terça-feira, 30 de março de 2021

A guerra e a paz

 

A guerra e a paz

 

Janeiro, reencontro no supermercado um grande amigo que havia muito não abraçava. Por força das circunstâncias sanitárias, porém, guardamos distância e tentamos balbuciar afabilidades. Meio insanos, como Crusoés numa daquelas ilhas voadoras de Gulliver.

Curioso. Encontrá-lo fez-me recordar da sua mãe, que costumava usar destrancar em vez de desatravancar. Explico. Como as casas de nossas famílias ficavam uma diante da outra, nessa infância longe da escola, volta e meia estávamos os dois a atravancar a passagem com brinquedos e bugigangas ꟷ estas, geralmente pedras e paus para as barulhentas, mais do que sangrentas, batalhas entre a rua de cima, a da nossa turma, e a de baixo, que era o território dos adversários.

Interessante. A memória traz certos aperitivos que põem a gente levemente bem, nostálgica. No labirinto de sabores, sensações, fatos e histórias, o fio da lembrança enovela e confunde. Todavia, isso não embaraça ou tensiona a ponto da ruptura. Mas há que se fazer algum esforço para não sucumbir a melancolias lacrimejantes.

O tal do nó na garganta pede pigarro. Às vezes, outro; e outro.

Quando vejo, estou na manhã do meu aniversário de sete anos. A minha mãe vai colocando o recheio nos pastéis. Ora queijo, ora carne moída, ora frango desfiado, ora linguiça esmigalhada.

Se era aniversário, só poderia ter acontecido no domingo. Porque nessa época, nos anos setenta do século vinte, os aniversariantes lá da nossa casa não contavam em querer quebrada a seguinte regra: os adultos tinham direito a comer pizza e tomar umas três garrafas de cerveja no sábado à noite, antes das dez; as crianças ganhavam bolo e os parabéns no domingo à tarde, antes da missa das seis.

Como não havia quem ousasse pedir para festejar o nascimento na data mesmo do dia em que nasceu, tudo era uma tranquilidade.

Normal, o mundo não ostentava fossos nem barricadas. Juro.

Com a minha mãe sempre disposta a dar o melhor de si, ninguém iria fazer questão de comemorar no meio da semana. Afinal, a alegria estava em reunir os parentes mais próximos. Dependendo do mês, os amigos da vizinhança, menos os colegas de igreja, trabalho ou grupo escolar, também eram convidados.

Quando fiz oito anos, porém, deu-se uma confusão. Foi empurrão; veio xingamento. Tomou tapa; levou cusparada. Depois, foi soco com soco. Rolaram no chão. Sem bolo cortado, a festa foi um fiasco.

Nunca mais comemorei aniversário com vela que não apaga fácil. Nunca mais abri presente com bilhete cordial.

Hoje, em plena pandemia, ainda que mamãe não estique mais sua massa caseira, peço pizza por telefone. Até na terça.

Pensando tristezas, sobrevivo.

Janeiro, aziago janeiro, mais um desses meses infaustos, porque, três semanas após nos encontrarmos, aquele meu velho parceiro das batalhas perdidas foi vencido pela covid.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2021.

domingo, 28 de março de 2021

Antes tarde do que nunca

 

Antes tarde do que nunca

 

Indignada, germinando em oportuna indulgência, a memória traz à tona algumas fotografias. Numa delas, com a imparcialidade do olhar realista, vê-se uma criança rechonchuda: o pijaminha assemelha-se a um quimono e o sorrisão nada budista risca dois olhinhos vivamente orientais nesse guri de uns dois aninhos de existência.

Sem saber-se gente, como toda pessoa humana nessa idade, cuja curiosidade talvez nem esteja em buscar explicações enquanto brinca com os gestos replicados pelo espelho, essa criança que fui era uma usina em potência transformadora.

Então, confirmando muitas daquelas expectativas mais negativas, o bebê transfigurado no beberrão universitário está precisando urinar. Pelo tanto de cerveja tomada à beira do lago do Ibirapuera, precisa.

Contudo, sem chance de chegar à ponte do jardim onde nadam as carpas mais belas que sua imaginação possa conceber, e sem poder contrastar a imagem já formada entre os bons cidadãos muito críticos diante dessa atuação pública em plena tarde de sol, eis que, certo de estar escondido atrás do tronco daquele ipê sem flores, alivio-me.

Assim como a Terra gira, circula outra lembrança.

Com uma bolota de massinha do que quer que seja, faz a isca, e o anzol logo boia no tanque das tilápias. Os companheiros de pescaria pegam uma fieira de peixes que voltam à mesa já em tirinhas cruas à disposição da raiz forte, parceira de um gole generoso de saquê.

Comendo sashimi, sei que não honro o pescador que meu avô foi.

Lamentável, jamais fui capaz do privilégio de exibir a carpa imensa numa banheira, conforme um dia fez o pai da minha mãe.

Algo tão memorável nem esta pandemia haveria de apagar. Afinal, todo caçador de monstros mais se agiganta quando desafiado.

Que pena. Em mim não pulsa oceano algum.

Confinado idiota, irei afogar-me num conta-gotas?

No fundo, a imaginação hiperbólica aponta que a história alimenta quando o remorso intoxica. Em outras palavras, não basta sobreviver, é preciso saber conviver.

Lamentar-se da cova rasa dos mortos é fraternidade; confrontar os que a multiplicam aos milhares é irmanar-se; punir os responsáveis é assegurar materializado o direito à vida. Porquanto, além de conforto, respeito e justiça, é preciso expressar civilidade.

Política bem pode pressupor a prática pelo bem-estar de gerações de pessoas que interagem em um determinado espaço, tanto urbano quanto rural, embora isso pouco magoe os idiotas insensíveis.

Nada energúmeno nem imbecil, este escriba faz-se passar por um intrépido pacóvio? 

Não, fui um dia informado como Jonas foi parar em Nínive.

Não, aprendi que Moby Dick não é peixe.

Não, sei bem que piracema vem do tupi.

Por sinal, sem rede nem arpão, sigo à margem.

Aliás?

De pouco adianta ter um abridor se a lata aberta é que fecha este retrato indignado de sardinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2021.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Coragem iconoclasta

 

Coragem iconoclasta

 

Disse alguém muito importante que a vida é uma doença incurável sexualmente transmitida; como filho sem filhos, prefiro nem pensar no assunto nestes termos. Pegando leve, digo que vivo a vida como uma história culturalmente transmissível.

Feitos e desfeitas podem ser compartilhados, mas sem o peso de uma jornada que force virar-se com preceitos filosóficos. Por pedirem definições semanticamente precisas, axiomas tão abstratos poderiam atrapalhar o bom andamento de uma crônica, gênero justo a quem de fôlego, digo, de memória de tiro curto.

Petulante, corrijo: é assim que me apetece entrar no ritmo.

Para gravar a dança da vez, já com a noite vindo devorar a tarde, fiz o balanço de modo prudente, ponderei o relevante do vivido com a perspectiva de gente entocada e afiancei que tudo foi por respeito.

Por medo e respeito, o dia passado em casa.

Veja só. Prontamente, admito a necessidade de sua aprovação. E emendo que aceite emprestado o meu olhar, porque certamente você lerá com um juízo menos estúpido o que vim passando até aqui.

Sim, esta minha estupidez condicionada pelo medo impede-me de vislumbrar com nitidez o presente desta pessoa reclusa em ambiente bem sujinho, carecendo de uma limpeza geral e ampla.

Tocou o telefone. Precisando fazer a tal faxina, desliguei-o.

Começaria pelo quarto, porém, aquelas teias de aranha infestando o corredor logo me desviaram a eliminá-las com vassoura.

Como aracnídeos não são o meu forte, tratei de livrar o teto com cuidado. Ágil e rápido, com a precaução dos ressabiados.

Achando que precisava de ânimo, selecionei o terceiro movimento da sétima do Beethoven.

Enlevado, pus no limite recomendado a altura do som.

Quando ajeitava a segunda cadeira sobre a mesa, lá se foram ao chão os fones e o celular. Uma vez que uma das quinas, nem sei se do tampo ou do assento, tratou de confrontar o meu pique.

Não desisti.

Repus os fones. Tocando do começo, perseverei.

No rodo, o pano seco, depois o úmido em lavanda rosa-choque.

Subi a escadinha, e arrumei as bugigangas sobre o guarda-roupa. Do topo daqueles quatro degraus, saltei; desafiei-me a fazê-lo.

Sei que está sorrindo. Aliás, soltaria uma gargalhada mefistofélica se acaso fosse dado a vilanias cínicas.

Modesto, aceito a consciência de que pode mais quem transforma a realidade do mundo, mesmo a partir do lar.

A névoa do espelho flagra este ser revigorado.

Ainda tenho cabeça para morder o osso. Pois viver não é nenhum troço danado de irônico. Se fosse, haveria sarna partindo do sangue até corromper a pele.

Sem a coragem iconoclasta de negar-me exemplo, eu mesmo vou à lixeira depositar o saco do dia. Para não embaçar os óculos, respiro aflito. Temendo o vexame de tropeço, firmo o passo.

Já preguiçoso, sinto a noite safada regurgitando meu tutano.

À pacífica aurora, direi: bem-vinda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de março de 2021.

terça-feira, 23 de março de 2021

Meio impedido

 

Meio impedido

 

Louco para ser feliz, a folha-seca foi de bate-pronto.

Para tirar o sono pela espinha afora, a planta do pé direito sentiu o quão gelado estava o carpete de madeira do quarto.

Que gelo danado. Não era de graça que os pelos ficavam eriçados a cada lambida do vento.

E a janela fechada não era barreira alguma. Nem ligando para as cortinas, o bicho rosnava pelas frestas da veneziana; dava arrepios.

Matreiro, por um instante, o assobiador dissimulava que tinha ido embora para, até mais gélido, soprar de novo o ramerrão do outono.

Uma coisa irritante, chata; ainda mais às seis e meia.

Que fossem seis e meia; elas, contudo, eram de um sábado.

Perderia a alegria de ter acordado mais cedo apenas para seguir à risca as ordens do dia. Pulara da cama certo de que poderia ser infiel aos aborrecimentos da rotina. Seria triste se fosse obrigado a simular algum fugaz rompimento do sistema nervoso.

De segunda a sexta? Que belíssimo filho ele era. Se a várzea tem suas regras? Ele contava com a dispensa da obediência óbvia.

Daí a entusiasmante sensação de felicidade, porque sábado, todo sábado, era especial; em sendo dia de jogo, o mais aguardado.

O único da semana em que podia jogar futebol com os amigos. E a semana inteira, todinha ela, demorava uma eternidade para passar.

Como era sofrido ter de esperar que voasse de vez o chupinzinho saído do ovo chocado pela noite de quinta para sexta. Da sexta para o sábado, melhor nem tocar nisso. Para não gorar.

Já para não fazer gol contra, mudaria o foco.

Então, um craque não se deixa abater; com um drible endiabrado ele rompe qualquer retranca: dormir na sexta, acordar no sábado.

Tinha lógica esse negócio chamado tempo.

Por isso, o moletom, que foi redondamente ignorado pelo radar da visão, ficou caído aos pés da cama.

A camisa do time esquentava que era uma beleza. E bastava.

Como a sua mãe não entendia nada daquele encantamento: fosse pôr um agasalho ou, nu daquele jeito, iria apanhar um resfriado.

Para ostentar seu nome acima do número três às costas, vestiu a blusa por baixo do manto sagrado.

Reparando nos seus gambitos de fora, a sua mãe mandou trocar o calção por calças compridas. De imediato.

Para não levar cartão vermelho mesmo tomando um carrinho por detrás, achando que se encontrava oficialmente num vestiário, virou narrar o que ia vestindo: meião, chuteira, calção, calça, camiseta, e o boné do time do coração.

Tudo certo? Nada feito.

Podia ir baixando a crista, pois não tinha nenhum cabimento sair de casa para jogar bola com tudo aquilo que estava acontecendo na família, na rua, no Brasil e no mundo.

Com o coronavírus matando gente adoidado, o assanhamento era um acinte, uma infantilidade. Sinal de que merecia ficar de castigo?

Ficasse feliz da vida, pois iria poder jogar videogame infinitamente das dez até o almoço, e sem precisar de intervalo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2021.

domingo, 21 de março de 2021

Dragãozinho dos bons

 

Dragãozinho dos bons

 

Por jeito e gosto, tentados a desencaminharem-se do espontâneo, na lida moderada pelos mundos de tantas outras convivências, cada qual cuidando de si, vai daí que voltaram a ver-se.

Todavia, depois de passadas já umas boas décadas, talvez umas três ou beirando isso, deram-se um defronte do outro. De imediato, foi pelo jeitão selvagem que se reconheceram.

Eram amigos. Muitíssimo, aliás. Seguiam achando que eram.

E era amizade que vinha desde... Como assim, desde o quê? Ora essa. Amigos de infância não têm nenhuma dúvida quanto ao tempo transcorrido ou ao grau da intimidade. Caramba. Eram amigos desde sempre, como diz o chavão de perene autoridade.

Conscientes dos protocolos, mandaram às favas os rigores, e logo estavam se abraçando. Dando aqueles sacolejos de velhos parceiros.

E era tal a euforia contagiante da identificação plena que eles nem ligaram para o que ocorria ao redor. Tamanha era a cumplicidade que o entusiasmo já os foi impelindo a sentar-se a uma discreta mesinha de canto. Mesmo com o dono sendo intimado pela gerente contrafeita a vir ao estabelecimento resolver aquele problema, a eles não parecia que havia caso algum a ser esclarecido.

A vida andava muito chata. As pessoas perdendo a liberdade de ir e vir. Uma gente sem noção se achando no dever de censurar ideias. Um pessoal autoritário querendo tirar das redes comentários, memes e gravações. São esses grupelhos sustentados sabe-se lá por quem que fazem o que fazem porque a lei os protege. Uma aberração.

E a situação era simples. Aliás, muito simples.

Pediam que fossem atendidos sem picuinhas. Sairiam contentes com a prosa de camaradas da longa estrada. Não sairiam satisfeitos com um pastel chocho. De fundo, estava o Elvis mandando bala.

Respeitavam-se pela fraternidade tão longeva, de irmãos.

Mais do que coleguinhas de carteira em escola tão ordeira, mais do que coroinhas entediados em celebração rezada a meia dúzia de carolas de bíblias surradas, mais do que uma duplazinha da fuzarca nos bailões embalados a hi-fi, os bons rapazes de escassas cãs bem prateadas rejubilaram-se pelo reencontro armado pelo destino.

E aproveitaram o tempo que tinham da melhor forma que sabiam: elogiaram-se com obscenidades; desdenharam das rugas; louvaram o vigor como um verdadeiro troféu; elencaram as vitórias dos filhos já muito bem remunerados; feito gatinho tocando piano, escancararam a peraltice dos netinhos espertíssimos.

Não deu outra!

Aquilo iria mesmo mexer com eles. Afinal, eram pessoas de carne e osso. E, sinceramente, nem precisaram falar nada, pois não tinham vergonha de uma amizade tão apropriada.

Ligeirinho foi logo sacando a nota de cinquenta. Escolhendo a de cem, Marcha Lenta desculpou-se por não ter mais trocado.

Com o dragão da lealdade desfraldado no ar, despediram-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2021.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Louco melancólico

 

Louco melancólico

 

Entre o sonho e o devaneio, saio empurrando o carrinho de outra pessoa. Sem ter como negar a materialidade do meu descuido, faço o que me cabe, devolvo-o à mulher que o reclama rispidamente. Frutas e legumes já ensacados apontam-me culpado, portanto, sorrio.

Na atual conjuntura, com uma súcia de negacionistas colaborando para a alarmante disseminação geométrica do coronavírus, responder sorrindo às inconveniências nem alivia pressão intracraniana alguma.

Arrisco dizer que talvez a maioria compartilhe da sensação, como se a expansão da consciência estivesse em evidente embate com as estruturas óssea e encefálica da cabeça.

Sabe aquele troço que não para de ficar latejando? Sinto isso.

Acresço que minha mente, turbinada normalmente pelo mundaréu de contraditórias ideias desconexas, vem provando do veneno que a falta danada de prudência tem produzido diuturnamente.

Virei um operário de decepções. Sério, até dormindo.

Também pudera, os recorrentes mal-entendidos parecem presos a um carrossel, cuja fonte elétrica está num sítio de dificílimo acesso.

Lamentável, o lugar radicalmente oposto a tal fonte de angústias, o éden tranquilizante, não está imune à realidade, portanto sofro.

Sem pensar em abdução, conjecturo ir para lá.

Existir, existe. Mas, fora de tempo e espaço. Utopia é seu nome.

Como banana prata, poderia estar à venda.

Tão nutritiva... Tão barata...

Vejo a fila do açougue. Adeus, meio quilo de patinho moído.

Temendo que um ato fortuito possa potencializar o pandemoníaco da pandemia, considero adequada a distribuição dos fregueses pelo mercado, porquanto me preocupa bastante a dispersão de gotículas suspensas no ar.

É óbvio! Fio-me nos conhecimentos especializados de cientistas, infectologistas e epidemiologistas, por isso, acho-a adequada.

Como estou suando frio, e suponho que outros indivíduos também estejam sob o estresse de estar à beira do pânico, o que mais quero neste momento é desviar os meus pensamentos do lockdown.

A ansiedade generalizada apodera-se de meus nervos, passando a impressão de alguém a ponto de perpetrar alguma aberração.

Todo desajeitado atrás da máscara periodicamente ajustada sobre o nariz, confiro besta a lista enquanto a funcionária, perguntando-me se desejo mais algum produto, agita no ar os pacotinhos de muçarela e peito de peru já pesados.

Louco para higienizar as mãos com álcool gel sem nem mesmo ter tocado o que quer que seja, vou pegar a berinjela que ficou por último na lista porque só fui lembrar-me dela à saída de casa.

Cá entre nós, aprisionado vergonhosamente à bolha de um radical ensimesmamento, por talvez estar traduzindo a tristeza feito um boçal zanzando num ambiente fechado, vou apelar para a ignorância: este louco melancólico nem sabe diferenciar salsinha de hortelã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2021.

terça-feira, 16 de março de 2021

Desaprendiz

 

Desaprendiz

 

Como tsunami, a fúria de notícias tenebrosas passa varrendo com uma ferocidade desconcertante. Em meio a tal furor, como tábua para evitar imediato afogamento, o que me resta de lucidez cobra de mim dar maiores atenção e tempo às ações que, antes do maremoto viral mortalmente descontrolado, por epicentros móveis e gerenciamentos de variáveis magnitudes, considerava pedestremente cotidianas.

Como se vê, viver é pegar um touro à unha.

No entanto, a luta pela vida sempre esteve estreitamente ligada à sanidade individual, que não se separa do embate pelo bem-estar do núcleo familiar, que não se isola do conflito pela felicidade social.

Falo de gente que aquece ou esfria bancos de praças, parapeitos de viadutos, vagas de garagens e a minha cadeira.

No fundo, meço a qualidade de vida pelas variações de calor.

Há vezes que ponho lenha na fogueira quando quero entender os vaga-lumes do que leio. Querendo-os dragões, não basta que brilhem às piscadelas. Sem medo e com alegria, palavras, soltem fogo, façam arder. Pois, não temo o calor humano.

Até passei a manhã às voltas com uma febre.

Primeiro, bom mesmo foi ficar debaixo do lençol por causa de um pernilongo. Não que tivesse pensado em dengue, o zunido é que me irrita um bocado. Em seguida, e aí a coisa muda de figura, mudei eu, pois fiquei apagando da mente a sensação da água fria do chuveiro martelando na minha cabeça. E isso foi me deixando esquentadinho, a ponto de tossir e suar mais que febril, uma brasa.

Penso logo em repelente. É fundamental vencer os mosquitos.

Pensei em cortar filó e martelar uns caibros e montar um troço que me proteja desses insetos que se nutrem de sangue. Aliás, do meu.

Nada de martelo. Sequer serrote. Mais ainda, nem madeira.

Tenho papel, tesoura e cola. Noves fora, topo uma colagem.

Sei usar tesouras. Sem soberba, reafirmo que as sei usar, sim.

Mas, não me meto a podar cercas vivas nem cabelos, sei usá-las para o dia a dia caseiro. Picoto papel, e corto fios, linhas e cadarços.

Domino o utensilio doméstico com modéstia, de maneira objetiva, quase em harmônico convívio com o que mora dentro de casa.

Certa feita, anos atrás, quando nem perdia meu sono com aqueles errinhos bobos de quem não admite estar errado, passei a cortar aqui e ali como se estivesse vislumbrando um pessegueiro carregado, de pôr água na boca, maravilhosamente desenhado por minha ambição.

Ledo engano. De tudo aquilo restou um nada muito amargoso.

Masquei-o. Infeliz de mim, cuspi-o afoito.

Como nem houve pêssego nem prosperou o bonsai, desaprendi a lição que poderia ter tirado daquele malogro:

ꟷ Fé cega afia melhor tesoura metafísica.

Mas, ter alívio no desconforto?

Na mata do Instituto Butantan, vejo e ouço na TV a passarinhada gorjeando festiva pela presença de José Hamilton Ribeiro, raríssimo exemplar de sabiá-jornalista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2021.

domingo, 14 de março de 2021

Flor da dor

 

Flor da dor

 

Já passa das cinco, e você está tomando um arzinho na frente da casa; vê pardais, andorinhas, tico-ticos, bem-te-vis, maritacas, aves e passarinhos que nem sabe que razões têm de voarem tresloucados quando próximo o crepúsculo, distingue grupos de bandos; e por isso não arreda pé, namorando o último gole da latinha quente.

Bem lá no alto, boiando na incomunicabilidade das esferas, aquele girassol só corola que a tudo finge ver, ele, de você, conhece o rosto triste, afeto à estupidez de quem implora solução ao absurdo de estar vivo, em angústia desesperada, de todo vã a corações anestesiados por imbecilidades, que dão um brilho senil aos melancólicos.

Faz sentido. Você abre melhor os olhos. A fachada pede o tapa da renovação, para que não passe feio, pondo-se imóvel, pessoa presa à mensagem de ser um ser relapso, descuidado, mais a fim de beber sem parar, como gente vil a suplicar que a achaquem.

Será que venderiam fiado aquele franguinho do almoço?

De repente, a pessoa amada poderia ter feito um chá de camomila ou fumado um fino ou bebido aquela garrafa de vodca do freezer, ela, contudo, inebriou-se pela acetona de uma farmácia distante.

Sábado, quase seis da tarde, sente que a lorota machuca, ofende, magoa, perfura escândalos na jugular.

Você não tem fé, nem a dos expostos à chuva, mas tem fome. E sabe que tem, porque a barriga ronca. Ela está roncando porque não comeu nada. Desde que saiu da cama, sequer buliu nos restos.

Talvez pelo azedume de imaginar-se a ingerir cebolas cruas, você toma coragem de ir pegar a vassoura de piaçava pendurada ao lado do tanque e, cantarolando uns versos fora de ordem de Negro Amor, como se fosse a Gal cantando, joga no meio-fio os cacos do espelho.

Um pé de tamanco não pode amenizar uma amargura?

Airosamente evaporado, até um vinho vagabundo faz assoviar. E você não se lamenta, impreca ou escarnece à toa. Prefere assobiar.

Embora as suas vespertinas canções de amor desviem o fluxo do mal-estar do coração para uma felicidade irremediavelmente efêmera, você se faz autêntica como vítima desafortunada que sabe beber.

Transtornada, não suporta a cara de bajulador não correspondido dos hipócritas que fazem sol ao remorso.

Vai daí e vira a sorrir, tentando com a careta admitir a hipótese de voltar à sobriedade. Mas a gastura vem à boca.

Com o calor da náusea, precisa do ventilador funcionando e, justo quando está ligando o aparelho na tomada, seu cotovelo escoiceia a antiga peça do santo.

É preciso colar os cacos. Você até se esforça, mas milagre algum floresce do dia para a noite.

É preciso repor a imagem. Mesmo cambaleante, vai atrás de uma nova. E dá sorte, pois a lojinha paroquial não mudou de hábito, ainda está aberta.

De volta ao posto sobre a TV, altaneiro, ao lado do Velho Barreiro, que o ídolo respeite o trato, que ele continue olhando por você.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2021.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Cão à solta

 

Cão à solta

 

Imerso nos acontecimentos, sinto-me eco latejante do caos.

Embebido na estupidez insana de uma indignação febril, descalço as sandálias da civilidade para pisotear o quintal de terra.

Besta, revolvo com os pés, esburaco e amasso; vou mesclando os grãos do solo. Não choro nem sangro, urino. Minha urina escorre por minhas pernas em frenesi. Colérico, escarro o chão que não mastigo.

Marco passo, mijo-me todo, dobro-me à fúria ꟷ a que destino?

Quero o monstro.

Quero que seja revelada a face hedionda, e assim encará-la.

Das mil faces que não domino, vislumbro umas poucas, essas que me permitem força à convicção, porquanto enlouquecido.

Quero-me transtornado, ignominioso, potente.

Quero-me atroz, demoníaco, tomado pelo indubitável.

Quero o monstro vivo, muito invulnerável. Muito, portanto sujeito a conjunturas e suas reverberações.

Todavia, abro os olhos, e a pitonisa apocalíptica abre sua caixinha de maquiagem e, sem fagulhas que atordoam, oferece pó de arroz.

Sem ganas de bicho-papão, não será urinando que vou extravasar as mágoas; só borrarei a minha máscara de cavaleiro valente.

Valho. Posso o que valho? Dou-me por válido quando cotidiano.

E vou, pois o dia tornou a vir. Como sempre, e simples, ele raiou.

Então, abro a janela, passo o café, pratico a realidade.

Para ter o cafezinho de cada dia, sem bobear, fervo a água.

Por água clorada, encho o filtro.

Banal e calado, leio jornais. Em dor e riso, faço a leitura.

E o mundo me entorpece, mas vivo neste rio de cujas águas não escapo. E faço-as mortíferas quando nelas me afogo e benfazejas se irrigam brotos de bambu. São águas, que lavam e banham.

Para o café no copo, o néctar das manhãs cai recolhido na leiteira depois que a água quente lambe as colheradas do pó no papel.

Para matar a sede, só encho o meu copo depois que as velas do filtro diminuem as incertezas quanto à água da rua.

Como lidar com aberrações que querem banalizado o inominável?

Como estancar a saliva do babão covarde?

Há monstros que assustam e amedrontam, mas temem a noite.

Há escuridão no quarto, corpo na cama, um travesseiro à nuca.

O alento diz ao cérebro que funcione sem parada. Não paro.

Dormindo, a mente coa os eventos. Prossigo...

Recordando, me animo com os acasos da memória. Acho.

A memória me mantém razoavelmente prático e lúcido.

Mantenho o fluxo pelas coronárias, consumo pouco sal.

Conservo a plasticidade dos neurônios, pelo riso espontâneo.

Para dar maior salubridade ao mel, que as abelhinhas da cozinha sigam a zunir em busca do que lhes seja pitorescamente imperativo.

Solto às ruas dos poetas, solto o tintim por tintim dos cartesianos, e prescrevo o filtro de barro como ampulheta.

Instante a instante, vejo a noite escoando; gota a gota, passo o dia pela torneirinha; gole a gole, saúdo a vida.

Não me envenene à monstruosidade o esquecimento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2021.

terça-feira, 9 de março de 2021

Jeitinho

 

Jeitinho

 

A vida é isso, e isso passa. Se não passa, tem coisa errada. Fica perigoso, sugere desatenção, e isso não se faz. Não convém desafiar o destino. Sim, a pessoa distraída meio que se descuida. E ver a vida passar é destino e, com isso, dá-se o caso por encerrado. Mas, neste caso, o que há é a ilusão de estar adiando o inevitável, até que venha o próximo enrosco. De enrascada em enrascada, vai-se vivendo, algo simples assim. Se isso for assim, que seja. Se assim é a vida, então a explicação fica justificada. E a vida, ora, a vida demanda isso.

Com isso boiando na sombra da cabeça na calçada, Catarina não atravessa a rua sobre a faixa de pedestres.

Para chegar na hora marcada, precisa urgente tomar um atalho. E atalha que faz certo ao cortar caminho em linha reta, direta no alvo.

E o centro do mundo, agora, é o salão, pois tem mesmo que dar um jeito naquele cabelo mais grisalho de tanta morte, tanta, que vem sem aviso nem nada, e vem a qualquer hora, via TV, via zap.

E pelo que vê e ouve sobre o que há e houve, puxa vida, sente a vida passando por demais agitada e numa pressa alucinada que tira a lentidão que precisa ter para conseguir dar conta do que faz.

Sabe que precisa mostrar que se empenha, por isso não se nega a compartilhar o seu dia a dia, sem ter vergonha da vida que leva.

Fica horrorizada só de pensar que possam achar que ela faz tudo nas coxas, afobada, leviana, vivendo como se nem ligasse de prestar conta do que esperam dela.

Mas, se estão cobrando, a querem muito bem. Se a querem bem, é porque a amam de verdade. Que beleza! Ser amada é ser querida e ser querida é ser desejada. E para manter isso, que a queiram linda e formosa, faz bem em correr dar um trato no visual.

É bom, mesmo, tirar da frente do espelho a desleixada.

Portanto chegasse pontualmente, ou adeus à vez agendada.

E nova oportunidade? Só dali a meses, talvez a um ano.

Porque o salão tem muita fama, tem muito bem consideradas suas profissionais; até a própria dona, aliás, é famigerada cabeleireira, pela merecida aposentadoria atrás do nome, deste seu renome construído com a dedicação de gente porreta, decidida, de pessoa que não abre mão da qualidade feita por experiência própria, passando exemplo.

Ali é lugar afamado pelo atendimento às clientes. Sim, somente e tão somente, são atendidas mulheres. Afinal, preserva-se o prestígio evitando-se obscenidades.

Uma dessas obscenidades é deixar buraco, pois lugar vago gera ociosidade. No código da proprietária, perder a hora é deixar de fazer dinheiro; e isso provoca prejuízo, porque funcionária desocupada não tem serventia.

Clientela tagarelando e socializando seus problemas, tudo bem; já tesouras ociosas, isso não. A empreendedora tem horror àquele papo furado gostoso que faz passar o tempo.

Gente!

Enfática, apontando os dígitos no celular, fala a chinesa:

ꟷ Catalina, paciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2021.

 

domingo, 7 de março de 2021

O sabiá

 

O sabiá

 

Em certa alvorada de nuvens carregadas, estirado enviesado na cama, contorcido pela espinha espicaçada pelo tanto dos seus ossos estranhos ao sono pleno noturno, o suposto pescador viu-se fisgado pela tentação de ir à forra.

De caniço e samburá, foi.

Foi-se pela estrada no robusto jipe comedor de poeira, parceiro de décadas, sem molejo para o confortável dos luxos acessórios. É carro próprio ao chão batido para a sua travessia até a serpente que dança pela mata adentro.

E foi convicto de que poderia esquecer os trabalhos diários, pois a sua alma cansada de cultivar-se urbana entre urbanos irritadiços não estava só abatida, vibrava escuridão, entrevada numa energia imbecil que fazia a água virar a mesma, feito gelo desfeito.

Pela paz, foi à luta.

No barco, recolhidos os remos, aliviou-se, estava respirando como se nas veias o oxigênio do cosmos o sintonizasse com a correnteza.

Observou o rio. Estava influenciado pela quietude que amansa.

A fluidez silenciosa fazia tranquilizante o ar a quem pedia livrar-se do neurótico que grunhia, grunhia, vivia grunhindo, sem nem mesmo notar que assustava os carás, punha sobressaltadas as preás.

Sem cavalos de batalha, calou-se.

Sob chuva, concentrou no braço a força pensada para jogar longe a linha. Tanto pensou em alcançar um cardume de suculentos peixes graúdos que o fio foi acabar enroscado no galho de uma árvore alta, cuja copa densa de amarelo tão vivo punha-se contrastante ao ocre barrento da cobra de morosidade enervante.

Deu um puxão. A linha arrebentou. E o barco girou.

Só com um braço, remou. E o barco girou torto.

De que lado aquela coisa estava? Pelo jeito, do avesso.

Não era de esmorecer dócil, portanto esmoreceria rezingando.

De fibra comprovada por bravias bravatas, soltou a rede sobre as águas. Viu-a sumir. E deixou que sumisse. Molemente, afundando.

Todavia, logo veio outra puxada. Tratou de subi-la. Foi a trazendo à tona. E como queria que a rede voltasse sem auê.

O peso, porém, obrigou-o a dar um tranco.

Por tamanha brutalidade, o barco girou. Novamente, girou.

Chega! Basta! Fora!

E subiu à estrada. Foi amassando o barro. Indo com o sentimento doloroso, muito humano, que é a frustração.

De mãos abanando, compraria tilápias na primeira peixaria.

Já no alto, com vista ampla da várzea, nem ligou para o lodo todo.

Teria poderes fora do normal o mais comum dos homens?

Pois ele tinha mais de um, tinha dois.

Como burro de carga, vinha carregado de tralhas. Já como burro d’água, virara e revirara a canoa desnorteada.

Que domingo insolente!

Avaliando vã a sua filosofia, pensou que um super-herói bacana não encana porque não passa de um banana.

Com o Cruzeiro do Sul muito além do céu fechado, ao sabiá que não canta o encantado por curió suplicou uma realidade mais solar.

Foi quando, facilmente lunático, caiu de cara na lama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2021.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Uma senhora lição

 

Uma senhora lição

 

O homem provou o feijão antes do resto.

Ele queria o paladar afetado por temperos, tanto azedinhos quanto adocicados; queria se deliciar com a pitadinha do sal, o defumado do bacon; e da chicória, teve na língua aquela textura ótima.

Era feijãozinho caseiro o que degustava devagar.

Era muito bom desfrutar de uma comida tão gostosa. Certamente feita por gente que sabe o que faz, e que gosta muito do que faz.

Havia esse toque, podia perceber, daí a sua alegria infantil.

O olhar brilhava, e aquela vivacidade vinha da confirmação de que há no mundo quem ama trabalhar a serviço do feito com capricho.

E a chicória era um capricho a ser louvado, e louvou.

Porém, a mulher refreou-se. Apesar de contrariada, não franziu a testa. Acabou perdendo a leveza de mastigar com serenidade.

Certa de que aquele sujeito estava se achando superior ao marido que disse chicória em vez de escarola.

Ela não recuou, continuou demonstrando a sua contrariedade.

Olhava firme. Quanto mais a raiva fervia, mais sustentava o olhar.

Ambos tinham o direito de falar do jeito que quisessem.

O que a irritava sobremodo era a empáfia daquele senhor que não escondia a condescendência. Como se autorizasse a fala estragada da escumalha que vive maltratando a língua.

Não era nenhuma bobagem enfezar com tamanha afronta.

Ela era diferente do esposo, e como era.

Se tomasse pé da situação, ele ficaria triste e daria de ombros. Ela não engoliria aquele desdém babaca, daí o seu despeito explícito.

Se ele é dos que separam a goiaba bichada, ela a aproveita para fazer uma goiabada bem gostosa.

Enquanto ela gargalha, ele apenas sorri.

Não iria apressar a refeição. E mastigava deixando ver que sentia prazer ao mostrar-se consciente deste prazer, porque podia escolher o modo como comia. Até mostrar-se satisfeita.

E tinha isso desde criança. Tinha essa quedinha por uma cena.

Punha gosto em desacelerar quando a queriam rápida.

Mantinha a perna cruzada se lhe pediam joelhos emparelhados.

Na hora da rasteirinha, salto alto.

Na vez do pranto, o riso.

Se podia pagar, pedia desconto.

Mesmo sendo da paz, não a provocassem. Pois encarava os seus medos, pegava coragem se a queriam acabrunhada. Topava o tapa.

Desde miudinha, era mesmo este caso sério.

Ela não precisava ser lembrada da humilhação por causa de uma redação. A professora pedira uma história já contada. Ainda que não fosse exigida originalidade, ela teria de ser bem contada.

Então, achando-se inteligente o bastante para enfiar palavras que a maioria de sua turma nem sabia que existiam, ela quis impressionar e O homem nu do Fernando Sabino virou O prelado pelado.

Querendo espanto, resolveu explicar o título.

Foi dizendo que burro precisava ir consultar um dicionário, já que sacristão ou sacripanta não tinham cabimento, porque prelado era um ilustre coroinha nu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2021.

terça-feira, 2 de março de 2021

Fim de festa

 

Fim de festa

 

Que as duas meninas eram gêmeas, as suas roupas idênticas não deixavam dúvidas.

Tinham um vistoso laço de fita amarela no coque lateral no campo direito da cabeça. Calçavam lustroso sapatinho preto de boneca cujo cadarço era de cetim aveludado da mesma cor.

Que elas eram diferentes, o modo como cada uma entrou na festa permitiu a suposição.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Que ambas eram cativantes, em minutos os convidados estavam simpáticos ou antipáticos.

Logo, a jovem senhora pôs-se a comer coxinha, entretida a relatar os feitos da sua prole exemplar. Logo, o jovem marido bebia cerveja, pois a sua garganta secava pelo excesso de opiniões.

Mas nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável de sua elegante figura.

Mas tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho assim que ela o mordeu.

Gritando, endiabrada como as coleguinhas sapecas, Marina não ia ficar tomando refrigerante e usando guardanapo de papel para limpar a boca cheia de energia.

Todavia, nenhuma roupagem era modelar.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Brincalhão, sequer adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho, solto por natureza.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Impossível que ele não fosse destinado a elas!

Nem pai nem mãe abalariam aquela certeza: o cão era vítima.

Estava errado. Precisava ser consertado, devia. Aquele erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio, e elas não eram feias.

O coitado daquele cãozinho maravilhoso estava em mãos erradas. Aquele menininho bobão era muito criança que nem iria saber cuidar como deveria do bichinho indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

Portanto, como verdadeira combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote.

Portanto, como autêntica heroína contra vilões malvados, Mariana quis apoderar-se do pobre animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio instalado, nem as velas do bolo foram acesas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2021.

 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A denúncia

 

A denúncia

 

Iria acontecer novamente. Já estava acontecendo, pois desejava pular aquela etapa. E como ardia. Se não bufava de raiva, agitava-se. De quando em quando, ia fumar seu cigarro à janela. Baforava, com a aflição de quem visivelmente confinado, uma jaguatirica na gaiola.

Portanto, vê-lo à janela passava seus encantos ꟷ por mostrar-se natural, cômicos; por vigiar-se tão zeloso, risíveis.

Como exemplo disso ou daquilo, ocorreu-lhe a convicção de que a sua cabeça, ou melhor, o cérebro era caixa para armazenar ideias.

Não, não era o cérebro. A mente era recipiente aos pensamentos. Mas não como um fichário com ideias devidamente anotadas nem um arquivo-morto com pastas do A ao Z organizando-as.

Se assim fosse, na verdade, isso tudo seria coisa de bibliotecário usando um método de catalogação, e não era o seu caso.

Aconteciam atritos, fricções e faíscas. Uma combustão doida, pois a cachola fervia de realidade.

Para efeitos de justiça, e para não se envergonhar da maneira que pensava, a imagem que a ele ocorreu mais próxima da autenticidade do seu jeito de pensar era a de uma latinha.

Uma latinha para manter aquecidos seus pensamentos pelo maior tempo possível. Então, pensava nas leis da termodinâmica favoráveis a uma lenta dissipação do calor consumido na preparação dos juízos, nutridos como alimento.

Queria dominar a energia que o amor e o ódio geravam, como se a sopa mental fervilhasse por afetos. Queria aumentar ou diminuir o fogo para obter mudanças químicas, físicas ou físico-químicas.

Mas, diante das imprevisibilidades do fogo, fugia das inovações.

Isto é, a sua mente opera como marmitex, pondo lado a lado o ovo que ficou frito em óleo de girassol, o feijão carioquinha cozinhado na pressão com alho, sal e uma pitadinha generosa de cominho, o arroz branco cozido em água levemente salgada.

Cresce o olho, saliva a boca, de barriga rangada: pensa o ávido.

Hediondo, segundo ele, era ter de ficar em banho-maria.

Preocupado com a encomenda que seria entregue na sua casa, o pipoqueiro da esquina não tinha aberto seu ganha-pão. Fazia já dois dias que enviaram o negócio, e nada de o entregarem.

O prejuízo nem era assim assustador, pois o dono do carrinho não precisava do telefone para atender pedidos.

Precisava urgente do carregador para poder publicar as imagens que conseguiu gravar no celular antes de esgotar a bateria.

Ele tinha certeza de que o perigo estava à solta, porque as coisas mais estarrecedoras sempre acontecem quando ninguém vê.

No fundo, o perverso revela tarde sua maldade porque não chama atenção sobre a crueldade do mundo que traz em si.

Ele, todavia, só registrou o que viu.

Em vez de sair gritando por socorro, a criança não apenas aceitou aquilo, abocanhou-o e fez cara de que estava delicioso chupá-lo.

Que vergonha um desconhecido dar balinha de graça!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2021.