quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Viola ensolarada

 

Viola ensolarada

 

Tocado pela vida, toca-a.

E percebe, deve estar ultrapassando algum limite, o do bom-senso talvez, ao admitir que topa fazê-la soar de alguma forma menos árida, de algum modo mais harmônica e de um jeito todo seu. Já intui em si a mão dourada da fortuna a convertê-lo em ouro, e sorri.

E sente, está nele vivê-la ao vivo, em carne viva, sem ensaio, no improviso da alegria e na satisfação do solo. E aberto a duetos, trios, quartetos e, enfim, a uma orquestra inteira que venha portar-se junto, incluindo-o. Toma parte no que toca, bem feliz.

E aprende o tom. Faz-se um instrumento afinado. Busca o primor na execução e na audiência, a primazia da fruição. Pode aplaudir-se, captando a melodia: passivamente ao acompanhá-la e ativamente ao compô-la. Sua, que a apresenta da partitura ao diálogo.

Apreende horizontes enquanto respira.

Há decisões que o espelho cobra-lhe e, entretanto, nem água lava ou torna mais leve. Há mensagens por demais transformadoras que o abalam, obrigando-o a levantar o queixo, e encarar. Há especulações inadiáveis, cujas premências definem outros rumos, e os acolhe como norte, e pedem perspectivas diversas, e as vislumbra desintoxicantes.

Então, reconhece: há sombras que se dissipam, voláteis; há rugas que se manifestam, maduras. Entre feroz e cordato, há de viver sem usar os cacos para rejuvenescer ou mascarar-se ingênuo, inocente, inconsciente. Mas sangrias entortam a vida, e cabe a ele vivenciá-las iluminações rutilantes. Perde-se; acha-se. Por sujeição; por sugestão. Há apuros que depuram. Há apupos que envaidecem.

E compreende o que entende, pois assume o posto ao qual acorre quando possesso, distraído, tonto ou centrado, uma vez que, se bem se mantém, a toda hora, a todo momento.

Lá está o farol pulsando aquele eco de luz que o arremata do mar de desespero no qual se vê abismado. A âncora da realidade não o encontra morto nas certezas e petrificado na constância, afogado nas tristezas que o acovardam.

Disparate: o alarme de emergência do elevador está doidinho.

Embora vindo sem pedidos de socorro, acolhe e deixa-se acolher. O aleatório acossa, incomoda, seja pela estridência monstruosa, seja pela reprodução caótica; suscitando-lhe uma dependência emocional, uma carência bioquímica, o aprendizado do imoral.

Astuto, filtra a sobriedade ao trocar sol por dó...

Tanto age pra fora quanto reage por dentro.

Como imbecil, rasga a pauta; fanfarrão, coloca fogo na lira; burro, bate suas patas na terra em que circula, à beira d’água. Se tem sede, não bebe. Com fome, não come. Dispensa a onda, e não surfa. A vez não vem: tasca pressa, e mais acelera.

E agora? Brigo comigo por que me desobrigo do futuro?

Bastante infeliz, abre os olhos, escancara a janela. Escuta melhor: o tropel dos passarinhos ajuda a livrar do cativeiro o amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 17 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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