Viola
ensolarada
Tocado pela vida, toca-a.
E percebe, deve estar ultrapassando
algum limite, o do bom-senso talvez, ao admitir que topa fazê-la soar de alguma
forma menos árida, de algum modo mais harmônica e de um jeito todo seu. Já intui
em si a mão dourada da fortuna a convertê-lo em ouro, e sorri.
E sente, está nele vivê-la ao vivo, em
carne viva, sem ensaio, no improviso da alegria e na satisfação do solo. E aberto
a duetos, trios, quartetos e, enfim, a uma orquestra inteira que venha portar-se
junto, incluindo-o. Toma parte no que toca, bem feliz.
E aprende o tom. Faz-se um instrumento
afinado. Busca o primor na execução e na audiência, a primazia da fruição. Pode
aplaudir-se, captando a melodia: passivamente ao acompanhá-la e ativamente ao
compô-la. Sua, que a apresenta da partitura ao diálogo.
Apreende horizontes enquanto respira.
Há decisões que o espelho cobra-lhe e,
entretanto, nem água lava ou torna mais leve. Há mensagens por demais
transformadoras que o abalam, obrigando-o a levantar o queixo, e encarar. Há
especulações inadiáveis, cujas premências definem outros rumos, e os acolhe
como norte, e pedem perspectivas diversas, e as vislumbra desintoxicantes.
Então, reconhece: há sombras que se
dissipam, voláteis; há rugas que se manifestam, maduras. Entre feroz e cordato,
há de viver sem usar os cacos para rejuvenescer ou mascarar-se ingênuo,
inocente, inconsciente. Mas sangrias entortam a vida, e cabe a ele vivenciá-las
iluminações rutilantes. Perde-se; acha-se. Por sujeição; por sugestão. Há
apuros que depuram. Há apupos que envaidecem.
E compreende o que entende, pois assume
o posto ao qual acorre quando possesso, distraído, tonto ou centrado, uma vez
que, se bem se mantém, a toda hora, a todo
momento.
Lá está o farol pulsando aquele eco de
luz que o arremata do mar de desespero no qual se vê abismado. A âncora da
realidade não o encontra morto nas certezas e petrificado na constância,
afogado nas tristezas que o acovardam.
Disparate: o alarme de emergência do
elevador está doidinho.
Embora vindo sem pedidos de socorro,
acolhe e deixa-se acolher. O aleatório acossa, incomoda, seja pela estridência
monstruosa, seja pela reprodução caótica; suscitando-lhe uma dependência
emocional, uma carência bioquímica, o aprendizado do imoral.
Astuto, filtra a sobriedade ao trocar sol
por dó...
Tanto age pra fora quanto reage por
dentro.
Como imbecil, rasga a pauta; fanfarrão,
coloca fogo na lira; burro, bate suas patas na terra em que circula, à beira d’água.
Se tem sede, não bebe. Com fome, não come. Dispensa a onda, e não surfa. A vez
não vem: tasca pressa, e mais acelera.
E
agora? Brigo comigo por que me desobrigo do futuro?
Bastante infeliz, abre os olhos,
escancara a janela. Escuta melhor: o tropel dos passarinhos ajuda a livrar do
cativeiro o amanhã.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 17 de setembro de
2020.