Cuidado
Abrir o sonho pra realidade entrar
pede a disposição de arejar-se: tirar do chão as mãos petrificadas; pousar um
rio nos pés terrificados; banhar-se no mar que o oceano abriga; gorgolejar a
espuma do sal. E recordar-se, mais do que lembrar-se, do antigo adágio: “duas
vezes não entra no mesmo rio quem se afoga de primeira”.
Para não lobrigar a incerteza na
pessoa que duvida, diz o realista que há pessoas que não preferem o cardume. São
essas que andam de mãos dadas com o nada. Passam sorrindo, de leveza despida de
rancores. Vão por aí com suas mágoas na coleira.
Estão vindo pela via pública, dotadas
de sandálias de couro. Sujas de lama, na sola. A hora não seca no broto a
cobiça que vê: as outras vêm empenhadas em perder-se num bom comportamento de gravata
marrom e salto alto justificáveis.
Como se houvesse essa facilidade de
sorrir a quem não guarda sequer os dois metros de distância, fumam.
Desconfiando das tentações, em fingido
surto, viram a tossir sem culpa. E param de repente, cevam flores no solo da
praça, fisgam um banco ao lado das gardênias. E há abelhas cantando pras
borboletas a atrair beija-flores a convidar sabiás que encantam a pomba que
traz as demais. Como essas pessoas podem a audácia das cosmogonias, soletram
“amor” como “universo”.
Perigosas, perigosíssimas, são essas
as pessoas que determinam capas de jornais em branco, protestam por mais
higiene a quem não sabe do corpo que move o mundo. Livram-se dos pesadelos urinando
do penhasco mais próximo.
Então, sórdidas e abomináveis,
justamente quando ninguém está olhando, alimentam-se dos pombos. Então, contam
com o calor para que as gotas de sangue desapareçam. Comem as migalhas que as
levam ao bolo de fubá que as põe à mesa, que pulula de fantasmas empanturrados
de nostalgias e dentes bem alinhados.
Na terceira miragem do riso, observe-se,
há bem-te-vis, tico-ticos, rolinhas, borboletas, mariposas, abelhas, formigas,
principalmente as saúvas e os içás, que têm fome. É tropa, manada, bando. Uns
felizes, menos manos no aperto. A fome cresce asas, afia presas, enrijece as garras.
Faz trovar o bico.
Há nuvens, miram-se nelas.
Tecem canoas de carnaúba, tripas na
correnteza. Acopladas aos fatos, desprezadas por fotógrafos. Paradas no banco
de lama que as águas não barram de brotar no meio do caminho de tilápias, lambaris,
carpas, carás e botos. Não têm rede nem vara e nem anzol. Do nada, afundam as
canoas. De barriga obtusa, boiam.
Há sol, o azul, a imensidão coalhada
de água suspensa.
Não improvisam; não se impressionam. Nutrem-se
do mascavo no expresso da hora. Cospem no chão quando pegam pensar em fumar. Engolem
o asco quando saliva na língua o seu ódio remoto ― a fonte remexida do remorso
de raízes a sete palmos.
Com a sedução, da solidão à sedição?
Cuidado com as carecas que cobrem a
cabeça quando dormem.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de maio de 2020.
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