A
retomada
Acordar sem despertador; tomar café
ainda quente; trabalhar com ânimo ─ sabe-se o quanto este processo dignifica. Portanto,
não seja negada a satisfação de revelar alívio ao ter de volta a normalidade.
Dito isso, a alegria de admiti-lo em
público que o normal do mundo está em casa outra vez, que a hora dite os seus
problemas. Quê?
Guardiões de ramela saúdam o carioca das
caspas ─ noticiam.
Ocorre de pronto: quanto custa uma
decepção?
Com os abatimentos do desdém, as
tristezas da vida têm recorrido à peçonha que as adensa. Surdo ao próprio
discurso, o desalentado ofendido faz por ídolo o pastiche de fala cristalina, em
fundamentos e palavras. Dando a entender que há acasos benéficos e há saudades
reconfortantes. Ideia construída com palavras ajuntadas, afins e aptas à toada
que, com ar de espontâneo, mais entristece.
Que cantam os macambúzios?
Café com açúcar reconforta. Sentimental,
a lágrima furtiva rola.
O coração tem rejuvenescimentos quando
apaixonado, ou tocado pelo som de promessas que nunca serão executadas ou
movido pelo otimismo de uma composição transformadora que mereça repetições, portanto
comete o devaneio da esperança.
Intensa, embora breve; modorrenta,
embora pulsante.
O tempo reage a expectativas.
Mesmo que se aja com elegância: negocia-se
valsa com minueto; barganha-se o candelabro com o castiço das iluminações. Para
que a luz ganhe em nobreza, projeta-se mundaréu a pobreza.
A parcela da parte liberta a unidade
do uno.
Ao fim e ao cabo, se ainda há
esperança, eclode a dor; e aviltada, torna-se desespero ─ cujas duração e
intensidade são maiores que o desejo. O aquando das primícias: pra já!
E ter a saúde mental comprometida,
afinal, para que o sofrimento tenha a acuidade do incontestável, desenganos devem
acutilar.
Assim, à câmera, sorria. Isso, siga
sorrindo.
Para que a ilusão predomine, a
punhalada mais doída não sangra. A lâmina fere alguma derme suscetível a
tormentos, no cérebro.
A eletricidade despertada pelas
emoções, que afetam a percepção do sentido, altera a pessoa pelo humor. Trema
por distração. Deixe a abnegação sonhar o que retorna. Com placidez, conviva.
Sim. Melancolicamente, a vida falha.
Veja (sempre se há de precisar insistir
nisso) somente o seu lado, do coração partido a caminho da restauração. Então: presuma,
peça, cobre, dobre os joelhos, oriente a respiração.
A dor humaniza; modesto, não abuse.
Sofra convicto. Não deixe morrer o
grão do espetáculo decorado. Teste positivo para o melodramático do corpo, tão misericordioso
em teatralidade. Ansiando outros gregários, aconteça.
Sério, prefira arrependimentos a
vacinas.
Sem banalidades que a alimentem, a
retomada empaca. Quem dá trela a digressões políticas perde a cerveja à mão e coraçõezinhos
no espeto.
Há tanta realidade pela frente.
Viva!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 06 de setembro de
2020.