domingo, 31 de janeiro de 2021

Amor de glutão

 

Amor de glutão

 

Burguês indiscreto, comprovando o meu veredito, costumo tornar público que teimo testar minhas deficiências. Com o entusiasmo lírico dos apaixonados, caso a caso, vou me apurando pelos resultados do que busco fazer melhor.

Desejo e gosto do que desejo, pelo que me apraz, só que não vivo apenas do bom e do melhor, ainda que me faça bem querer alcançar o que segue distante.

Distante como um belíssimo amanhã, uma alvorada sublime, pois é isso que me convida a tornar possível o que acho provável que seja plausível, pois conto que seja moldável por minhas mãos humanas o que me transcende.

E, com o produto da minha imaginação e do meu engenho, a cada vez em que me experimento capaz de produzir algo desfrutável, seja na carne dos meus pensamentos que dançam a canção da vida, seja na ideia dos meus ossos cantando o chão do mundo, é com isso que vou na estrada, pelo caminho que vou traçando.

Todavia, quem eu quero enganado?

Há êxitos e há fracassos.

Pelo prazer que me toca produzir, agrupo-os como agradáveis e desagradáveis, úteis e inúteis, alegres e tristes, como se minha ânsia de carimbador dominasse a realidade rotulando-a.

Falhando, insisto em experimentar variações. E torno a fracassar, e não paro. E tento, e falho. Minha falha maior talvez esteja nisso, em não desistir, insistindo, resistindo.

Convenientemente, poderia seguir pedindo justiça aos românticos que veem o que muitos não divisam ver. Pelas fissuras, pelas frestas, pelos vãos, poderia seguir dizendo que vivo para trazer à tona o luar que eles intuem estar aí, logo ali, bem aqui. E posso tais quereres.

Diante do nariz, cobiçado pelos olhos, sentido pelos dedos?

A língua aguça o corte, pelo que sangro, fervo, tempero e reparto.

A boca tem a língua, também tem os dentes; por isso abocanho, mordo, trituro e engulo.

Começo pelo café da manhã, e repito à tarde. Dois copos de água para duas colheres de sopa de café, sem um grão de açúcar. Pronto.

Depois: pro copo de arroz, dois de água; e o fio curto de óleo com a pitadinha de sal. Pronto.

A mistura? Carnes e legumes. Embutidos e hortaliças. À vera.

Sempre assim? Mais ou menos. De acordo com o dinheiro que dá pra atender a vontade. E as vontades são muito variadas, e muitas.

Mas, a caminhada menos turbulenta pede a repetição do testado, aprovado e que faz diferença quando ausente.

Fibras animais e vegetais. Cozidos e crus. Gostos e desgostos.

E tem ovo frito, cozido e poché. Afinal, ovo é ovo.

Se me prendo a só isso?

Aprendi a alegrar minhas rotinas com a musse de limão.

Uma vez que o azedinho tira do sério o radar crítico, fazendo-me comer uma e mais outra e ainda mais uma, tigelinhas e tigelinhas de amor tão gostoso, oba, é pela gula que muito amo.

Vez ou outra, me regalo que não faço mal.

Agora, o presente que se faz urgente?

Possam as pessoas amigas deliciar-se com A festa de Babette.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2021.

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