Santa
utilidade
O caso em tela pede uma criança. Sem pensar
duas vezes, topo o escrutínio. Querendo minha a sua curiosidade que tem olhos
longos sobre o que se avizinha ao alcance da contemplação que tem mãos audazes
sobre o que se afigura promissor ao seu engenho que tem palavras de menos para
dar sentido ao que se apresenta suscetível à sua verve investigativa,
voluntarista, de menino que tem borbulhante a mente com mais perguntas que
respostas que a sua empresa está em conhecer um tanto do mundo em que vive.
Com a finalidade de tomar partido, e
como gosto de espernear por nada, toco bater perna.
À porta da lotérica e da farmácia, o
que se vê?
Se tem evento que me deixa feliz da
vida, é fila. Ficar esperando a minha vez é coisa louca a quem, como eu,
disposto a ganhar o dia só fazendo isso, esperando. Afinal de contas, a pessoa
que espera sabe bem o que lhe espera. E põe-se em guarda, apesar das
adversidades que testam a sua fibra de manter-se fiel a si mesma, como dona do próprio
compromisso com o futuro. O futuro, a ela, a essa pessoa que vislumbra eventos
graves, enfadonhos ou banais, o negócio é enfiar o voto na urna.
O encanto do intelecto está em
produzir a beleza? Depende. Se a palheta está afiada, resulta nos Caprichos; se não está, ignoro-me.
Entrar na fila gera bobagens? Corrijo-me
com pitacos de amor.
Entretanto, cuidado com o amor, que
ele pode se revelar insidioso, persuasivo e renitente; com: artimanhas que falseiam
táticas que não admitem falhas; estratégias que não incorporam dúvidas; lógica
que não incentiva quem hesita; teia que não camufla armações; e aranha que enreda
mosca que morre sem notar a afobação.
Sem assédio moral, posso acatar sugestões?
Vamos lá! Mesmo que nem consiga
vencer, luto. Que o amor pede vitórias. Que alcançar êxito faz o vencedor. Que
o sucesso faz bem a quem não escamoteia ou se ilude. Fraquejar diante da
crueldade não dispensa as falácias; posso gozar das empulhações, mas não mereço
o êxtase de atingir o topo. Fujo da raiva que o ressentimento provê.
Louco manso não abusa nas predileções?
A Muralha da China, uma das maravilhas
do mundo, não teria se tornado visível na Lua se um simples tijolo não tivesse
sido assentado por um anônimo pedreiro.
Conheço gente que não banaliza o amor
que a qualifica triunfante, honrada e conquistadora de meritórios. Também
abomino a pressa, por isso tenho valorizado cada passo.
Sei, a eleição eletronicamente digital
facilita a vida de todo mundo. Então, escolhi antecipar-me ao buchicho. Às seis
da manhã, tomei o meu lugar junto ao portão da escola onde teria de votar. Mal
a seção abriu, a urna cantou.
Como a festa da democracia celebra indevassável
a consciência, compute-se apenas que fui, votei e voltei.
Ainda bem que pude ganhar tempo com o
santinho que encontrei jogado à saída da Matriz. Só tive o trabalho de digitar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de novembro de 2020.