domingo, 13 de setembro de 2020

Um caso sério

 

Um caso sério

 

Protocolo: 064/6901690451-51.

Usufruindo das mais perfeitas condições de sanidade, portador de idade superior a 21 anos, residente e domiciliado nesta presente casa em que habito, divulgo o número acima para que a operadora da rede de internet não fique perdida ao me chamar de mentiroso, permito, de fato, o acesso ao conteúdo gravado para todos os indevidos afins.

Aqui, passo a transcrever o diálogo, ipsis litteris, conforme alguém relapso franqueou-me vítima do testemunho, logo a mim que estava apenas interessado em saber se havia problemas com a linha.

No momento da ligação, eis o que pude escutar de bico calado:

─ Tem neurose que dê sono?

─ Tenho.

─ Então, me veja duas.

─ Duas? O sono é um só.

─ Ando numa dureza pra pegar no sono.

─ Uma só já basta. Pode dar overdose.

─ Overdose é pros fracos. A minha insônia tem saúde de ferro.

─ Então, vai dar ferrugem. Meu dever é antecipar o perigo.

─ Abono de Natal é que vem antecipado.

─ Não, não. O que chega antes é quem vence.

─ Ao vencedor, o sofá. Eu sei, por isso preciso cochilar logo.

─ Depois, vem reclamar que dorme pouco. Custa dormir de olhos abertos? Por que não tenta puxar ronco de barriga cheia?

─ Depois do almoço, vou ao supermercado. Gasto menos, porque a cabeça precisa aprender a respeitar a listinha. Nada de correr, nada de comer arroz carunchado, pois ninguém merece.

─ Que chique pedir neurose pelo telefone, hein?

─ Chique uma ova.

─ Ah! O senhor vai abater as neuroses do imposto de renda...

─ Sabe, né? Como a carestia voltou a colocar as asinhas de fora, então, a gente tem é que se remediar com o que está à disposição. O leão ruge alto, mostra as garras, porém lambe, manso, de um jeitinho todo manhoso. Assusta quem não tem plano nem acesso à saúde de qualidade. Enfim, como a vida não está nada fácil, a gente precisa de comprovante, seja da terapia personalizada, seja da medicação vinda manipulada do exterior. Aliás, remédio em dólar custa uma fábula, daí a doença precisar de nome complicado e ser rara, raríssima. E tenho que pedir a nota fiscal do programa de código autêntico, com o selo original pago na fonte. Afinal, até o software deve ser caro, caríssimo.

─ Quer que mande por SMS ou pode ser por e-mail mesmo?

─ Depende.

─ Como assim? Depende do quê?

─ Tem angústia que desça fazendo estrago goela abaixo?

─ Oxe! O senhor vem com complicação atrás de outra, hein?

─ Pois é, menina. Além de neurótico, ando compulsivo, querendo achar angústia onde a curva molda o vento.

─ Ô diabo!

Notaram a gravidade do caso?

Em resumo...

O que pesquei da prosa alheia, cuspindo o fogo da farofa cheinha de paio avivado por cominho macerado por indicador e polegar, mais a pimenta dedo-de-moça colhida de noitinha na horta da vizinha, foi o luar de quê, mesmo?

Ora, neste pirão gorado, o acontecimento em tela delata:

─ Quem entornou a papa não foi o freguês.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de setembro de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário