domingo, 15 de novembro de 2020

Santa utilidade

 

Santa utilidade

 

O caso em tela pede uma criança. Sem pensar duas vezes, topo o escrutínio. Querendo minha a sua curiosidade que tem olhos longos sobre o que se avizinha ao alcance da contemplação que tem mãos audazes sobre o que se afigura promissor ao seu engenho que tem palavras de menos para dar sentido ao que se apresenta suscetível à sua verve investigativa, voluntarista, de menino que tem borbulhante a mente com mais perguntas que respostas que a sua empresa está em conhecer um tanto do mundo em que vive.

Com a finalidade de tomar partido, e como gosto de espernear por nada, toco bater perna.

À porta da lotérica e da farmácia, o que se vê?

Se tem evento que me deixa feliz da vida, é fila. Ficar esperando a minha vez é coisa louca a quem, como eu, disposto a ganhar o dia só fazendo isso, esperando. Afinal de contas, a pessoa que espera sabe bem o que lhe espera. E põe-se em guarda, apesar das adversidades que testam a sua fibra de manter-se fiel a si mesma, como dona do próprio compromisso com o futuro. O futuro, a ela, a essa pessoa que vislumbra eventos graves, enfadonhos ou banais, o negócio é enfiar o voto na urna.

O encanto do intelecto está em produzir a beleza? Depende. Se a palheta está afiada, resulta nos Caprichos; se não está, ignoro-me.

Entrar na fila gera bobagens? Corrijo-me com pitacos de amor.

Entretanto, cuidado com o amor, que ele pode se revelar insidioso, persuasivo e renitente; com: artimanhas que falseiam táticas que não admitem falhas; estratégias que não incorporam dúvidas; lógica que não incentiva quem hesita; teia que não camufla armações; e aranha que enreda mosca que morre sem notar a afobação.

Sem assédio moral, posso acatar sugestões?

Vamos lá! Mesmo que nem consiga vencer, luto. Que o amor pede vitórias. Que alcançar êxito faz o vencedor. Que o sucesso faz bem a quem não escamoteia ou se ilude. Fraquejar diante da crueldade não dispensa as falácias; posso gozar das empulhações, mas não mereço o êxtase de atingir o topo. Fujo da raiva que o ressentimento provê.

Louco manso não abusa nas predileções?

A Muralha da China, uma das maravilhas do mundo, não teria se tornado visível na Lua se um simples tijolo não tivesse sido assentado por um anônimo pedreiro.

Conheço gente que não banaliza o amor que a qualifica triunfante, honrada e conquistadora de meritórios. Também abomino a pressa, por isso tenho valorizado cada passo.

Sei, a eleição eletronicamente digital facilita a vida de todo mundo. Então, escolhi antecipar-me ao buchicho. Às seis da manhã, tomei o meu lugar junto ao portão da escola onde teria de votar. Mal a seção abriu, a urna cantou.

Como a festa da democracia celebra indevassável a consciência, compute-se apenas que fui, votei e voltei.

Ainda bem que pude ganhar tempo com o santinho que encontrei jogado à saída da Matriz. Só tive o trabalho de digitar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

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