domingo, 8 de novembro de 2020

Uma questão em aberto

 

Uma questão em aberto

 

Na primeira temporada em que esteve ali, no passado de aclives e declives de topônimos familiares, andava engatinhando nos mistérios da realidade, não sabia que teria inteira uma infância pra saber como o local irmanava os heróis de nata investidos no brasão do renome.

Do derradeiro colégio, de onde se viu encaminhado pros labirintos da parte paulista do planeta, via Etapa da Frei Caneca, com o famoso Raul Seixas, de pijama, bebendo pinga, ao meio-dia, na esquina, com a Matias Aires, era outra época, ainda nem tinha sido seduzido pela fortuna pra ir fazer ECA, na USP sob Goldemberg. Disso tudo que se lembra, o mais engraçado é que foi do Maria Angerami, o tal colégio de Ibiúna, pro bandejão do CRUSP sem nunca antes ter ouvido falar que a ANATEL era adversária da reforma agrária do ar, proposta pela rádio Xilique, que emitia, em FM, as suas revoluções de comunicação comunitária, desde Perdizes, da Monte Alegre, da PUC.

E estará cobrando ao tempo que relaxe os fios reatados?

Todavia ei-lo buscando conhecer-se, achando-se perdido, tocando pelas estradas da lida, fora da escola primária, do grupo secundário, de faculdades mentais avaliadas genericamente ansiosas, trazido de volta aos ventres da família, pra talvez daqui, de dentro, nesta fala do mundo, poder romper tantas desinformações, pospondo umas outras. Mais que mentiras, honoráveis histórias.

Um retornado?

Encorpado nos tecidos moles, maduro nos pelos grisalhos, quase bom no papo ─ pois assim: responsável por manter-se sóbrio.

Um sujeito ausente que se viu materializado em plena crise. Veio, já agora, licenciado careca. Voltou, por agora, mais lento. Depois de dezessete anos na Baixada Santista, vivendo os rigores pandêmicos do regime agridoce da peste, eis essa pessoa sobrecarregada.

E impregnado de medos, apurado dos ouvidos, impressionado nas retinas, pouco senhor de si, por tantas mágoas casuais, por lágrimas surdas, topando os amigos da velha guarda, virtualmente próximo de quem conheceu abraços, retribuiu beijos, desmereceu-lhe as falhas.

Pessoa reconhecível a quem a reconheça. Gente que geme, goza, segura a verba, solta o verbo; e ignora o que foi feito, memoriza o que vai fazendo e escritura o que deseja para outra hora.

Se não há túmulo que suma com os ossos, há singularidades que somam praças, mudas de trevos e dissimuladas capelas. Porque toda alteridade perde a razão quando pensa a autoridade que não tem.

Embora pressinta a mão da noite no sonho de ir aonde nem sabe em que lugar anda brotando o paradeiro dessa saudade balanceada: o ibiunense, o paulista, o brasileiro e terráqueo?

O ser que diz não ter sentido o que tem sentido tempera-se com o sal da terra. E como tem dentes esta sua boca escancarada...

Onde terá deixado o juízo para morder com tanto gosto a semente da goiaba?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2020.

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