Uma
nova era
“A crônica boa de ler vai inventando
sem mentir, fazendo a gente acreditar que tem sentido entendê-la fictícia, uma
vez que passa uma história coerente e coesa do começo ao fim, algo diverso da
vida.” ― foi o que falou a mulher que, talvez para ilustrar esta visão, procurava
algo no celular.
Nisso tomou o centro da roda o
cronista convidado, que logo taxou o encontro como histórico.
― Para mim este evento é duplamente
tocante. Primeiro, porque o fato de estarmos aqui é sinal de que a vida segue.
Segundo, porque esta oficina teve início no distante 2013 PC. Por certo, vocês estão
se perguntando: 2013... quê?
As máscaras empalideceram alguns
pigarros.
― Nossa! Até parece que a gente não
sobreviveu a um cataclismo que ceifou milhares de pessoas no mundo. Mas o mundo
virou outro. É hora de oferecer tributo a quem não escapou ao abismo da doença.
O homem quis água.
― Todos contabilizamos baixas. Os entes
queridos, os familiares, amigos, e colaboradores. É por isso que devemos falar
a verdade que está latente em nossos corações. Temos o compromisso, ou melhor,
temos a obrigação de superar aqueles momentos de pavor. E temos mais este dia. E
iremos adiante, pois daremos cada passo pesando o que estivermos fazendo. E com
a graça dos céus, pedindo a bênção aos que pereceram e desejando com
sinceridade ir em frente, vamos aprender a cultivar o melhor. Pensaremos na dor
do outro quando em nossa mão queimar a pedra que mais nos convença de que
estamos certos e com raiva, muita raiva. Mas será em nome dos que se foram, dos
anjos que nos guardaram e guardam, dos semelhantes em carne e em sofrimento, haveremos
de sorrir quando pedirem escarros que envergonhem. Com nojo, iremos recusar. Realmente
envergonhados. Mas é pela força da união, como sociedade depurada pela dor do
que vivemos, como comunidade que nos une como iguais em condições injustas e
desumanas e desiguais, teremos de nos lembrar do quanto somos frágeis,
passíveis de morrer sem aviso. Afinal, todo vírus vive para se reproduzir,
pulando de corpo em corpo, enquanto estivermos sem defesa. E vamos aprender a
usar a memória da devastação pela qual passamos como arma nossa, um instrumento
que proteja.
Outra vez sedento, houve um
corre-corre pela água. Depois de um suspiro triste, o comovido rendeu-se:
― Pois bem, de agora em diante, digo
que estou decidido a adotar esta marcação depois de qualquer data anterior a
dezembro de 2019. Amigos, nosso novo normal é que nos pede para agirmos com honra
e generosidade. Porém, sem improviso. Assim, quando estou dizendo que esta
oficina teve seu início em 2013 PC, alerto que tivemos uma narrativa até o
fatídico primeiro caso que veio a deflagrar esta infame Covid-19. Sem vaidade, asseguro
que o tempo anterior à pandemia pertence ao PC, àquela era pré-corona.
Ótimo! Ninguém lhe apertou a mão.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de maio de 2020.
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