Um
caso sério
Protocolo: 064/6901690451-51.
Usufruindo das mais perfeitas
condições de sanidade, portador de idade superior a 21 anos, residente e
domiciliado nesta presente casa em que habito, divulgo o número acima para que
a operadora da rede de internet não fique perdida ao me chamar de mentiroso, permito,
de fato, o acesso ao conteúdo gravado para todos os indevidos afins.
Aqui, passo a transcrever o diálogo, ipsis litteris, conforme alguém relapso franqueou-me
vítima do testemunho, logo a mim que estava apenas interessado em saber se
havia problemas com a linha.
No momento da ligação, eis o que pude escutar
de bico calado:
─ Tem neurose que dê sono?
─ Tenho.
─ Então, me veja duas.
─ Duas? O sono é um só.
─ Ando numa dureza pra pegar no sono.
─ Uma só já basta. Pode dar overdose.
─ Overdose é pros fracos. A minha insônia
tem saúde de ferro.
─ Então, vai dar ferrugem. Meu dever é
antecipar o perigo.
─ Abono de Natal é que vem antecipado.
─ Não, não. O que chega antes é quem
vence.
─ Ao vencedor, o sofá. Eu sei, por
isso preciso cochilar logo.
─ Depois, vem reclamar que dorme
pouco. Custa dormir de olhos abertos? Por que não tenta puxar ronco de barriga
cheia?
─ Depois do almoço, vou ao
supermercado. Gasto menos, porque a cabeça precisa aprender a respeitar a
listinha. Nada de correr, nada de comer arroz carunchado, pois ninguém merece.
─ Que chique pedir neurose pelo
telefone, hein?
─ Chique uma ova.
─ Ah! O senhor vai abater as neuroses do
imposto de renda...
─ Sabe, né? Como a carestia voltou a colocar
as asinhas de fora, então, a gente tem é que se remediar com o que está à
disposição. O leão ruge alto, mostra as garras, porém lambe, manso, de um
jeitinho todo manhoso. Assusta quem não tem plano nem acesso à saúde de qualidade.
Enfim, como a vida não está nada fácil, a gente precisa de comprovante, seja da
terapia personalizada, seja da medicação vinda manipulada do exterior. Aliás, remédio
em dólar custa uma fábula, daí a doença precisar de nome complicado e ser rara,
raríssima. E tenho que pedir a nota fiscal do programa de código autêntico, com
o selo original pago na fonte. Afinal, até o software deve ser caro, caríssimo.
─ Quer que mande por SMS ou pode ser
por e-mail mesmo?
─ Depende.
─ Como assim? Depende do quê?
─ Tem angústia que desça fazendo
estrago goela abaixo?
─ Oxe! O senhor vem com complicação
atrás de outra, hein?
─ Pois é, menina. Além de neurótico,
ando compulsivo, querendo achar angústia onde a curva molda o vento.
─ Ô diabo!
Notaram a gravidade do caso?
Em resumo...
O que pesquei da prosa alheia, cuspindo
o fogo da farofa cheinha de paio avivado por cominho macerado por indicador e
polegar, mais a pimenta dedo-de-moça colhida de noitinha na horta da vizinha,
foi o luar de quê, mesmo?
Ora, neste pirão gorado, o
acontecimento em tela delata:
─ Quem entornou a papa não foi o
freguês.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 13 de setembro de
2020.
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