domingo, 14 de junho de 2020

Hora da faxina


Hora da faxina

Comecemos pelo homem de quatro, entregue à banalíssima tarefa de esfregar o chão que fica debaixo do fogão. Como cozinhar com os fogareiros imundos, gordurosos, repugnantes?
Dispensemos acompanhá-lo.
Entremos pela imagem bucólica, nostálgica, amorosamente pueril: a criança petrificada pela câmera, que o fotógrafo das muitas famílias ibiunenses mantinha a postos: por tripé profissional, lente correta e a luz alfabetizada pelos dois guarda-chuvas pintados de prata.
Reparemos na postura do menino.
Com o cabelinho escorrido da esquerda para a direita; com os pés no ar, porque o corpo está apoiado numa trave de madeira, como se o objeto replicasse os bancos de igreja.
Para que sujar a calça de tergal naquela pose, não fora o bastante ter obedecido ao senta-levanta da missa dominical?
Admitamos, todavia: há semelhança com um confessionário. Com o padre para lá da treliça, e o pecador a elencar, de joelhos, as ações vexatórias, deveras merecedoras de divinas correções.
Uma vez que o preto e o branco do registro não escondem os idos de 1974, ano da primeira comunhão do referido pirralho, realcemos o terço envolvendo o livrinho a catequizá-lo para as castidades futuras, conforme às boas-novas da performance do padrão.
Se houvesse aprendido que o probo não peca, diríamos mínima a probabilidade de ato tão infame posto em outra foto da personagem enfocada: novamente ajoelhada, a perpetrar aquele sorrisão de quem gargalha, blasfema, em desrespeito que dá engulhos só de admiti-lo, já passados doze anos, tempo da maturação de um Chivas original.
Enfatizaríamos que a dita cuja pessoa andava abjurada por Minas, nalguma igreja histórica, diabolicamente nada contrita, como a dizer a quem pesque sua mensagem: sei bem com quantos escravos o ouro rococó mantém-se de pé para embasbacar os fariseus.
Aviso: o narrador dá fé que não subscreve tal pensamento.
Continuemos, portanto.
Havemos de concluir o passeio por umas fotos retiradas ao museu do tempo com o acaso do flagrante capturado, em junho de 2020, por Nuno Ferreira Santos, jornalista do Público, o qual dá-nos a ler que: a estampa ostenta o vigário que empunha a Cruz-sem-Cristo mais três curumins: um, em pé, junto à perna direita; outro, igualmente em pé, à esquerda; o terceiro, o que motiva a pô-lo em palavras, o avesso ao paralelo da simetria ao Vieira possesso, o rubro da pedra que acorda, o que bate no palco Trindade Coelho, ele é.
À vista disso, imbuída de veementes aviões, coléricos caminhões e amazônicos fogões, esta crônica denuncia que apenas aquecendo a Terra para que leviatânicas águas recubram a Candelária do Rio.
Assim, faz-se escandaloso o adiamento de mergulhar a escadaria ou haverá quem finque o pé em não reconhecer a beleza civilizatória, turística formosa de um coral, este bem natural.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de junho de 2020.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ensaio ao vivo


Ensaio ao vivo

Quando o palco continua ocupado por uma noite que não acaba, o sonho pede outro fôlego.
As esferas do mundo vão girando à vontade, lá delas, cuja lógica foge ao entendimento da pessoa que observa a rua. Da sacada, onde se imagina protegido de febres, fezes e garras, dali o olhar insone, de escandalizada miopia, vê o imprevisível jorrar do nada. Fosse mesmo útil, pagaria pelo passível da obediência ao calendário que a folhinha mantém domesticada, iria dirigido pelo fluxo.
Por contaminação doentia, por conta desta planetária calamidade sanitária, vai a desconsiderar que portas servem a entradas e saídas. Se jura o que sabe, barganha o que pode; assim, com sua cidadania presa aos rodopios da vertigem, saca que tipo de franquia devota às agências, e pena.
Em outras palavras, o animal acuado padece de tanta angústia, do iminente adiado mais um tanto, da falta de ar que desespera. Afinal, o elástico, uma vez submetido ao ímpeto que o estressa na medida do suportável, desajusta-se, perde a plasticidade, acaba distendido.
Menos controlável, o vento não sopra. As águas do dia correm no meio-fio, movidas por regras desconhecidas, imemoriais, de origem caótica. Pouco compreensível com as leis da natureza, mostra-se.
Assim, de umbigo lavado, unhas cortadas, tomando ar, vendo sua rotina tomada de outras normalidades, a mente da pessoa precisa de um tempo. Nem que seja só por um segundo, uma coisinha besta que nem mosca percebe atraente, merecedora do azul de suas picadas.
A perda do equilíbrio entra pelo passivo de um incômodo maior do que o rendimento da esperança, aí, quando a memória destila algum sentido. É neste trecho, neste ponto em que o dinheiro: compra o que pode; venda o que deve; apaga o que tolera; ascende o que aceita; e o que oferece, segrega; o que precisa, segreda; o que toca, silencia. Há repasses que atormentam, alucinam, transfiguram.
Agastada, por haver-se no quinhão dos vencidos, busca saber-se: será cínica a pessoa que só admite a hipocrisia ao renegar os vícios enquanto os pratica?
O corpo que sente o senso está lembrado que a manhã de ontem teve outra levada. Tinha sol. As máquinas mudaram o chão com novo piso: asfaltaram-no, alisaram-no, compactaram-no.
No bemol da terça às três, dá tônica o sustenido.
Do outro lado da rua, na varanda com plantas e cadeira de praia, ali está o homem. Debruçado sobre o mundo, avesso a burburinhos, arrisca-se. E senhor de si, inspira pelo violão.
O mundo, o violão que não se escuta. A vida, o trânsito que ignora o olvido. A música, o coração aberto ao trágico. A dor, osso que tira o não do nylon.
E cá, serve-se o pinhão do café. À mesa, pai e mãe, avôs e avós, parentes de parte a parte, amigas, amigos. E há lugar a quem trouxe leite, açúcar e os analgésicos. Mortos, vivos e feridos.
Quando o instante inventa, soa feito agora.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2020.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Um autêntico cântico


Um autêntico cântico

Ora, quer maior prova de vida do que um grito?
Ora, como quem grita a toda hora perde audiência, é razoável ter cativos na plateia somente os imbecis, ou os péssimos de ouvido.
Ora, quem grita no momento oportuno cavalga bem o cavalo que o carrega. E quando observado de perto, exibindo a beleza dos seus músculos, trota; e farejando um obstáculo que exija cálculo, quando submetido a forças que o querem testar, salta; e campeia, entretanto, quando se vê nos prados selvagens das vontades muito aguçadas.
Ora, quando o ar pesa um bocado, os braços não podem entregar o osso, uma vez que é preciso levar o mundo nas costas.
Ora, o sacrifício pede uma mãozinha, pois, pelo pouco que sabem da faca e do fogo, o cordeiro, a cabra e a galinha não temem nada as manipulações dos adestrados com ar vidrado, de transtornado.
Ora, há pessoas que adaptam o ar que controlam, há quem possa adaptar-se ao ar que consome, e tem gente obrigada à adaptação ao ar que a aniquila.
Ora, honestamente, medo algum angustia, só padece quem sofre, diz a boca cheia de dentes, com o seu hálito de hortelã.
Ora, há quem diga que o circo precisa seguir funcionando a pleno vapor, que sobe do pântano, arde nas narinas e irrita os olhos, e que atordoa, desfalece e mata.
Ora, que se avente a hipótese de uma ideia vingar antes do parto, que a prática corte pela raiz o pensamento contrário aos fatos, que os eventos contem outra história, gentil a quem gargalha enquanto crava na caveira o punhal de destrezas, crenças e privilégios, feito regalo.
Ora, se for mesmo para abrir o jogo, que a verdade venha em uma bula, passe pela lupa dos prestidigitadores e converta infiéis e ímpios; embora os bobos, sempre eles, continuem a brincar com malabares, até que a boca ganhe uma nova costura, a mão nem precise mais de pinos e a grade enquadre o sol, instituindo o inferno aos condenados.
Ora, pra manter o prestígio de galo que faz a alvorada cantar a luz de sua glória esplendorosa, é preciso aquecer as cordas vocais com o ardor da iluminação tântrica de quem está a ponto de explodir.
Ora, como quem vive gritando fica sem voz, nesse ritmo em que a coisa toda está indo, vamos entrar bem antes da curva, precipitando a banguela do morro, uma vez que a subida anda puxada para quem tem dificuldades respiratórias desde o ventre.
Ora, enquanto for possível, melhor cuidar da garganta pra quando o instante decisivo vier, ou se ouvirá um miadinho trágico.
Ora, o ar envenenado que nos empesteia a todos, o ar viciado que nos confina entre os muros, o ar asfixiante que nos isola de nós, arf!, é melhor abrir janelas e buracos no paredão pra desfrutar da brisa do mar que ainda sopra.
Ora, como quem grita muito torra o saco, não falte entusiasmo pra não queimar o filme do grito neuroticamente assombroso.
Como gritar da sacada do apê parece coisa de criança, oremos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2020.

domingo, 7 de junho de 2020

Prova de vida


Prova de vida

Acordou como outra pessoa. Leve, sem a espinha cobrando uma postura mais educada. Marota, sorridente, desconfiando ter dado com o sentido da vida. Feito uma hortênsia a difundir o perfume peculiar, não de begônias ou madrepérolas. Afinal, cada planta tem tempo de sobra pra seguir curtindo a eternidade da sua condição.
A genética aclara muita coisa, menos a razão de não ter as raízes regadas. Certamente, um dromedário pode rodar um deserto bíblico, de oásis em oásis, sem afundar em duna fofa. Todavia, por natureza, hortênsias e camelos têm distintos encantos.
Conforme se vê, a tônica meio que confunde. E a realidade insiste com estripulias de circo, fumaças erráticas, pouco cômicas. E toda a encenação por causa das olheiras que sumiram.
Metendo fundo a pá, mexendo lá dentro, sobe o vento do susto.
De exuberância contente, de joão-de-barro que bagunça a aurora com a sua disposição de cantar além do poste, da serra do prédio em construção, da escavadeira que abocanha um naco da terra. Cheira o beija-flor esperto, e matraca.
Risonho corpo cúbico, de valorizada hipocrisia, pacífica, de rotina estruturada. Na cara, contudo, a cidadã politicamente brejeira. Natural que acordasse renovada, tão outra, uma vez que fica toda arrepiada só de negar que chegou a pensar em apresentar-se ausente às suas semelhantes, as que, da maneira que pode, opta por apoiar. Põe-se a ouvir as pessoas ajoelhadas e a escutá-las, comovidas.
Andarilha de apê, vai e vem, e acaba com tontura.
Fora as formigas assanhadas no sorvete derretido, tinha que se ver com aquele fogão imundo, a pia cheia de pratos, a frigideira com uma crosta de gordura do contrafilé. E passa um dedo, gosta do alho queimado, mesmo que venha junto a graxa passada, lambe; repete o processo, o muxoxo diz que aprecia.
De fato, preocupada em andar da porta do quarto até a da sala, da vista sobre a rua ao silêncio nas escadas, acha que o prédio anseia pelo desfecho, pela definição do imbróglio com o corona. E intui que parar levará à purga de perder o direito de manter os pés descalços, pois temerá pela saúde.
Mora num apartamento de paredes nuas, de um bege extenuado. Queria pintar de branco para viver num ambiente em que as energias positivas contrariassem a descarga com problema, vazando. Bastaria espalhar fotos, e adeus tristeza.
Muito espera quem descansa. Descansado permanece quem adia mais um pouco o que não quer fazer. Isso irrita. E se por acaso venha a precisar da energia gasta em apressar as coisas?
Sob o sino dos ventos, a um passo do quarto e da cozinha, senta. Pressente-se apta a cuidar. Nem que sofra. Nem que atordoe, estafe, destoe ― doa-se.
Repaginando-se, irrompendo das pátinas que a apatia impõe, raro mármore que respira, flor de ossos do deserto, comprovando que é o sonho que compõe acordada a Pessoa do Futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de junho de 2020.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

E sem mais delongas


E sem mais delongas

Compras da semana. Sim, o jeito é voltar ao esquema anterior aos dias de confinamento. Pois o período quinzenal acabou por mostrar a incapacidade de administrar a vida doméstica com a praticidade dos ajuizados. Teve desperdícios, de verduras murchas e frutas mofadas. Por imperícia na armazenagem.
A razão anda escalafobética.
Talvez outro travesseiro permita um sono menos frustrante. Que saudade das horas uniformemente percorridas. Sem exagero, faz jus a sete dias de cinco horas ininterruptas de sono por noite. A troca tem prioridade. Por um mais baixo, um propício ao racional.
Sim, é preciso entender que a falta de sono dá nós.
As confusões comem a manhã num piscar de pálpebras. Os olhos não piscam, lacrimejam. E uma vez ressecados, umedecem-se por si. Pode ser pela tela do telefone enfiada na cara. O nariz está normal, o ar fluindo para dentro. O problema está em ficar o tempo todo. Só não se sabe o quanto, pois não se cronometra a satisfação, desfruta-se.
Os nervos vão ao limite. A nuca anda dolorida, picota o sono. Pior quando acorda, vira ver o relógio, desliza pelo sofá quando lê jornais. A cabeça tenta acertar-se. Não caminha e não corre, voa. Haja goles de café. As pernas cruzam-se, descruzam-se. O gás acabou. A água faltou. Tem gente que não falta, e faz o gesto que acolhe. Da pessoa que menos se cobra, dela vem a amizade. O aliviado larga o celular; arruma o tal travesseiro. Soluciona, opta por minorar a dor.
Faz bem. Com o pensamento à deriva, o foco é não se afogar.
O coração no peito, protegido pela caixa torácica. Mas há choques que abalam tronco e membros, mais ainda a cabeça. A mente respira o mundo pelas retinas. A consciência nem saliva; os dentes trituram o misto frio. O cioso do corpo engole aquele almoço.
Inspira. A rede de neurônios sustenta a oxigenação da carne que tem fome. Havendo sopro, há fogo.
Serpejante, o tempo nutre-se do corpo. Que vai no embalo.
A rádio ambiente está de volta. Embalagens gritam as marcas de suas qualidades. Uma imagem vale pelo ícone que projeta. Se fosse a TV, bastaria um botão pra correr fantasmas, vampiros, pastéis pras trevas da origem. Ao distraído do mundo, exilado de si, o labirinto de simulacros opaca-lhe o cérebro. Bobeia um instante, pega o bacon.
Os carrinhos encontram-se. Por mímica, resolve-se. O medo torna estressante ir por entre as gôndolas. A ansiedade tira a paciência. A respiração vai a um grau de pouca tolerância. Saindo pelas narinas, o ar mais quente embaça os óculos. Sobe um tanto a máscara sobre o nariz. Tem a lista por fazer, perturba-se.
Hora de parar, pagar e ir-se.
O carrinho que impedia agora pede passagem. Tem a máscara na testa. O sorrisinho. Que vá. A admissão de alguma coisa.
Todo mundo dá muito o que pensar.
Mas: o que dizer a quem não compreende que há perguntas que começam pela resposta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2020.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciranda em tom menor


Ciranda em tom menor

Ficaríamos miseráveis invocando normas de segurança sanitária, justo com a jovem dos seus quinze anos com sua bebê de um aninho talvez. A filhota quer a mamãe pra si: joga um palito de batata frita no chão da lanchonete e ri. Como a travessa atira gostoso outros mais, divertindo-se a conquistar reprimendas tão fraternais.
Façamos a gentileza de mencionar o homem que finge observar a cena, mas seu olhar vê um nada daquele carinho todo. O senhor tem problemas, umas dívidas para consigo, tantas jornadas por cumprir. É sua a série de fracassos: no trabalho; no casamento; na cama que só atrapalha encaixar os números na planilha; no holerite minguado que dispara a psoríase pelas pernas conjugais. Deixemos que fale por ele o pedaço do beirute suspenso, entre o prato e a boca.
Focalizemos na garçonete que solta muxoxos. Ao que parece, são tantas as fotos que a cativam. Ajamos com probidade, ela realmente está radiante. Sim, quando o amor vigora, quando a pessoa ama, as razões pra dissabores continuam no lugar de sempre: ao alcance das lamúrias, disponível ao rancor que enruga a testa.
No entanto...
Em caso de pânico, escolhamos tomar do amor a dose certa.
Se não cura, alivia. Tornemos leve o coração que pulsa. O sorriso comprova o ponto de vista: o amor transforma o fraco em forte; o forte em pulsão; a pulsão em energia; tal energia que está tingida de loiro que a chapinha fez alisado, com as pontas azuladas que o boné não esconde. Assim, sigamos pela beleza que irradia algo de bom.
Boníssimo, enfatizemos a camaradagem. Torçamos pela faxineira, pela atendente que chama a faxineira, pela mãe que pede desculpas pela filhinha que pratica o amor como arremesso de batata.
Ah! A nossa confiança, a nossa fé, a nossa luz no fim do túnel.
Sim, admitamos: o vírus poderia ter derrubado quem passou pelos meses da travessia sem abraço ou precisou do consolo de uma noite de chá frio com biscoitos murchos. Mesmo ouvindo muitas decepções misturadas com superações, é recomendável portar-se com respeito. Toleremos os crocodilos que lamentam, mas estejamos do lado dos que guardam a decência dos tristes que puxam do fundo do peito um suspiro sofrido, profundamente doloroso, tão sufocante. E solidários, escutemos esse coração que bate, bate, bate, e vai batendo.
Vivamos. Convivamos.
Há pardais piando de fio em fio. Há vira-latas ladrando pros pneus que passam. Há tetras fazendo bolhas no aquário das salas escuras. Há ônibus em cujo ventre a mocidade cai no sono tão logo entra uma senhorinha com sacolas. Há um dentista limando a cárie do canino do porteiro que baba por gomas. E tem ainda a adolescente esgoelando no banho, certa de que seu entusiasmo entrará pelos fones do moço que rebola, bola, bola, ao ritmo do funk da poderosa viralizada.
Assim bailam as máscaras nas cirandas do ânimo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de junho de 2020.

domingo, 31 de maio de 2020

Peixe é


Peixe é

Trouxe a nova careca da cabeça velha quarar ao sol do meio-dia de maio, quando ali na esquina, no buraco drenado por uma trama de canos ligada ao motor ativo 24 horas, depara-se com aquilo.
Aquilo se mexe na água suja, amarronzada e lamacenta. Agita-se na poça, emporcalhando-se, sem nenhum sinal de que uma ajuda se faz precisa. O que se alegra no lodo da terra é um cão?
Leitor do mundo, já calculando as suposições que virão a seguir: a metáfora do ser caído na lama diz do sentimento que está represado pela situação do confinamento; o bicho enfiado na poça sinaliza para as perturbações que o isolamento provoca; a farra animal ratifica que as asneiras que saltam aos olhos brincam com as dores do mundo.
Para entender o que a cena parece transmitir, imagine-se que um cão divertindo-se numa poça d’água barrenta em mais um sábado de quarentena queira realmente externar alguma lógica ética, ou a visão ficará nisso que se vê: evento fortuito nada atroz, sem a pretensão de traduzir o mal-estar, a incerteza na raiz de moléstias inquietantes.
Leitor da vida, movido talvez por uma empatia maior que a razão, topa o jogo, aposta que há mesmo alguma mensagem de fundo. Que o acaso, folgazão, beija a calva como uma brisa boa.
Do nada, assim sem freio, a memória inventa de levar a mente do cão que nada por nadar para um domingo de desvendamentos antes do Tri. Sopra para um dia, em 68 ou 69, quando o sujeito não ostenta franja que obstrua os olhinhos faceiros dos cinco ou seis anos.
Atento àquele olhar que tudo quer descobrir, o brusco feito vento serve para içar algo das águas que escondem seres nas entranhas do seu mistério. Olhar que dispara perguntas diante dos achados.
Tão logo a vara enverga e a linha estica, saltita os verdes campos da beira, chapinha uns passos a mais na fralda da Itupararanga, eis que o atarantado foca o choque que sente no grito da constatação de que aquele peixe é mesmo muito esquisito.
Dado o alerta de quem vê pela primeira vez um treco sem nome, observa-o no ar, um bicho agitado. Sabendo que aquilo não é peixe, é um caranguejo, a irmã vem correndo, rindo, chamando-o de besta. Poxa... Logo ele, o menor, o caçulinha?
Caracoles!
Que espécie de coisa o caranguejo é? Por que não tem escamas como as tilápias, os lambaris e os carás? Pra que serve o alicate que tem na pata? E a couraça de osso cheia de pernas? Será aranha que mora no rio? O que será que ele é?
O troço que não late nem morde, tendo suas patas desenroscadas da linha com a minhoca ainda no anzol, anda de lado, e ligeiro. A seu modo elegante, some-se no açude onde vive.
Nas circunstâncias deste outono pandemizado, sorri a criança que se lembra de si no homem que acha graça do menino que ganha da vida um presente que o transcende.
Cáspite!
Estralando de novo a cada surpresa, o poeta flagra o caranguejo no cão que o imprevisto oferece de bandeja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de maio de 2020.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Irremediável esperança


Irremediável esperança

Apesar do barulhão, espia a rua que logo estará novinha em folha. Trazem, em pó, a brita escura; assentam-na com maquinário pesado, pra dar trânsito a automóveis computadorizados.
Na varanda empoeirada, a boa alma não boceja nem espreguiça, recolhe do outono a brisa da manhã. Mais outra manhã.
De friozinho bom pro café que toma sozinha. De preferência, em pé, escorada no quadril que avisa que a pia tem solidez. De concreto, a incerteza. Do pouco que imagina, muito padece.
Vai um homem, ressabiado, canário de bico engaiolado. Vem uma mulher, cansada, andorinha de asas recolhidas. Como nem vem nem vai, a confinada janela. E toma café, afeita a umas tristezas.
Sim, a isolada preocupa-se. Quer a praia de volta, o calçadão pra caminhada, o torresmo na esquina, o papo na tarde. Quer-se a beijos e abraços com quem ama. Sim, pede o armistício.
Que o chão tenha sua órbita. Que a mecânica do sistema vá pelo cosmos. Que a galáxia siga uma maravilha. Sem culpa, só precisa do seu espaço pra degustação do café.
Àquela hora e naquele lugar, como a urgência que faz o cão rodar às pernas do dono em busca do centro do mundo, para defecar e sair de perto. Naquele instante e àquele lado, o homem usa a areia da rua em obras pra cobrir os dejetos do bichinho agitado.
Irmanada ao latido irrequieto, com a sua caneca por beber.
A caneca laqueada, em cuja lateral há um dragão desenhado com esmero, rico em detalhes, com as chamas pretas de linhas pintadas, ondas milimetricamente paralelas, o requinte de um pincel dominado, praticante de uma técnica rigorosa. Um presente.
A pessoa que pode tomar o seu café com a pose de quem domina a si mesma nem valoriza o realismo daquele dragão monocromático. Todavia, não consegue segurar-se, sofre medos e aflições. Dá a vida àquela engrenagem que nem liga pra felicidade da gente.
Pode curtir o café, mas não precisa mudar de jeito algum. Porque não vai ter vírus que a impeça de comover-se com os invisibilizados, suprimidos da visão, os que sonham com bolinhos de chuva na fome escancarada. Pois não faz cara de paisagem, isso não.
A cara. Eis um aprumo pra esta prosa toda.
E lá vem a mascarada do pandemônio. E não há jardins da mente, esse paraíso artificial, que tirem do mundo a dignidade que caminha o seu pedaço debaixo de pano branco. E lá vai o epicentro da comédia, um ser de mãos atadas, sobretudo calejadas, na tragédia que tanto o quer desumanizado.
A máscara não protege o rosto do estrume coberto de progresso. Não há disfarce que esconda o mofo das laranjas estocadas. Que as pessoas andam, ainda que humilhadas e ultrajadas; rumam por seu norte, recusando-se outro cálice de fel ao desdém.
Numa lógica cruel, a roda desaba a caneca, trinca, solta lascas. E acabar assim? Mesmo nestes dias abissais, de assombrações, há de haver um leito para apreciadores de café.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de maio de 2020.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Feijão no prato


Feijão no prato

Depois de uma noite daquelas em que a barata fica presa na teia sob a cama, quando não há nada a fazer a não ser virar Franz Kafka, a fera tranca-se na jaula.
A criança tentando processar o espanto de despertar no meio da noite, de pijama molhado. A infância mordendo o travesseiro, a sua nuca suando o bafo do pesadelo. No colchão forrado de fungo, chora de condoído, o barro lambido pelas águas intempestivas. Absurda, a vida queima quando assopra, brinca porque fere.
Disparate!
E, por acaso, era domingo?
Era domingo, cavalo selvagem nas imensidões da ansiedade. Era domingo, à mesa, quatro cadeiras à disposição das expectativas. Era domingo de frango assado pelas convulsões da farsa. Era domingo, ainda que fosse, quisera largando de sê-lo. Embora não fosse mais que outro qualquer, retorcia-se sobre o domingo que era. Era mesmo demasiado aquele domingo, louco por uma matéria sensacional com o último faquir obeso do Circo das Maravilhas, em fantástica reprise.
Para lidar com esse demônio hospitaleiro, o domingo, antes que o feijão acabe queimado: basta baixar o fogo da panela. Pois é preciso manter a pizza do sábado, o chope da sexta, a corridinha na quinta, a consulta na terça, a tosse de segunda... Para gozar as esperanças de um caldinho de feijão.
A cultura que pergunta faz arte?
A arte não obriga ninguém a pensar o que não quer, ela convida ao diálogo com o que não se havia pensado. Possibilita a inclusão de visões de mundo que estavam de fora. Pede atenção ao que não se via, ao minúsculo e ao maiúsculo, a vetores de força. Mostra doloroso o equilíbrio efêmero, precário e ilusório. Propõe a diferença, o abrupto do diverso, o começo da conversa, e as rupturas do consenso. Nada como uma boa noite de insônia para aprofundar-se no risco de agir sem o polegar do positivo, do artístico, do bem-feito, do bonitinho de tão ordinário. Porque a arte pede ensaio, tentativa, e não o temor de errar. Faz-se pela dúvida que persiste como pergunta. Quem só sabe as respostas carece da cultura que educa pela arte.
Cadê tempo pro corpo com fome o tempo todo?
Diz um sujeito: “Alienado de mim é que não fico, porque, dentre as mil razões para não me apartar de mim, o meu café com pão faz-me estar em casa”.
Diz o retrato: “As palavras mexem com as pessoas, que passam a agir pelo que acreditam ter entendido do que se diz. Fica óbvio que a palavra existe porque, no uso, o sentido que vem à tona fecunda nas pessoas a certeza do poder que as palavras têm. Afinal, palavras são coisas humanas, feitas por pessoas, fabricadas para ajudar a intervir no mundo. Mas o evidente apaga esta sua origem, como ferramenta. Então, a palavra impõe uma carga semântica que despista quem não a domina ou não põe questão de fazê-la útil”.
O normal do tenso?
Condicionado à dor que sente, quando chinela na curva, o medo capota, ou mente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de maio de 2020.

domingo, 24 de maio de 2020

Bem


Bem

Hipócrita o bastante pra negar os fatos ao afirmá-los verossímeis, o texto encontra a dor lírica no olhar de uma senhora, entrada já nos encantamentos de seus resguardos ― na cadeira de rodas; nas faces descobertas ao sabor do vento da manhã; na cinza recurva na ponta do cigarrinho pitado até que a coceira aperta a subir pelas entranhas, garganta afora. Solta, sem pensar que fuma, tem razões que nem faz questão de lembrar-se; então, arrolemos umas hipóteses. Talvez, pra suportar aquele medo novo que devora os pulmões; para resultar nas reprovações de sempre a quem não tem direito algum de censurá-la; para imaginar invisível o monstro que não se deixa ver na alegria das pessoas hilariantes. Seres que fantasiam a sério não ocupar a mente com o temor à morte. Afinal, a danada das gentes garante somente uma certeza, a sua vinda. Portanto, leiam-se seus indícios pela fadiga intermitente, pela sudorese noturna, pelo horror a um buquê de flores de aspecto repugnante de ovo frito e sem cheiro. Assim, não haverá a distribuição de afetos, pois a crônica vai seguir rolando, tartaruga com rodas, indo pelo calçamento esvaziado do quarteirão, da cidade, da... Via Láctea.
Compreenda-se. “O que se transmite da retina ao espírito de uma criança?” ― pergunta no Homenzinho na ventania. “Velázquez pintó el aire / Goya, su ausencia” ― pro Luis Eduardo Aute. Na submissão dos pés, embora descalços das travessias, na morosidade mórbida, a sonolência da rua finge-se de surda leveza, que “o mistério do mundo não está na ambição dos poderosos mas na vontade de escravidão dos pobres”, diz Llansol.
É melhor deixar os cães dormindo.
Voltemos ao lirismo daquela dor que espia as coisas do mundo a partir de lentes gastas, sem um esdrúxulo durex por remendo. Vindo dos apartamentos que podem não descer à rua, porém o cáustico do coração pede o afoito. Mais que ousado, o soberbo.
O que lhe marca o rosto não protege, mantém. Ela, a personagem que se exibe ao sol do outono, toma do oxigênio o extra que carece. Pois as suas angústias respiratórias sabem eclodir na normalidade do aparente.
Quis sorrir, mas a empáfia gargalha antes.
Os cães permanecem enrodilhados na preguiça sem cansaço, de algum instinto lá deles, de animal que pespega do vírus só o que não lhes diga respeito.
E a fumaça desfila a ausência ordenada dos herdeiros, tragadores do mar da lesma azul fora da toca.
O quê?
A auxiliar flutua pelo passeio, não faz eco à parada da semana. O seu ronronado, nos lábios docemente trêmulos, não surpreende. Pois a crônica faz a verdade de ter The Mooche à flor de sua boca.
― Estou bem, muito obrigada. ― A serviçal para, olha a senhora sentada.
― Estou bem, obrigada. ― A ajudante para de novo, verifica se a patroa está sentadinha.
― Estou bem. ― A colaboradora quer o etéreo ao mistério.
E,
― Bem.
A enfermeira sorri a sua música às esferas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de maio de 2020.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Uma nova era


Uma nova era

“A crônica boa de ler vai inventando sem mentir, fazendo a gente acreditar que tem sentido entendê-la fictícia, uma vez que passa uma história coerente e coesa do começo ao fim, algo diverso da vida.” ― foi o que falou a mulher que, talvez para ilustrar esta visão, procurava algo no celular.
Nisso tomou o centro da roda o cronista convidado, que logo taxou o encontro como histórico.
― Para mim este evento é duplamente tocante. Primeiro, porque o fato de estarmos aqui é sinal de que a vida segue. Segundo, porque esta oficina teve início no distante 2013 PC. Por certo, vocês estão se perguntando: 2013... quê?
As máscaras empalideceram alguns pigarros.
― Nossa! Até parece que a gente não sobreviveu a um cataclismo que ceifou milhares de pessoas no mundo. Mas o mundo virou outro. É hora de oferecer tributo a quem não escapou ao abismo da doença.
O homem quis água.
― Todos contabilizamos baixas. Os entes queridos, os familiares, amigos, e colaboradores. É por isso que devemos falar a verdade que está latente em nossos corações. Temos o compromisso, ou melhor, temos a obrigação de superar aqueles momentos de pavor. E temos mais este dia. E iremos adiante, pois daremos cada passo pesando o que estivermos fazendo. E com a graça dos céus, pedindo a bênção aos que pereceram e desejando com sinceridade ir em frente, vamos aprender a cultivar o melhor. Pensaremos na dor do outro quando em nossa mão queimar a pedra que mais nos convença de que estamos certos e com raiva, muita raiva. Mas será em nome dos que se foram, dos anjos que nos guardaram e guardam, dos semelhantes em carne e em sofrimento, haveremos de sorrir quando pedirem escarros que envergonhem. Com nojo, iremos recusar. Realmente envergonhados. Mas é pela força da união, como sociedade depurada pela dor do que vivemos, como comunidade que nos une como iguais em condições injustas e desumanas e desiguais, teremos de nos lembrar do quanto somos frágeis, passíveis de morrer sem aviso. Afinal, todo vírus vive para se reproduzir, pulando de corpo em corpo, enquanto estivermos sem defesa. E vamos aprender a usar a memória da devastação pela qual passamos como arma nossa, um instrumento que proteja.
Outra vez sedento, houve um corre-corre pela água. Depois de um suspiro triste, o comovido rendeu-se:
― Pois bem, de agora em diante, digo que estou decidido a adotar esta marcação depois de qualquer data anterior a dezembro de 2019. Amigos, nosso novo normal é que nos pede para agirmos com honra e generosidade. Porém, sem improviso. Assim, quando estou dizendo que esta oficina teve seu início em 2013 PC, alerto que tivemos uma narrativa até o fatídico primeiro caso que veio a deflagrar esta infame Covid-19. Sem vaidade, asseguro que o tempo anterior à pandemia pertence ao PC, àquela era pré-corona.
Ótimo! Ninguém lhe apertou a mão.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de maio de 2020.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Cuidado


Cuidado

Abrir o sonho pra realidade entrar pede a disposição de arejar-se: tirar do chão as mãos petrificadas; pousar um rio nos pés terrificados; banhar-se no mar que o oceano abriga; gorgolejar a espuma do sal. E recordar-se, mais do que lembrar-se, do antigo adágio: “duas vezes não entra no mesmo rio quem se afoga de primeira”.
Para não lobrigar a incerteza na pessoa que duvida, diz o realista que há pessoas que não preferem o cardume. São essas que andam de mãos dadas com o nada. Passam sorrindo, de leveza despida de rancores. Vão por aí com suas mágoas na coleira.
Estão vindo pela via pública, dotadas de sandálias de couro. Sujas de lama, na sola. A hora não seca no broto a cobiça que vê: as outras vêm empenhadas em perder-se num bom comportamento de gravata marrom e salto alto justificáveis.
Como se houvesse essa facilidade de sorrir a quem não guarda sequer os dois metros de distância, fumam.
Desconfiando das tentações, em fingido surto, viram a tossir sem culpa. E param de repente, cevam flores no solo da praça, fisgam um banco ao lado das gardênias. E há abelhas cantando pras borboletas a atrair beija-flores a convidar sabiás que encantam a pomba que traz as demais. Como essas pessoas podem a audácia das cosmogonias, soletram “amor” como “universo”.
Perigosas, perigosíssimas, são essas as pessoas que determinam capas de jornais em branco, protestam por mais higiene a quem não sabe do corpo que move o mundo. Livram-se dos pesadelos urinando do penhasco mais próximo.
Então, sórdidas e abomináveis, justamente quando ninguém está olhando, alimentam-se dos pombos. Então, contam com o calor para que as gotas de sangue desapareçam. Comem as migalhas que as levam ao bolo de fubá que as põe à mesa, que pulula de fantasmas empanturrados de nostalgias e dentes bem alinhados.
Na terceira miragem do riso, observe-se, há bem-te-vis, tico-ticos, rolinhas, borboletas, mariposas, abelhas, formigas, principalmente as saúvas e os içás, que têm fome. É tropa, manada, bando. Uns felizes, menos manos no aperto. A fome cresce asas, afia presas, enrijece as garras. Faz trovar o bico.
Há nuvens, miram-se nelas.
Tecem canoas de carnaúba, tripas na correnteza. Acopladas aos fatos, desprezadas por fotógrafos. Paradas no banco de lama que as águas não barram de brotar no meio do caminho de tilápias, lambaris, carpas, carás e botos. Não têm rede nem vara e nem anzol. Do nada, afundam as canoas. De barriga obtusa, boiam.
Há sol, o azul, a imensidão coalhada de água suspensa.
Não improvisam; não se impressionam. Nutrem-se do mascavo no expresso da hora. Cospem no chão quando pegam pensar em fumar. Engolem o asco quando saliva na língua o seu ódio remoto ― a fonte remexida do remorso de raízes a sete palmos.
Com a sedução, da solidão à sedição?
Cuidado com as carecas que cobrem a cabeça quando dormem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de maio de 2020.


domingo, 17 de maio de 2020

Em eclipse


Em eclipse

Quando abriu os olhos, o sonhador tinha a nuca suada, dores nas pernas, a mente pesada. Havia semanas de horas erráticas. Limpava que limpava os vidros do apê. Tirava cartola da cartola, numa chatice fora de razão. A prioridade agora era mesmo dedicar-se a algo bom, que produzisse um efeito imediato. Arfou.
Que alívio correr daquilo.
Epa! Pegou-se na estrada errada, que tomara um desvio como um atalho. O seu conforto estava em envolver-se na situação pelo ângulo das consequências, pondo-se enredado no saldo; a torto e a direito, todavia.
Era óbvio que lhe faltava tocar as pessoas.
Queria abraçar, aproveitava-se das roupas por lavar, abraçava as camisetas sujas. Resultava igualmente imundo, recoberto de nódoas ― flor miserável a gozar de um abraço abjeto; um jardim de vilanias a almejar mais abraços tão embriagadores.
Ê porcaria que não passa!
Queria era beijar de uma vez a tela da TV, quando explodia ao ver as imagens de uma lebre assobiadora driblando a morte que vinha na pele de um urso tibetano. Sentia a alegria da vida ganhando mais um tempo para a reprodução. A intensidade dessa alegria ao torcer pela natureza. Uma explosão que ultrapassava a euforia, aquele fortíssimo entusiasmo, de quem se revelava portador do fogo vivo a prosperar. Assombroso. De verdade, causava estupor. O estupor contaminante. Suando, tremendo, e a carne que queima, à beira de uma explosão.
Explodia?
Quando conseguiu abrir os olhos, a realidade era bem diferente e aquilo, seu mais que admirável Big Bang, não passava de mal-estar. É que havia uma fresta na porta-balcão e a brisa noturna aproveitava da oportunidade aberta para minar a noite que, ao recolher-se caindo de sono, imaginara inabalável.
E precisou acordar para a necessidade premente de agasalhar-se. Puxou a coberta até o queixo, protegendo-se da madrugada. Para ter uma manhã menos amarga, o jeito era dormir de novo. Ou iria acabar sozinho no banheiro, ocupando-se de viajar para longe, via celular.
Porém, o aparelho tinha um por cento de carga, e, se ficasse sem telefone, perderia as apresentações dos artistas favoritos, seus ídolos desde criança.
Como?
Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, o poeta virou-se, só que o relógio sumira do criado-mudo. Foi atrás das horas na cozinha, mas o despertador que ganhara da mãe sumira também. Ô encrenca! Mas a bateria já deveria estar 100% lá na sala, que estava bem mais escura que o normal. Não tinha luz na rua nem nos prédios vizinhos.
Sem terror.
O hábito de colocar o aparelho sempre no mesmo lugar iria servir para pegá-lo do chão, ao pé da tomada, junto da porta da entrada do apartamento. Coisa simples, que poderia fazer de olhos vendados.
Ê caramba!
Quando finalmente conseguiu manter atentos os olhos, a crônica estava chuchu beleza, naquele ponto que a publicação estraga.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de maio de 2020.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O cavalo


O cavalo

O ruído tem ritmo, uma batida seguida de outra, tic-tic de relógio, cujo funcionamento decorra de organismos mecânicos. Provindo dos lados da rua asfaltada, a identificação dá-se quando a fonte daquela marcha dobra a esquina, indo para a rua de baixo.
A mancha escura move-se pela penumbra da hora, pouco antes das nove da noite. Os postes parecem dormentes, provendo uma luz embaçada, de um cansaço impregnado de angústias. Os pássaros já recolhidos aos ninhos. Os morcegos zanzando de fruto em fruto. E o animal que desfila.
Vem trotando pacato, o impacto surdo dos cascos na terra da rua em reforma, numa mansidão antagônica ao espírito daquelas gentes obrigadas ao convívio pelo pandêmico eclipse. Ali, onde se respira a peçonha, é torturante encarar-se com narizes e bocas sem máscara.
Vem trotando insólito, a presença majestosa a quem tem olhos e ouvidos afeitos à descoberta de mundos dentro do mundo. Ali, onde o trato dócil e o carinho do afago inspiram perguntas, é chão o dar pé a quem transpassa as veredas com novidades.
E ele deseja seguir adiante.
Pelas andanças de suas patas. Suas crinas molhadas pela chuva. As gotículas das suas narinas sumindo pelo ar. Respira, sem reparar que respira. Quase imperceptível, há uma efígie naquela figura, a do cavalo abstrato forjado nas regras do reino animal e a do quadrúpede medido pelas pessoas surpreendidas.
O canela da pelagem. O tônus dos tendões. A simetria que alinha a partir do focinho. Alazão de herói de sessão vespertina em cinema que já não há? Bicho que espuma as filigranas contidas em Hokusai, esfinge móvel que relincha em Murilo Mendes, a especular do sonho traçado por Leonardo.
Há olhares que descortinam no banal algum processo que tire da invisibilidade a potência da iluminação, mas o que se vê, distante de transcendências tão fulgurantes, é o ser parado diante dos cavaletes interditando o trânsito.
Há quem o veja empacado, como algum burro com a chancela de incapaz do cálculo, do engenho de sobreviver a seus impasses. Entre os olhos que perscrutam a contenção precária daquela fita amarela e o que está por vir, há a percepção a quem se faz livre pelas escolhas frente a incertezas, a economia dos afetos que o preservam vivo.
Há quem o sinta prestidigitador, como alguma serpente com o selo de maroto a blefar diuturnamente, a omitir-se máquina de inoculação do vírus da dúvida, do questionamento insone de toda ordem. Entre o peito que contém os espasmos da via por trilhar e a retaguarda que encaminha decisões, faz-se vivo para libertar-se a cada instante.
Olha o buraco pleno de água; qual será a sua profundidade? Vê a calçada mal iluminada; teme escorregadio o entrevisto. Sopesa o lado oposto, o ouro desmaiado do poste anuncia os pedregulhos na lama do passeio.
Ê cavalo dado a irracionalidades, cabe a ele sair-se dali.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de maio de 2020.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Tempestade


Tempestade

Eis um homem tentando seguir o seu caminho. Debitar às contas pagas em dia a desobediência de não ficar em casa? Calcular a sua resolução de manter os óculos no nariz como manifestação política? Por saber-se à medida da sombra na calçada, despreza o espinho do olhar que o acutila exposto ao ar que tanto o atribula?
Tem a febre de fazer-se. Dizem por ali, apontam por aqui; desafia que o contradigam, avança pelos vãos. Cuida de si, ignora visar-se à representação de um velhinho bom.
Resistindo, contra as gotas de sal desajustadas nas juntas do seu corpo. Persistindo, contra o esqueleto que o conforma alquebrado na poltrona. Insistindo, sem esmolar o ultraje da resignação, de homem parado diante dos fatos. Afirma-se: indo.
A vida vale a paga da altivez?
Dói-lhe mover-se, porém não traga o escambo: a quarentena para si, o isolamento dos demais.
Os pulmões mantêm traços das fumaças pestilentas abandonadas com os oitenta. A falta de ar explica porque ofega descontrolado.
A maior prova de dignidade dá essa pessoa quando não esconde que sua fome mede-se por outra régua. Sem a interdição ao trabalho, pois há muito está aposentado. Sem que o beneficiem atos rebeldes, como o que pratica com a envergadura dos patéticos. Nada disso, a vontade que o faz ir aonde vai tem a escala dos inconformados.
Alguém o interpela:
― Ô doido, por que busca a morte?
Outrem ajuíza:
― Pensa que pode andar por aí, infeliz!
No pudor do recato, o velho guarda silêncio. Segue, sem ouvidos para admoestações, palavras não subirão névoas que o pervertam do destino. Não, vozes atiradas das varandas parecem miados; detesta gatos. Mais ainda que os pelos no sofá, enlouquecem-no os miados.
Que tipo raro será esse? Traz no traje o terno do Carlitos; enfiado num passo miudinho de Carlinhos de Jesus; um Pedro II na barba de bonachão profeta. Papai Noel comunista?
Pouco importa, a ele o que conta é sair com o propósito de chegar ao posto de saúde mais próximo. Faz da insanidade presumida o que pensa fazer mesmo que o julguem egoísta, narcisista.
Do louco, nega-o ao buscar os remédios à esposa. Do egoísta, um nada, porque enfrenta as ansiedades do medo pela mulher que ama. Enfim, quer restaurada a saúde da pessoa que treme de calafrios.
Eis um cavaleiro: dando ritmo à passada com a ponta da bengala; esforçando-se na marcha renhida, meio pé de cada vez; bailador que revigora o já quase exaurido.
Há essa tempestade de proporções insondáveis a quem não tem memória para a profundidade dos transtornos, todavia nosso homem, de rosto recoberto pela máscara branca, de tez torturada no ofício de viver, não se turva às limitações da hora.
Probo, sua batalha está ganha. Com seus ossos desbastados, de obreiro que edifica; com os seus olhos apurados, de farol que orienta; com a sua chama por um fio, de ser que se faz humano ao caminhar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de maio de 2020.

domingo, 10 de maio de 2020

Atos de amor


Atos de amor

Falam alto na rua. Quase gritam, na verdade.
A senhora vai e volta, elétrica.
O senhor continua fumando diante da entrada do prédio.
Um carro para sobre a calçada do cruzamento da Amazonas com a Rui Barbosa, que está interditada, em obras.
A idosa fica muito irritada quando do automóvel, modelo dirigido, nos filmes, por agentes do FBI, salta uma moça. De mãos abanando e sorriso amarelo, pedindo calma.
― Numa hora dessas, calma? Tenha dó, Ana Luísa.
Com a reação, a jovem dirigiu-se ao fumante:
― Por que ela não desconstrói essa veia autoritária, Vô Vovô?
O marido da bisa resignou-se a atirar a bituca na lama da rua.
― Quando é que a Márcia Maria vai aprender que há coisas mais importantes na vida de uma pessoa do que estacionar direito. ― Sem fingir-se moderada, emendou:
― Vamos, desça logo daí!
Manobrando com cuidado, finalmente aparece a dita cuja que, ao perceber-se observada pela tropa, fica confusa com chaves e celular, e pergunta:
― Uai? Ela não está aqui ainda?
Ainda...
― Como se falar o óbvio fosse dizer algo de relevante! ― Pontua pelo megafone natural da sua garganta aquela nonagenária que não para quieta ali na esquina.
Márcia Maria, sem titubear, trata de fazer o que de melhor sabe e envia mensagem de voz. Pede informações sobre o paradeiro e avisa que todo mundo está uma pilha por não ter notícias. E, desconfiada, certifica-se de que o alarme do veículo novo está mesmo ligado.
E dos últimos andares, Henrique, o amor de toda vida daquela que está sendo esperada, vem e some da janela do quarto, surge e corre a cortina. Querendo apenas ter sua companheira dourada de volta.
Tomado de solidariedade pelo vizinho de andar, além de irmãos fraternais há meio século, José Cláudio vai bebericar um golezinho de vinho com o professor de matemática. Compulsoriamente aposentado aos setenta anos, Henrique decidiu jogar xadrez para não ficar com a manhã de cada dia enfadonhamente vagarosa, embora nem ligasse ganhar. Topam jogar.
Aflição: Vó Vovó, que não admite ser chamada assim pela bisneta, Ana Luísa, que é a mãe de João Cláudio, único trineto da Maria João, que é mãe da sua mãe, Márcia Maria, cujo SUV tem o péssimo hábito de disparar seu alarme bem nos momentos decisivos.
Neste caso, como sabe um cão ou um gato, comovido pra próxima cena, pressentindo o que irá desenrolar-se naquele canto do mundo, o encontro neste dia de sol, tornando certo o que parecia impossível mas que se convertera em provável e que vem a ser o fato de maior relevância neste instante, daí o pisca de alerta e o barulho da vinda.
No meio daquela gritaria de felicidade contagiante, dona Filomena, que teve alta depois dos dezoito dias no hospital, doze na UTI, basta-lhe abrir os braços para que os dois narizes, o seu e o do seu bisneto, protegidos por máscara, beijem-se explícita, alegre, amorosamente.
Um dia feliz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de maio de 2020.