domingo, 9 de maio de 2021

Talvez

 

Talvez

 

Meio atrasado ou meio adiantado? Isso depende de você.

Se está indo, pode estar por pouco, bem perto, quase chegando, com a mão acenando um olá faceiro de quem sabe que teve tempo, que valeu a pena ter mantido o passo, nada de colocar o coração na boca, então, com uma pressa cadenciada, está atrasado.

Agora, se está vindo, pode ser que esteja distante, naquela lonjura que dá uma ansiedade que enerva, os olhos não querendo alcançada a danada da chegada, com o mundo podando nos pés o que parece mais voador do que bala de canhão, portanto, está adiantado.

Pouco mais ou muito menos? Isso depende de mim.

Se estou com fome, querendo tirar da cabeça a estrada que ainda vou percorrer no sol, bebo a saliva que me perturba a ponto de, com o queixo estalando, partir a ideia em bocadinhos que até uma criança engula sem morder, assim, o juízo me acalenta um pouco mais.

Se me pego irritado, mordiscando o lábio inferior, pedindo por uma musiquinha boa para embalar minha soneca depois de uma feijoada esperta, viro fingir ter na ponta da língua a justificativa que não alivia o estresse, repelindo a preguiça, sinto que me agito por muito menos.

Desbragadamente doido ou sutilmente cerebral?

Isso depende de um terceiro.

Sutilmente cerebral, sem pânico, quem está ferrado vai pedindo o direito a ter reconhecida a pretensão da seriedade, como se tivesse sobrando uns pruridos de sabedoria, mesmo que no escuro não use a lanterna com pilhas novas, mesmo com o ar recendendo a mofo, temendo que aranhas e percevejos venham a se aninhar no ouvido e na garganta, torcendo para que uma saída apareça de uma vez por todas, o desbragadamente doido decide bater, então, ele bate, bate furioso na porta somente encostada.

Apático ou atlético? Isso tem tendência a patético.

Com a criançada empoleirada naquela amoreira irresistivelmente carregada de frutinhas carnudas, um fulano metido a dono daquele éden das amoras acha de soltar a matilha de dálmatas, dobermans, perdigueiros e pastores, assim, pulo eu e pula você e todos pulamos, pulgas pipocando em frigideira fervendo, daí caímos fora.

Paranoia de poeta ou tremelique de pateta? Defende-se o enigma.

E uma vez protegido, o enigma cresce como pé de feijão durante a madrugada amena da meia-estação, quando a primavera doce abre mais cedo o seu cândido manto azul sobre quem não para, quando a manhã transpira café com leite e pão com manteiga, repasto bom que embaça a lente dos olhos, mas o escriba respeita o respiro da escrita.

Meio santo, meio tonto? Isso depende da garrafa.

Se for de vinho, tonto. Enrola a língua, perde a estribeira, se mete na salada russa de ficar falando nada com nada, todo besta.

Já a incolor de olor bendito faz o santo que não fecha a matraca, e muge que nem vaca, carpe feito bode e cisca como galinha.

A leveza do juízo pede a ingestão pesada do riso, sim ou não?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2021.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Coração de mãe

 

Coração de mãe

 

O homem está sentado à mesa; tem fome, mas não se deixa levar pela tentação daquela lasanha. Fumegante e suculento, o objeto gera desconforto, infernal por girar-me do sensato ao incontrolável. Então, transbordando uma rebarba de muçarela espetacularmente apetitosa, acabou difícil segurar nas entranhas os vermes do prazer capital.

Além de olhos e boca assanhados, ele tem o fígado e sua vesícula sobrecarregados por tantas delícias causadoras de crises mentais e febres físicas, mas olhos e boca, corajosos seduzidos, não assumem a parte da autoria que lhes cabe.

Sejamos indecorosamente honestos, as posteriores condenações peremptórias do abuso não passam de inútil remorso, sentimento que não nega bulhufas o arco-íris do desdém ao rancor.

Entre o homem que odeia querer daquela forma uma bela lasanha gordurosa e o realizado senhor que ama a altivez funcional das suas vísceras, reina uma zona sombria.

Por um lapso, entre sombras, o opaco parece um norte.

Em pé: à frente, a pia cuja torneira me dará a água fria quando me for necessária; ao lado, as bananas, peras e maçãs que comprei de manhã; às costas, colocando-me no meio de um triângulo com lados quase iguais, sei apenas que tenho lugar à mesa.

Perdido?

Com o mundo teimando querer-se fixado nas minhas retinas, com a realidade cometendo os seus truques tão manjados, com a ilusória estagnação da vida renovando seus malabarismos de salão, com os acontecimentos sem parar de retomar o passado como se o já vivido ancorasse o futuro nos corpos extenuados na luta contra o marasmo, com o instante insistindo em ludibriar meus olhos contrariados, quero entender e compreender o que tanto me aborrece, angustia e aflige.

Isso me orienta e estorva, alegra e irrita, alenta e derrete.

Quando o presente fica represado por uma espiral de notícias que acarretam mais e mais notícias, a mim me escandaliza permanecer enredado pelas tramas fantasmagóricas desse pretenso contínuo.

Feito mosca a suplicar que a brisa do meio-dia me mostre como a teia está ligada às árvores do desgosto, dou importância aos fatos. E os fatos me devoram sem trégua, dia e noite, pois fatos importantes têm fama alavancada por minha audiência de míope impressionado pela avalanche que me encarcera na atenção de pessoa embaçada.

Invisível pela exposição excessiva, obsediante pela presença sem folga, o instante que não passa me quer preso ao agora.

Agora?

Na falta de pão, armam o circo.

Na falta criminosa de vacinas, multiplicam-se os óbitos.

Na falta monstruosa de compaixão, é infame quem odiento.

Entre este memorioso melancólico que mistura banana amassada com aveia em flocos e este esperançoso que não comerá os próprios dedos, penso outra hora, vivo pela aurora, trabalho um outro agora.

Já!

Por seu coração em que amores florescem, saúdo Dona Hermínia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2021.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Alguma prosa

 

Alguma prosa

 

Não é porque seja outono, nem que seja maio, nem mesmo que a posição do Brasil no globo terrestre tenha relação com o fato, nada disso, é porque o sol tem este costume de seguir as suas regras de maneira cristalina: para dar um pulo no Japão, há o crepúsculo.

Então, quando a noite começa, tem quem defina o momento como uma experiência única. Alguns até se entusiasmam e a consideram a mais romanticamente poética do dia. Para alegria desses nefelibatas, a Terra gira e, todos os dias, ocorre a maravilha que os encantam.

Assim, com a escuridão coalhando-se de estrelas, os amantes de retinas aguçadas viram mariposas em torno de ideia tão brilhante.

Baixadas as portas, meu amigo e eu tocamos a nossa prosa.

Nossos olhos sabem do caminho enquanto vamos. Os nossos pés conhecem as pedras pelas passadas que prevemos. Nossas palavras trazem a noite, o céu estrelado e o deslumbramento dos apaixonados sem nos determos. A realidade não basta, por isso não calamos.

Conversamos banalidades, falamos misérias, e logo as discórdias frutificam. O silêncio entre as frases não é um monstro a nos fustigar os neurônios. Opinamos com tristeza: casmurros são os outros.

Tragamos nossos cigarros, batemos nossas cinzas e a conversa que mantemos nem toca em cigarros e cinzas. Não fumamos porque falamos. Falando e fumando, vamos indo. Ainda que nossos pulmões andem precisando de um rastro menos tóxico, fumamos a céu aberto.

Não digo que somos tão imbecis, pois temos clareza sobre o que nos afeta. Antagônicos, quando vejo na lua o espelho do sol, ele nem pisca ao me enquadrar poeta com esse luar feito um reflexo.

Ora, toleramos um ao outro porque as nossas querelas insolúveis dão vida a essa ternura a contrapelo que tanto cultivamos.

Sabe aquela história de oito ou oitenta?

Se não fôssemos tão radicais em nossas visões, não haveria este lugar que temos em comum: a amizade.

Quando verdadeiro, o amigo estranha contradições numa pessoa pudorosa quanto a manter-se coerente no dia a dia.

Todavia humanos, improvisamos.

Inflamos nosso bote com o ar que expelimos quando disparamos a querer justificar nossas incongruências de náufragos amadores. Só que não nos contenta sobrevivermos, experimentamos o sal da água e bolamos engenhocas que tornem doce o amargo. Ao fim e ao cabo, bebemos os nossos perdigotos.

Ao meu novo aceno à multidão que acha que vive de nuvens, ele toma da sua realidade o que melhor embase o seu ponto: há um pai e um filho que vivem nas ruas, nem por isso merecem dele o mesmo tratamento.

Sem estardalhaço, o menino cumprimenta ao entrar, tira o boné ao sentar-se, come o prato feito que lhe é servido e, agradecido, sai.

Aos gritos, o outro quer pinga, moedas, as sobras do almoço e vai amaldiçoando a mão nada solidária.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra?

À flor da lua, especulo: aprendo a nadar nadando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2021.

domingo, 2 de maio de 2021

O filme da minha vida

 

O filme da minha vida

 

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio, caramba, a fera nada melhor do que eu, que situação terrível a minha, pois meu cachorrinho é horrível, sério, e o bicho não desiste, já deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés, puxa vida, e tenho tanto medo que nem olho, e como me angustio, minha nossa, engulo tanta água que desesperadamente tusso.

Impede-me a tosse de perpetrar uma barbaridade, a de me achar o último caçador de bestas com vontade aguda de matar. E tossir não apaga a manhã ensolarando a minha coragem de mentiroso.

Com a goela seca, até parece que saio do sonho de alma lavada.

Por meus botões, esses conselheiros da consciência nem sempre alerta, descubro que o meu otimismo gosta de reclamar à esperança a insatisfação de algum desejo. Fonte de segredos tornados públicos quando falha na vigilância dos meus recônditos irrequietos, a minha cabeça trama que me sacie a luta pelo que me falta.

Em outras palavras, não há felicidade que me convença a ficar em paz quando as meias úmidas me transportam pelo pesadelo de ter os pulmões tomados por bacilos tão ativos.

E reajo à brevidade de um dia?

Ajoelho-me.

Não rezo nem rezarei, mantenho os calcanhares sensíveis ao tiro de largada. Olho em linha reta; a fita a cem metros; ouço os aplausos. Segundos depois, a sensação do desastre. Porque o bloco está solto, os tênis fustigam os calos, um sabiá canta a um milésimo do disparo, a arquibancada está vazia, tenho alergia a ouro.

Com a coroa de louros exalando o cheiro da sensatez, inebria-me pensar que consigo dissimular o meu bem-estar. Como quem faz do fracasso a base do sucesso, entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios, olímpicos ou chinfrins. Porém, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse algo imperativo, e, quiçá convincente, cubro a cara com um sorriso.

Por quê? Rugas ficam simpáticas quando sorrio.

Com um fraco para tibiezas, vejo no bagre um salmão, e felicito a água em cuja fluidez plácida piranhas não pululam. Acenando, desejo fartura aos pescadores atrás de comida e alguns quilos para venda.

Flutuando, deixo-me fisgar pelo cochilo. Indolente, bebendo uma cachaça, não ministro a tilápias um vale-sonho. Lambendo os beiços, avivo o fogo que liberta das postas fragrâncias saborosíssimas.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, não defendo o meu pão como um ator que se alimenta das câmeras.

Quero defender a pele da gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado, entra em cena este coitado lavando as unhadas e a bocada na minha destra. Pena que o sabão seja apenas detergente e não tenha superpoderes, porque eu queria a minha canhota inábil o bastante para digitar com maior comicidade a derradeira palavra:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2021.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Ato criminoso

 

Ato criminoso

 

Talvez o ângulo não seja dos melhores, isso, porém, não autoriza imaginar situações mirabolantes em que o destino do mundo esteja em jogo. A sua cabeça delira por bem pouco; então, o que tinha ali era um pacote provavelmente esquecido por alguém distraído.

Nada de tomá-lo como material tóxico ou bomba, que isso, sim, cairia bem em um filme espetacular, arrasa-quarteirão, no qual até os mocinhos são vilões na bravura tão eletrizante, sensacional e pueril.

Pelas circunstâncias do andamento do caso, estando impedido de ver-se ao se deparar com o tal embrulho na mureta da escolinha de educação infantil, seria de bom-tom avisá-lo de que a sua expressão era de um tolo pego com um mistério apocalíptico nas mãos.

Mergulhado nesta fantasia mandraque de enxergar-se destinado à glória, achega-se um ruidoso trio: avó, seu filho e a sua neta.

Você conhece o quadro: no abraço camarada, para disfarçar o seu constrangimento, a mão estendida, escandalosamente não apertada, dá tapinhas anêmicos nas costas cordiais daquela pessoa, cujo nome acaba preso na ponta da língua.

A senhora que sempre fica satisfeita em dar um beijinho na face direita resolve, sem aviso nenhum, que um só não basta e tasca outro na cara de quem busca desesperadamente um buraco no chão.

E a menina malvada ri das suas maçãs ruborizadas.

Pense bem, a vergonha tem olhos que não sabem como disfarçar a timidez que embaraça tanto, e de tal forma, que magoa.

Esse olhar magoado, no entanto, raramente brota em quem tem o que dizer e diz. Os olhos, em quem não duvida da necessidade de ter o que dizer, têm o brilho perturbador de gente certa da mensagem a ser dita. Com voz firme e olhos vidrados, diz e pronto.

Assim devidamente ignorado, flor sem água, seu olhar murcha.

Enquanto o homem segue falando de si e vai acrescentando mais outras camadas de si, a avó (mãe do enfadonho tagarela) e a filha do umbigo do mundo (a sua amada netinha) se entreolham e, sardônicas e cúmplices, elas piscam e sorriem.

Neste ponto, já que a realidade não tem camarins para que possa alegar urgência em preparar-se para uma cena menos deprimente, os seus lábios tremem de leve, tartamudos, a querer contar algo.

Aquela esquina, há muito, fora um terreno baldio. Naquele tempo, o rapazote, longe dos trajetos que costumava fazer, passava e, para seu assombro, deparou-se com o circo.

Tinha visto um na TV. Além do formato, a lona trazia estampado o nome em mágicas cores vivas: Circo-Teatro Sonhos do Mundo.

Entretanto, aquela recordação singela, de uma tristeza serena, foi cortada pela algazarra da criança que teimava em tirar-lhe das mãos aquela peça de vidro.

O que será?

Não é um crânio nem suas mãos são as de Laurence Olivier a dar às gentes uma fala de Hamlet, o objeto é um reles, e muito útil, copo.

Devolvê-lo à caixa não o inocentará do papelão de tê-la aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2021.

terça-feira, 27 de abril de 2021

De boa-fé

 

De boa-fé

 

Tem coisa errada comigo. O meu dever é encontrar o que está me deixando incomodado, ou o que está funcionando mal poderá piorar. Estou desconfortável. Prefiro saber a ficar com alguma doença sem nome médico reconhecido.

Afinal, a medicina é uma ciência. O que não é brincadeira. Assim, tenho que achar onde está o problema e qual pode ser a solução, ou soluções. O meu corpo tem segredos que minha ignorância nem me permite elencá-los.

Não sendo médico, parto para o autoexame subindo e descendo os degraus que dão acesso ao porão. Não tenho medo do escuro, só acendo a lâmpada para não tropeçar na escada.

Fico cansado, mas o coração não dói. Não ter pontadas é um bom sinal. Tudo certo, menos o cheiro azedo do suor velho na camiseta outra vez empapada.

Com o coração em ordem, desconfio do fígado. Sem hesitar, bebo cerveja no gargalo. Tomo a dúzia de garrafas da geladeira, e nada. O bicho nem liga para tanto álcool.

Com o volume bebido, vou aliviar a carga. E isto quer dizer que os rins estão funcionando como esperado. Até a urina está clarinha.

Já disse, medicina é arte que não domino, por isso sigo em ação. E dar ao corpo vivências novas é uma maneira de estar pronto para quando for necessária a reação, porque a vida é desafio constante.

Superar barreiras, uma depois de outra: tenho esta predisposição de continuar a desafiar-me, mesmo não sabendo dos riscos.

Dito de outro modo, o autoconhecimento é menos daninho ao meu juízo que a indisposição espontânea. Pois, não me convenço de que doenças sejam naturais.

Natural é laranjeira dar laranjas.

E são tantas. Conheço algumas: a lima, a pera, laranja-de-umbigo. Se é doce ou azeda, pouco importa, sempre coloco açúcar, pois meu paladar é apurado para comida.

Como sou de limpar o prato, não suporto discussões na hora que estou comendo. Isso irrita e irritação atrapalha a minha barriga a fazer a digestão, e digestão malfeita é um desastre. Não fico parado nem consigo prestar atenção em nada. Só penso que irei passar mal.

Quem nasceu para águas rasas não deve mergulhar achando que vai saber sair do mar antes que o tubarão do afogamento mostre sua mandíbula cheia de dentes.

Já que estou arriscando a aprender na marra como me virar diante dos enroscos da vida, encho o tanque e enfio a cabeça toda. Abro os olhos e vejo que o troço é feio do mesmo jeito como se estivesse sem água. Entretanto, o que está mudado em mim é ter certeza de que consigo prender o ar por três minutos. O que me dá outra certeza: os meus pulmões estão perfeitos.

Tudo é coisa boa de saber?

Sem faniquito, entendo que não alimentar um monstro gera outro; portanto, para que o parto do novo homem se complete, e ele tenha, com a plenitude do seu intelecto, condições de dar a sua contribuição para a sociedade do futuro, é preciso beber da cicuta a dose precisa, que o potencialize e não o abata no nascedouro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2021.

domingo, 25 de abril de 2021

Uma paradinha

 

Uma paradinha

 

Posso parar? Preciso, e paro.

Não vou pro mundo; se ele quiser, que venha. Só não garanto que vou recebê-lo com entusiasmo, mas terei o mínimo de civilidade.

Será recebido com sorriso, ainda que apático, indiferente, de idiota que se percebe anestesiado pela presença massacrante de notícias nem um pouco alegres. A realidade que o mundo apresenta não tem sido fácil de testemunhar.

Meus olhos não enxergam nenhuma natureza morta no arranjo de TV, micro e telefone desligados. Não há beleza, há banalidade.

Então, cortês, puxarei uma cadeira ao meu lado e, como remanso, oferecerei alguma prosa recheada de amenidades.

Ando precisando de um descanso das aflições que só me apertam o nó no peito, e o fio da tesoura está cego. Garanto que esteja, pois o meu farol está fraco e não vejo o caminho. Este nevoeiro angustiante penetra-me a pele e rói-me os ossos. O aperto vem de mim, e preciso respirar com naturalidade.

Hoje, só por hoje, que este mundo cheio de becos sem saída leve em consideração o meu pedido: que me venha amigável.

Confesso, tantas carências estão pedindo atenção; e não as quero ignoradas ou mal atendidas. Todavia, para que eu consiga manter-me digno enquanto me recupero pra seguir atento, recorro a expedientes cotidianos: um café passado na hora, com uma torrada acariciada por um patê de alho e a calma para o prazer de ter a tarde para desfrutar de alguma serenidade.

Venha, mundo, mas venha preparado para meus ouvidos moucos. A minha surdez é temporária, de quem não lamenta a falsa proteção do precário, que o caos da vida dilacera a fissura, a alma sobe à pele tal qual estalagmite. Esta emersão fere, surdamente pulsa, o cérebro tenta equilibrar-se em desconforto, aliviar-se. Sofro, porque caverna rugosa não é casca, é mais que casa, é casulo das tensões em flor.

Embora possa pouco, não desejo que me assaltem abstinências torpes a violentar-me e a quem esteja por perto. A minha sede mudou de tom. Sei quão distante estou das biritas. Bebo água aos tiquinhos, fazendo bico de pintassilgo. Gorjeio.

Na mansidão que penso estar nutrindo, espero que os males da vida não me enxotem com seus fatos zombando de mim.

Quero folga.

Que o mundo faça a gentileza de entrar em minha casa sem fazer alarde de seus abismos e suas carnificinas. Iludo-me, eu sei.

O mundo não cabe nesta esperança de paz que julgo ter direito a acalentar, é ilusão de parvo, bem sei.

Pó pará?

Antes de pôr os fones, corro os nomes que o algoritmo selecionou por mim. Entre as sugestões, desponta o Prefeitinho.

Topo a parada.

Tão necessária, esta alegria repousa as minhas pálpebras, adoça o balanço dos meus nervos e estimula a bonança do meu recesso, é que Pedro Miranda convida e, Da Gávea para o mundo, eu vou.

Ouvido o disco, finda a festa?

Não rejuvenesço, mas assobio e batuco; ouço de novo.

De boa, que paradinha maneira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2021.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Pé de inhaca

 

Pé de inhaca

 

Com os jornais lidos, parto para uma pera. Comer um pouquinho de três em três horas sossega as labaredas do meu estômago.

Poderia jogar a culpa do meu desarranjo na leitura, porém a minha barriga já estava alvoroçada antes do almoço.

Acordei com esta âncora, o asco, a me pesar um bocado. E o mar tão revolto abre úlceras abrasivas que até o bafo fede a brejo.

Nojento, eu sei. E não aceito que me desculpem a transformação da realidade em hálito repugnante. Falta-me filtro, ou alma mais leve.

Mesmo os meus sonhos andam cavando poços sem água. E sem água, a minha saliva azeda borboletas e pirilampos. O recomendável é que eu permaneça quieto, ou dê exemplo de pesadelo ácido.

Incomodado comigo pela falta de equilíbrio, saí da cama como se tivesse realmente comido a noite inteira.

Havia uma comida bastante vistosa, saborosa e... gordurosa.

Uma senhora bem idosa e muito simpática empanturrava-me com pedaços e mais pedaços de cuscuz. Coma, meu rapaz, pois você não vai poder deixar restos deste trem no prato, que este é o verdadeiro cuscuz do Tiradentes. Sem ovo, sem peixe, sem farinha de milho, ele é feito com manteiga de garrafa, farinha de mandioca, torresmo, paio. Continue, rapaz, continue comendo sem medo.

Sem nenhuma razão, fixei que a abençoada de mãos criativas era a mãe da mãe da minha mãe, só porque ela nascera em Minas.

Estou febril, pois não a conheci nem nunca vi uma foto ou pintura retratando esta minha antepassada. Entretanto, mantenho a conexão fantasiosa entre a alcunha do quitute com este vinte e um de abril.

Por suposto, haja calafrios e ferroadas no pescoço!

Puxo o banquinho para ir mordiscando a fruta; passo os olhos pela rua; pouco me interesso.

Não há refresco, a panela de pressão segue no fogo brando do outono. Devagar, com suas presas pacientes, a boca do tempo segue beliscando o viço de toda gente.

Súbito, muitos do cortejo apontam para o céu.

A comichão faz-me subir à laje do último piso.

Fascinado, eu observo a passagem do balão. Meus olhos buscam referências para que me seja possível calcular a velocidade daquela maravilha.

Minha infância rediviva dispensa a física dos materiais. Afinal, ter visto alguma vez a Barcarola do Padre Voador em nada diminui meu deslumbramento com o voo daquele fruto do engenho humano.

Nem preciso divisar quem está na cesta, seja curtindo a amplidão do horizonte ou operando as chamas que mantêm o balão flutuando acima da minha euforia.

Horroriza-me a comparação com formigas.

Pois formigas têm rainha, e suas operárias ralam sem parar pela imobilidade do reino. Carbonário e formicida, o meu sangue ferve ao pensar em submissão natural.

Que ideia revoltante.

Desço. Encontro a gatinha abocanhando as folhas recém-brotadas do milho de pipoca plantado no vaso da citronela.

Desconfio que a minha baba adubaria o broto como pé de inhaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2021.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Lembrancinha

 

Lembrancinha

 

Parado na esquina, fumava aquele cachimbo que parecia um sax. O seu olhar cruzava em diagonal o cruzamento das ruas, baforava-o. Mas os olhos não tinham fumaças de Round Midnight, eles não viam do outro lado a casa que, abatida por máquinas e mãos tão afinadas, não se dissipou no ar.

Não se enganava. As substâncias tóxicas do fumo eram boas para acalmá-lo. Para ter a cabeça em paz, era justo que seguisse no vício. Seu corpo tranquilizado, talvez pelo consumo recorrente de nicotina, contribuía para estar no mundo sem pretensões de encontrar o que não buscava. Havia quem explicasse a vida com ideias modernas, ele não, ele fumava. Ainda que soubesse que aquilo que tragava corroía os seus pulmões, aquela fonte de sensações apaziguantes, aquilo o matava tão satisfatoriamente. O pigarro e a tosse eram autênticos.

Os seus pigarros e as suas tosses causavam irritação. Ainda mais em concertos de música de câmara, com viola e violino duelando por acordes pianíssimos. Então, mesmo ele apoiava os olhares ríspidos e cismava consigo que fosse tossir para outra freguesia. Pigarreando, a resignação acentuava a franqueza de retirar-se de ambientes em que sua presença implicava transtornos.

O fundamental era manter-se sereno. Pois a tranquilidade permitia que pensasse sem atropelos. Quando estabanado, errava mais que o tolerado em uma pessoa dada à discrição. Pedia pela ordem, que um passo levasse a outro, sem que expectativas fossem frustradas.

Portanto, tomou o rumo. Tinha compromisso certo. Queria cumprir o seu dever como quem não o toma por dever, porém como um gesto de amor. Tratou de ir num ritmo ajustado ao fôlego, sem que se visse obrigado a um esforço maior. O que iria comprometer a noção de que estava a caminho porque era o certo a ser feito.

Avesso a improvisos, era homem de avaliar. Pesava os detalhes, refutava desvarios, e como detestava sonhos ruins.

Não era uma ideia encarnada, tinha ideais a norteá-lo.

A moderação dizia que antes das imagens nos celulares houve o daguerreótipo. Sim, antes dessas mensagens de voz enviadas pelos zaps da vida, Graham Bell esteve na Filadélfia. Era preciso conservar o que sabia.

Os ventos que agora geram a energia limpa para carros elétricos também moem habitualmente trigo, e não o joio.

Por apreço aos fatos, nunca foi de questionar o seu dever de falar a verdade de modo honesto, sincero, ponderado e comedido. Diante daquelas miosótis tão viçosas sobre a campa, todavia, a sua bengala foi mais rápida ao espatifar o vasinho contra a lateral do sepulcro à esquerda, sem que houvesse como se perguntar quem teria o arrojo de desonrar a memória da sua amada esposa.

Se o incêndio do Museu Nacional não o tivesse distraído, naquela fatídica noite, traria ainda na carteira a foto em que se revela o buquê de hortênsias a autorizá-lo tão legítimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2021.

domingo, 18 de abril de 2021

Gazeta mirim

 

Gazeta mirim

 

Na estrada batida feito palco, ia saracoteando.

Calçando os chinelos nas mãos, a sola do pé gostando de pisar a terra, o menino estava que nem ligava de onde viera ou para onde ia. Pelo jeito que andava, seguia sem destino ou não tinha pressa.

O caminho, na verdade, tinha trechos em que era difícil de vencer por causa das pedrinhas. Na maior parte da caminhada, contudo, ele nem reparava no que ia pisando. Só desviava de bosta de vaca.

Como estrada de pouco movimento, de gente e de carro, então, o menino podia ir ziguezagueando. Ora afundando os pés na terra fofa, ora andando no chão mais firme.

Não passou pela cabeça do menino que foram as águas de chuva que marcaram o terreno. Ele sequer imaginou que lama poderia virar atoleiro. Pensar em trator ajudando desatolar, seria exagero.

Vendo aquelas árvores carregadas, ele hesitava: comer goiaba no pé ou levar tiro de sal nas costas? Fora a fúria dos cachorros.

De repente, um bem-te-vi cantou. Ou melhor, de repente o menino achou de ficar interessado no bichinho que vinha cantando fazia já algum tempo. Aliás, havia muitos bem-te-vis cantando.

O menino remediava os cantores. Gritava em resposta, assobiava, certo de que tinha o dom da imitação correndo nas veias.

Encasquetou: queria ver um de perto.

Quando um deles assentou no mourão da cerca, o menino fez que não era com ele. Caninana desnaturada, deu o bote.

Mesmo sem ter sido atirada com força, a pedra derrubou o animal. Derrubou-o, contudo, definitivamente. Assim parado: que bicho tosco, inerte, coisa mais sem graça.

Sim, o inocente não calculou os danos do seu ato.

Sim, inocente. Não se veja maldade no coração do garoto.

Simples: o menino não escolheu a pedra nem por tamanho nem por formato; pegou a primeira que sua mão alcançou; todavia, a má sorte sorriu-lhe pela precisão que o acaso calhou de dar ao disparo.

Contudo, o menino tinha atitude de toda sorte, uma vez que, meia centena de passos mais adiante, quem disparou foi ele.

Fazendo um alvoroço danado, levantando o poeirão da estrada e assustando os bois do pasto e a passarinhada do mato, uma picape vinha desembestada.

Nisso, uma galinha com seus pintinhos ia cruzando o caminho da 4X4 endiabrada. Sem um segundo de bobeira e agitando os braços feito um doido, o menino foi colocar-se entre a família galinácea que passava e a besta-fera a diesel, cujo motorista foi parando o monstro sem maiores sustos.

Alguém o poderia ver como nobre guardião da natureza. Mas não era isso. É que a galinha não merecia morrer atropelada; ela cairia bem numa panela.

Sim, o maroto inocente gostava do guisado de galinha com batata, cenoura e louro macerado por mãos sabedoras do preparo.

Vá lá que seja.

É direito seu querer saber: o nome do menino; se ele morava com a mãe ou a avó; se a casa tinha geladeira e água encanada ꟷ isso, porém, fica por conta do Censo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2021.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Forrobodó

 

Forrobodó

 

Antes que o cachorro vadio seja corrido dali pela mulher brava na voz e nos gestos, diga-se que aquela patota, de mulheres e homens acima dos setenta anos, estava vivamente vacinada: pela expectativa da segunda dose do imunizante contra o corona da Covid-19 e pela alegria de ser pessoa que ama outra sem a cobrança da recíproca.

Então, o carro parou. Dele desceram uma menininha meio tímida e uma mulher dos seus trinta e poucos. O motorista veio em seguida, e saiu acenando e sorrindo.

Fosse dado a comparações, você diria que a figura do homem era similar à do Moisés desentranhada do mármore pelas mãos exímias de Michelangelo. Era visível, havia a tensão dos músculos de quem está inclinado a levantar, porém refreia as carnes, súbito; mais ainda, dava para perceber que havia uma crispação no olhar, de quando o sujeito chispa uma raiva que fulmina os incautos que dão com o furor daqueles olhos.

Foi assim que um daqueles senhores da roda que jogava porrinha reagiu ao reconhecer quem fez a baliza sem passar vergonha.

Cometesse o erro de dizer de pronto as impressões da vida, teria de desculpar-se pela leitura facial equivocada.

O tal rosto, em vez de ira, estava mais pra estupefato.

Saber quem era enfezou o camarada de tamancos rudimentares. Foi um estralo atrás de outro, marcando a contrariedade com aquela presença. Numa tarde linda daquelas, de sol quentinho e uns bandos de maritacas em trânsito frenético, benfazejos ambos, a birra tinha lá os seus motivos.

Pulemos as razões, fiquemos com o congraçamento de abraços e beijinhos a distância, era a mímica de alguma felicidade. Alguma, pois improvável evitar a satisfação do reencontro como felicidade.

Como já ia soando fácil a sanfona que o recém-chegado trouxera consigo, vibravam com a música. E aquilo era bom.

O rancor sumiu na marcação da madeira do tamanco no concreto da calçada. Tinha ritmo o mastigador de fumo de corda. Que cuspia e soltava onomatopeias de incentivo. Fora as palmas irregulares, ainda que no tempo forte do que se estava tocando. Muito eufórico.

Vê-lo motivado animava. Era a deixa aos demais.

Se estava demorando, não mais. Bastou a mulher de chapelão de pescador tirar a esposa para dançar que a poeira do caminho subiu que foi uma beleza.

Tanta alegria, empolgação e riso solto?

Cervejas surgiram. Brotaram porções de mortadela e torresmo.

Oxe!

O sol tinindo. O som bombando. Bailavam à beça.

Curiosa, a vizinhança ocupou janelas.

Quem aprovava, com palmas e assobios, passou a acompanhar o rol de clássicos do Gonzagão. Os do contra, no entanto, apupavam e acusavam que era aglomeração.

Sem quebrar a magia do forró lascado, as parcerias de dança iam se renovando, sem estresse. Todos se divertindo.

Como coisa humana espontânea e entusiasmante, logo chegaram triângulo e zabumba. O pé de serra ficou mais arretado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de abril de 2021.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Urucubaca

 

Urucubaca

 

De copo em punho, quis ver a vida além das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do outono, com o sol noutro canto, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo perna. A peste matando quatro mil por dia e dei de cara com aquela multidão apostando contra a própria vida.

Olhei as horas no celular. Passava das cinco. Das cinco!

Curioso o que ocorre com esta minha mente, deveras humana.

Depois do almoço, deitei no sofá para tirar minha soneca habitual, só que ronquei pesado até acordar, já quase na hora da janta.

Achei que conseguiria recuperar a tarde perdida, mas o tapetinho do banheiro cortou a minha afobação. O batente, fortaleza inconteste, proibiu-me outra queda. Para não produzir maiores estragos, tomei os remédios mesmo fora do horário. Pedindo que a inhaca sumisse ralo adentro, lavei o rosto, mas o espelho sequer me devolveu o sorriso.

Barquinho ao léu das águas calmas, de passada em passada, vim abalroando de leve as paredes. Com os remos fora d’água, isto é, as mãos garantindo-me uma trajetória menos bêbada, os olhos tomaram pé da situação. Comigo andando sem abusar, procurando conter meu impulso de acreditar nos meus ouvidos afogados de sono, deixei que o corredor aprumasse-me o juízo até que a espinha ficasse ereta sem a ficção dos alongamentos bem aplicados.

Minha estupidez impede-me de compreender claramente o que se institui na minha frente. Sem pata de coelho nem raminho de arruda, o mundo tem outras prerrogativas.

Para embaralhar de vez as cartas na mesa, já que não vejo a rua que desejo pulsante na rua que vejo às cinco da tarde, acabo indo na onda do meu corpo. Tocado pelo amor ao próximo, o meu organismo traduz as sensações em ideias sensatas, embora dissonantes.

Nem surdo nem cego, observo. Vou aturando.

No cotidiano, dois espelhos colaboram comigo na tarefa de querer enxergar com alguma lucidez as circunstâncias de estar vivo em meio às tramas do tempo e do espaço, e consulto-os.

No banheiro, no primeiro deles, evidenciam-se as rugas que a lida com a fome e o medo tem-me vincado sem trégua desde que nasci.

No segundo, dado à mercê de sua leitura, fabrico alguma face que não lhe seja por demais indigesta, textualmente opaca.

Muito do que faço, muito disso, falha e magoa, mas, pobre-diabo, o trabalho me seduz, e sorvo este encantamento. Como pensamento mágico tem capacidades, sinto que, revolvendo o lodo obscuro onde o ofício conta comigo para fazê-lo, posso registrar névoas.

Mas, que fotografam minhas janelas?

Com o horror convertendo-se em terror, o abismo avança sobre o chão da casa. Assim, tardança alimenta-se de esperança.

Para extrapolar as cabalas da urucubaca, de viva voz, pedindo por saúde, alegria e sensibilidade, esta crônica reproduz a transcrição fiel da gravação que fiz de mim por livre e espontânea vaidade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2021.

domingo, 11 de abril de 2021

O espectro

 

O espectro

 

Diante da cena, faço o possível para me aquietar na cama. Com o indicador direito, marco O amor acaba. Sem êxito, ronrono à gatinha. Protegido da claridade do sol, o meu olhar não a convence que valha a pena enfrentar a cegueira momentânea. Os raios brincam com as partículas em suspensão; a poeira do mundo retribui com sua canção de arco-íris fugaz. Risonha, a felina desdenha dos flocos iridescentes. Deslumbrado, avento um diálogo entre sombra e sol; por sua vez, a gata mordisca a franja do tapete. Não ignoro o que me perturba.

Fascinado, nem sei em que termos proporia o papo. As sensações reagem à imagem do instante memorizado. Mas a natureza não para, e a vida segue. Há este domingo, ainda há.

Como fotografia, o domingo não se espraia em mim, uma vez que este dia está represado. Uma coluna de minério líquido. Entre a areia que corre nas veias e o desejo de expelir a desdita, rins e bexiga não exalam anis, emanam o chorume de enxofre.

O que posso fazer quando o domingo machuca por dentro? Nada, pois não conheço a dor se não a experimento. E padeço saber-me.

Muitos odeiam as segundas-feiras. Eu odeio ter de suportar o que não passa. Nada contra a segunda que virá. Por que ainda não veio? Porque não jogo às costas do amanhã a minha fraqueza para desviar o pensamento da ideia fixa, centro gravitacional a exercer influência.

E sigo a maçã desenhando uma espiral rumo ao ralo.

Portanto, mesmo sem pia, água e maçã, mordo a isca de ilustrar o meu desassossego como uma questão física. Sem alívio da pressão.

Eu, pecador por omissão, confesso minha imobilidade diante das atrocidades. Sequer lastimo o sentimento que me condena. Devasso, cuja carne baila uma bile asquerosa, e dolorida, sonho que bailo.

Maior a raiva se erro as palavras para tanto nojo.

E a segunda-feira nem desconfia que estou longe de querer uma vida ascética, menos caótica.

Nem pisco. Ressecados, os meus olhos pedem colírio.

Ver dói. Com olhos lúcidos, é dor que corrói.

Fraco, não enfrento os meus fantasmas. Eles não me desnudam o vazio do coração, traçam-me em espectro.

Ele anda, vê e sofre.

Subo a rua. Ali ficava a albina cega que vendia gardênias. Acolá, o falastrão dos hambúrgueres caseiros. Quatro palmos além, com um arbusto de permeio, passa a professora do segundo ano primário.

O pé do arbusto fede a mijo de cachorro.

Debalde, Baudelaire, procurá-lo na multidão. Suas asas imensas de albatroz sombrio nos ares rubis tornam ridículos meus passos de fogachos fátuos. Desisto, como covarde que sou, desisto. Mal diviso o caminho de casa. Hipócrita, lamento os insubmissos sem máscara. Soubesse como, legaria ao mundo um devaneio menos cretino.

É a mesma a que me desorienta, a razão pela qual me oriento?

Senhora de suas carências, a gatinha bate na bolinha de papel e vai batendo. A serelepe sabe que não perde a razão quem tem ração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2021.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A joaninha

 

A joaninha

 

Alma confusa, sem saber ao certo se a lente do bom senso estava suja ou arranhada, era-lhe recomendável pisar de manso no freio até alcançar uma área de descanso, ainda que a caravana não pare.

O fluxo do amor-próprio conhece a acidez das mágoas, entretanto, não iria bastar uma vista aberta, ampla, da gloriosa enseada ao pé da serra. Não se duvide, o estado deplorável da percepção de si carecia da luminosidade única de um céu sobre o litoral, mas a autoimagem talvez melhorasse com a identificação do que embaçava a visão.

Exagerada, a autoestima aumenta a gravidade das feridas, assim as dores ganham cores berrantes, sufocantemente cruas, pincelando com vitalidade excruciante o pútrido, o nocivo, o doentio. Belo retrato, porém, bastante sofrido.

Quiçá o processo de superação dos desequilíbrios passe por uma visão menos impiedosa, mais racional, com salutares copos de água e banhos de sol. Quem sabe uma garoa prazenteira ajude a cabeça a sintonizar-se com os pingos das madrugadas relaxantes.

É a vida que sopra?

Sim, o vento leva milhares de anos para fazer-se notar na pele de uma pedra; já a brisa de um desejo nomeado de repente faz arisco o móbile de flutuações incontroláveis. Embora algum matemático possa calculá-las, prevê-las, a beleza está no diálogo do invisível que passa com os objetos que manifestam a intensidade dessa passagem.

Enfim, a mente escolhe respirar.

Mas, ter um respiro não é agir como respiro. Daí a necessidade da desaceleração, porque é preciso ganhar fôlego, sem retroalimentar o ciclo da autocombustão.

Pelo espetáculo do fogo, fogueiras extasiam. Selvagens, calcinam o que haja para esgotar; domadas, convidam a folguedos sob o céu.

Então, sem queimar a largada, minha dignidade chamuscada por lambidas de labaredas tão atuais, muito reais, exasperantíssimas, ela me pegou pela mão e fez-me tirar um momento com quase nenhum estresse, algumas felicidades enevoadas pelas fumaças da vida e um tronco no qual ainda se pode ler, apesar da pátina da memória em brasa adormecida, o entalhado de uma história.

De visita emocionalmente monitorada, para evitar contaminações com o que tenho de desastrado. Pois costumo esquecer a máscara no rosto e, já aflito de tê-la deixado em lugar que me escapa, busco o alento de não me reconhecer um estrupício sem espelho algum.

Como ia dizendo...

A minha dignidade propôs um passeio pelos campos da nostalgia, lá não crescem girassóis potentes, não crocitam corvos impertinentes nem germinam chávenas de láudano.

Comigo a imaginar o meu passado mais familiar, surgiu um gato.

O gato serpenteia o rabo. Estará bravo?

Como esfinge, olha para a frente. Na direção, só vejo a parede.

Ele se vira para mim, e mia. Ele se vira para a parede, e mia.

Olho. Olho e vejo. E sorrio.

Se uma joaninha vive em meio ao caos do mundo, há esperança.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2021.

terça-feira, 6 de abril de 2021

O importante

 

O importante

 

Nem toda pessoa está preparada para escutar que fez uma coisa muito importante. Quando está preocupada com algo mais importante do que ter reconhecido o valor do que tenha feito, então, tal pessoa é pega no contrapé. Irritada, ela chega a pensar que aquilo só pode ser brincadeira. Uma graça que não agrada quem faz a sua parte.

A parte que estão sempre pagando para ver?

Entrou no caminhão carregado na fábrica. Dirigiu-o pela tarde toda e parou para uma ducha morna no posto. Cobrindo o torso com uma manta tecida por mãos tão íntimas dos humores da lã das coxilhas, o sereno da noite que vinha encantando o luar da cheia de abril não ia encontrar uma brecha mínima para surpreendê-lo desprotegido. Veio, primeiro, a porção do carreteiro estocado na boleia; depois, o mate. E a bomba cantou até que os ossos acalmassem a carne. Serenado, o esqueleto colou o rosto na musculatura, para o sono bailar seu tango. Mal o galo tinha sido acionado pelos piparotes da alvorada, o pé na estrada pediu a média melada e os quatro pãezinhos na chapa, pois o local prescrito no conhecimento tinha por lei fechar para o almoço. Saudoso dos seus, se apressou para ver descarregada a carga.

Para que a corrente avance, mas não se rompa, já pulamos para o instante em que a pessoa escolhida vem a ser aquele consumidor de meia idade flanando de posse de um carrinho quase cheio, uma vez que sua boca meio voraz, além de coberta pela máscara obrigatória, tem a cobiça castrada pela carteira quase vazia.

Mesmo com os vinte e sete graus da tarde, ele tem frio na careca, não vergonha, daí o boné. Também não aprova quando o acusam de estar acima do peso porque a sua barriguinha, de salgadinho sabor churrasco com a cervejinha no ponto, revela que o verdadeiro homem de família dá valor a festanças efetivamente festivas.

Coloquemos nosso homem na fila.

Satisfeito consigo pela oportunidade de ter a ideia de substituir o ouro de uma assanhada picanha na grelha por um escondidinho de coxão duro, mas isso só se tornou supimpa uma vez que o preço da mandioquinha estava mesmo uma loucura.

Querendo mostrar-se um cavalheiro das antigas, tão logo bateu os olhos na loira de uns trinta anos segurando um pacote de biscoito de limão e uma embalagem de absorvente, nosso cidadão cedeu a vez.

Sem pensar duas vezes, a mulher aceitou. Pagou e foi-se embora. Teria audiência virtual em menos de uma hora e queria estar segura de sua fala sobre os aspectos legais favoráveis a quem a contratara.

Agora, educadamente, modifiquemos a situação.

O nosso homem de bons modos, sem pestanejar, ao virar-se e vir um rapazote com fones devorando um pacotão de algo fedido como cebola, foi logo dando a vez.

Aqui, a civilidade fica estampada?

No entanto, eivados de esperança, já que fizemos a nossa parte, pensamos: oxalá, com leveza no coração, você tire suas conclusões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2021.


domingo, 4 de abril de 2021

Partilha dos ovos

 

Partilha dos ovos

 

Passei uma semana infernal. Todos passamos. Não, a maioria de nós passou; portanto, nem todos. Vacinados ou ainda não vacinados, conseguimos. E havemos de seguir conseguindo.

Por compaixão e pudor, pouparei você de uma peculiaridade tão minha que é carregar nas tintas dramáticas, patéticas e escabrosas quando perco a noção da realidade.

Embora continue envolvido por situações ordinárias, pelas tarefas que fazem o cotidiano de pessoa de rotina modesta, que trabalha em casa, paga as obrigações fugindo das filas, ouve alguma música no telefone depois das refeições, saboreia os livros salvos da borrasca em que a catástrofe sanitária surpreendeu quem ia vivendo cada dia, e conversa face a face com os íntimos do núcleo familiar e a distância com meia dúzia de amigos, então, apesar dessa pacata normalidade, basta adoecer... e exagero.

O mundo está um caos. No Brasil reinam as trevas. Ninguém ama ninguém. Tudo está por um fio.

Amo o que faço, amo quem me ama e o amor estimula à chave. E, às portas do fim do mundo, trancando-as, deixa zumbis, vampiros e a matilha de mulas sem cabeça do lado de fora.

Fosse assim, seria apenas mais uma historinha cheia de teias. Só que não é outro conto de fadas narrado por um energúmeno.

O amor não é panaceia. Mas ele entra para dar estabilidade à liga dos ingredientes. Fazendo a massa crescer, dando textura ao manjar, tornando apetecível a realidade.

Haja tripas para aguentar o baque.

Tomava eu uma chuveirada para esfriar a cachola, quando vieram os arrepios. Senti a tempo, aquilo nada tinha que ver com as rajadas de outra tarde outonal. Fechei o vitrô. Que descuido.

As atualidades ajudam a embrulhar meu estômago. Desconfiado, recuso o requeijão. Raciocino que o pior vem aí, e corto a cocada.

Queria fugir. Precisava ir para um tempo em que nem sabia o que significava segurança.

Amparado às pernas de minha mãe no pátio da escola, ignorava a aparição inflamada da metralhadora de bigodinho anos quarenta que, com seus perdigotos gagos, fulminava o público (professores, alunos, funcionários e pais convocados) lá de cima, lá do alto, da mureta do primeiro andar do grupo estadual.

Entre lembrar algo daquele discurso sobre alguma coisa redentora e recordar os joelhos maternos? É óbvio que não vou mentir.

Além do mais, eu deveria mesmo era ter-me controlado e evitado o horror de associar os pingos do chuveiro a uma miríade de agulhas ávidas para anestesiar-me pelos miolos.

Hoje, recuperado com a dieta sem gordura, longe de frutas ácidas, comendo macarrãozinho ave-maria com batata sem sal, repasto que a memória sabe de cor, dou-me conta: preciso ir comprar ovos.

Hoje é Páscoa.

Entre a saudade da comida amorosamente dada a convalescentes e a esperança de que a peste passe de vez, separo meia dúzia para cozê-los e a outra metade decido chocá-los.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de abril de 2021.