terça-feira, 19 de maio de 2020

Cuidado


Cuidado

Abrir o sonho pra realidade entrar pede a disposição de arejar-se: tirar do chão as mãos petrificadas; pousar um rio nos pés terrificados; banhar-se no mar que o oceano abriga; gorgolejar a espuma do sal. E recordar-se, mais do que lembrar-se, do antigo adágio: “duas vezes não entra no mesmo rio quem se afoga de primeira”.
Para não lobrigar a incerteza na pessoa que duvida, diz o realista que há pessoas que não preferem o cardume. São essas que andam de mãos dadas com o nada. Passam sorrindo, de leveza despida de rancores. Vão por aí com suas mágoas na coleira.
Estão vindo pela via pública, dotadas de sandálias de couro. Sujas de lama, na sola. A hora não seca no broto a cobiça que vê: as outras vêm empenhadas em perder-se num bom comportamento de gravata marrom e salto alto justificáveis.
Como se houvesse essa facilidade de sorrir a quem não guarda sequer os dois metros de distância, fumam.
Desconfiando das tentações, em fingido surto, viram a tossir sem culpa. E param de repente, cevam flores no solo da praça, fisgam um banco ao lado das gardênias. E há abelhas cantando pras borboletas a atrair beija-flores a convidar sabiás que encantam a pomba que traz as demais. Como essas pessoas podem a audácia das cosmogonias, soletram “amor” como “universo”.
Perigosas, perigosíssimas, são essas as pessoas que determinam capas de jornais em branco, protestam por mais higiene a quem não sabe do corpo que move o mundo. Livram-se dos pesadelos urinando do penhasco mais próximo.
Então, sórdidas e abomináveis, justamente quando ninguém está olhando, alimentam-se dos pombos. Então, contam com o calor para que as gotas de sangue desapareçam. Comem as migalhas que as levam ao bolo de fubá que as põe à mesa, que pulula de fantasmas empanturrados de nostalgias e dentes bem alinhados.
Na terceira miragem do riso, observe-se, há bem-te-vis, tico-ticos, rolinhas, borboletas, mariposas, abelhas, formigas, principalmente as saúvas e os içás, que têm fome. É tropa, manada, bando. Uns felizes, menos manos no aperto. A fome cresce asas, afia presas, enrijece as garras. Faz trovar o bico.
Há nuvens, miram-se nelas.
Tecem canoas de carnaúba, tripas na correnteza. Acopladas aos fatos, desprezadas por fotógrafos. Paradas no banco de lama que as águas não barram de brotar no meio do caminho de tilápias, lambaris, carpas, carás e botos. Não têm rede nem vara e nem anzol. Do nada, afundam as canoas. De barriga obtusa, boiam.
Há sol, o azul, a imensidão coalhada de água suspensa.
Não improvisam; não se impressionam. Nutrem-se do mascavo no expresso da hora. Cospem no chão quando pegam pensar em fumar. Engolem o asco quando saliva na língua o seu ódio remoto ― a fonte remexida do remorso de raízes a sete palmos.
Com a sedução, da solidão à sedição?
Cuidado com as carecas que cobrem a cabeça quando dormem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de maio de 2020.


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