Passos
da estrada
Isso é ridículo, eu sei.
Mas, digamos que você não tenha dado a
devida atenção, como quem chupa uma bala grudenta, talvez uma toffee que toma os vãos todos dos dentes,
com artimanhas de felicidade acelerada, só que vai indo contra si, contra o
prazer do desfrute, daí vem este resultado que derruba o entusiasmo, numa
frustração bem irritante.
Isso é constrangedor, eu sei.
No entanto, se você pensasse com um
pouco mais de parcimônia, como quem ao vir um uniforme não divise a violência
nem o risco de morte, enxergaria nitidamente a ordem seguindo um poder natural,
de atendimento às suas, que também são as suas, regras e atribuições ─ de
manutenção sanitária, gestão administrativa, vigilância social.
Isso é assustador, eu sei.
Todavia, será possível que você possa
um dia entender o quanto o mundo tem vida própria, como quem dispensa os
motivos de uma pedra afundar na água, mesmo que o copo seja pequenino, com uma diminuta
profundidade; mesmo que o aquário esteja turvo, com baixa oxigenação; mesmo que
o rio passe pesado, barrento, com horrenda exposição de cadáveres, desde uns galhos
ressequidos às cadeiras berrantes de plástico; pouco importa o quanto haja de
vontade de não ir pelos caminhos de sempre, ainda vai.
Isso é coisa que não se diz nem mesmo em
público, eu sei.
Contudo, os galos ainda cantam, como
quem abomina atrasos; os pardais seguem avançando a manhã, como quem lota trens
e ônibus; as margaridas labutam sem trégua, como quem recolhe das calçadas o
que, sem piedade nem misericórdia, os toscos teimam em vomitar diuturnamente, para
o delírio de tantas gentes.
Isso é nojento, eu sei.
Certo, nunca se deve duvidar da
própria sorte, como quem dá por perdido o que sequer está em jogo ─ a plenitude
do desejo, a audácia dos sonhadores que despertam por conta própria na hora
certa; como quem colabora com o inimigo, movido menos pela vingança, na frieza
calculista que deixa a sopa esfriar, mas por desânimo raquítico.
Isso é lamentável, eu sei.
Embora seja o que seja, é preciso
abrir a janela antes de sair para o tempo; é recomendável destravar a porta
para receber a dignidade dos visitantes que pedem água; é preferível ir com
aqueles que não desistem de cantar; mesmo atravessando o coral, como quem tem a
espinhela pensa, numa tensão de querer andar um passo à frente, só que redunda
em curva, e vai, pensando conseguir um passo a mais, vai e, justamente quando nem
espera, chega, está de novo às voltas da partida, como se em todo fim brotasse o
começo.
Isso é política, eu sei.
Porém, peço que parem os arremessos de
copo no rio que sopra sua canção de melodias conflitantes, que canta sua ode ao
confronto, que ignora quem o observa, à margem de si, à parte da vida, mesmo no
mundo, constrangido a negar-se como parte interessada naquilo.
Sabe-se bem que é de matar, essa
tragédia.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 15 de setembro de
2020.
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