quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Ataque fulminante

 

Ataque fulminante

 

Passado o choque, dá pra contar o que houve.

Se tem um troço que me deixa enfezado é ser pego de calças na mão, justamente quando a realidade apronta das suas sem avisar de antemão que vai puxar o tapete, tirando de mim a estabilidade física, da psíquica nem falo. Tamanho o susto, que tanto emociona a ponto de suar frio ainda agora, uma semana depois do transcorrido. Tendo vivido evento visceral, fico arrepiado ao lembrar tê-lo testemunhado.

Ainda destroçado... O que foi que houve?

Ouvir uma sabedoria que comove, a mim não me ocorre condição parecida quanto à reação sentida de imediato. E é preciso ser muito fraco da ideia para negar o tranco forte que me embaraça a vista.

O pasmo é planta daninha que cresce voraz, pouco importando o solo, que põe as energias na eclosão para fora do emparedado. É por instinto que se apõe ao agreste do terreno petrificado, lutando vicejar robusta, com raízes furando o concreto. A querer-se vistosa, é árvore do conhecimento a dar ciência: que é sem medo de dizer à verdade a beleza da leveza como verdade a ser dita que se diz viver sem medo. Pulsando, o coração disparatado opõe-se a escutar-se disparado.

Esse tanto: fazendo-me surdo, ouço os outros.

Comovido como o diabo, ajeito os fundilhos na cadeira, me junto à assembleia para que me seja computada a aleluia, sem meia palavra.

Sei dizer não quando é hora de dizer não.

E digo não, porque o resto é nada, algo tão desprezível que nem é atirado aos porcos.

Embora verossímil, servindo como passagem em porta interposta no caminho do sangue pelas veias do pensamento, a bocarra diz seu desespero aflitivo. E sem ditar à audácia a voracidade, focinho contra focinho. Até porque nem todo porco come lavagem.

E sábio não grita; faz-se ouvir pela voz altaneira, sobranceira, que paira acima de quem a leva realmente em consideração, a sério. Sim, o sábio que fala sem medo sabe por que o medo nega garrafa, copo, a boca que engole a cerveja toda. Certamente, é sábio quem sacia a sede sem negar que vai ter sede tão logo o corpo venha a sentir que tem faltando algo. Sua voz é potente o bastante para manter o corpo à disposição das necessidades.

Ainda que fique bêbado por emendar um gole no outro?

É preciso resistir. É obrar pela escuta que ensurdeça. É manter-se atento, até quando o copo comece a falar.

Tonto de tanta gritaria?

De algum modo, lá pelas tantas, recuperei a altivez.

Já era hora?

Talvez fosse o momento de ficar espantado com a ideia de doido que me veio do nada. O que foi aquilo de ficar bebendo no culto?

Sim, senhor, o boteco acabou virando igreja. O discurso furibundo entortou o estômago. Então, fiz bem em sair dali. Estava incomodado, sobrando. Sim, senhor, foi tanta cervejinha quente, tanto torresmo.

Diante de ataque fulminante, não basta sentir-se culposo, o jeito é reportar-se passivelmente lúcido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2020.

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