quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Viola ensolarada

 

Viola ensolarada

 

Tocado pela vida, toca-a.

E percebe, deve estar ultrapassando algum limite, o do bom-senso talvez, ao admitir que topa fazê-la soar de alguma forma menos árida, de algum modo mais harmônica e de um jeito todo seu. Já intui em si a mão dourada da fortuna a convertê-lo em ouro, e sorri.

E sente, está nele vivê-la ao vivo, em carne viva, sem ensaio, no improviso da alegria e na satisfação do solo. E aberto a duetos, trios, quartetos e, enfim, a uma orquestra inteira que venha portar-se junto, incluindo-o. Toma parte no que toca, bem feliz.

E aprende o tom. Faz-se um instrumento afinado. Busca o primor na execução e na audiência, a primazia da fruição. Pode aplaudir-se, captando a melodia: passivamente ao acompanhá-la e ativamente ao compô-la. Sua, que a apresenta da partitura ao diálogo.

Apreende horizontes enquanto respira.

Há decisões que o espelho cobra-lhe e, entretanto, nem água lava ou torna mais leve. Há mensagens por demais transformadoras que o abalam, obrigando-o a levantar o queixo, e encarar. Há especulações inadiáveis, cujas premências definem outros rumos, e os acolhe como norte, e pedem perspectivas diversas, e as vislumbra desintoxicantes.

Então, reconhece: há sombras que se dissipam, voláteis; há rugas que se manifestam, maduras. Entre feroz e cordato, há de viver sem usar os cacos para rejuvenescer ou mascarar-se ingênuo, inocente, inconsciente. Mas sangrias entortam a vida, e cabe a ele vivenciá-las iluminações rutilantes. Perde-se; acha-se. Por sujeição; por sugestão. Há apuros que depuram. Há apupos que envaidecem.

E compreende o que entende, pois assume o posto ao qual acorre quando possesso, distraído, tonto ou centrado, uma vez que, se bem se mantém, a toda hora, a todo momento.

Lá está o farol pulsando aquele eco de luz que o arremata do mar de desespero no qual se vê abismado. A âncora da realidade não o encontra morto nas certezas e petrificado na constância, afogado nas tristezas que o acovardam.

Disparate: o alarme de emergência do elevador está doidinho.

Embora vindo sem pedidos de socorro, acolhe e deixa-se acolher. O aleatório acossa, incomoda, seja pela estridência monstruosa, seja pela reprodução caótica; suscitando-lhe uma dependência emocional, uma carência bioquímica, o aprendizado do imoral.

Astuto, filtra a sobriedade ao trocar sol por dó...

Tanto age pra fora quanto reage por dentro.

Como imbecil, rasga a pauta; fanfarrão, coloca fogo na lira; burro, bate suas patas na terra em que circula, à beira d’água. Se tem sede, não bebe. Com fome, não come. Dispensa a onda, e não surfa. A vez não vem: tasca pressa, e mais acelera.

E agora? Brigo comigo por que me desobrigo do futuro?

Bastante infeliz, abre os olhos, escancara a janela. Escuta melhor: o tropel dos passarinhos ajuda a livrar do cativeiro o amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 17 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Passos da estrada

 

Passos da estrada

 

Isso é ridículo, eu sei.

Mas, digamos que você não tenha dado a devida atenção, como quem chupa uma bala grudenta, talvez uma toffee que toma os vãos todos dos dentes, com artimanhas de felicidade acelerada, só que vai indo contra si, contra o prazer do desfrute, daí vem este resultado que derruba o entusiasmo, numa frustração bem irritante.

Isso é constrangedor, eu sei.

No entanto, se você pensasse com um pouco mais de parcimônia, como quem ao vir um uniforme não divise a violência nem o risco de morte, enxergaria nitidamente a ordem seguindo um poder natural, de atendimento às suas, que também são as suas, regras e atribuições ─ de manutenção sanitária, gestão administrativa, vigilância social.

Isso é assustador, eu sei.

Todavia, será possível que você possa um dia entender o quanto o mundo tem vida própria, como quem dispensa os motivos de uma pedra afundar na água, mesmo que o copo seja pequenino, com uma diminuta profundidade; mesmo que o aquário esteja turvo, com baixa oxigenação; mesmo que o rio passe pesado, barrento, com horrenda exposição de cadáveres, desde uns galhos ressequidos às cadeiras berrantes de plástico; pouco importa o quanto haja de vontade de não ir pelos caminhos de sempre, ainda vai.

Isso é coisa que não se diz nem mesmo em público, eu sei.

Contudo, os galos ainda cantam, como quem abomina atrasos; os pardais seguem avançando a manhã, como quem lota trens e ônibus; as margaridas labutam sem trégua, como quem recolhe das calçadas o que, sem piedade nem misericórdia, os toscos teimam em vomitar diuturnamente, para o delírio de tantas gentes.

Isso é nojento, eu sei.

Certo, nunca se deve duvidar da própria sorte, como quem dá por perdido o que sequer está em jogo ─ a plenitude do desejo, a audácia dos sonhadores que despertam por conta própria na hora certa; como quem colabora com o inimigo, movido menos pela vingança, na frieza calculista que deixa a sopa esfriar, mas por desânimo raquítico.

Isso é lamentável, eu sei.

Embora seja o que seja, é preciso abrir a janela antes de sair para o tempo; é recomendável destravar a porta para receber a dignidade dos visitantes que pedem água; é preferível ir com aqueles que não desistem de cantar; mesmo atravessando o coral, como quem tem a espinhela pensa, numa tensão de querer andar um passo à frente, só que redunda em curva, e vai, pensando conseguir um passo a mais, vai e, justamente quando nem espera, chega, está de novo às voltas da partida, como se em todo fim brotasse o começo.

Isso é política, eu sei.

Porém, peço que parem os arremessos de copo no rio que sopra sua canção de melodias conflitantes, que canta sua ode ao confronto, que ignora quem o observa, à margem de si, à parte da vida, mesmo no mundo, constrangido a negar-se como parte interessada naquilo.

Sabe-se bem que é de matar, essa tragédia.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 15 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Um caso sério

 

Um caso sério

 

Protocolo: 064/6901690451-51.

Usufruindo das mais perfeitas condições de sanidade, portador de idade superior a 21 anos, residente e domiciliado nesta presente casa em que habito, divulgo o número acima para que a operadora da rede de internet não fique perdida ao me chamar de mentiroso, permito, de fato, o acesso ao conteúdo gravado para todos os indevidos afins.

Aqui, passo a transcrever o diálogo, ipsis litteris, conforme alguém relapso franqueou-me vítima do testemunho, logo a mim que estava apenas interessado em saber se havia problemas com a linha.

No momento da ligação, eis o que pude escutar de bico calado:

─ Tem neurose que dê sono?

─ Tenho.

─ Então, me veja duas.

─ Duas? O sono é um só.

─ Ando numa dureza pra pegar no sono.

─ Uma só já basta. Pode dar overdose.

─ Overdose é pros fracos. A minha insônia tem saúde de ferro.

─ Então, vai dar ferrugem. Meu dever é antecipar o perigo.

─ Abono de Natal é que vem antecipado.

─ Não, não. O que chega antes é quem vence.

─ Ao vencedor, o sofá. Eu sei, por isso preciso cochilar logo.

─ Depois, vem reclamar que dorme pouco. Custa dormir de olhos abertos? Por que não tenta puxar ronco de barriga cheia?

─ Depois do almoço, vou ao supermercado. Gasto menos, porque a cabeça precisa aprender a respeitar a listinha. Nada de correr, nada de comer arroz carunchado, pois ninguém merece.

─ Que chique pedir neurose pelo telefone, hein?

─ Chique uma ova.

─ Ah! O senhor vai abater as neuroses do imposto de renda...

─ Sabe, né? Como a carestia voltou a colocar as asinhas de fora, então, a gente tem é que se remediar com o que está à disposição. O leão ruge alto, mostra as garras, porém lambe, manso, de um jeitinho todo manhoso. Assusta quem não tem plano nem acesso à saúde de qualidade. Enfim, como a vida não está nada fácil, a gente precisa de comprovante, seja da terapia personalizada, seja da medicação vinda manipulada do exterior. Aliás, remédio em dólar custa uma fábula, daí a doença precisar de nome complicado e ser rara, raríssima. E tenho que pedir a nota fiscal do programa de código autêntico, com o selo original pago na fonte. Afinal, até o software deve ser caro, caríssimo.

─ Quer que mande por SMS ou pode ser por e-mail mesmo?

─ Depende.

─ Como assim? Depende do quê?

─ Tem angústia que desça fazendo estrago goela abaixo?

─ Oxe! O senhor vem com complicação atrás de outra, hein?

─ Pois é, menina. Além de neurótico, ando compulsivo, querendo achar angústia onde a curva molda o vento.

─ Ô diabo!

Notaram a gravidade do caso?

Em resumo...

O que pesquei da prosa alheia, cuspindo o fogo da farofa cheinha de paio avivado por cominho macerado por indicador e polegar, mais a pimenta dedo-de-moça colhida de noitinha na horta da vizinha, foi o luar de quê, mesmo?

Ora, neste pirão gorado, o acontecimento em tela delata:

─ Quem entornou a papa não foi o freguês.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de setembro de 2020.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Umbigo de fora

 

Umbigo de fora

 

De férias da feira, a fera se contenta fútil a perguntar o fácil: o que colhe Narciso de sua reflexão em água rasa? O mais profundo do ser está à flor da pele, em contato com o ar que o abarca sem novidades. Afia a voz como se se desafiasse a desafinar à hora em que dispensa o melódico? Foge da beleza de deslocar a tônica a lugar inesperado. Palpita a reverência, busca o uníssono. Serve de fonte à decadência. Mascara o eco da monotonia oca que o sustenta.

E o trem da vida? Na banguela. E a calma dos desesperados? No olho do furacão. E a mulher do padre? Uma santa. E a hora que não passa? Um porre. As loucuras do pinguço? Nem pro santo. A lágrima de crocodilo? Falso brilhante. Mundo véio sem porteira? Pela hora da morte. Onde Judas bateu com as botas? Nem grama cresce. O certo por linhas tortas? Só Deus sabe. E isso mais aquilo? Noves fora. E a conclusão a que se chega? Mal aguentamos.

Dando sinal de vida, o maestro sobe dos camarins.

Sempre atrás de negócios da China, o sínico. Sempre à frente do seu templo, o trapista. Sempre de mãos abanando, cheio de dedos. Sempre com o pé nas costas, tão cabeça. Sempre que pode, pede. Sempre que pede, força. Sempre o tal que mostra a cara.

Sempre?

Primeiro, quando sentado entre os amigos, geralmente depois que dois ou três já tenham elaborado suas falas, ele entra em ação. Solto no jogo, dispõe-se a encerrar quaisquer assuntos. E sem polêmica.

Entretanto, à sua varinha, arma velha de batalhas vencidas, falta a potência pra reger sistemas solares e orquestrar universos paralelos.

Improvisando aprovação ao espetáculo, os vacinados sorriem.

Noutras circunstâncias, nas reuniões em que se vê entre pessoas que não o conheçam, o arranjo da vez o faz sorrir. Sequer disfarça o contentamento. Com a seriedade dos graves, despido das verdades trágicas, inocula nos presentes a mais autêntica das modéstias.

E como o apraz estar aí, no centro. Adora pôr o círculo a rodar na velocidade das graças alcançadas. Pela vaidade atendida, muito sua, remedia-se dos desgostos do mundo.

Precisa de paz, ou a gastrite aperta. Bebe da vida o néctar do mel, ou o assombram os contrapontos. Antenado, capta notas do convívio pra compor turbilhões perigosíssimos; e para salvar do naufrágio, tem boias e coletes. Cativa aplausos. Ao fim, convence seu público com a segurança dos profetas: o tempo não para. A audiência anui: o tempo a tudo cura.

Assim, curados e curandeiro tomam chá, dão-se com biscoitos e polvilhos. Pois o momento, essa arapuca às jubartes desorientadas, leva pelas barbatanas desgarradas às areias surdas ao vento.

Caraca!

No palco, e sua mente de prima-dona arranja presto os sustenidos e bemóis, certifica-se atônito a entregar louros estúpidos a um outrem cuja luz de novato ofusca só porque anda exibida.

Como podem aclamar quem arrebata a ribalta alheia?

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 10 de setembro de 2020.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Sexta básica

 

Sexta básica

 

Seria um dia muito especial, diferente dos outros que tivera até ali, mas não veio a sê-lo em nada raro ou inesquecível. Tão comum, bem arroz com feijão mesmo. Uma sexta como outra qualquer. Sem correr tomar chope no shopping e sem ir deliciar-se com uma pizza a duas quadras de casa. Em sendo o sexto dia depois de outros cinco todos iguais entre si, acordara clamando experimentar a fartura de delícias, sonhos tornados realidade num piscar de olhos. Contudo, as quintas partes prevaleceram sobre a sexta, decepcionando, postergando que viesse o desigual no sábado, a sétima fração que viria inédita, com a sensação do nunca antes vivido na história desta pessoa. Fosse, que a antevéspera do domingo, então, rompesse o cerco da normalidade e retirasse da cesta o básico de sua mediocridade, daquela mediania ordinária, do igual ao semelhante.

Pagar o preço da sexta básica do caramba?

Queria cair fora do coro do banal contente consigo próprio. Queria o tom fora da chave. Queria a dissonância criativa. Não iria querer um negócio reprodutivo como aquele: mais do mesmo, mesmo.

Desejando o desafino da esperança.

Isso! Entre o esperançado e o esperançoso; entre o desafinado e o desafinando; alcançaria o microtom que afinasse o intervalo da nota vinda e a que virá. Pelo diferencial. Pela beleza que foge ao lógico da coisa harmônica, mas se faz estável o quanto pode.

Estabelecendo-se como estabelecido, no ponto intermédio entre o iminente e o evidente. Aristotelicamente compreensível no equilíbrio, a meio caminho, entre extremos. Penso o meio conforme o proposto pelo grego em Ética a Nicômaco. A temperança como virtude, desde que moderadamente tensa.

Quero ir pelo sensato, e mensuravelmente outro.

Que me seja possível ir, prosseguir, perseverar. Indo sem desistir, apesar de mim, que muito me aborreço, me distraio, me deixo perder no fastio, na prostração, no pusilânime da frustração.

Que me faça acontecer, que consiga dar-me ao provável a que me julgo destinável. O destino que se faz destinando-se a ir, soando ativo o som a guiar, a tonalidade a orientar, a tônica a modular.

Tal processo, qual possesso.

O ouvinte na posse do sentido que percebe o que ouve. O audível a refinar a ação em plena ação. O agente consciente que faz da ação uma reflexão do ato de agir. Passivo na atividade da concepção de si, no ato de estar a vir. Ainda que se atenha previsível como um projeto ─ com planejamento anterior e avaliação posterior. Como a vinda que está por vir já vindo. Os sentidos dão sentido.

Se sei de mim pelo que sinto?

A espera que se faz esperança faz o agente da mudança fazer-se. Agindo, sofro a ação enquanto ajo. Embora o mesmo, outro.

Fraco de sorte, forte de palco...

Cantando, faço soar um quê de Ariano Suassuna com um quê de Paulo Freire. Manifesto ser esperançoso esperançando.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 08 de setembro de 2020.

domingo, 6 de setembro de 2020

A retomada

 

A retomada

 

Acordar sem despertador; tomar café ainda quente; trabalhar com ânimo ─ sabe-se o quanto este processo dignifica. Portanto, não seja negada a satisfação de revelar alívio ao ter de volta a normalidade.

Dito isso, a alegria de admiti-lo em público que o normal do mundo está em casa outra vez, que a hora dite os seus problemas. Quê?

Guardiões de ramela saúdam o carioca das caspas ─ noticiam.

Ocorre de pronto: quanto custa uma decepção?

Com os abatimentos do desdém, as tristezas da vida têm recorrido à peçonha que as adensa. Surdo ao próprio discurso, o desalentado ofendido faz por ídolo o pastiche de fala cristalina, em fundamentos e palavras. Dando a entender que há acasos benéficos e há saudades reconfortantes. Ideia construída com palavras ajuntadas, afins e aptas à toada que, com ar de espontâneo, mais entristece.

Que cantam os macambúzios?

Café com açúcar reconforta. Sentimental, a lágrima furtiva rola.

O coração tem rejuvenescimentos quando apaixonado, ou tocado pelo som de promessas que nunca serão executadas ou movido pelo otimismo de uma composição transformadora que mereça repetições, portanto comete o devaneio da esperança.

Intensa, embora breve; modorrenta, embora pulsante.

O tempo reage a expectativas.

Mesmo que se aja com elegância: negocia-se valsa com minueto; barganha-se o candelabro com o castiço das iluminações. Para que a luz ganhe em nobreza, projeta-se mundaréu a pobreza.

A parcela da parte liberta a unidade do uno.

Ao fim e ao cabo, se ainda há esperança, eclode a dor; e aviltada, torna-se desespero ─ cujas duração e intensidade são maiores que o desejo. O aquando das primícias: pra já!

E ter a saúde mental comprometida, afinal, para que o sofrimento tenha a acuidade do incontestável, desenganos devem acutilar.

Assim, à câmera, sorria. Isso, siga sorrindo.

Para que a ilusão predomine, a punhalada mais doída não sangra. A lâmina fere alguma derme suscetível a tormentos, no cérebro.

A eletricidade despertada pelas emoções, que afetam a percepção do sentido, altera a pessoa pelo humor. Trema por distração. Deixe a abnegação sonhar o que retorna. Com placidez, conviva.

Sim. Melancolicamente, a vida falha.

Veja (sempre se há de precisar insistir nisso) somente o seu lado, do coração partido a caminho da restauração. Então: presuma, peça, cobre, dobre os joelhos, oriente a respiração.

A dor humaniza; modesto, não abuse.

Sofra convicto. Não deixe morrer o grão do espetáculo decorado. Teste positivo para o melodramático do corpo, tão misericordioso em teatralidade. Ansiando outros gregários, aconteça.

Sério, prefira arrependimentos a vacinas.

Sem banalidades que a alimentem, a retomada empaca. Quem dá trela a digressões políticas perde a cerveja à mão e coraçõezinhos no espeto.

Há tanta realidade pela frente.

Viva!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 06 de setembro de 2020.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Olho por olho

 

Olho por olho

 

Pornográfico! Está na cara.

Presumindo que, em algum lugar menos raso que minha cachola, haja uma explicação simples pros tumultos morais que muito têm me aturdido ultimamente. Entretanto, por mais fácil e bem simplório, jogo no colo da pandemia a insensatez que me ouriça.

Que o faça com arroubos pudicos...

Por estar sob os efeitos desse mantra narcótico: cercado de zeros, uma nulidade ganha o centro do desprezo. Por deslealdade a quem me conduz à aliança de bem-estar e paz de espírito.

Desancora-se o barco.

À deriva das verdades da TV, brota em mim um quarto lacrado, de sondagem complicada, em cujo solo encoberto por imagens incertas germinam obscuridades de náufrago.

Sofro, consigo respirar.

Imprescindível, ao explícito da configuração, da névoa à sombra, a luz do sol vencer a janela cerrada, ultrapassar a moldura das cortinas sobrepostas, sair pelo fundo daquele olho.

Seria pela barragem do olhar do mundo exterior que a vida sorriria sua normalidade torta. Conquanto fosse prosaica, com os avatares de heroísmos canhestros a arrastar os pedestais pelas calçadas já muito atormentadas.

Convidado de pedra? De perturbações físico-químicas.

Com previsibilidade, havia dias os fatos emocionavam, ungidos de contradições atordoantes, eivados de deslumbramentos.

Abria-se, ainda que lhes faltasse a compreensão do absurdo, uma realidade domesticada por afazeres boçais e rotinas imbecis.

Tem algo errado.

Então, de vez que se diga, fingia-se o bem composto.

Nauseabunda composição que notícias detalhavam com tão fúteis pormenores. Aninhando-se na praça os bancos, as pombas e idosos a dar de comer às preguiças de pálpebras cediças.

Mas, a vida como ela é dispensa comunismos sem classe.

Cresça a cortiça. Tape-se o mortiço.

O que fisga a mediocridade do idiota?

Apregoa-se: democrática, a voz que opine pelo aprovado; popular, o tom a ecoar o refinado; autêntico, o canto que não muda nada.

A quem rico, o desfrute; ao contrário, o acinte. Besteira, e besteira pega fácil no chão dos ignorantes. Já não angustia quem argumenta. Não é a fome, é a cunhada. Choram professorinhas humilhadas, com alunos batucando seus fantasmas.

Querendo ver-se alegre, não dorme. Pede por outra sorte, menos indigesta. Tenha braços, deseje beijos, permita entalhar os corações esperançados.

No reino dos homens, o banal corre perigo.

As retinas cobertas pelo ordinário. A gramática do horror na linha dos olhos. A agulha oscila. A fortuna vai atraindo cardumes. As redes esgotam pargos. Embora imersa no sal, a carne apodrece. Pensa no marujo vomitando no convés. Renega-se tanto, que exagera. Navega melhor o marinheiro que delega norte aos ventos da própria ventura. Confuso, quer-se amarrado ao mastro. Neblina que saliva, afoga-se.

À flor do abismo, tão só, o obsessivo ri.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 03 de setembro de 2020.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A par dos fatos

 

A par dos fatos

 

Domingo.

Sensível. Uma sensibilidade tal a pedir que lhe seja dada a virtude de explorar-se. Mesmo que mais confunda. Que nem gente roncando sob o ipê, frondosamente azul. Vencido o inverno, faz primavera além do calendário. A matéria respira, e a artéria encavala. Desespera-se o cão com tantos cinismos. Há abismos rosnando caninos. Tanto teme o tempo que se liberta. Libertado, liberta ─ não quando quer, quando ama. Amor é vírus que fortalece quem ama. Drummondiando, em sol maior, a pele geme: “amar se aprende amando”.

 

Segunda-feira.

Por pouco entender de economia, fazendo a ressalva de chamá-la prospectiva, com um quê de sabedoria em construção, com fortíssimo viés de verdade alternativa, sem jurar sobre o leite desnatado, pondo render o que não acumula energia, estimula-se a emitir a sua opinião: “a conselho dado não se arregacem os dentes”.

 

Terça-feira.

Com o mundo de cabeça para baixo: furar o teto não leva à China nem lava a criança na bacia das almas. Nesta canoa furada, fanáticos pregam sua matilha de terror. Lobos de lodo enfrentam moinhos com flores de lama. Uivam: “só valentes combalentes caem de pé”.

 

Quarta-feira.

Como o medo manda recado pelo desejo que me descontrola, dou um tempo. Paro na pista. Ouço o vento, especulo estrelas. Entendo o que quero como quem compreende. Há em mim um outro, esse um. Para endossar o caldo, esboço: “nem toda rã come sapo”.


Quinta-feira.

Por um mundo melhor, o honesto labuta: de sol a sol, de grão em grão ─ até que a morte o separe dos seus. No melhor dos mundos, o safado matuta: de lábia em lábia, de cabo a rabo ─ até que a sorte o separe dos seus. Como o mundo é girassol em céu nublado, o pacato capota, entrega os pontos, rói certo o osso torto de roer ─ nem vê que o norte guarda o que o separa, no sul. Cá entre nós? Movido a álcool, enche o tanque no bar da esquina. Lá entre eles? Destila ódio quem bebe fel. A temperatura sobe, a pressão varia; num pigarro, tudo?

Ê pindaíba: “espírito de porco encarna fácil em corpo mole”.

 

Sexta-feira.

Vida: dor que não cicatriza; exposto júbilo que cresce dentro. Que o sangue baile, o suor dê calafrios, a boca rodopie, os pés azedem.

Quando o frêmito arrepia mais do que um tenso tormento, há raios e trovões. No súbito do olho da cólera, o marasmo parece ignorar que qualquer “fogoso no gatilho torra logo o contracheque”.

 

Sábado.

Se não há céu todo azul nem há mar todo sal, a enseada da tarde que tanja seu alaúde. Nem mais nem menos. Já a cotovia? Ela cante, desencante: Todavia... Todavia... No verão da andarilha, a chuva vem de repente. Dona, cubra a tristeza com o lenço. Veja, toque, aprecie.

A beleza do bordado parece um nó cego na linha d’água?

Eu posso, ela possa. Eu passo, ela passa. Eu poço e ela poça. Eu moço e ela passa. Daí já é demais, feito negar de imediato que “ideia boa nem cócegas faz em cabeça oca”.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 01 de setembro de 2020.

domingo, 30 de agosto de 2020

Atento e forte

 Atento e forte

 

 Sentado; por volta das sete e meia. Tomando café; manhã de uma sexta-feira chocha. Com a mecânica dos gestos sem os prazeres do casual, não bastasse limitado pelo físico ao corporal, sujeitava-se ao mando que o medo inoculara na veia: melhor temer a ficar exposto ao vírus.

E veio, inesperada, uma visita.

Entrou pela janela e pousou na escova de dente pros rejuntes da bancada da pia. Inspecionou a lixeirinha. Experimentou o detergente. Foi-se.

Aquela estada despertou o sonso de sono: o pão acabou; o desejo de ir comprá-lo, intacto e estimulante, surgiu-lhe.

Com as ansiedades represadas numa rotina de pouca mobilidade, ir da porta da sala à da varanda, naquele apartamento do mundo que dava nos nervos. Sem dó os metros quadrados deprimiam o cotidiano ao diário fantasmagórico, de broto secando a clamar por oxigenação solar. Livrar-se, ir-se por um ar menos mofado, soltar-se a incertezas do riso, impulsionar-se a encantamentos do triste ─ bastaria sair.

Com o desconfiômetro correndo, moedas seriam necessárias.

Correu pegar o que tinha enfiado no bucho do primeiro porquinho, que era mesmo um cofrinho em formato de porco. Estilhaçou-o, e foi catando os dinheiros que empanturravam o barrigudinho. Tinha grana pro copão de guaraná, as fritas grandes, as esfihas de queijo e carne, pro sorvetinho também, óbvio.

E para comprar outros pares de meia? Sem problemas. O duende tem aprontado das suas, sumindo sempre com o pé esquerdo entre a cesta de roupa suja e o cordão do varal, talvez na lavagem. La plata pra tal negócio viria do bolso da jaqueta de couro, reserva estratégica a que recorria quando emergências pediam solução instantânea.

Lavou as mãos com a consciência adquirida no enfrentamento do coronavírus, afinal aquela peça de roupa precisava mesmo de tomar um banho de luz e vento desinfetantes.

Por fim, o cartão do banco.

De nenhuma maneira poderia deixar de pô-lo na carteira. Levaria para pagar o pão mais a compra da quinzena.

Tudo OK. Que alegria proteger nariz e boca com a máscara, a sua marca registrada ─ a amarelinha com três listras verdes.

Cumprido o roteiro, voltara. Contrariado, higienizava item por item. Com câimbras, forçou esticar a perna. Convicto de que precisava de potássio no sangue, devorou uma banana.

Tão certo de estar certo, não duvidava de si. Há muita coisa pouco trivial naquele cérebro de pensamentos aos borbotões.

Na chuveirada, ia emendando ideias. Precisava manter-se à tona no fluxo, sentia a adrenalina que o punha elétrico.

Tinha domínio sobre a razão de ser como era.

Todavia, na varanda do apê, queria aproveitar o solzinho do fim da manhã; acabou se irritando, é verdade, com alguns vizinhos do prédio da frente, que não paravam de gritar palavrões. Um baita vexame.

Resolveu entrar.

Ô cabeça!

Do pijama em cima da cama, esquecera-se.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 30 de agosto de 2020.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

De bão em bão

 

De bão em bão

 

Foi abrindo a janela sem a mão pesada da pressa, assobiando o batuque do bão do Vander Lee com a potência dos pulmões, acordou achando que o dia pedia o corpo da presença faceira. Assim, de peito aberto, olhos sorrindo e coração certo de si, alucinadamente lúcido, o “não sei quê” da vida dizia-lhe o “bom” que é estar vivo.

Sem dúvida, estava a fim de entender-se com o mundo.

Embora no todo haja mistérios que a própria razão ignore, seu dia pudesse ser menos caótico. Sorriria de volta, mesmo com as pessoas doidas por uma briga sem pé nem cabeça.

Deus desse o que Deus deu o que dois dá — fosse o mote.

Qual o subjetivo disso tudo? Ora essa, ele.

Afinal, era pessoa motivada, consciente o bastante para não errar o passo. Pro dia não morrer na praia do futuro natimorto, tinha outros planos. Abortaria a ideia de permitir descer redondo goela abaixo um barril de chope choco, um pratão de nhoque azedo. Queria pururuca o torresmo. Queria farra e forró; a outros, valsa e giga.

Um minuto.

Estaria gira? Com a ginga toda.

Queria continuar a “entrar bem” pra “sair melhor ainda”. Não que o mundo fosse um palco, a sua alma radiante estava iluminada desde dentro. As felicidades pipocavam à flor da ribalta, algumas vinham do baú. Nem precisava invocar o menino maravilhado com o universo ao seu redor. Estava lindo de viver, por isso vivenciava em plenitude a beleza de sentir-se “de bem” consigo.

Ao menos consigo mesmo, exalava um astral contagiante. Sentia a esperança que sossegava o facho. Com o fogo das cinzas fumando manso, percebia-se aceso... Serenidade gerando serenidade.

Acordara disposto.

Disposto a ignorar os pândegos da pandemia e os seus porretes, porres e urros. Não queria saber de erros e porradas. Queria mais era encher a cara de porradinha. E a parati viesse de alambique, melhor; de Campestre ou Salinas, muito melhor. O refri que viesse com gás, seria bom da conta. Desde que fosse soda. É claro, só uma soda boa pras porradinhas do balacobaco.

Contudo, pra balada não perder a meada, entrar na boiada errada, a dose do santo seria pela Amazônia em chamas, contra o extermínio dos nativos, pela caçada científica da lupa veraz dos satélites.

Com a mandioca assando, seu cuscuz primeiro? Louco pra impor o swing, pregar a vara em quem não queira? Assim, com aquela tara de dar tiro no rabo preso da falsidade alheia?

Isso é pagar de bandido com a pinta de mico amestrado por burro juramentado doutor.

Doutor em quê? Ninguém sabe; ninguém quer pôr o dedo nisso. É diploma adulterado. Se puseram cloro na coca, vai dar zica; enfiaram pimenta no loló da mosca morta, o quiproquó come solto; passaram o puro creme do milho num pão de leite, vá pro xilindró.

E pra esperança não ir pra cucuia, o jeito é tomar um ar, sentar na praça, ver a banda tocar dobrado e pegar leve.

Upa lelê!

Tem sonho que forra o panduio da cuca.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 27 de agosto de 2020.


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Cheia de graça

 

Cheia de graça

 

Ânimo, vem, aconchegue-se, já sirvo o café, corto pedaço de bolo, fique à vontade, ninguém morde, não precisa fazer gracinha nem ficar falando besteira só para agradar, tudo bem, o mundo anda esquisito, mas não seja rigorosa com as pessoas, todo mundo tem que correr, a vida pede, entenda, ninguém quer ficar pra trás, o mundo não vai ficar esperando quem perde tempo com bobagem, a gente faz bobagem, entendo, mas a luta pela vida é a guerra contra o relógio, e que bicho feroz que não para nem um segundo sequer, quando para é porque está quebrado, o desgraçado quebra na hora em que a gente precisa dele, daí perde a novela, esquece da vida, bate aquele desespero, os ponteiros voam, parecem enlouquecidos de propósito, a gente peleja contra o vento, estufa o peito, toma coragem pra dar jeito nas coisas, é de partir o coração, vem a dúvida de estar percebendo o momento de correr, a gente inventa de chegar na frente, querendo dar conta de socorrer antes que peçam, querendo antecipar a falta do pó de café, indo comprar papel higiênico, é de tirar o sono, mas é preciso manter o controle, ter calma, não agir com afobação, medindo a língua, tendo cuidado com as palavras, pois se tem uma coisa que irrita as pessoas é gente com opinião pra tudo, que vive dando palpite, sem perceber o quanto aborrece, coitada, parece uma torneira pingando, dá vontade de dar uma boa martelada na desgraçada, você para, fica olhando os pingos, a cama vazia, não forma poça alguma na pia, como está suja, você começa a limpar, com o sono soprando irritação das pálpebras aos dedos, passa a esponjinha, a gente esfrega, quando vê está no chão, correndo fazer o que poderia ser feito amanhã, chorando, tanta coisa mexe com a cabeça da pessoa, olhando o celular, caçando foto que nem está ali, talvez num daqueles álbuns pegando poeira entre a escritura do apartamento e a Bíblia que pertencera ao pai, o choro dá amargura à melancolia da madrugada, nem precisa negar que brota a vergonha esquisita de querer sumir, querer dormir umas horas, mas o fel do desassossego faz a pessoa desgostar da própria saliva, querer vomitar, como se não fosse do bem, só que não falta amor nem falta respeito, porém amando se aprende que o amor não ensina nada de véspera, quem tira lições de foto antiga está perdido, quer explicação pro caminho que trouxe pro abismo, caraca, esqueça o beijo que deu na pessoa que não merecia, enxugue estes olhos que se calaram na humilhação, não estrague mais o que já está ferrado, e isso derruba a gente, sofrimento contagia, feito dente que começa a doer assim que falam em dentista marcado, então, vem, sente junto, nem precisa me agradecer, coma o bolo antes que as formigas façam a festa, tome o café ainda quente, minha nossa, a gente segue em frente, vai nessa, indo sem saber muito bem... que presente bárbaro é a vida, né?

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 25 de agosto de 2020.

domingo, 23 de agosto de 2020

Uns amorecos

 

Uns amorecos

 

Quem dá ouvido ao que não é dito escuta o quê?

Talvez caiba a audácia de umas palavrinhas...

Há histórias que só o amor sabe de cor, e põe cartaz dizê-las sem tardar. Esta vivida por Songa Monga e Tíbio Pateta era magnífica em desencontros, recuos e noves fora; e amofinava quem tinha o azar do envolvimento, senão por terceiros, com intenções vagabundas.

Entrando de cabeça, punha-se em maus lençóis a pessoa que se interpusesse nos negócios dessas almas imbecis. Aberrações: torpes no mando; hediondas na saliva.

Tarde demais para tirar da boca a rabanada.

Envolvida em guerra alheia, sucumbia à estupidez e ao desatino; menos como público, mais como diretor a lutar por outra dramaturgia, a querer salvar do ridículo o que já vinha ao proscênio com as cartas marcadas pela arrogância desmiolada e pela vilania renitente.

E Songa Monga, nesta ocasião trazida à baila aqui, pedia um café sem o açúcar tão proeminente, porque seu paladar ofendia-se com o xaroposo. Usualmente comovente a basbaques, a quem sentado com ouvidos e olhos vidrados em alguma tela, fosse fixa ou móvel.

E Tíbio Pateta, a ele viera a luz de passar outro fio de água fervida naquele café já coado, mas a sua ideia, tirada ao propósito do veloz e do agrado imediato, desperdiçaria o patrimônio. Movido por agilidade janota em prol de ninguém, que Songa Monga cuspiu o lixo frio, com os seus furibundos naturais de desapreço, desgosto e esconjuros.

Belo par que a Arca não previra sequer premeditara, agora se vê o tanto de barro a correr pelas veias deste Novo Mundo.

Se parasse neste ponto, todavia, a nossa história ficaria entrevada no fundo da ostra. Mas o colo almeja outra pérola:

― Benzinho, tirei o doce com mais água. Experimente, coração.

― Mozinho, tá uma droga de ruim. Dê pra Fina Estampa, ela bebe que nem reclama, uma dengosa.

Fina Estampa, pela força do nome que tão bem a define, é a parte inocente, nada afetada, perigosa ou cruel. É a coda que encerra este causo pedindo a piedade das leitoras e leitores, gente feliz que sabe por A mais B como as artes e os jeitinhos de filhotinhos tão fofurentos pedem muxoxos e guti-gutis. De fato, a dálmata é gema malhada.

Uau! Outro exemplo a troco de nada.

Como assim, “nada”? Cadê a moral da história? O senhor precisa admitir: sem estátua, serve o poste; uma vez que é da natureza dos cães mijar gostoso. Nem pombas pra batizar o bronze eterno?

O moral capenga... Pelas tabelas... Indo pro beleléu...

Ai ai ai.

Diz o homem que não dorme faz três dias:

― Quando o Diabo veste Lúcifer, o farol regurgita escuridão.

Certa de si, outra pessoa sorri:

― Pra ouvir a voz do silenciado, escute bem a de quem o silencia.

De curta imaginação, alonga o douto a língua morta:

― Brigam os homens por maçã que não mordem.

Oxe.

Sem Noel que a traduza num maxixe porreta, a ideia biruta sopra ares de pensamento grego.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 23 de agosto de 2020.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Em trânsito

 

Em trânsito

 

Há corpos que não deslizam, seus pés ferem a terra...

Era um adepto da jornada dupla: do corpo no colchão quando falta o sono e da alma diante de disputas quaisquer. Dele se sabia pouco, que punha graça numas prédicas ouvidas na rua, ditas pelo lunático cujo cachorro que lhe seguia por entre as gentes tinha mais asseio e serena compostura.

De menor perturbação, com fundos de praticidade, de um alcance mundano, dizia o andarilho que, palmo a palmo, pé ante pé, a pessoa chega aonde quer.

E lá chegando?

Pra vitória na vida, não tinha o que recomendar. Pois desconhecia o sorriso dos satisfeitos, de quem tenha feito e obtido resposta para o que fez. Faltava-lhe quem a ele o sagrasse conselheiro, bom ou mau, a depender do fruto nos tratos com a vida.

Na troca de flores por abraços, entre enamorados. Nos fluidos que acalentam, nos beijos de parentes que se emocionam. Na alegria que rejuvenesce quem pouco se dá entregue a pensar na mortalidade.

Sobre o cão, algo podia ser dito.

Pela visível amorosidade, de uma compaixão irredutível, o bicho mais gentil, capaz de lamber as feridas nos calcanhares do estúpido que o chutara ainda há pouco. A flor humilde que se abre às abelhas, sem nutrir ambições de beleza e encantamentos românticos, ganindo às ferroadas.

De mais a mais, o chão da praça permanecia bruto, na indiferença material de seus átomos. Porém, era o concreto da pedra que testava no louco a sua perversidade.

Aos hipócritas, mantinha as pústulas purulentas, para angariar uns dinheiros e a piedade que mendigava remorsos.

Por cruel, aquele gesto estudado de se lamentar por ruídos, numa linguagem composta por correlatos frêmitos e convulsões.

De abominável, pessoa a sorrir com a faca entre os dentes, para o caso de ofender na carne quem o recriminasse as simulações e suas maldades.

Pois explora umas crianças, pondo-as nos sinaleiros da avenida a trabalhar por ele. Meninos e meninas a pedir, a jogar os malabares, a fomentar a fome que mesmo padeciam.

Foi quando, pelas razões que o próprio cão bem ignorava, o diabo em tela surgiu varrido para essa condição explicitamente geométrica, a de morto.

Encontraram-no despido, mãos amarradas às costas, suas feridas limpas e medicadas por unguentos alopáticos. Exibia na cara a face do medo, o patético rosto de quem reconhece o futuro findo no súbito de um disparo. À queima-roupa, no coração, sem os descuidos de um improviso ― a dar prova de homicídio.

Orientado pela própria sorte, o cachorro não ralenta a ausência. Nem quando se deita sobre o cheiro impregnado no piso. Sem medir os gestos, abana o rabo e levita sua infelicidade. E traz a máscara do dolente que não se vê preso à metafísica do compreensível, todavia a exala orgânica, de animal hormônico.

De intangível dos fatos?

A opacidade do espaço disponível a vestais e seus pedestais.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 20 de agosto de 2020.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Circo das Maravilhas

 

Circo das Maravilhas

 

Extra! Minhas senhoras e meus senhores, é sob violenta emoção que Maravilhas do Mundo Moderno, o programa do fim do mundo da gente boa que tanto o prestigia, tem o dever de vir a público anunciar outra de nossas costumeiras reportagens impolutas, coisa fina que só uma equipe generosamente afiada pela natureza está em condições de fazê-lo, e portanto, graciosamente com redobrado apreço, o faz.

Por aceitar pressão de todo lado, seja atmosférica, seja bariátrica, o nosso olho vivo no teatro dos acontecimentos, mesmo não sendo membro profissional da equipe regular de colaboradores, relata em primeira mão o que o faro, pestilento de omnívoro, devora com gosto: a realidade crua que anda uma arara pra não torrar de vez.

Realidade essa, enrugada pelo uso indiscriminado de panaceias a curto prazo, com pinta de ter por tara bem mais que as 520 toneladas regulamentadas pelas estatísticas do balanço, enfiada numa tromba impressionante, de quem suporta amigos à beça, que está a ponto de sair-se com “e essa agora, Nossa Senhora?”. Que nada lhe escapa.

Nadica?

Como fatos falam por si, contemos com eles.

Premido pelas circunstâncias, entrementes introduzido por um furo no teto, mesmo fechado no cubículo de transporte, correndo risco por estar sujeito a cancelamento, virtualmente empoderado, o delator não foge ao papel de informante.

Como subitamente bateu de frente com aquela bomba do tornado, vendo-se desviado do rumo certo, sofrendo por não ir aos campos de soja, trigo, arroz e feijão que florescem em banquete, descontente por não poder papar laranja no pé, irritadíssimo pela fumaça que, e não é de agora, tem o desprazer de tragar a seco, o gafanhoto logo pula:

― Aonde tá indo, dona Mara?

― Cuidar da vida, rapaz.

A um dedo da patada esmagadora, o barrado de Quaraí ousa:

― Numa hora dessas?

― Nunca tive espaço pra viver em paz, garoto.

― Entendo. Também passo um cortado com pesticida e má leitura das escrituras.

― Basta. A vida inteira tenho sofrido sob o chicote dos donos de circo, zoológico, e o diabo a quatro.

― Tá querendo vida mansa?

― Prometeram. E dizem que Rana me espera.

― Rana?

― É elefante da minha espécie, falaram.

― Com satélites bisbilhotando o tempo todo, a senhora não teme expor as suas naturalidades?

― Daora! Quero mais que abram o bico, curtam às pampas, vou brincar na lama. Pois espero que a turminha interesseira que roda a bolsa como bem quer, os superiores apaniguados no champanhe, os milhões de invisíveis pegos por aplicativo, os escondidos por habeas corpus, os morros modorrentos, mãos que talham o mamão, estátuas que desdenham da praça, falante sem lugar, vítima que se vitimiza, a testa que testa os testemunhos, o chapado que chupa chupeta, que o mundo corte na própria carne, pelo fiado verde.

Gente amiga! Chore sim... Tem amanhã acabando hoje.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 18 de agosto de 2020.

domingo, 16 de agosto de 2020

Estaca zero

 

Estaca zero

 

Na hora da verdade, a onça mija na água, o macaco não quebra o galho, o palhaço toca fogo no circo. Afinal, quando dois com dois dão vinte e dois, milagre de casa desfaz o santo. Sim, senhor, quando for chegado o momento de recontar as favas, o jeito será meter as mãos na cumbuca e gritar por quantos paus se vende canoa furada.

Convenhamos, também não era para tanto. Rasgou o papel. Seria o caso de subir do fundo da joça? Pôs no bilhete a sorte grande:

já volto, vou ali comprar cigarro.

Deve ser por causa desse negócio de ficar em casa com a patroa no cangote, mais a sogra reclamona; sem falar da filharada que Deus parece ter deixado à míngua.

A cabeça estava um balaio de gatos, cheio de ratos mortos. Fedia a rancor e exalava ódio; putrefata de tanto marcar passo na ladainha de sempre, no coro dos descontentes que reclamam de barriga vazia.

Como assim, não dá no couro? Sem almoço nem janta? Não pode o leite na madruga? Vai ter de cravar pino em vampiro?

Ô quiabo!

Tentar é humano, mas tentar duas vezes é perseverança. Já dizia vovó, que sabia da vida, da morte, e de tudo, mais um tanto.

Era o caso de pagar o cigarro e ir de volta.

Tinha aonde ir; fosse, então. Logo, da cachaça tomou a talagada.

Era o caso de rumar pra casa. Deitar a cabeça no ventre da noite, e transar com o medo todo.

Embora soubesse que procriaria monstros, copulou.

Caramba, não era dos filhos que tinha pavor. Ainda eram crianças. E não teriam a vida toda pra aprender que a vingança ferve o sangue; então, quanto mais alto o fogo, mais rápido a pururuca.

Teve sede, bebeu água. Da torneira.

Passava do meio-dia, voltou pra cama. Com fome, fumou de novo. O mata-rato pela metade, voltou pro bar; entornou lá uma maria-mole. Pagou caro por outra carteira. Não queria mas, sem dinheiro, voltou e foi lutar com suas vertigens. Farto do futuro, queimou tantas quimeras que correu vomitar a cólera e sangrar pela boca.

Se não, não. Nunca que podia dar o troco?

Aquilo ofendia um desassossego na gente. E nele doía mais, pela fome que se ria dele, no olhar dos filhos. Condoía-se, era um canalha condenado a dar as migalhas do pão que o diabo fingia render.

A estrada era songa, cabulosa, travada no fim da picada.

Se sabia, por que ia? Se sofria, por que seguia?

A dor era tanta, por isso fumava. O paredão, morro acima, aquilo é que punha abaixo a vontade de subir. Muito quisera, muito perdera.

Os pulmões cavernosos. Havia morte no pigarro.

Da vizinhança, que ouvia até pensamento, o eco vivia dizendo que os ventos da mudança não vão parar, nem pra pensar nem pra pôr a mão na consciência, vão tocando a viola, porque o ar em movimento roda uma pá de moinho.

Cadê o doce da cocada doce?

Tainha arregalada, com o teto na cara, tremendo, fisgado de modo torto, ainda que limão no ouvido ardesse o caramba:

ê trem danado, poeta meio louco, peço mais que o pouco.

É pra já? Pra 2022.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 16 de agosto de 2020.