Hora
da faxina
Comecemos pelo homem de quatro,
entregue à banalíssima tarefa de esfregar o chão que fica debaixo do fogão. Como
cozinhar com os fogareiros imundos, gordurosos, repugnantes?
Dispensemos acompanhá-lo.
Entremos pela imagem bucólica,
nostálgica, amorosamente pueril: a criança petrificada pela câmera, que o
fotógrafo das muitas famílias ibiunenses mantinha a postos: por tripé
profissional, lente correta e a luz alfabetizada pelos dois guarda-chuvas
pintados de prata.
Reparemos na postura do menino.
Com o cabelinho escorrido da esquerda
para a direita; com os pés no ar, porque o corpo está apoiado numa trave de
madeira, como se o objeto replicasse os bancos de igreja.
Para que sujar a calça de tergal
naquela pose, não fora o bastante ter obedecido ao senta-levanta da missa dominical?
Admitamos, todavia: há semelhança com
um confessionário. Com o padre para lá da treliça, e o pecador a elencar, de
joelhos, as ações vexatórias, deveras merecedoras de divinas correções.
Uma vez que o preto e o branco do
registro não escondem os idos de 1974, ano da primeira comunhão do referido
pirralho, realcemos o terço envolvendo o livrinho a catequizá-lo para as
castidades futuras, conforme às boas-novas da performance do padrão.
Se houvesse aprendido que o probo não
peca, diríamos mínima a probabilidade de ato tão infame posto em outra foto da
personagem enfocada: novamente ajoelhada, a perpetrar aquele sorrisão de quem
gargalha, blasfema, em desrespeito que dá engulhos só de admiti-lo, já passados
doze anos, tempo da maturação de um Chivas original.
Enfatizaríamos que a dita cuja pessoa andava
abjurada por Minas, nalguma igreja histórica, diabolicamente nada contrita, como
a dizer a quem pesque sua mensagem: sei
bem com quantos escravos o ouro rococó mantém-se de pé para embasbacar os fariseus.
Aviso: o narrador dá fé que não
subscreve tal pensamento.
Continuemos, portanto.
Havemos de concluir o passeio por umas
fotos retiradas ao museu do tempo com o acaso do flagrante capturado, em junho
de 2020, por Nuno Ferreira Santos, jornalista do Público, o qual dá-nos a ler
que: a estampa ostenta o vigário que empunha a Cruz-sem-Cristo mais três
curumins: um, em pé, junto à perna direita; outro, igualmente em pé, à esquerda;
o terceiro, o que motiva a pô-lo em palavras, o avesso ao paralelo da simetria ao
Vieira possesso, o rubro da pedra que acorda, o que bate no palco Trindade
Coelho, ele é.
À vista disso, imbuída de veementes aviões,
coléricos caminhões e amazônicos fogões, esta crônica denuncia que apenas aquecendo
a Terra para que leviatânicas águas recubram a Candelária do Rio.
Assim, faz-se escandaloso o adiamento
de mergulhar a escadaria ou haverá quem finque o pé em não reconhecer a beleza civilizatória,
turística e formosa de um coral, este bem natural.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de junho de 2020.