Bem
Hipócrita o bastante pra negar os
fatos ao afirmá-los verossímeis, o texto encontra a dor lírica no olhar de uma
senhora, entrada já nos encantamentos de seus resguardos ― na cadeira de rodas;
nas faces descobertas ao sabor do vento da manhã; na cinza recurva na ponta do cigarrinho
pitado até que a coceira aperta a subir pelas entranhas, garganta afora. Solta,
sem pensar que fuma, tem razões que nem faz questão de lembrar-se; então,
arrolemos umas hipóteses. Talvez, pra suportar aquele medo novo que devora os
pulmões; para resultar nas reprovações de sempre a quem não tem direito algum
de censurá-la; para imaginar invisível o monstro que não se deixa ver na alegria
das pessoas hilariantes. Seres que fantasiam a sério não ocupar a mente com o
temor à morte. Afinal, a danada das gentes garante somente uma certeza, a sua
vinda. Portanto, leiam-se seus indícios pela fadiga intermitente, pela sudorese
noturna, pelo horror a um buquê de flores de aspecto repugnante de ovo frito e
sem cheiro. Assim, não haverá a distribuição de afetos, pois a crônica vai seguir
rolando, tartaruga com rodas, indo pelo calçamento esvaziado do quarteirão, da
cidade, da... Via Láctea.
Compreenda-se. “O que se transmite da
retina ao espírito de uma criança?” ― pergunta no Homenzinho na ventania. “Velázquez pintó el aire / Goya, su
ausencia” ― pro Luis Eduardo Aute. Na submissão dos pés, embora descalços das travessias,
na morosidade mórbida, a sonolência da rua finge-se de surda leveza, que “o
mistério do mundo não está na ambição dos poderosos mas na vontade de
escravidão dos pobres”, diz Llansol.
É melhor deixar os cães dormindo.
Voltemos ao lirismo daquela dor que
espia as coisas do mundo a partir de lentes gastas, sem um esdrúxulo durex por remendo.
Vindo dos apartamentos que podem não descer à rua, porém o cáustico do coração
pede o afoito. Mais que ousado, o soberbo.
O que lhe marca o rosto não protege,
mantém. Ela, a personagem que se exibe ao sol do outono, toma do oxigênio o
extra que carece. Pois as suas angústias respiratórias sabem eclodir na normalidade
do aparente.
Quis sorrir, mas a empáfia gargalha
antes.
Os cães permanecem enrodilhados na
preguiça sem cansaço, de algum instinto lá deles, de animal que pespega do vírus
só o que não lhes diga respeito.
E a fumaça desfila a ausência ordenada
dos herdeiros, tragadores do mar da lesma azul fora da toca.
O quê?
A auxiliar flutua pelo passeio, não
faz eco à parada da semana. O seu ronronado, nos lábios docemente trêmulos, não
surpreende. Pois a crônica faz a verdade de ter The Mooche à flor de sua boca.
― Estou bem, muito obrigada. ― A serviçal
para, olha a senhora sentada.
― Estou bem, obrigada. ― A ajudante para
de novo, verifica se a patroa está sentadinha.
― Estou bem. ― A colaboradora quer o
etéreo ao mistério.
E,
― Bem.
A enfermeira sorri a sua música às
esferas.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 24 de maio de 2020.
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