terça-feira, 15 de setembro de 2020

Passos da estrada

 

Passos da estrada

 

Isso é ridículo, eu sei.

Mas, digamos que você não tenha dado a devida atenção, como quem chupa uma bala grudenta, talvez uma toffee que toma os vãos todos dos dentes, com artimanhas de felicidade acelerada, só que vai indo contra si, contra o prazer do desfrute, daí vem este resultado que derruba o entusiasmo, numa frustração bem irritante.

Isso é constrangedor, eu sei.

No entanto, se você pensasse com um pouco mais de parcimônia, como quem ao vir um uniforme não divise a violência nem o risco de morte, enxergaria nitidamente a ordem seguindo um poder natural, de atendimento às suas, que também são as suas, regras e atribuições ─ de manutenção sanitária, gestão administrativa, vigilância social.

Isso é assustador, eu sei.

Todavia, será possível que você possa um dia entender o quanto o mundo tem vida própria, como quem dispensa os motivos de uma pedra afundar na água, mesmo que o copo seja pequenino, com uma diminuta profundidade; mesmo que o aquário esteja turvo, com baixa oxigenação; mesmo que o rio passe pesado, barrento, com horrenda exposição de cadáveres, desde uns galhos ressequidos às cadeiras berrantes de plástico; pouco importa o quanto haja de vontade de não ir pelos caminhos de sempre, ainda vai.

Isso é coisa que não se diz nem mesmo em público, eu sei.

Contudo, os galos ainda cantam, como quem abomina atrasos; os pardais seguem avançando a manhã, como quem lota trens e ônibus; as margaridas labutam sem trégua, como quem recolhe das calçadas o que, sem piedade nem misericórdia, os toscos teimam em vomitar diuturnamente, para o delírio de tantas gentes.

Isso é nojento, eu sei.

Certo, nunca se deve duvidar da própria sorte, como quem dá por perdido o que sequer está em jogo ─ a plenitude do desejo, a audácia dos sonhadores que despertam por conta própria na hora certa; como quem colabora com o inimigo, movido menos pela vingança, na frieza calculista que deixa a sopa esfriar, mas por desânimo raquítico.

Isso é lamentável, eu sei.

Embora seja o que seja, é preciso abrir a janela antes de sair para o tempo; é recomendável destravar a porta para receber a dignidade dos visitantes que pedem água; é preferível ir com aqueles que não desistem de cantar; mesmo atravessando o coral, como quem tem a espinhela pensa, numa tensão de querer andar um passo à frente, só que redunda em curva, e vai, pensando conseguir um passo a mais, vai e, justamente quando nem espera, chega, está de novo às voltas da partida, como se em todo fim brotasse o começo.

Isso é política, eu sei.

Porém, peço que parem os arremessos de copo no rio que sopra sua canção de melodias conflitantes, que canta sua ode ao confronto, que ignora quem o observa, à margem de si, à parte da vida, mesmo no mundo, constrangido a negar-se como parte interessada naquilo.

Sabe-se bem que é de matar, essa tragédia.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 15 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

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