domingo, 10 de maio de 2020

Atos de amor


Atos de amor

Falam alto na rua. Quase gritam, na verdade.
A senhora vai e volta, elétrica.
O senhor continua fumando diante da entrada do prédio.
Um carro para sobre a calçada do cruzamento da Amazonas com a Rui Barbosa, que está interditada, em obras.
A idosa fica muito irritada quando do automóvel, modelo dirigido, nos filmes, por agentes do FBI, salta uma moça. De mãos abanando e sorriso amarelo, pedindo calma.
― Numa hora dessas, calma? Tenha dó, Ana Luísa.
Com a reação, a jovem dirigiu-se ao fumante:
― Por que ela não desconstrói essa veia autoritária, Vô Vovô?
O marido da bisa resignou-se a atirar a bituca na lama da rua.
― Quando é que a Márcia Maria vai aprender que há coisas mais importantes na vida de uma pessoa do que estacionar direito. ― Sem fingir-se moderada, emendou:
― Vamos, desça logo daí!
Manobrando com cuidado, finalmente aparece a dita cuja que, ao perceber-se observada pela tropa, fica confusa com chaves e celular, e pergunta:
― Uai? Ela não está aqui ainda?
Ainda...
― Como se falar o óbvio fosse dizer algo de relevante! ― Pontua pelo megafone natural da sua garganta aquela nonagenária que não para quieta ali na esquina.
Márcia Maria, sem titubear, trata de fazer o que de melhor sabe e envia mensagem de voz. Pede informações sobre o paradeiro e avisa que todo mundo está uma pilha por não ter notícias. E, desconfiada, certifica-se de que o alarme do veículo novo está mesmo ligado.
E dos últimos andares, Henrique, o amor de toda vida daquela que está sendo esperada, vem e some da janela do quarto, surge e corre a cortina. Querendo apenas ter sua companheira dourada de volta.
Tomado de solidariedade pelo vizinho de andar, além de irmãos fraternais há meio século, José Cláudio vai bebericar um golezinho de vinho com o professor de matemática. Compulsoriamente aposentado aos setenta anos, Henrique decidiu jogar xadrez para não ficar com a manhã de cada dia enfadonhamente vagarosa, embora nem ligasse ganhar. Topam jogar.
Aflição: Vó Vovó, que não admite ser chamada assim pela bisneta, Ana Luísa, que é a mãe de João Cláudio, único trineto da Maria João, que é mãe da sua mãe, Márcia Maria, cujo SUV tem o péssimo hábito de disparar seu alarme bem nos momentos decisivos.
Neste caso, como sabe um cão ou um gato, comovido pra próxima cena, pressentindo o que irá desenrolar-se naquele canto do mundo, o encontro neste dia de sol, tornando certo o que parecia impossível mas que se convertera em provável e que vem a ser o fato de maior relevância neste instante, daí o pisca de alerta e o barulho da vinda.
No meio daquela gritaria de felicidade contagiante, dona Filomena, que teve alta depois dos dezoito dias no hospital, doze na UTI, basta-lhe abrir os braços para que os dois narizes, o seu e o do seu bisneto, protegidos por máscara, beijem-se explícita, alegre, amorosamente.
Um dia feliz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de maio de 2020.

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