terça-feira, 17 de novembro de 2020

Pequena anotação bárbara

 

Pequena anotação bárbara

 

Boçal, fingindo entender o recado da sua apreensão, tira a cara do gibi com aqueles balões onomatopaicos, delineadores apropriados do embaraço, de uma estupidez violenta e sua, expressamente sua. E é estúpida, sim, por não aparentar articulação lógica.

Nesse momento, é o que o imbeciliza dentro da normalidade dos fatos não relacionados, entre si e consigo. Mesmo? Pode se esforçar, mas não se controla. Aturdido, irritado, acachapado pela realidade. A vida segue sendo uma porta aberta. Como se o convite à passagem o livrasse da estupidez de sentir aquilo, o mundo que o circunscreve na pessoa que reage a estímulos desafiadores. Diante do retrato, preso ao que vê, sente-se minúsculo, apequenado, e reduzido ao barro que articula grunhidos, murmurante riacho que só sabe murmurar quando espantado. E o mundo espanta. Diacho, como vive se espantando.

Então? O demiurgo projeta a represa. O engenheiro, ciente de sua empresa, traz seus gravetos e toras. Assim? O poeta pesca palavras, calmo e melancólico no bote que flutua. São águas ora amenas, ora conflituosas. Manchas que não param. Hein? O mensageiro acena da margem, precisa entregar às lembranças um pensamento que reative nas brasas aquele fogo, que já anda abrigado na rotina que acalenta quem cansado, distraído nas tarefas de tarrafas de traíras plenas de vísceras e escamas. Porém o vento não demora, e passa. Os cabelos da amada voltam ao sono, que há noite. E havendo? Lembra e chora, o pescador flutuando no meio do cansaço. A brotar, a manchar.

A nota não perde o seu mistério, de segredo compartilhado. O tal segredo compartilhado não deixa de ser um segredo, uma vez que o entendimento das sensações não alcança a compreensão total. Que a totalidade é absoluta; e o absoluto, por mais que haja esforço e por mais que se acalme, é incomunicável. A incomunicabilidade, portanto, estimula a produção de ruídos. Portanto, o ruidoso sucumbe à própria algaravia, aos ruídos de sua alegria, de seu maravilhamento, de uma incontestável emoção, tão patético. Pateticamente, notando-se.

No fundo, bem lá no fundo, mais além do sondável, no fundo mais fundo do admissível, aí as águas trabalham, e burilam, concentram, e fazem esférica, polida e bela a criatura.

Ser que aflora na lama pressionada nas águas do fundo?

O substantivo é concreto. A realidade, adensada. O abstrato é que se materializa. Como objeto direto; sujeito determinado.

Quando esse desejo molda essa coisa.

Há quem prenda a respiração em mergulho tão intenso. Há quem prefira afogar-se nas fraldas da imaginação.

Vislumbrante, a imagem que reluz obscurece.

Talvez nem fosse preciso, embora se faça indispensável dizê-lo: o transparente e o cristalino adornam-se um ao outro, feito pérola.

Qual pérola?

Nem anulando o recado das urnas redunda nulo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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