Ataque
fulminante
Passado o choque, dá pra contar o que
houve.
Se tem um troço que me deixa enfezado
é ser pego de calças na mão, justamente quando a realidade apronta das suas sem
avisar de antemão que vai puxar o tapete, tirando de mim a estabilidade física,
da psíquica nem falo. Tamanho o susto, que tanto emociona a ponto de suar frio ainda
agora, uma semana depois do transcorrido. Tendo vivido evento visceral, fico arrepiado
ao lembrar tê-lo testemunhado.
Ainda destroçado... O que foi que houve?
Ouvir uma sabedoria que comove, a mim
não me ocorre condição parecida quanto à reação sentida de imediato. E é
preciso ser muito fraco da ideia para negar o tranco forte que me embaraça a
vista.
O pasmo é planta daninha que cresce voraz,
pouco importando o solo, que põe as energias na eclosão para fora do emparedado.
É por instinto que se apõe ao agreste do terreno petrificado, lutando vicejar
robusta, com raízes furando o concreto. A querer-se vistosa, é árvore do
conhecimento a dar ciência: que é sem medo de dizer à verdade a beleza da
leveza como verdade a ser dita que se diz viver sem medo. Pulsando, o coração disparatado
opõe-se a escutar-se disparado.
Esse tanto: fazendo-me surdo, ouço os
outros.
Comovido como o diabo, ajeito os
fundilhos na cadeira, me junto à assembleia para que me seja computada a
aleluia, sem meia palavra.
Sei dizer não quando é hora de dizer
não.
E digo não, porque o resto é nada, algo
tão desprezível que nem é atirado aos porcos.
Embora verossímil, servindo como
passagem em porta interposta no caminho do sangue pelas veias do pensamento, a
bocarra diz seu desespero aflitivo. E sem ditar à audácia a voracidade, focinho
contra focinho. Até porque nem todo porco come lavagem.
E sábio não grita; faz-se ouvir pela
voz altaneira, sobranceira, que paira acima de quem a leva realmente em
consideração, a sério. Sim, o sábio que fala sem medo sabe por que o medo nega garrafa,
copo, a boca que engole a cerveja toda. Certamente, é sábio quem sacia a sede
sem negar que vai ter sede tão logo o corpo venha a sentir que tem faltando
algo. Sua voz é potente o bastante para manter o corpo à disposição das
necessidades.
Ainda que fique bêbado por emendar um
gole no outro?
É preciso resistir. É obrar pela
escuta que ensurdeça. É manter-se atento, até quando o copo comece a falar.
Tonto de tanta gritaria?
De algum modo, lá pelas tantas, recuperei
a altivez.
Já era hora?
Talvez fosse o momento de ficar
espantado com a ideia de doido que me veio do nada. O que foi aquilo de ficar
bebendo no culto?
Sim, senhor, o boteco acabou virando igreja.
O discurso furibundo entortou o estômago. Então, fiz bem em sair dali. Estava incomodado,
sobrando. Sim, senhor, foi tanta cervejinha quente, tanto torresmo.
Diante de ataque fulminante, não basta
sentir-se culposo, o jeito é reportar-se passivelmente lúcido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de novembro de 2020.
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