domingo, 24 de maio de 2020

Bem


Bem

Hipócrita o bastante pra negar os fatos ao afirmá-los verossímeis, o texto encontra a dor lírica no olhar de uma senhora, entrada já nos encantamentos de seus resguardos ― na cadeira de rodas; nas faces descobertas ao sabor do vento da manhã; na cinza recurva na ponta do cigarrinho pitado até que a coceira aperta a subir pelas entranhas, garganta afora. Solta, sem pensar que fuma, tem razões que nem faz questão de lembrar-se; então, arrolemos umas hipóteses. Talvez, pra suportar aquele medo novo que devora os pulmões; para resultar nas reprovações de sempre a quem não tem direito algum de censurá-la; para imaginar invisível o monstro que não se deixa ver na alegria das pessoas hilariantes. Seres que fantasiam a sério não ocupar a mente com o temor à morte. Afinal, a danada das gentes garante somente uma certeza, a sua vinda. Portanto, leiam-se seus indícios pela fadiga intermitente, pela sudorese noturna, pelo horror a um buquê de flores de aspecto repugnante de ovo frito e sem cheiro. Assim, não haverá a distribuição de afetos, pois a crônica vai seguir rolando, tartaruga com rodas, indo pelo calçamento esvaziado do quarteirão, da cidade, da... Via Láctea.
Compreenda-se. “O que se transmite da retina ao espírito de uma criança?” ― pergunta no Homenzinho na ventania. “Velázquez pintó el aire / Goya, su ausencia” ― pro Luis Eduardo Aute. Na submissão dos pés, embora descalços das travessias, na morosidade mórbida, a sonolência da rua finge-se de surda leveza, que “o mistério do mundo não está na ambição dos poderosos mas na vontade de escravidão dos pobres”, diz Llansol.
É melhor deixar os cães dormindo.
Voltemos ao lirismo daquela dor que espia as coisas do mundo a partir de lentes gastas, sem um esdrúxulo durex por remendo. Vindo dos apartamentos que podem não descer à rua, porém o cáustico do coração pede o afoito. Mais que ousado, o soberbo.
O que lhe marca o rosto não protege, mantém. Ela, a personagem que se exibe ao sol do outono, toma do oxigênio o extra que carece. Pois as suas angústias respiratórias sabem eclodir na normalidade do aparente.
Quis sorrir, mas a empáfia gargalha antes.
Os cães permanecem enrodilhados na preguiça sem cansaço, de algum instinto lá deles, de animal que pespega do vírus só o que não lhes diga respeito.
E a fumaça desfila a ausência ordenada dos herdeiros, tragadores do mar da lesma azul fora da toca.
O quê?
A auxiliar flutua pelo passeio, não faz eco à parada da semana. O seu ronronado, nos lábios docemente trêmulos, não surpreende. Pois a crônica faz a verdade de ter The Mooche à flor de sua boca.
― Estou bem, muito obrigada. ― A serviçal para, olha a senhora sentada.
― Estou bem, obrigada. ― A ajudante para de novo, verifica se a patroa está sentadinha.
― Estou bem. ― A colaboradora quer o etéreo ao mistério.
E,
― Bem.
A enfermeira sorri a sua música às esferas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de maio de 2020.

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