Uma
senhora lição
O homem provou o feijão antes do resto.
Ele queria o paladar afetado por
temperos, tanto azedinhos quanto adocicados; queria se deliciar com a pitadinha
do sal, o defumado do bacon; e da chicória, teve na língua aquela textura ótima.
Era feijãozinho caseiro o que degustava
devagar.
Era muito bom desfrutar de uma comida
tão gostosa. Certamente feita por gente que sabe o que faz, e que gosta muito do
que faz.
Havia esse toque, podia perceber, daí a sua
alegria infantil.
O olhar brilhava, e aquela vivacidade
vinha da confirmação de que há no mundo quem ama trabalhar a serviço do feito
com capricho.
E a chicória era um capricho a ser
louvado, e louvou.
Porém, a mulher refreou-se. Apesar de
contrariada, não franziu a testa. Acabou perdendo a leveza de mastigar com
serenidade.
Certa de que aquele sujeito estava se
achando superior ao marido que disse chicória em vez de escarola.
Ela não recuou, continuou demonstrando a
sua contrariedade.
Olhava firme. Quanto mais a raiva fervia,
mais sustentava o olhar.
Ambos tinham o direito de falar do jeito
que quisessem.
O que a irritava sobremodo era a empáfia
daquele senhor que não escondia a condescendência. Como se autorizasse a fala estragada
da escumalha que vive maltratando a língua.
Não era nenhuma bobagem enfezar com
tamanha afronta.
Ela era diferente do esposo, e como era.
Se tomasse pé da situação, ele ficaria
triste e daria de ombros. Ela não engoliria aquele desdém babaca, daí o seu
despeito explícito.
Se ele é dos que separam a goiaba
bichada, ela a aproveita para fazer uma goiabada bem gostosa.
Enquanto ela gargalha, ele apenas sorri.
Não iria apressar a refeição. E mastigava
deixando ver que sentia prazer ao mostrar-se consciente deste prazer, porque
podia escolher o modo como comia. Até mostrar-se satisfeita.
E tinha isso desde criança. Tinha essa
quedinha por uma cena.
Punha gosto em desacelerar quando a
queriam rápida.
Mantinha a perna cruzada se lhe pediam
joelhos emparelhados.
Na hora da rasteirinha, salto alto.
Na vez do pranto, o riso.
Se podia pagar, pedia desconto.
Mesmo sendo da paz, não a provocassem.
Pois encarava os seus medos, pegava coragem se a queriam acabrunhada. Topava o
tapa.
Desde miudinha, era mesmo este caso
sério.
Ela não precisava ser lembrada da humilhação
por causa de uma redação. A professora pedira uma história já contada. Ainda
que não fosse exigida originalidade, ela teria de ser bem contada.
Então, achando-se inteligente o bastante
para enfiar palavras que a maioria de sua turma nem sabia que existiam, ela
quis impressionar e O homem nu do Fernando Sabino virou O prelado
pelado.
Querendo espanto, resolveu explicar o
título.
Foi dizendo que burro precisava ir
consultar um dicionário, já que sacristão ou sacripanta não tinham cabimento,
porque prelado era um ilustre coroinha nu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de março de 2021.