento tão, tão luminoso que até me seduz.

Tantas são as platitudes que fomento que algum sobressalto me faz recordá-lo outro?

Não é lorota o que não minto.

Dito até que foi, mas beltrano fez que se esqueceu de ouvir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2021.

domingo, 16 de maio de 2021

Linhas tortas

 

Linhas tortas

 

ꟷ Está perdido, poeta?

Era evidente que não. Estava aborrecido. O acesso à minha conta fora barrado pelo sistema. Isto é, meu dedão não tivera reconhecida a informação biométrica cadastrada como pertencente a mim.

Sem cabeça para amolações bisonhas, pois tinha recebido convite para falar a estudantes, queria pensar com carinho de que modo iria abordar o tema que me foi indicado: a escrita.

Então, chegou este Luisinho com sua leitura equivocada da minha cara. Logo ele que é camarada amigo, sujeito que me conhece muito bem porque convivemos desde miúdos, falantes em fraldas.

Que decepção. Uma pessoa tão íntima achar-me mergulhado em especulações metafísicas, representante do perfil que tantos atribuem aos poetas. Como se este versejador desiludido me condenasse ao lugar comum de sonhador que vive em uma torre de marfim a tirar a água que bebe das nuvens etéreas do mundo da lua.

Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade que gostava de se definir jornalista, cujo ofício é lidar com a realidade questionando-se como o real tem vez no dia a dia do vasto mundo.

Jornalista, este cético cronista da vida cotidiana, escruta as pedras do caminho, e, assim, vai mapeando as veredas pelas quais o amor, a beleza e a justiça contrastam o terreno infestado de tão profundas desigualdades, deformidades e brutalidades.

Querendo sondar feridas não cicatrizadas, alguns profissionais da escrita, enviesando o olhar pelas entrelinhas das linhas tortas, sabem ouvir “o que se deposita no fundo do fundo do mar de nós mesmos”, conforme diz o itabirano na crônica A mão esquerda.

Todavia, não me afogo no raso do pouco que conheço de mim. As minhas pretensões são modestas, e bem acanhadas diante da vida.

Quem dera tivesse uma gota da agudeza de Clarice Lispector que, mascando um chiclete pela primeira vez, como se ele fosse “bala que dura a vida inteira”, pôs em voz inimitável a tal vivência em Medo da eternidade.

De pronto, a mão traduz em palavras as ideias do escriba?

O que toca fica gravado, a mente, então, trabalha imagens, sons e sentidos. Sim, escrever tem regras marcadas. Mas aposto, não passo o tempo repassando pensamentos. Escrevo, logo jogo.

Contudo, busco o tom próprio ao que escrevo. Nisso, há alegrias e tristezas, êxitos e frustrações. Mas um texto não me agrada de todo, sempre quero aprimorá-lo. Isso desperta sensações viciantes. Assim, antes que a semente apodreça, publico.

Gol de placa?

Para cumprir à risca a escrita desse meu dia, digitei os números que me foram solicitados. Duro foi constatar que o meu dinheiro não era suficiente sequer para o saque mínimo.

Com a cachorra, de cara amarrada, com o reflexo do Luisinho no vidro do caixa a me enxotar “para o inferno da rua inundada de luz”, tratei de ir cuidar da orquídea púrpura que ansiava alguma sobrevida com uns dedinhos de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2021.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O astro

 

O astro

 

Era domingo. Não era um domingo qualquer, pois o Dia das Mães mexia com ela. Não era por toda aquela gente na sua casa, dormira mal porque seus lapsos aumentaram na véspera. Não que fossem de repente, só que não atinava alguma explicação aceitável. O dever de limpar as mãos com álcool em gel vinha depois do erro cometido, e a cabeça censurava-a. Que fosse menos aérea.

Como o domingo teria emoções em profusão, teria de sossegar-se o quanto conseguisse. Precisava ser compreensiva com os demais e consigo. Ou acabaria reduzida a tristezas.

Não era segredo que ficava muito triste quando os filhos, à mesa, discutiam. Para que os bolos e os pudins pudessem ser trazidos sem atropelamento, que não atacassem as saladas com suas entranhas.

Óbvio que nem veriam o quanto tinha caprichado: por temperos, legumes e verduras foi à feira bem cedo; pelas carnes selecionadas com olhar rigoroso foi ao açougue no sábado; pela ilusão de alguma paz no almoço, dispôs cada uma das dezessete pessoas.

Seria bom que patadas não demolissem as fantasias.

Pelo amor aos filhos, amor que a alimentava confiante, sorria, pois o amor de ser condenado a amar a tinha escolhido.

Sorrindo, que o seu sorriso lembrasse os meninos que eles nunca perdessem o respeito a certos valores: a mão solidária nas horas de aperto; o ombro firme nos momentos de aflição.

Para fugir ao mal-estar franco, não abriu a boca. Ter a lucidez de desconfiar dos exageros previne que a razão a enlouqueça.

Sim, que a dor permita andar o fio como sombrinha à consciência. Sim, quando o corpo pende para o lado de quem a faz sofrer, básico é ceder à lentidão que a estabilize e, mantido o juízo, deixar-se doer à medida da recusa a este amor que a quer desequilibrada.

Não, o avesso também a faz padecer. Não deseja tornar-se fonte de dor a quem ama. Que a cautela oriente o jogo de corpo, uma vez que o fio continua desafiador; só que não há de fortalecer a teimosia de estar certa. Que tal presunção não a faça perder o alcance da dor que provoca.

Dizem que uma porta se abre quando outra se fecha. Angustiada, na sua frente tinha a porta que fechara, pois, afobada, nem notou que rodara cento e oitenta graus.

Se estava gira? Faltava açúcar.

Ladrãozinho miserável que rouba a atenção sem que ninguém se dê conta da sua artimanha enquanto a realiza, escapulido no quintal, embriagado por uma felicidade de pimpão exibicionista, Astor pôs-se a farejar aquelas ausências indiscretas: pelo perfume do xampu que lhe era familiar, frustrou-o identificar o rastro do bichano atrevido que desfilou o muro de ponta a ponta; pelo odor fortíssimo, verificou que a poça, entre o latão de lixo e o pé da parede da cozinha, foi deixada por um rato.

Amoroso a seu modo, o vira-lata foi deitar-se bem perto do portão. Que a dona abençoada ditasse com o cheiro de pão quentinho qual o fim de tarde menos vazio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de maio de 2021.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Gênio forte

 

Gênio forte

 

Que a realidade tem vida própria e uma assombrosa quantidade de eventos acontece simultaneamente em cada milímetro do planeta são constatações que não me espantam.

O que me choca é saber que um milésimo de segundo faz muita diferença na vida de cada criatura que há na Terra.

E pensar nos seres vivos e nos mortos, cujos átomos estão em transformação permanente e inesgotável, muito me põe perplexo.

Como o primeiro bombom que vejo, tamanha a perturbação.

Ainda que minha baixíssima imaginação não me habilite a ir além de um ponto vago, informe, abstrato, bem aquém de qualquer esboço grosseiro que alguém dotado de um mínimo de ousadia criativa seria capaz de configurar, não evito a tentação de querer ter uma ideia da coisa toda.

Aqui em casa, por exemplo, na sala, na cozinha, no quarto da mãe e no meu, em cada um destes cômodos há um relógio.

Tenho para mim que é meu dever prioritário consultar o relógio do celular para acertar todos os demais pela hora oficial que o telefone diz qual é, porque o aparelho eletrônico tem recursos para corrigir as distorções automaticamente.

A preocupação leva-me a comer outro bombom, um de flocos.

Aliás, meu dia começou esquisito. Acordei para a minha situação: ridícula. Pois a impaciência me fez exagerar o desconforto de lembrar que logo mais terei de ficar na fila para entrar em uma agência de um banco do qual nem sou correntista, ou o boleto ficará para depois.

Preciso encontrar uma saída que não me faça sofrer tanto.

Sim, a minha cabeça tem dessas de esquentar, ferver, entrar em ebulição, e isso, por sua vez, causa avarias no meu estômago, que também esquenta e ferve. O azedo do bafo tem origem certa.

Faz bem devorar outro bombom? De maracujá.

Um pouco mais calmo, posso me trocar e ajeitar a máscara sem maiores transtornos. Afinal, passarei por contrariedades de variados graus. E como os dias são longos quando as filas não saem do lugar.

Ataco o bombom crocante de amendoim.

Mordo errado. A precipitação me faz mal. Abocanho a casca dura do bombom justo com o dente que está bichado, cuja obturação está comprometida pela cárie, com uma boa parte perdida.

Gargarejo com sal. Tomo aspirina. Ponho um pano quente sobre o lugar. A dor só diminui, não passa.

Acho suportável viver com essa dorzinha chata.

Chata, tão chata, que trato de ir mordiscando um bombom de licor de cacau com muita cautela.

Não sendo nenhum tarado nem nenhum traumatizado, sinto uma ponta de orgulho ao admitir que a minha paciência me permite manter os ponteiros alinhados. Além da inveja da minha resignação a mim, confesso-me confortável em viver atualizado com o mundo. Uma vez que, infalível e impreterivelmente, entre 23h59 e 00h01, há o instante em que um dia acaba e outro começa e é por meio deste momento que o todo se completa e o ciclo segue retornando à permanência da sua transfiguração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2021.

domingo, 9 de maio de 2021

Talvez

 

Talvez

 

Meio atrasado ou meio adiantado? Isso depende de você.

Se está indo, pode estar por pouco, bem perto, quase chegando, com a mão acenando um olá faceiro de quem sabe que teve tempo, que valeu a pena ter mantido o passo, nada de colocar o coração na boca, então, com uma pressa cadenciada, está atrasado.

Agora, se está vindo, pode ser que esteja distante, naquela lonjura que dá uma ansiedade que enerva, os olhos não querendo alcançada a danada da chegada, com o mundo podando nos pés o que parece mais voador do que bala de canhão, portanto, está adiantado.

Pouco mais ou muito menos? Isso depende de mim.

Se estou com fome, querendo tirar da cabeça a estrada que ainda vou percorrer no sol, bebo a saliva que me perturba a ponto de, com o queixo estalando, partir a ideia em bocadinhos que até uma criança engula sem morder, assim, o juízo me acalenta um pouco mais.

Se me pego irritado, mordiscando o lábio inferior, pedindo por uma musiquinha boa para embalar minha soneca depois de uma feijoada esperta, viro fingir ter na ponta da língua a justificativa que não alivia o estresse, repelindo a preguiça, sinto que me agito por muito menos.

Desbragadamente doido ou sutilmente cerebral?

Isso depende de um terceiro.

Sutilmente cerebral, sem pânico, quem está ferrado vai pedindo o direito a ter reconhecida a pretensão da seriedade, como se tivesse sobrando uns pruridos de sabedoria, mesmo que no escuro não use a lanterna com pilhas novas, mesmo com o ar recendendo a mofo, temendo que aranhas e percevejos venham a se aninhar no ouvido e na garganta, torcendo para que uma saída apareça de uma vez por todas, o desbragadamente doido decide bater, então, ele bate, bate furioso na porta somente encostada.

Apático ou atlético? Isso tem tendência a patético.

Com a criançada empoleirada naquela amoreira irresistivelmente carregada de frutinhas carnudas, um fulano metido a dono daquele éden das amoras acha de soltar a matilha de dálmatas, dobermans, perdigueiros e pastores, assim, pulo eu e pula você e todos pulamos, pulgas pipocando em frigideira fervendo, daí caímos fora.

Paranoia de poeta ou tremelique de pateta? Defende-se o enigma.

E uma vez protegido, o enigma cresce como pé de feijão durante a madrugada amena da meia-estação, quando a primavera doce abre mais cedo o seu cândido manto azul sobre quem não para, quando a manhã transpira café com leite e pão com manteiga, repasto bom que embaça a lente dos olhos, mas o escriba respeita o respiro da escrita.

Meio santo, meio tonto? Isso depende da garrafa.

Se for de vinho, tonto. Enrola a língua, perde a estribeira, se mete na salada russa de ficar falando nada com nada, todo besta.

Já a incolor de olor bendito faz o santo que não fecha a matraca, e muge que nem vaca, carpe feito bode e cisca como galinha.

A leveza do juízo pede a ingestão pesada do riso, sim ou não?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2021.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Coração de mãe

 

Coração de mãe

 

O homem está sentado à mesa; tem fome, mas não se deixa levar pela tentação daquela lasanha. Fumegante e suculento, o objeto gera desconforto, infernal por girar-me do sensato ao incontrolável. Então, transbordando uma rebarba de muçarela espetacularmente apetitosa, acabou difícil segurar nas entranhas os vermes do prazer capital.

Além de olhos e boca assanhados, ele tem o fígado e sua vesícula sobrecarregados por tantas delícias causadoras de crises mentais e febres físicas, mas olhos e boca, corajosos seduzidos, não assumem a parte da autoria que lhes cabe.

Sejamos indecorosamente honestos, as posteriores condenações peremptórias do abuso não passam de inútil remorso, sentimento que não nega bulhufas o arco-íris do desdém ao rancor.

Entre o homem que odeia querer daquela forma uma bela lasanha gordurosa e o realizado senhor que ama a altivez funcional das suas vísceras, reina uma zona sombria.

Por um lapso, entre sombras, o opaco parece um norte.

Em pé: à frente, a pia cuja torneira me dará a água fria quando me for necessária; ao lado, as bananas, peras e maçãs que comprei de manhã; às costas, colocando-me no meio de um triângulo com lados quase iguais, sei apenas que tenho lugar à mesa.

Perdido?

Com o mundo teimando querer-se fixado nas minhas retinas, com a realidade cometendo os seus truques tão manjados, com a ilusória estagnação da vida renovando seus malabarismos de salão, com os acontecimentos sem parar de retomar o passado como se o já vivido ancorasse o futuro nos corpos extenuados na luta contra o marasmo, com o instante insistindo em ludibriar meus olhos contrariados, quero entender e compreender o que tanto me aborrece, angustia e aflige.

Isso me orienta e estorva, alegra e irrita, alenta e derrete.

Quando o presente fica represado por uma espiral de notícias que acarretam mais e mais notícias, a mim me escandaliza permanecer enredado pelas tramas fantasmagóricas desse pretenso contínuo.

Feito mosca a suplicar que a brisa do meio-dia me mostre como a teia está ligada às árvores do desgosto, dou importância aos fatos. E os fatos me devoram sem trégua, dia e noite, pois fatos importantes têm fama alavancada por minha audiência de míope impressionado pela avalanche que me encarcera na atenção de pessoa embaçada.

Invisível pela exposição excessiva, obsediante pela presença sem folga, o instante que não passa me quer preso ao agora.

Agora?

Na falta de pão, armam o circo.

Na falta criminosa de vacinas, multiplicam-se os óbitos.

Na falta monstruosa de compaixão, é infame quem odiento.

Entre este memorioso melancólico que mistura banana amassada com aveia em flocos e este esperançoso que não comerá os próprios dedos, penso outra hora, vivo pela aurora, trabalho um outro agora.

Já!

Por seu coração em que amores florescem, saúdo Dona Hermínia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2021.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Alguma prosa

 

Alguma prosa

 

Não é porque seja outono, nem que seja maio, nem mesmo que a posição do Brasil no globo terrestre tenha relação com o fato, nada disso, é porque o sol tem este costume de seguir as suas regras de maneira cristalina: para dar um pulo no Japão, há o crepúsculo.

Então, quando a noite começa, tem quem defina o momento como uma experiência única. Alguns até se entusiasmam e a consideram a mais romanticamente poética do dia. Para alegria desses nefelibatas, a Terra gira e, todos os dias, ocorre a maravilha que os encantam.

Assim, com a escuridão coalhando-se de estrelas, os amantes de retinas aguçadas viram mariposas em torno de ideia tão brilhante.

Baixadas as portas, meu amigo e eu tocamos a nossa prosa.

Nossos olhos sabem do caminho enquanto vamos. Os nossos pés conhecem as pedras pelas passadas que prevemos. Nossas palavras trazem a noite, o céu estrelado e o deslumbramento dos apaixonados sem nos determos. A realidade não basta, por isso não calamos.

Conversamos banalidades, falamos misérias, e logo as discórdias frutificam. O silêncio entre as frases não é um monstro a nos fustigar os neurônios. Opinamos com tristeza: casmurros são os outros.

Tragamos nossos cigarros, batemos nossas cinzas e a conversa que mantemos nem toca em cigarros e cinzas. Não fumamos porque falamos. Falando e fumando, vamos indo. Ainda que nossos pulmões andem precisando de um rastro menos tóxico, fumamos a céu aberto.

Não digo que somos tão imbecis, pois temos clareza sobre o que nos afeta. Antagônicos, quando vejo na lua o espelho do sol, ele nem pisca ao me enquadrar poeta com esse luar feito um reflexo.

Ora, toleramos um ao outro porque as nossas querelas insolúveis dão vida a essa ternura a contrapelo que tanto cultivamos.

Sabe aquela história de oito ou oitenta?

Se não fôssemos tão radicais em nossas visões, não haveria este lugar que temos em comum: a amizade.

Quando verdadeiro, o amigo estranha contradições numa pessoa pudorosa quanto a manter-se coerente no dia a dia.

Todavia humanos, improvisamos.

Inflamos nosso bote com o ar que expelimos quando disparamos a querer justificar nossas incongruências de náufragos amadores. Só que não nos contenta sobrevivermos, experimentamos o sal da água e bolamos engenhocas que tornem doce o amargo. Ao fim e ao cabo, bebemos os nossos perdigotos.

Ao meu novo aceno à multidão que acha que vive de nuvens, ele toma da sua realidade o que melhor embase o seu ponto: há um pai e um filho que vivem nas ruas, nem por isso merecem dele o mesmo tratamento.

Sem estardalhaço, o menino cumprimenta ao entrar, tira o boné ao sentar-se, come o prato feito que lhe é servido e, agradecido, sai.

Aos gritos, o outro quer pinga, moedas, as sobras do almoço e vai amaldiçoando a mão nada solidária.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra?

À flor da lua, especulo: aprendo a nadar nadando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2021.

domingo, 2 de maio de 2021

O filme da minha vida

 

O filme da minha vida

 

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio, caramba, a fera nada melhor do que eu, que situação terrível a minha, pois meu cachorrinho é horrível, sério, e o bicho não desiste, já deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés, puxa vida, e tenho tanto medo que nem olho, e como me angustio, minha nossa, engulo tanta água que desesperadamente tusso.

Impede-me a tosse de perpetrar uma barbaridade, a de me achar o último caçador de bestas com vontade aguda de matar. E tossir não apaga a manhã ensolarando a minha coragem de mentiroso.

Com a goela seca, até parece que saio do sonho de alma lavada.

Por meus botões, esses conselheiros da consciência nem sempre alerta, descubro que o meu otimismo gosta de reclamar à esperança a insatisfação de algum desejo. Fonte de segredos tornados públicos quando falha na vigilância dos meus recônditos irrequietos, a minha cabeça trama que me sacie a luta pelo que me falta.

Em outras palavras, não há felicidade que me convença a ficar em paz quando as meias úmidas me transportam pelo pesadelo de ter os pulmões tomados por bacilos tão ativos.

E reajo à brevidade de um dia?

Ajoelho-me.

Não rezo nem rezarei, mantenho os calcanhares sensíveis ao tiro de largada. Olho em linha reta; a fita a cem metros; ouço os aplausos. Segundos depois, a sensação do desastre. Porque o bloco está solto, os tênis fustigam os calos, um sabiá canta a um milésimo do disparo, a arquibancada está vazia, tenho alergia a ouro.

Com a coroa de louros exalando o cheiro da sensatez, inebria-me pensar que consigo dissimular o meu bem-estar. Como quem faz do fracasso a base do sucesso, entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios, olímpicos ou chinfrins. Porém, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse algo imperativo, e, quiçá convincente, cubro a cara com um sorriso.

Por quê? Rugas ficam simpáticas quando sorrio.

Com um fraco para tibiezas, vejo no bagre um salmão, e felicito a água em cuja fluidez plácida piranhas não pululam. Acenando, desejo fartura aos pescadores atrás de comida e alguns quilos para venda.

Flutuando, deixo-me fisgar pelo cochilo. Indolente, bebendo uma cachaça, não ministro a tilápias um vale-sonho. Lambendo os beiços, avivo o fogo que liberta das postas fragrâncias saborosíssimas.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, não defendo o meu pão como um ator que se alimenta das câmeras.

Quero defender a pele da gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado, entra em cena este coitado lavando as unhadas e a bocada na minha destra. Pena que o sabão seja apenas detergente e não tenha superpoderes, porque eu queria a minha canhota inábil o bastante para digitar com maior comicidade a derradeira palavra:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2021.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Ato criminoso

 

Ato criminoso

 

Talvez o ângulo não seja dos melhores, isso, porém, não autoriza imaginar situações mirabolantes em que o destino do mundo esteja em jogo. A sua cabeça delira por bem pouco; então, o que tinha ali era um pacote provavelmente esquecido por alguém distraído.

Nada de tomá-lo como material tóxico ou bomba, que isso, sim, cairia bem em um filme espetacular, arrasa-quarteirão, no qual até os mocinhos são vilões na bravura tão eletrizante, sensacional e pueril.

Pelas circunstâncias do andamento do caso, estando impedido de ver-se ao se deparar com o tal embrulho na mureta da escolinha de educação infantil, seria de bom-tom avisá-lo de que a sua expressão era de um tolo pego com um mistério apocalíptico nas mãos.

Mergulhado nesta fantasia mandraque de enxergar-se destinado à glória, achega-se um ruidoso trio: avó, seu filho e a sua neta.

Você conhece o quadro: no abraço camarada, para disfarçar o seu constrangimento, a mão estendida, escandalosamente não apertada, dá tapinhas anêmicos nas costas cordiais daquela pessoa, cujo nome acaba preso na ponta da língua.

A senhora que sempre fica satisfeita em dar um beijinho na face direita resolve, sem aviso nenhum, que um só não basta e tasca outro na cara de quem busca desesperadamente um buraco no chão.

E a menina malvada ri das suas maçãs ruborizadas.

Pense bem, a vergonha tem olhos que não sabem como disfarçar a timidez que embaraça tanto, e de tal forma, que magoa.

Esse olhar magoado, no entanto, raramente brota em quem tem o que dizer e diz. Os olhos, em quem não duvida da necessidade de ter o que dizer, têm o brilho perturbador de gente certa da mensagem a ser dita. Com voz firme e olhos vidrados, diz e pronto.

Assim devidamente ignorado, flor sem água, seu olhar murcha.

Enquanto o homem segue falando de si e vai acrescentando mais outras camadas de si, a avó (mãe do enfadonho tagarela) e a filha do umbigo do mundo (a sua amada netinha) se entreolham e, sardônicas e cúmplices, elas piscam e sorriem.

Neste ponto, já que a realidade não tem camarins para que possa alegar urgência em preparar-se para uma cena menos deprimente, os seus lábios tremem de leve, tartamudos, a querer contar algo.

Aquela esquina, há muito, fora um terreno baldio. Naquele tempo, o rapazote, longe dos trajetos que costumava fazer, passava e, para seu assombro, deparou-se com o circo.

Tinha visto um na TV. Além do formato, a lona trazia estampado o nome em mágicas cores vivas: Circo-Teatro Sonhos do Mundo.

Entretanto, aquela recordação singela, de uma tristeza serena, foi cortada pela algazarra da criança que teimava em tirar-lhe das mãos aquela peça de vidro.

O que será?

Não é um crânio nem suas mãos são as de Laurence Olivier a dar às gentes uma fala de Hamlet, o objeto é um reles, e muito útil, copo.

Devolvê-lo à caixa não o inocentará do papelão de tê-la aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2021.

terça-feira, 27 de abril de 2021

De boa-fé

 

De boa-fé

 

Tem coisa errada comigo. O meu dever é encontrar o que está me deixando incomodado, ou o que está funcionando mal poderá piorar. Estou desconfortável. Prefiro saber a ficar com alguma doença sem nome médico reconhecido.

Afinal, a medicina é uma ciência. O que não é brincadeira. Assim, tenho que achar onde está o problema e qual pode ser a solução, ou soluções. O meu corpo tem segredos que minha ignorância nem me permite elencá-los.

Não sendo médico, parto para o autoexame subindo e descendo os degraus que dão acesso ao porão. Não tenho medo do escuro, só acendo a lâmpada para não tropeçar na escada.

Fico cansado, mas o coração não dói. Não ter pontadas é um bom sinal. Tudo certo, menos o cheiro azedo do suor velho na camiseta outra vez empapada.

Com o coração em ordem, desconfio do fígado. Sem hesitar, bebo cerveja no gargalo. Tomo a dúzia de garrafas da geladeira, e nada. O bicho nem liga para tanto álcool.

Com o volume bebido, vou aliviar a carga. E isto quer dizer que os rins estão funcionando como esperado. Até a urina está clarinha.

Já disse, medicina é arte que não domino, por isso sigo em ação. E dar ao corpo vivências novas é uma maneira de estar pronto para quando for necessária a reação, porque a vida é desafio constante.

Superar barreiras, uma depois de outra: tenho esta predisposição de continuar a desafiar-me, mesmo não sabendo dos riscos.

Dito de outro modo, o autoconhecimento é menos daninho ao meu juízo que a indisposição espontânea. Pois, não me convenço de que doenças sejam naturais.

Natural é laranjeira dar laranjas.

E são tantas. Conheço algumas: a lima, a pera, laranja-de-umbigo. Se é doce ou azeda, pouco importa, sempre coloco açúcar, pois meu paladar é apurado para comida.

Como sou de limpar o prato, não suporto discussões na hora que estou comendo. Isso irrita e irritação atrapalha a minha barriga a fazer a digestão, e digestão malfeita é um desastre. Não fico parado nem consigo prestar atenção em nada. Só penso que irei passar mal.

Quem nasceu para águas rasas não deve mergulhar achando que vai saber sair do mar antes que o tubarão do afogamento mostre sua mandíbula cheia de dentes.

Já que estou arriscando a aprender na marra como me virar diante dos enroscos da vida, encho o tanque e enfio a cabeça toda. Abro os olhos e vejo que o troço é feio do mesmo jeito como se estivesse sem água. Entretanto, o que está mudado em mim é ter certeza de que consigo prender o ar por três minutos. O que me dá outra certeza: os meus pulmões estão perfeitos.

Tudo é coisa boa de saber?

Sem faniquito, entendo que não alimentar um monstro gera outro; portanto, para que o parto do novo homem se complete, e ele tenha, com a plenitude do seu intelecto, condições de dar a sua contribuição para a sociedade do futuro, é preciso beber da cicuta a dose precisa, que o potencialize e não o abata no nascedouro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2021.

domingo, 25 de abril de 2021

Uma paradinha

 

Uma paradinha

 

Posso parar? Preciso, e paro.

Não vou pro mundo; se ele quiser, que venha. Só não garanto que vou recebê-lo com entusiasmo, mas terei o mínimo de civilidade.

Será recebido com sorriso, ainda que apático, indiferente, de idiota que se percebe anestesiado pela presença massacrante de notícias nem um pouco alegres. A realidade que o mundo apresenta não tem sido fácil de testemunhar.

Meus olhos não enxergam nenhuma natureza morta no arranjo de TV, micro e telefone desligados. Não há beleza, há banalidade.

Então, cortês, puxarei uma cadeira ao meu lado e, como remanso, oferecerei alguma prosa recheada de amenidades.

Ando precisando de um descanso das aflições que só me apertam o nó no peito, e o fio da tesoura está cego. Garanto que esteja, pois o meu farol está fraco e não vejo o caminho. Este nevoeiro angustiante penetra-me a pele e rói-me os ossos. O aperto vem de mim, e preciso respirar com naturalidade.

Hoje, só por hoje, que este mundo cheio de becos sem saída leve em consideração o meu pedido: que me venha amigável.

Confesso, tantas carências estão pedindo atenção; e não as quero ignoradas ou mal atendidas. Todavia, para que eu consiga manter-me digno enquanto me recupero pra seguir atento, recorro a expedientes cotidianos: um café passado na hora, com uma torrada acariciada por um patê de alho e a calma para o prazer de ter a tarde para desfrutar de alguma serenidade.

Venha, mundo, mas venha preparado para meus ouvidos moucos. A minha surdez é temporária, de quem não lamenta a falsa proteção do precário, que o caos da vida dilacera a fissura, a alma sobe à pele tal qual estalagmite. Esta emersão fere, surdamente pulsa, o cérebro tenta equilibrar-se em desconforto, aliviar-se. Sofro, porque caverna rugosa não é casca, é mais que casa, é casulo das tensões em flor.

Embora possa pouco, não desejo que me assaltem abstinências torpes a violentar-me e a quem esteja por perto. A minha sede mudou de tom. Sei quão distante estou das biritas. Bebo água aos tiquinhos, fazendo bico de pintassilgo. Gorjeio.

Na mansidão que penso estar nutrindo, espero que os males da vida não me enxotem com seus fatos zombando de mim.

Quero folga.

Que o mundo faça a gentileza de entrar em minha casa sem fazer alarde de seus abismos e suas carnificinas. Iludo-me, eu sei.

O mundo não cabe nesta esperança de paz que julgo ter direito a acalentar, é ilusão de parvo, bem sei.

Pó pará?

Antes de pôr os fones, corro os nomes que o algoritmo selecionou por mim. Entre as sugestões, desponta o Prefeitinho.

Topo a parada.

Tão necessária, esta alegria repousa as minhas pálpebras, adoça o balanço dos meus nervos e estimula a bonança do meu recesso, é que Pedro Miranda convida e, Da Gávea para o mundo, eu vou.

Ouvido o disco, finda a festa?

Não rejuvenesço, mas assobio e batuco; ouço de novo.

De boa, que paradinha maneira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2021.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Pé de inhaca

 

Pé de inhaca

 

Com os jornais lidos, parto para uma pera. Comer um pouquinho de três em três horas sossega as labaredas do meu estômago.

Poderia jogar a culpa do meu desarranjo na leitura, porém a minha barriga já estava alvoroçada antes do almoço.

Acordei com esta âncora, o asco, a me pesar um bocado. E o mar tão revolto abre úlceras abrasivas que até o bafo fede a brejo.

Nojento, eu sei. E não aceito que me desculpem a transformação da realidade em hálito repugnante. Falta-me filtro, ou alma mais leve.

Mesmo os meus sonhos andam cavando poços sem água. E sem água, a minha saliva azeda borboletas e pirilampos. O recomendável é que eu permaneça quieto, ou dê exemplo de pesadelo ácido.

Incomodado comigo pela falta de equilíbrio, saí da cama como se tivesse realmente comido a noite inteira.

Havia uma comida bastante vistosa, saborosa e... gordurosa.

Uma senhora bem idosa e muito simpática empanturrava-me com pedaços e mais pedaços de cuscuz. Coma, meu rapaz, pois você não vai poder deixar restos deste trem no prato, que este é o verdadeiro cuscuz do Tiradentes. Sem ovo, sem peixe, sem farinha de milho, ele é feito com manteiga de garrafa, farinha de mandioca, torresmo, paio. Continue, rapaz, continue comendo sem medo.

Sem nenhuma razão, fixei que a abençoada de mãos criativas era a mãe da mãe da minha mãe, só porque ela nascera em Minas.

Estou febril, pois não a conheci nem nunca vi uma foto ou pintura retratando esta minha antepassada. Entretanto, mantenho a conexão fantasiosa entre a alcunha do quitute com este vinte e um de abril.

Por suposto, haja calafrios e ferroadas no pescoço!

Puxo o banquinho para ir mordiscando a fruta; passo os olhos pela rua; pouco me interesso.

Não há refresco, a panela de pressão segue no fogo brando do outono. Devagar, com suas presas pacientes, a boca do tempo segue beliscando o viço de toda gente.

Súbito, muitos do cortejo apontam para o céu.

A comichão faz-me subir à laje do último piso.

Fascinado, eu observo a passagem do balão. Meus olhos buscam referências para que me seja possível calcular a velocidade daquela maravilha.

Minha infância rediviva dispensa a física dos materiais. Afinal, ter visto alguma vez a Barcarola do Padre Voador em nada diminui meu deslumbramento com o voo daquele fruto do engenho humano.

Nem preciso divisar quem está na cesta, seja curtindo a amplidão do horizonte ou operando as chamas que mantêm o balão flutuando acima da minha euforia.

Horroriza-me a comparação com formigas.

Pois formigas têm rainha, e suas operárias ralam sem parar pela imobilidade do reino. Carbonário e formicida, o meu sangue ferve ao pensar em submissão natural.

Que ideia revoltante.

Desço. Encontro a gatinha abocanhando as folhas recém-brotadas do milho de pipoca plantado no vaso da citronela.

Desconfio que a minha baba adubaria o broto como pé de inhaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2021.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Lembrancinha

 

Lembrancinha

 

Parado na esquina, fumava aquele cachimbo que parecia um sax. O seu olhar cruzava em diagonal o cruzamento das ruas, baforava-o. Mas os olhos não tinham fumaças de Round Midnight, eles não viam do outro lado a casa que, abatida por máquinas e mãos tão afinadas, não se dissipou no ar.

Não se enganava. As substâncias tóxicas do fumo eram boas para acalmá-lo. Para ter a cabeça em paz, era justo que seguisse no vício. Seu corpo tranquilizado, talvez pelo consumo recorrente de nicotina, contribuía para estar no mundo sem pretensões de encontrar o que não buscava. Havia quem explicasse a vida com ideias modernas, ele não, ele fumava. Ainda que soubesse que aquilo que tragava corroía os seus pulmões, aquela fonte de sensações apaziguantes, aquilo o matava tão satisfatoriamente. O pigarro e a tosse eram autênticos.

Os seus pigarros e as suas tosses causavam irritação. Ainda mais em concertos de música de câmara, com viola e violino duelando por acordes pianíssimos. Então, mesmo ele apoiava os olhares ríspidos e cismava consigo que fosse tossir para outra freguesia. Pigarreando, a resignação acentuava a franqueza de retirar-se de ambientes em que sua presença implicava transtornos.

O fundamental era manter-se sereno. Pois a tranquilidade permitia que pensasse sem atropelos. Quando estabanado, errava mais que o tolerado em uma pessoa dada à discrição. Pedia pela ordem, que um passo levasse a outro, sem que expectativas fossem frustradas.

Portanto, tomou o rumo. Tinha compromisso certo. Queria cumprir o seu dever como quem não o toma por dever, porém como um gesto de amor. Tratou de ir num ritmo ajustado ao fôlego, sem que se visse obrigado a um esforço maior. O que iria comprometer a noção de que estava a caminho porque era o certo a ser feito.

Avesso a improvisos, era homem de avaliar. Pesava os detalhes, refutava desvarios, e como detestava sonhos ruins.

Não era uma ideia encarnada, tinha ideais a norteá-lo.

A moderação dizia que antes das imagens nos celulares houve o daguerreótipo. Sim, antes dessas mensagens de voz enviadas pelos zaps da vida, Graham Bell esteve na Filadélfia. Era preciso conservar o que sabia.

Os ventos que agora geram a energia limpa para carros elétricos também moem habitualmente trigo, e não o joio.

Por apreço aos fatos, nunca foi de questionar o seu dever de falar a verdade de modo honesto, sincero, ponderado e comedido. Diante daquelas miosótis tão viçosas sobre a campa, todavia, a sua bengala foi mais rápida ao espatifar o vasinho contra a lateral do sepulcro à esquerda, sem que houvesse como se perguntar quem teria o arrojo de desonrar a memória da sua amada esposa.

Se o incêndio do Museu Nacional não o tivesse distraído, naquela fatídica noite, traria ainda na carteira a foto em que se revela o buquê de hortênsias a autorizá-lo tão legítimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2021.

domingo, 18 de abril de 2021

Gazeta mirim

 

Gazeta mirim

 

Na estrada batida feito palco, ia saracoteando.

Calçando os chinelos nas mãos, a sola do pé gostando de pisar a terra, o menino estava que nem ligava de onde viera ou para onde ia. Pelo jeito que andava, seguia sem destino ou não tinha pressa.

O caminho, na verdade, tinha trechos em que era difícil de vencer por causa das pedrinhas. Na maior parte da caminhada, contudo, ele nem reparava no que ia pisando. Só desviava de bosta de vaca.

Como estrada de pouco movimento, de gente e de carro, então, o menino podia ir ziguezagueando. Ora afundando os pés na terra fofa, ora andando no chão mais firme.

Não passou pela cabeça do menino que foram as águas de chuva que marcaram o terreno. Ele sequer imaginou que lama poderia virar atoleiro. Pensar em trator ajudando desatolar, seria exagero.

Vendo aquelas árvores carregadas, ele hesitava: comer goiaba no pé ou levar tiro de sal nas costas? Fora a fúria dos cachorros.

De repente, um bem-te-vi cantou. Ou melhor, de repente o menino achou de ficar interessado no bichinho que vinha cantando fazia já algum tempo. Aliás, havia muitos bem-te-vis cantando.

O menino remediava os cantores. Gritava em resposta, assobiava, certo de que tinha o dom da imitação correndo nas veias.

Encasquetou: queria ver um de perto.

Quando um deles assentou no mourão da cerca, o menino fez que não era com ele. Caninana desnaturada, deu o bote.

Mesmo sem ter sido atirada com força, a pedra derrubou o animal. Derrubou-o, contudo, definitivamente. Assim parado: que bicho tosco, inerte, coisa mais sem graça.

Sim, o inocente não calculou os danos do seu ato.

Sim, inocente. Não se veja maldade no coração do garoto.

Simples: o menino não escolheu a pedra nem por tamanho nem por formato; pegou a primeira que sua mão alcançou; todavia, a má sorte sorriu-lhe pela precisão que o acaso calhou de dar ao disparo.

Contudo, o menino tinha atitude de toda sorte, uma vez que, meia centena de passos mais adiante, quem disparou foi ele.

Fazendo um alvoroço danado, levantando o poeirão da estrada e assustando os bois do pasto e a passarinhada do mato, uma picape vinha desembestada.

Nisso, uma galinha com seus pintinhos ia cruzando o caminho da 4X4 endiabrada. Sem um segundo de bobeira e agitando os braços feito um doido, o menino foi colocar-se entre a família galinácea que passava e a besta-fera a diesel, cujo motorista foi parando o monstro sem maiores sustos.

Alguém o poderia ver como nobre guardião da natureza. Mas não era isso. É que a galinha não merecia morrer atropelada; ela cairia bem numa panela.

Sim, o maroto inocente gostava do guisado de galinha com batata, cenoura e louro macerado por mãos sabedoras do preparo.

Vá lá que seja.

É direito seu querer saber: o nome do menino; se ele morava com a mãe ou a avó; se a casa tinha geladeira e água encanada ꟷ isso, porém, fica por conta do Censo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2021.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Forrobodó

 

Forrobodó

 

Antes que o cachorro vadio seja corrido dali pela mulher brava na voz e nos gestos, diga-se que aquela patota, de mulheres e homens acima dos setenta anos, estava vivamente vacinada: pela expectativa da segunda dose do imunizante contra o corona da Covid-19 e pela alegria de ser pessoa que ama outra sem a cobrança da recíproca.

Então, o carro parou. Dele desceram uma menininha meio tímida e uma mulher dos seus trinta e poucos. O motorista veio em seguida, e saiu acenando e sorrindo.

Fosse dado a comparações, você diria que a figura do homem era similar à do Moisés desentranhada do mármore pelas mãos exímias de Michelangelo. Era visível, havia a tensão dos músculos de quem está inclinado a levantar, porém refreia as carnes, súbito; mais ainda, dava para perceber que havia uma crispação no olhar, de quando o sujeito chispa uma raiva que fulmina os incautos que dão com o furor daqueles olhos.

Foi assim que um daqueles senhores da roda que jogava porrinha reagiu ao reconhecer quem fez a baliza sem passar vergonha.

Cometesse o erro de dizer de pronto as impressões da vida, teria de desculpar-se pela leitura facial equivocada.

O tal rosto, em vez de ira, estava mais pra estupefato.

Saber quem era enfezou o camarada de tamancos rudimentares. Foi um estralo atrás de outro, marcando a contrariedade com aquela presença. Numa tarde linda daquelas, de sol quentinho e uns bandos de maritacas em trânsito frenético, benfazejos ambos, a birra tinha lá os seus motivos.

Pulemos as razões, fiquemos com o congraçamento de abraços e beijinhos a distância, era a mímica de alguma felicidade. Alguma, pois improvável evitar a satisfação do reencontro como felicidade.

Como já ia soando fácil a sanfona que o recém-chegado trouxera consigo, vibravam com a música. E aquilo era bom.

O rancor sumiu na marcação da madeira do tamanco no concreto da calçada. Tinha ritmo o mastigador de fumo de corda. Que cuspia e soltava onomatopeias de incentivo. Fora as palmas irregulares, ainda que no tempo forte do que se estava tocando. Muito eufórico.

Vê-lo motivado animava. Era a deixa aos demais.

Se estava demorando, não mais. Bastou a mulher de chapelão de pescador tirar a esposa para dançar que a poeira do caminho subiu que foi uma beleza.

Tanta alegria, empolgação e riso solto?

Cervejas surgiram. Brotaram porções de mortadela e torresmo.

Oxe!

O sol tinindo. O som bombando. Bailavam à beça.

Curiosa, a vizinhança ocupou janelas.

Quem aprovava, com palmas e assobios, passou a acompanhar o rol de clássicos do Gonzagão. Os do contra, no entanto, apupavam e acusavam que era aglomeração.

Sem quebrar a magia do forró lascado, as parcerias de dança iam se renovando, sem estresse. Todos se divertindo.

Como coisa humana espontânea e entusiasmante, logo chegaram triângulo e zabumba. O pé de serra ficou mais arretado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de abril de 2021.