terça-feira, 17 de novembro de 2020

Pequena anotação bárbara

 

Pequena anotação bárbara

 

Boçal, fingindo entender o recado da sua apreensão, tira a cara do gibi com aqueles balões onomatopaicos, delineadores apropriados do embaraço, de uma estupidez violenta e sua, expressamente sua. E é estúpida, sim, por não aparentar articulação lógica.

Nesse momento, é o que o imbeciliza dentro da normalidade dos fatos não relacionados, entre si e consigo. Mesmo? Pode se esforçar, mas não se controla. Aturdido, irritado, acachapado pela realidade. A vida segue sendo uma porta aberta. Como se o convite à passagem o livrasse da estupidez de sentir aquilo, o mundo que o circunscreve na pessoa que reage a estímulos desafiadores. Diante do retrato, preso ao que vê, sente-se minúsculo, apequenado, e reduzido ao barro que articula grunhidos, murmurante riacho que só sabe murmurar quando espantado. E o mundo espanta. Diacho, como vive se espantando.

Então? O demiurgo projeta a represa. O engenheiro, ciente de sua empresa, traz seus gravetos e toras. Assim? O poeta pesca palavras, calmo e melancólico no bote que flutua. São águas ora amenas, ora conflituosas. Manchas que não param. Hein? O mensageiro acena da margem, precisa entregar às lembranças um pensamento que reative nas brasas aquele fogo, que já anda abrigado na rotina que acalenta quem cansado, distraído nas tarefas de tarrafas de traíras plenas de vísceras e escamas. Porém o vento não demora, e passa. Os cabelos da amada voltam ao sono, que há noite. E havendo? Lembra e chora, o pescador flutuando no meio do cansaço. A brotar, a manchar.

A nota não perde o seu mistério, de segredo compartilhado. O tal segredo compartilhado não deixa de ser um segredo, uma vez que o entendimento das sensações não alcança a compreensão total. Que a totalidade é absoluta; e o absoluto, por mais que haja esforço e por mais que se acalme, é incomunicável. A incomunicabilidade, portanto, estimula a produção de ruídos. Portanto, o ruidoso sucumbe à própria algaravia, aos ruídos de sua alegria, de seu maravilhamento, de uma incontestável emoção, tão patético. Pateticamente, notando-se.

No fundo, bem lá no fundo, mais além do sondável, no fundo mais fundo do admissível, aí as águas trabalham, e burilam, concentram, e fazem esférica, polida e bela a criatura.

Ser que aflora na lama pressionada nas águas do fundo?

O substantivo é concreto. A realidade, adensada. O abstrato é que se materializa. Como objeto direto; sujeito determinado.

Quando esse desejo molda essa coisa.

Há quem prenda a respiração em mergulho tão intenso. Há quem prefira afogar-se nas fraldas da imaginação.

Vislumbrante, a imagem que reluz obscurece.

Talvez nem fosse preciso, embora se faça indispensável dizê-lo: o transparente e o cristalino adornam-se um ao outro, feito pérola.

Qual pérola?

Nem anulando o recado das urnas redunda nulo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 15 de novembro de 2020

Santa utilidade

 

Santa utilidade

 

O caso em tela pede uma criança. Sem pensar duas vezes, topo o escrutínio. Querendo minha a sua curiosidade que tem olhos longos sobre o que se avizinha ao alcance da contemplação que tem mãos audazes sobre o que se afigura promissor ao seu engenho que tem palavras de menos para dar sentido ao que se apresenta suscetível à sua verve investigativa, voluntarista, de menino que tem borbulhante a mente com mais perguntas que respostas que a sua empresa está em conhecer um tanto do mundo em que vive.

Com a finalidade de tomar partido, e como gosto de espernear por nada, toco bater perna.

À porta da lotérica e da farmácia, o que se vê?

Se tem evento que me deixa feliz da vida, é fila. Ficar esperando a minha vez é coisa louca a quem, como eu, disposto a ganhar o dia só fazendo isso, esperando. Afinal de contas, a pessoa que espera sabe bem o que lhe espera. E põe-se em guarda, apesar das adversidades que testam a sua fibra de manter-se fiel a si mesma, como dona do próprio compromisso com o futuro. O futuro, a ela, a essa pessoa que vislumbra eventos graves, enfadonhos ou banais, o negócio é enfiar o voto na urna.

O encanto do intelecto está em produzir a beleza? Depende. Se a palheta está afiada, resulta nos Caprichos; se não está, ignoro-me.

Entrar na fila gera bobagens? Corrijo-me com pitacos de amor.

Entretanto, cuidado com o amor, que ele pode se revelar insidioso, persuasivo e renitente; com: artimanhas que falseiam táticas que não admitem falhas; estratégias que não incorporam dúvidas; lógica que não incentiva quem hesita; teia que não camufla armações; e aranha que enreda mosca que morre sem notar a afobação.

Sem assédio moral, posso acatar sugestões?

Vamos lá! Mesmo que nem consiga vencer, luto. Que o amor pede vitórias. Que alcançar êxito faz o vencedor. Que o sucesso faz bem a quem não escamoteia ou se ilude. Fraquejar diante da crueldade não dispensa as falácias; posso gozar das empulhações, mas não mereço o êxtase de atingir o topo. Fujo da raiva que o ressentimento provê.

Louco manso não abusa nas predileções?

A Muralha da China, uma das maravilhas do mundo, não teria se tornado visível na Lua se um simples tijolo não tivesse sido assentado por um anônimo pedreiro.

Conheço gente que não banaliza o amor que a qualifica triunfante, honrada e conquistadora de meritórios. Também abomino a pressa, por isso tenho valorizado cada passo.

Sei, a eleição eletronicamente digital facilita a vida de todo mundo. Então, escolhi antecipar-me ao buchicho. Às seis da manhã, tomei o meu lugar junto ao portão da escola onde teria de votar. Mal a seção abriu, a urna cantou.

Como a festa da democracia celebra indevassável a consciência, compute-se apenas que fui, votei e voltei.

Ainda bem que pude ganhar tempo com o santinho que encontrei jogado à saída da Matriz. Só tive o trabalho de digitar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Ataque fulminante

 

Ataque fulminante

 

Passado o choque, dá pra contar o que houve.

Se tem um troço que me deixa enfezado é ser pego de calças na mão, justamente quando a realidade apronta das suas sem avisar de antemão que vai puxar o tapete, tirando de mim a estabilidade física, da psíquica nem falo. Tamanho o susto, que tanto emociona a ponto de suar frio ainda agora, uma semana depois do transcorrido. Tendo vivido evento visceral, fico arrepiado ao lembrar tê-lo testemunhado.

Ainda destroçado... O que foi que houve?

Ouvir uma sabedoria que comove, a mim não me ocorre condição parecida quanto à reação sentida de imediato. E é preciso ser muito fraco da ideia para negar o tranco forte que me embaraça a vista.

O pasmo é planta daninha que cresce voraz, pouco importando o solo, que põe as energias na eclosão para fora do emparedado. É por instinto que se apõe ao agreste do terreno petrificado, lutando vicejar robusta, com raízes furando o concreto. A querer-se vistosa, é árvore do conhecimento a dar ciência: que é sem medo de dizer à verdade a beleza da leveza como verdade a ser dita que se diz viver sem medo. Pulsando, o coração disparatado opõe-se a escutar-se disparado.

Esse tanto: fazendo-me surdo, ouço os outros.

Comovido como o diabo, ajeito os fundilhos na cadeira, me junto à assembleia para que me seja computada a aleluia, sem meia palavra.

Sei dizer não quando é hora de dizer não.

E digo não, porque o resto é nada, algo tão desprezível que nem é atirado aos porcos.

Embora verossímil, servindo como passagem em porta interposta no caminho do sangue pelas veias do pensamento, a bocarra diz seu desespero aflitivo. E sem ditar à audácia a voracidade, focinho contra focinho. Até porque nem todo porco come lavagem.

E sábio não grita; faz-se ouvir pela voz altaneira, sobranceira, que paira acima de quem a leva realmente em consideração, a sério. Sim, o sábio que fala sem medo sabe por que o medo nega garrafa, copo, a boca que engole a cerveja toda. Certamente, é sábio quem sacia a sede sem negar que vai ter sede tão logo o corpo venha a sentir que tem faltando algo. Sua voz é potente o bastante para manter o corpo à disposição das necessidades.

Ainda que fique bêbado por emendar um gole no outro?

É preciso resistir. É obrar pela escuta que ensurdeça. É manter-se atento, até quando o copo comece a falar.

Tonto de tanta gritaria?

De algum modo, lá pelas tantas, recuperei a altivez.

Já era hora?

Talvez fosse o momento de ficar espantado com a ideia de doido que me veio do nada. O que foi aquilo de ficar bebendo no culto?

Sim, senhor, o boteco acabou virando igreja. O discurso furibundo entortou o estômago. Então, fiz bem em sair dali. Estava incomodado, sobrando. Sim, senhor, foi tanta cervejinha quente, tanto torresmo.

Diante de ataque fulminante, não basta sentir-se culposo, o jeito é reportar-se passivelmente lúcido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2020.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Outro começo

 

Outro começo

 

É preciso começar do zero?

Hoje os tempos são outros, as promessas não se conformam aos candidatos que se apresentam em busca de algum acolhimento ético ─ menos politiqueiras, por conseguinte. Sim, amiga, a veracidade da coisa toda, quando se trata de eleições, está realisticamente filtrada, pois agora a risonha esperança, que ainda sorri quando adulada por gesto amanteigado ou muxoxo almiscarado, entra a gargalhar frente a truques digitalmente pragmáticos. Sim, amigo, uma vez posta frente a rostinhos mais apropriados às certezas polarizadas, a última a luzir do ventre de Pandora já pode mais sobre o que menos digere. Vê-se que a verdade mais autêntica pede à origem que não camufle classe ao falar em público, gênero ao tratar o público ou publicidade ideal.

Sob medida, num mundo polarizado é assim que a conta fecha: há atributos desagradáveis a quem projetado inimigo.

Ou seja, nesta área de preservação social, tanto fantoches quanto marionetes que estão retirados a passatempos de caixas-eletrônicos, cuja fluidez desinibe a ingestão legítima de essências tóxicas que dão sutilíssimas alterações hepáticas, renais e pancreáticas, são os que, pelo consumo cívico de Royal Salute, justamente eles estão curados.

Em resumo, farta de celebridades sóbrias, a política anda capenga de notoriedades dionisíacas. O que torna um porre assistir ao horário eleitoral obrigatório televisivo, porque o mercado anda pedindo caras novas, tornadas novíssimas a fundo perdido. Ostensivamente a grana e a paciência? Perdidas. Mas ambas? Só as nossas, óbvio.

Misericórdia! Que não desejamos castração de nenhum candidato. Sejamos críticos, porque somos mesmo pela democracia que atenda aos interesses do povo, e que ainda nem os sabe interessantes.

Por favor, por piedade, escondam de mim o copão de groselha.

Pois é da glória da esperança viver arisca no encalço dos que não foram: as multidões de homens felizes, com suas mulheres felizes.

Quê? Sem diversidade, há igualdade.

É gastando sola sem sapato, endurecendo a moleira sob sol, indo por aí afora como se levasse o mapa do tesouro no fundo da cachola, é assim que ninguém sai do lugar.

Afinal, há mudanças que não ajudam em nada; aliás, só pioram o que vai péssimo. Tempos difíceis de engolir? Saltam pela goela.

Em dias de atualidade perturbadora, fiquemos sentados ao menor sinal de vertigem. Pateticamente, enrolemos. Recusemos dos gestos o obsceno. Não queiramos tirar do sério quem sorri. Queiramos sorrir do nosso modo, com os dentes que dispomos e não com a dentadura alheia ou por maxilar de outrem.

Se podemos?

Tiremos o rabo da cadeira e entremos na dança que sentimos seja nossa. Que alegria! De mais a mais, bailemos e cantemos.

Agora é hora? Sim, que bem agora se retome a recontagem...

Um mais um façam sempre mais que dois.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2020.

 

domingo, 8 de novembro de 2020

Uma questão em aberto

 

Uma questão em aberto

 

Na primeira temporada em que esteve ali, no passado de aclives e declives de topônimos familiares, andava engatinhando nos mistérios da realidade, não sabia que teria inteira uma infância pra saber como o local irmanava os heróis de nata investidos no brasão do renome.

Do derradeiro colégio, de onde se viu encaminhado pros labirintos da parte paulista do planeta, via Etapa da Frei Caneca, com o famoso Raul Seixas, de pijama, bebendo pinga, ao meio-dia, na esquina, com a Matias Aires, era outra época, ainda nem tinha sido seduzido pela fortuna pra ir fazer ECA, na USP sob Goldemberg. Disso tudo que se lembra, o mais engraçado é que foi do Maria Angerami, o tal colégio de Ibiúna, pro bandejão do CRUSP sem nunca antes ter ouvido falar que a ANATEL era adversária da reforma agrária do ar, proposta pela rádio Xilique, que emitia, em FM, as suas revoluções de comunicação comunitária, desde Perdizes, da Monte Alegre, da PUC.

E estará cobrando ao tempo que relaxe os fios reatados?

Todavia ei-lo buscando conhecer-se, achando-se perdido, tocando pelas estradas da lida, fora da escola primária, do grupo secundário, de faculdades mentais avaliadas genericamente ansiosas, trazido de volta aos ventres da família, pra talvez daqui, de dentro, nesta fala do mundo, poder romper tantas desinformações, pospondo umas outras. Mais que mentiras, honoráveis histórias.

Um retornado?

Encorpado nos tecidos moles, maduro nos pelos grisalhos, quase bom no papo ─ pois assim: responsável por manter-se sóbrio.

Um sujeito ausente que se viu materializado em plena crise. Veio, já agora, licenciado careca. Voltou, por agora, mais lento. Depois de dezessete anos na Baixada Santista, vivendo os rigores pandêmicos do regime agridoce da peste, eis essa pessoa sobrecarregada.

E impregnado de medos, apurado dos ouvidos, impressionado nas retinas, pouco senhor de si, por tantas mágoas casuais, por lágrimas surdas, topando os amigos da velha guarda, virtualmente próximo de quem conheceu abraços, retribuiu beijos, desmereceu-lhe as falhas.

Pessoa reconhecível a quem a reconheça. Gente que geme, goza, segura a verba, solta o verbo; e ignora o que foi feito, memoriza o que vai fazendo e escritura o que deseja para outra hora.

Se não há túmulo que suma com os ossos, há singularidades que somam praças, mudas de trevos e dissimuladas capelas. Porque toda alteridade perde a razão quando pensa a autoridade que não tem.

Embora pressinta a mão da noite no sonho de ir aonde nem sabe em que lugar anda brotando o paradeiro dessa saudade balanceada: o ibiunense, o paulista, o brasileiro e terráqueo?

O ser que diz não ter sentido o que tem sentido tempera-se com o sal da terra. E como tem dentes esta sua boca escancarada...

Onde terá deixado o juízo para morder com tanto gosto a semente da goiaba?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2020.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Nos bailes da vida

 

Nos bailes da vida

 

Cruzando com você, por acaso, numa tarde de meio de primavera, com uma tempestade de fim de tarde já bem anunciada, a pandemia rolando solta por ruas e praças, ocorreu de repente perguntar-lhe: e a cabeça como vai? E sonso incontrolável, soltei: como tem passado?

Nem o escutei. Já meio que desistindo de ir ao festival, que soube tem lotado o estacionamento do Belas Artes/Memorial. Acabarei indo aonde a pirraça me guiar; comigo é assim: com opções, topo outra.

Sabe como é, burro véio emenda ir sem pressa. Pra tirar da mente minhas ideias de bocó, quero vedada a lateral, assim olho fixo o chão da estradinha esburacada, cheia de pedras.

Queria pensar, e penso um roteiro.

De que trataria o filme? Pergunta difícil. Então, para uma resposta simples, que apresente o conteúdo sem desmerecer o modo da sua encenação. Sendo razoável, a ficção trataria da junção de um Fuscão Preto com uma Lambreta azul, com vistas a um patinete com sorriso ortodôntico. Relações essas que se dão nos ambientes de trabalho e domésticos. Haveria um consultório de dentista, onde ele receberia a segunda das mulheres, a mais velha delas. Claro, haveria a casa em que o homem desempenharia as suas funções de marido. Crescidos próximos desde o primário, filhos da terrinha boa pra se viver, de cujo clima não se há de ter senões, pelos invernos bastante frios e pelas chuvas torrenciais de fins de março, conforme o figurino subtropical, e de montanha.

E o caso em foco?

O marido reforça a presença com umas delicadezas, no cotidiano instituído entre o quintal e a garagem. Não bebe mais que o usual a quem levemente cachaceiro, já ocupado em orientar a debutante que valsa de público a indignação com os comedores de proteína animal.

A amante, uma senhora trintona já com discretíssimas correções ao redor dos olhos, busca satisfazer seu companheiro abrindo a ele o mundo de vinhos refinadamente caros e crepúsculos fulminantemente românticos, e sempre a dinheiro.

Porém, quando se fala em dinheiro, há desavenças. Muitas.

E uma vez desabrochada a separação dos vícios das virtudes?

A vergonha enoja a filha, que não suporta ouvir da esposa traída as comiserações esperadas de madames quatrocentonas. Que acinte escutar os lamentos da provedora de seus genes, e mantenedora de um lar asqueroso, tão recatadamente mortiço.

Inquieta, e movida e comovida pela indignação espiritual, a moça suplica à mãe que se erga da tumba. Que ela venha pro sol, e ganhe a musculatura da mulher atual, moderna em sua liberdade de ser.

Na cena final, vê-se uma vitrola, o disco de vinil está parado, sem que se possa ler o selo, as manchas parecem de bolor, e um risco no lado A forma a letra M, de Maria ou Marta? De Madalena é que não é!

E afora isso aí?

Com todo um passado pela frente, no centro do telão, projeta-se em letras escarlates:

SEGUE O BAILE.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2020.

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Amor de casa

 

Amor de casa

 

Contemplado com uma vinda inesperada, ô de casa!, seria o caso de desopilar o fel? Diante de braços tão efusivos, segura o passo um instante; mas demorar-se vai decepcionar, pode até causar irritação. Pra guardar-se diante da visita, destrava o cenho.

É pessoa que morde a língua pra cuspir sangue? Não é canalha, sabe sorrir. Está em casa.

É preciso dar o primeiro passo, como exemplo. Que se ampare no amor, para que se compare aos melhores. Pra não ficar na aparência, e traga ao mundo a contribuição verdadeiramente exemplar, tem suas tramoias abonadoras. Portanto, abre o sorriso.

Ainda que venham exuberantes as novidades, mantém a máscara no lugar. Pela consciência de estar no seu lugar, mantém a calma de figura que sabe de si como anfitriã instagramável.

Ainda que esteja na posição orgulhosa de defesa, faz o que pode para não dar com a língua nos dentes. Quer-se invisível, por isso sorri a quem se ajeita na inveja. Diante de alguém cuja segurança está em falar à toa, diz por gestos comedidos que está mesmo em casa.

Quando se deixam comparar, essas pessoas que invejam são as que fingem mal algum amor. E há tanto amor em quem inveja.

Trazem o fracasso de quem não consegue dominar-se, ainda mais quando na presença de gente centrada. Na convivência com alguém que se comporta condignamente, o amor intoxica.

E que futuro há de se projetar da ciumeira vil de quem sofre com a felicidade facilmente percebida? É bile brotando nos tontos.

Como têm em alta conta as pessoas que os desprezam, os tontos sofrem de ansioso desejo de aceitação. Vivem querendo sentir-se em paz, fazendo hora em casa alheia.

Pouco à vontade, extrapolam-se. Por amor.

O amor sabe desviar os olhos, prender as lágrimas. Não se deixa recuar de portas relutantes. Não se revela na dor que enrijece a nuca, entorta a boca e seca os olhos.

Como esses sofredores sabem sorrir?

Há lares no mundo que ignoram a retribuição. Fechados, isolados, negam-se a acolher. Não dispensam frivolidades e nem banalidades, só não servem café com bolinhos de chuva. Enoja ter intimidades, daí mascaram o cenário: preconceitos são cortinas; nojos são tapetes; as orquídeas vívidas, retratos patentes do desprezo.

Admitem-se tão sedutores?

Administram-se adoradores do amor ao próximo.

Respeitam-se e pedem respeito; ainda mais em ambiente privado. Como gente antiga, deixam evidente o direito de amar do jeito antigo, como aprenderam em casa, com a família. Fazem questão do amor à antiga.

Já o outro amor, de fora, de gente estranha?

Melhor evitar.

Afinal, quem chega da rua que bata da roupa o vírus da diferença. Quem entra no recesso do amor que recebe não fique exibindo uma alegria exagerada da vinda. Trate de ajustar-se.

Assim, preservando o mínimo de respeito, ao abrir o portão, indica aceitar que os cotovelos se toquem. É o amor sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2020.

domingo, 1 de novembro de 2020

O mágico

 

O mágico

 

Esta é uma crônica sentida, uma vez que James Randi morreu. Aí, sem tirar pelo em ovo, você emenda que sabe quem é Uri Geller, mas não quem seja esse daí. Tudo bem, é do jogo querer saber o que não se sabe. Então, o que O MÁGICO, o título, sugere?

Se a primeira ideia que lhe ocorre é esperar algo burlesco, com a típica música de circo ao fundo, de reconhecível alegria, mais aquele cheirinho de pipoca, se for, pare aqui.

No entanto, se a segunda ideia é a de se deixar surpreender pelos truques de profissional gabaritado, de renome na praça, então, tendo desejos de saber como está sendo feita a mágica, assim, continue.

Mas aqui entra o alerta: não se frustre com o que está vindo, pode ser que você esteja depositando no que está sendo escrito uma coisa mais sua do que propriamente do texto.

A hora é esta.

Deixe fluir. Mesmo que se perceba afogando, prossiga. É indo em frente que se deixa fluir o que lhe está sendo oferecido; como alguma engenhoca líquida, uma consciência sensível aos elementos que não travam nem estorvam o movimento. Fluente, seguindo em correnteza, é isso que faz movimentar o que precisa mesmo prosseguir. O que dá vida à existência.

Ou seja, ao fim e ao cabo, é feito rio. E tem a corrente: mais rápido ou mais lento, depende do prazer, da ansiedade, do divertimento.

Isso, isso. Alcance a diversão de seguir lendo. Portanto leia, opte continuar a leitura.

Afinal, pode ser que a surpresa esteja na transparência, às claras, quando a prestidigitação ocorre bem diante de seus olhos.

E dizem: o grande mágico causa o maior impacto na audiência; é quem fala o que está por fazer; quem faz enquanto fala, provocando o pasmo de afirmar o surpreendente, escondendo o objetivo da ação no próprio ato de revelar o ato.

A grande sacada está em continuar, despreparando para o truque. Ainda que tenha ensaiado a espontaneidade da reação; ainda que se policie; siga comprometido com o número. A cartada está em oferecer o encenado como algo novo; outra vez como novidade, para que seja novamente algo transformador, arrebatador, entusiasmante, causador do frisson. Sabendo-se que virá da maneira que tem de vir a tornar-se outro, rompendo minimamente com o ato de sempre, porque o mundo pede mais, pede coraçãozinho no alho e não apenas mortadela.

Então, um imprevisto moderado pode muito bem temperar o arroz e feijão de cada dia. Daí, sem mostrar a forma da forma, vem o futuro como uma iguaria diferente, nem batida nem requentada.

Só pra variar? Há palmas que nem precisam de mãos.

Assim, quando menos se espera, mesmo com o lenço trazendo o lenço trazendo o lenço, mesmo assim, da cartola ordinária, acaba-se, na ponta do último lenço, não com a moeda tirada do nariz, mas com uma flor, flor que tira o ar, arrepia, faz aplaudir, tal o arrebatamento. É flor que não petrifica, que arredonda o êxito num sonoro: óóóó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2020.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Direitos reservados

 

Direitos reservados

 

No intuito de preservar a intimidade, conservando o teor medíocre de minhas circunstâncias de homem do povo, penso seja necessário adotar as seguintes providências.

Primeiro...

Muito me constrange vir a público tomar o partido da verdade, que deveria bastar-se pelo alcance de seu valor, dispensando terceiros da reiteração dessa amplitude, por acintosa desnecessidade. Por isso, e tão somente por isso, reafirme-se: a verdade é, ou será falsidade a se passar o que não é pelo que seja.

Depois...

Em defesa da inocência fulcral de minhas moralidades, assumo de público a culpa de ter consciência das consequências de meus atos. Fiz, portanto mereço responder por meus feitos. Disse, assim nego o que disse. Ofendi, então que me acuse quem se atreva à recíproca. Saibam, por conseguinte, que hei de defender minhas prerrogativas, uma vez que ainda tenho guarda da minha imagem, porque estou em perfeitas condições de controlar discursos, direitos e diplomas a meu respeito. Logo, lucrarei o que for possível com o êxito da empreitada, a fim de preservar-me visível às invasões de outrem. Afinal, eu posso. Se posso, terei poder. Se tenho poderes, é porque os exerço com a plenitude de minhas posses. E que país ordinário seria o Brasil se em suas fronteiras não imperassem a moral, a decência e a virtude, ou, em suma, não houvesse a liberdade do controle. Se me quero limpo, ordeno a higidez. Se me vejo puro, coordeno a honradez. Se atesto o incólume, faço entender o que me apresento honrado, inocente, bem capaz de manter o que todas e todos desta sociedade brasileira hão de compreender, desde que estejam aceites as minhas mais sinceras desculpas, ainda que doa em mim acusar quem me confronta. Sei de mim pelos meus defeitos, mas não recuo diante das liberdades, a de outro e a minha. E assim, não julgo, mas digo, afirmo e confirmo: são infelizes; e por infelizes, semeiam infelicidades. Como não me basta a mim sobreviver infeliz, vou cobrar aos justos a reparação das minhas justiças. Por que aviltam calúnias e mentiras? Pelas veracidades no que espalham. Se menti, menti em causa própria. Se digo que menti, faço-o em nome da honestidade da minha defesa. E se, porventura, há danos enquanto me defendo, irei mesmo perseverar em minhas integridades física, psíquica, ética, social e econômica. Uma vez que almejo multiplicado pelo justo o investimento empregado por mim nas salvaguardas da minha honra, a minha única e íntima honra.

Enfim...

Terei atendido meu pedido de obscuridade a me proteger da fama que degrada como mais um na praça, enoja como outro a lucrar com o fácil, e amaldiçoa como pessoa condenada a censuras do vulgo, ou isso ou apelarei à estupidez das ilicitudes, dado o meu desespero.

Sem mais, ciente de que dá fé ao que está escrito, subscreve com o vigor da personalidade,

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2020.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Via oral

 

Via oral

 

Como ficaria o primeiro parágrafo?

Embora estivesse fazendo uso ─ pleno ─ de balde, pano e rodo, a mulher seguia aturdida por aquelas vozes carcomidas, de paradoxos estrábicos, ensurdecidos e tartamudos. Coisa que uniformiza aquelas gentes estruturalmente anônimas, restando à operadora manual obrar por resoluções outras que validassem as prerrogativas tão brasileiras quanto às da maioria, a faminta de obrigações entendidas mas nunca atendidas. E como faz água, tão salgada, nesta pele, no ombro, neste ser sapiente, no vozerio animal de língua disseminadora de bruma.

O pernilongo tirou a concentração. Em vez de entrar uma torneira?

Sem dúvida, há benefício quando se honra a defesa do legítimo. Sem honra, há legitimidade que beneficia apenas a certeza que se defende da dúvida. Sem lucro algum, há alma que se vende quando a consequência vira causa bem no meio do papo.

Desconversando, a estupidez cava o fosso para que a água brote. E quanto mais fundo, mais denso; quanto mais denso, mais obscuro; quanto maior a obscuridade, maior a tensão. Abreviando pro absurdo, muito maior terá a pusilanimidade de haver-se; como não hão de vir ao mundo, inventam-se explicações: imbecis, que alegram corações afobados; e inúteis, que tornam leve o peito cavado arenoso. E seco, próprio à vilania dos resignados, devotos de infâmias.

Seco, diz o poço o seu abismo; deserto vertical como mortalha da humanidade falhada, fracasso imperdoável.

Queria perdão, mas não engenha a cura. Algum unguento, alguma drágea, algum invento químico que dominasse as entranhas de uma péssima memória, dessas tão cruéis, insuportavelmente incapazes de pôr um pano na mão que o torça.

O zunido perturba. A concentração se esvai.

No entanto? O que se ouve, quando é possível ouvir com atenção, não passa de mixórdia de recordações, de palavras em frangalhos, a perda de uma felicidade ─ temporã e pouco ancestral.

É evidente o embaraço com a falta de coesão entre as partes, fios soltos que sequer se enovelam, dando em um nó.

Que ânsias são essas que dispensam a coerência?

Falta algo. O que fosse lógico, imprescindível, tomasse as rédeas da mente. Que não levasse ao tombo. Algo normal, impetuosamente normal. Há queda, pois as pessoas têm paixões.

Há que se pensar em causa própria? Há.

E como há urgência em conhecer-se, em tomar a iniciativa de pôr razões à frente da noite perdida, então, que a mente perturbada dite quais razões são a fonte da perdição.

Humilhe-se? Perceba-se humilhado.

Mas a falta de sono atordoa, confunde, desequilibra.

Um pernilongo, só um; e a madrugada, travada, alucina.

A colcha cobre a cabeça; o som passa assim mesmo.

Pouco importa. Uma pessoa sem dormir pouco espera que o texto derrube jacas, enfureça marimbondos e espicace tatus.

E há de haver quem faça o fogo usando só dois parágrafos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.


domingo, 25 de outubro de 2020

E ponto final

 

E ponto final

 

Agenda apertada? Tinha consulta no oculista dali a dez minutos, e todavia uma rua fora do caminho atravessou de repente. Convidado a desviar-se, topou a parada. Pois a isca era irresistível: um gato. Todo pimpão, o bichano estava arisco ─ tinha algo à frente.

Entrou pela rua que não lhe serviria para segurar ponteiro algum. E sabendo que atrasaria, acelerou os passos? Viu o bicho partir para cima de uma maritaca. Era o objeto da cobiça: um pássaro colorido e barulhento que estranhamente agia diferente, como uma rolinha.

Hein?

Havia aquela maritaca dando sopa na calçada. Ela nem aí para as pessoas passando rente.

Ao que parece... Coisa real demais?

Só que tinha mesmo esta situação. Não há invenção nenhuma.

Mas, estando no limite do atraso, apertou mais ainda a passada e isso fez correr o gato no encalço da maritaca pedestre? Nada.

Por uma questão de princípios, não se alegue influência direta de um evento sobre outro.

Dali a um segundo, a maritaca voou. Talvez o motivo seja simples: voou pela sobrevivência. No entanto, teria voado pelo sexto sentido, que, de tão profundo, todo animal nem percebe que tem?

Sabe-se lá. Viu-se que voou e ponto final. Só isso.

E o que liga maritaca, gato e a pessoa que os interligava?

O tempo certo para fazer a coisa certa.

De olho na hora, com a cadeira do médico esfriando, tocou rápido para chegar a tempo. Ô alívio ─ chegou.

Tudo resolvido. De posse da receita, foi atrás do preço das lentes.

Levado pelo sorriso da moça estrategicamente à porta da óptica vizinha à clínica de olhos, entrou e recebeu por escrito o orçamento.

Saiu. Andou rua acima, rua abaixo. E buscou outras ruas.

Assuntaram materiais? Informaram qualidades?

Venderam o peixe.

O peixe que nenhum gato ataca, preferindo maritacas.

E veio mais uma? Essa surgiu à porta da última loja visitada.

Outra rolinha em pele de maritaca? Tal e qual.

Algo incrível.

Tratou de ajeitar a câmera do celular, focou. Quis parar de tremer. Procurou prender a respiração. Até usou a mão esquerda pra segurar o aparelho com maior estabilidade, que se sacudia como vara verde por estar com falta de álcool no sangue.

E no que estava pronto pro disparo, o bicho surtou de vez. E foi-se embora, juntando-se a um bando que passava a dez metros do chão.

Chão? Um troço sujo, salpicado de bitucas, coberto de santinhos.

Ouviu um miado. Será possível?

Era. Justamente ele, o mesmo miau do começo desta história.

Tocou o celular. Era o alarme pro remédio da pressão. Tinha de ir, e foi. Voltou pra casa.

Assim que entrou, desabou aquela chuva. Pois é: no que engoliu o comprimido, caiu o mundo.

Caraca! A constatação de ter escapado por pouco o tirou do sério, que até se esqueceu de ter atirado um tchau ao gato.

Se tivesse dado atenção às condições do tempo, certamente teria tomado água na careca, que vira criança quando chapinha chuva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O intervalo

 

O intervalo

 

Como posso querer acordar a aurora?

Não depende de mim que o sol venha sorrindo, tão radiante, cioso das promessas que a manhã enfeixa como agenda por um dia, por mais este dia. Irei cumpri-la, com a tranquilidade dos que dão crédito ao discernimento de não ter muito controle. Fio-me na confiança de me sair bem, de alguma forma.

E esses pardais... Nem me deixam despertar direito.

Farei do modo que sei. Como aprendi, ou pelos exemplos que me deram ou pela cara quebrada por mim mesmo. Na correria, indo de ação em ação. Torcendo para que o amanhã possa vir como ontem veio, e como hoje.

Sim, o futuro tem a necessidade de um primeiro passo; e que me seja firme, seguro, sem o abuso de ser maior que as minhas pernas, sem exigir de mim o que meus pés e meus joelhos, já passados dos cinquenta anos, não têm como medir.

Os músculos são couraça, mas com um ponto falível, o humor. A reação orgânica do corpo influencia na eficiência das carnes moles. O gesto brusco, o lapso que tonteia, a paralisia momentânea.

Procuro a calma, transpiro constrangimentos.

A moral dita ao esqueleto a dança cotidiana.

O vexatório aflora no rosto enrubescido? Sob carga estressante, vêm cãibras às pernas? O pescoço duro faz ridículo o cumprimento?

Como foi torto o meu sono.

Ou seja, a vaidade domina o ser; faz gato e sapato da alma gentil que entra frouxa na dividida com o mundo. Daí que o mundo já nem contabiliza mais as vitórias. De antemão, seja admitida a debilidade e o enfrentamento da realidade seja dado como perdido.

Sem que o pé desnudo toque o chão frio ao lado da cama? Sem.

A consciência é barquinho frágil no mar aberto. Mesmo que diga o contrário? Que tenha esperanças? Ê cabeça de papel.

Que vergonha fugir da raia pela esperança.

E não tem jeito?

Culparei o diabo pelas coisas humanas que me fazem um verme. Cuidarei de encontrar a desculpinha mais esfarrapada que sirva de açúcar no café da manhã. Pedirei bisnaguinha com leite morno. Nem vou me chamar à razão ─ bastará a justiça de apontar um culpado.

Que alegria permanecer incompetente, mas em paz.

De humor recuperado, posso tirar onda. Até penso dar conselhos a quem nem me sabe um guru. Embora míope e calvo? Guru.

O que é isso, seu Rodrigues? Humorismo?

Vamos! Colabore. Escolha um futuro repleto de façanhas.

De manhã, lave roupa, passe o cheirosinho no chão dos quartos e da sala. E a cozinha? Depois do almoço; depois de lavar, enxugar e guardar pratos, panelas e talheres, só então faça florescer o jasmim no piso. Mas o banheiro? Após ter dado com a porta do guarda-roupa no dedão da esquerda, sinta a quentura da frigideira com o dedão da destra. Sua besta de meia-tigela, faça direito ou soltará os cachorros. E, por favor, pare de querer que a noite prometa o que não pode.

Dez da noite? Deite. Seis da manhã? Levante.

Entre um e outro, pra salvar a humanidade dela própria? Sonhe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2020.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O cru dos outros

 

O cru dos outros

 

O barco? À deriva. A tripulação? De primeira viagem. A situação? De mal a pior. O futuro? Catastrófico. A lição que fica? Muitas são as traves irremovíveis.

Líquido e certo? Um dia depois do outro. Ou não levaria por nome que bem define o imbróglio todo: realidade.

E que não fique o não dito pelo que não se disse? É por ouvir falar que poderia ter acontecido, mas, com prova em contrário, está vindo. Portanto, é de fato um acontecimento promissor e tanto. Com o tanto pondo as manguinhas de fora, dizendo-se: interpretação.

A interpretação de terceiros? Que conste nos autos, pois analisam os pratos limpos do que não tem pra comer. O que tem de sujo? Com a inteligência de quem vive sem pôr bois à frente do carro, algo forte. Com a sensibilidade de filho agora pai de outro pai? Picanha no alho. Com a agudeza da filha agora mãe de outra mãe? Cocada dura.

Sonha a esperança mais profunda? Que arde se rir. A pimenta ou o dólar? Nada de repolho nem feijão.

Assim a banda passa? O povo apupa. Enquanto a matilha cresce? Enquanto o barranco desbarranca. Tem coisa errada? Como sempre. E sempre resta tanto por fazer? Pra podermos deixar pra amanhã. Se não for sábado? Nem feriado.

Enfim? A caravana chega.

Do lombo, descem as mulheres suas crianças.

A simplicidade põe canecas ao fogo. Pra coar o café é preciso que a água esteja fervida, com aquela fumacinha de ainda quente.

A simpatia traz um banquinho, e na falta, espalha almofadas. Para bem acomodar quem anda carente de carinho, aconchego, abraço.

A sinceridade sorri, acolhe. Diz a essência de sua jovialidade por gestos espontâneos, no imediato que vem de berço.

A sincronicidade ganha um rosto, sem os disfarces de pessoa que só faz o que faz pensando na troca, no que vai obter pelo mérito.

Qualquer que seja a causa? Sob medida, ou o peito chia. Chiando consegue mudar alguma coisa? Do vinho pro vinagre. Tomando além da conta? Pra dormir o sono dos morgados. Mão pra toda obra? Pela metade, já que precisa de aditamento, e mais outro.

Assim, o oásis seca? Os camelos não passando de uns pangarés. As tâmaras? Uvas passas. As palmeiras? Coqueirinhos de jardim.

Então, qual deveria ter sido o pedido quando a lâmpada pifou?

Vez ou outra, a gente podia ter pensado com cuidado, sem que as bocas da fome se lembrassem de pedir a cabeça de quem vive para bailar a valsa dos que só lambem o osso.

É aqui que entram os amestrados? O circo tá bombando. Puseram fogo nas argolas? Passa o palhaço. E a criançada ri sem parar? Com os pais já meio grogues de tanta eucaristia improvisada. Como? Sem solução. E acha o quê? Um caminho.

Tem quem condene? Outros condenados. Pode acabar por aqui? Só se tiver coisa importante pra esconder. Se dá jeito? Nem depende do santo forte, da reza brava, da chave na porta.

Quem se importa? Quem se dana. Quem não mama? A mama.

Afinal, mãe é mãe. E vice-versa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2020.

domingo, 18 de outubro de 2020

Reserva moral

 

Reserva moral

 

Era o primeiro dia, já que se decidira. Tomada a decisão, todavia, que fosse definitiva, não houvesse a mínima hesitação. Convicto da deliberação, entraria de queixo erguido, apresentaria olhar inabalável, a voz de pessoa que iria incorporar o modelo exposto na vitrine sem precisar se explicar a vendedor ou abelhudos aquém do balcão. Para radicalizar de vez, mostraria ao mundo que mudara de fato.

Seria o começo da fase nova. Deixaria de agradar a quem nunca prestou atenção na sua transparência nata. Daria início a essa etapa que haveria de prolongar-se até o fim dos seus dias, estava certo de que conseguiria manter-se reto. Queria que a vida fosse de vencedor, de alguém disposto a ter seus direitos respeitados, de quem conhece maneiras de demonstrar tal consciência.

Sendo o princípio de uma transformação revolucionária, ao menos passara a pensar assim no exato instante em que o manequim da loja parisiense surgiu diante dele, logo no primeiro dia de sua temporada na capital francesa, como bolsista de filosofia estética.

Portando cabeça revolucionariamente íntegra, de quem dispensa qualquer divã, mesmo o do doutor Freud, a cujo objeto fotogênico até deu atenção quando visitou a casa inglesa do adorador de puros.

Como completava mais um ano de vida nesse dia, associou a data da morte do analista com o do seu renascimento em vida.

Esquisito era sentir um travo libertário, com ideias atrevidas, sem saudades do Ipiranga, fora da Pauliceia que desencaminha para bem encaminhar.

Não vamos pedir ao aniversariante maior infelicidade, pois as suas tristezas gostavam dele, tanto que viviam apegadas a tudo que fazia. Tão novo, recém-formado, já professor de graduação, já ocupado em avançar outro degrau, o do mestrado.

Ousemos concordar com o sujeito: realizasse o desejo.

E mesmo assim, melancólico?

Embora boamente orgulhoso, positivo, andava cabisbaixo, a medir os passos no calçamento da avenida, uma Champs Élysées que não o sabia fortificando-se a cada palmo.

Cumpria, naquela data, sob sol ameno de setembro, mais um ano de fidelidade a um sentimento difuso, informe, certa dormência, algo despregado da precisão do comovente.

Cumpria a experiência saboreando um belíssimo naco do sanduba de presunto cru com pasta de amêndoa, quitute que foi apresentado pela mãe de sua mãe quando era um menino de cinco anos. Ou seja, teve de passar ingredientes e montagem ao rapaz de um bistrô, bem simpático, polido, e, evidentemente, reconhecido com uns bons euros além do preço tabelado, já que tivera o capricho acatado.

Recorda-se?

Sobrevindos vinte e um anos desde que entrara um e saíra outro ─ aparecido em preto: dos sapatos ao chapéu de aba mole; o terno, a gravata estreita, a camisa de manga longa ─ e, de familiar, mantivera só uma peça, a cueca branca com bolinhas verdes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2020.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A maldição

 

A maldição

 

Ficar reto na cama. Com o travesseiro baixinho à nuca, as pernas esticadas, sem meia nos pés, os braços ao longo do corpo; e a mente notívaga crescendo o mau jeito. Tem sol pegando forte.

Dói dormir o domingo até mais tarde? Dói.

Ficar torto no sofá. Com o sono atravessando o almoço, mantendo o copo d’água vazio entre almofadas largadas no chão. Quer saída a preguiça. Já a barriga manifesta fome, querendo macarrão ao sugo e guaraná sem gelo.

Cansa construir castelos no ar? Cansa.

No plano ou no obtuso, o corpo padece.

Fica a pensar que as paredes não pedem nada, só oferecem. E o que oferecem sem pedir nada em troca?

Dor ou cansaço... Ambos.

Há momentos de lucidez; outros de imbecilidade.

À direita e à frente de quem entra na sala, a memória ameaça com a incomunicabilidade de vivências extraordinárias, a quem as viveu. E pode-se apreciar, ou desprezar, desenhos, quadros e fotografias que estão distribuídos, geometricamente espalhados, aguardando olhares curiosos, de visitantes casuais.

Já à esquerda, do outro lado do cômodo, uns metros a mais, na diagonal hipotenusa do quadradão da sala, só tem perpendicular um vazio, retângulo branco, propondo o espaço propício à meditação. Se for pra remediar o que não tem muito que remediar, há consciência.

Agora, atrás do sofá, passa um gato, zanza também uma gatinha, e ali no encontro das costas do caminho estreito detrás do móvel com o mural do silêncio ─ tem parede desnuda de formas, mas faminta de espantos quando examinada de perto ─ aí é que brota um nada.

Caso se pense na dor ou no cansaço? Parece mesmo, um nada.

Então, o domingo cresce de dentro pra fora, com o fermento que o tédio dá a entender que não esconde nenhuma angústia. Embora aja o mal-estar, azedando o olhar. Como gordurinha localizada nas partes pudendas que a cueca amolda do que jeito que pode. O esteta tem a boca cogitando o pudim de leite e o pacotão de polvilho.

Então, o domingo pede uma anca ampla, ampliada pela sofrência do indeterminado. É dia flácido, de esparramar sem medo, tomando o guaraná de dois litros; mais e mais; com panetone fora de época, tem que ir tomando e comendo pouco a pouco; curtindo como quem está no controle da azia, do avanço do tic-tac; como quem desconfia que a convicção de estar obcecado a satisfazer-se pelo instinto é ilusória.

Come por amar-se? Come pra sofrer? Empanturra-se.

E daí vem o que nem era segredo.

Pega a emburrar, do nada. Não sente frio nem calor. Permanece a ideia idiota de permanecer como está. Cresce o estupor estúpido de afundar a bunda no sofá. Percebe engatinhando certa vontade, esse estranho convite que falha; e vontade contrafeita provoca algo.

E os olhos nem tchum?

Sem ter como ignorar o ambiente, desliga a TV. Pra não levantar, nem apaga a luz.

Paredes, suas danadas, com tanta concretude ao redor, a pessoa acaba em prostração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2020.