Uma
questão em aberto
Na primeira temporada em que esteve
ali, no passado de aclives e declives de topônimos familiares, andava
engatinhando nos mistérios da realidade, não sabia que teria inteira uma
infância pra saber como o local irmanava os heróis de nata investidos no brasão
do renome.
Do derradeiro colégio, de onde se viu
encaminhado pros labirintos da parte paulista do planeta, via Etapa da Frei
Caneca, com o famoso Raul Seixas, de pijama, bebendo pinga, ao meio-dia, na
esquina, com a Matias Aires, era outra época, ainda nem tinha sido seduzido
pela fortuna pra ir fazer ECA, na USP sob Goldemberg. Disso tudo que se lembra,
o mais engraçado é que foi do Maria Angerami, o tal colégio de Ibiúna, pro
bandejão do CRUSP sem nunca antes ter ouvido falar que a ANATEL era adversária da
reforma agrária do ar, proposta pela rádio Xilique, que emitia, em FM, as suas
revoluções de comunicação comunitária, desde Perdizes, da Monte Alegre, da PUC.
E estará cobrando ao tempo que relaxe os
fios reatados?
Todavia ei-lo buscando conhecer-se, achando-se
perdido, tocando pelas estradas da lida, fora da escola primária, do grupo
secundário, de faculdades mentais avaliadas genericamente ansiosas, trazido de volta
aos ventres da família, pra talvez daqui, de dentro, nesta fala do mundo, poder
romper tantas desinformações, pospondo umas outras. Mais que mentiras, honoráveis
histórias.
Um retornado?
Encorpado nos tecidos moles, maduro nos
pelos grisalhos, quase bom no papo ─ pois assim: responsável por manter-se
sóbrio.
Um sujeito ausente que se viu materializado
em plena crise. Veio, já agora, licenciado careca. Voltou, por agora, mais
lento. Depois de dezessete anos na Baixada Santista, vivendo os rigores
pandêmicos do regime agridoce da peste, eis essa pessoa sobrecarregada.
E impregnado de medos, apurado dos
ouvidos, impressionado nas retinas, pouco senhor de si, por tantas mágoas
casuais, por lágrimas surdas, topando os amigos da velha guarda, virtualmente
próximo de quem conheceu abraços, retribuiu beijos, desmereceu-lhe as falhas.
Pessoa reconhecível a quem a reconheça.
Gente que geme, goza, segura a verba, solta o verbo; e ignora o que foi feito,
memoriza o que vai fazendo e escritura o que deseja para outra hora.
Se não há túmulo que suma com os ossos,
há singularidades que somam praças, mudas de trevos e dissimuladas capelas. Porque
toda alteridade perde a razão quando pensa a autoridade que não tem.
Embora pressinta a mão da noite no
sonho de ir aonde nem sabe em que lugar anda brotando o paradeiro dessa saudade
balanceada: o ibiunense, o paulista, o brasileiro e terráqueo?
O ser que diz não ter sentido o que tem
sentido tempera-se com o sal da terra. E como tem dentes esta sua boca
escancarada...
Onde terá deixado o juízo para morder
com tanto gosto a semente da goiaba?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de novembro de 2020.
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