O
cavalo
O ruído tem ritmo, uma batida seguida
de outra, tic-tic de relógio, cujo funcionamento decorra de organismos mecânicos.
Provindo dos lados da rua asfaltada, a identificação dá-se quando a fonte
daquela marcha dobra a esquina, indo para a rua de baixo.
A mancha escura move-se pela penumbra
da hora, pouco antes das nove da noite. Os postes parecem dormentes, provendo
uma luz embaçada, de um cansaço impregnado de angústias. Os pássaros já
recolhidos aos ninhos. Os morcegos zanzando de fruto em fruto. E o animal que desfila.
Vem trotando pacato, o impacto surdo
dos cascos na terra da rua em reforma, numa mansidão antagônica ao espírito
daquelas gentes obrigadas ao convívio pelo pandêmico eclipse. Ali, onde se
respira a peçonha, é torturante encarar-se com narizes e bocas sem máscara.
Vem trotando insólito, a presença
majestosa a quem tem olhos e ouvidos afeitos à descoberta de mundos dentro do
mundo. Ali, onde o trato dócil e o carinho do afago inspiram perguntas, é chão o
dar pé a quem transpassa as veredas com novidades.
E ele deseja seguir adiante.
Pelas andanças de suas patas. Suas
crinas molhadas pela chuva. As gotículas das suas narinas sumindo pelo ar. Respira,
sem reparar que respira. Quase imperceptível, há uma efígie naquela figura, a
do cavalo abstrato forjado nas regras do reino animal e a do quadrúpede medido
pelas pessoas surpreendidas.
O canela da pelagem. O tônus dos tendões.
A simetria que alinha a partir do focinho. Alazão de herói de sessão vespertina
em cinema que já não há? Bicho que espuma as filigranas contidas em Hokusai,
esfinge móvel que relincha em Murilo Mendes, a especular do sonho traçado por
Leonardo.
Há olhares que descortinam no banal
algum processo que tire da invisibilidade a potência da iluminação, mas o que
se vê, distante de transcendências tão fulgurantes, é o ser parado diante dos
cavaletes interditando o trânsito.
Há quem o veja empacado, como algum
burro com a chancela de incapaz do cálculo, do engenho de sobreviver a seus
impasses. Entre os olhos que perscrutam a contenção precária daquela fita
amarela e o que está por vir, há a percepção a quem se faz livre pelas escolhas
frente a incertezas, a economia dos afetos que o preservam vivo.
Há quem o sinta prestidigitador, como
alguma serpente com o selo de maroto a blefar diuturnamente, a omitir-se
máquina de inoculação do vírus da dúvida, do questionamento insone de toda
ordem. Entre o peito que contém os espasmos da via por trilhar e a retaguarda
que encaminha decisões, faz-se vivo para libertar-se a cada instante.
Olha o buraco pleno de água; qual será
a sua profundidade? Vê a calçada mal iluminada; teme escorregadio o entrevisto.
Sopesa o lado oposto, o ouro desmaiado do poste anuncia os pedregulhos na lama
do passeio.
Ê cavalo dado a irracionalidades, cabe
a ele sair-se dali.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de maio de 2020.
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