Atos
de amor
Falam alto na rua. Quase gritam, na
verdade.
A senhora vai e volta, elétrica.
O senhor continua fumando diante da
entrada do prédio.
Um carro para sobre a calçada do
cruzamento da Amazonas com a Rui Barbosa, que está interditada, em obras.
A idosa fica muito irritada quando do
automóvel, modelo dirigido, nos filmes, por agentes do FBI, salta uma moça. De
mãos abanando e sorriso amarelo, pedindo calma.
― Numa hora dessas, calma? Tenha dó,
Ana Luísa.
Com a reação, a jovem dirigiu-se ao
fumante:
― Por que ela não desconstrói essa
veia autoritária, Vô Vovô?
O marido da bisa resignou-se a atirar a
bituca na lama da rua.
― Quando é que a Márcia Maria vai
aprender que há coisas mais importantes na vida de uma pessoa do que estacionar
direito. ― Sem fingir-se moderada, emendou:
― Vamos, desça logo daí!
Manobrando com cuidado, finalmente aparece
a dita cuja que, ao perceber-se observada pela tropa, fica confusa com chaves e
celular, e pergunta:
― Uai? Ela não está aqui ainda?
Ainda...
― Como se falar o óbvio fosse dizer
algo de relevante! ― Pontua pelo megafone natural da sua garganta aquela
nonagenária que não para quieta ali na esquina.
Márcia Maria, sem titubear, trata de
fazer o que de melhor sabe e envia mensagem de voz. Pede informações sobre o
paradeiro e avisa que todo mundo está uma pilha por não ter notícias. E, desconfiada,
certifica-se de que o alarme do veículo novo está mesmo ligado.
E dos últimos andares, Henrique, o
amor de toda vida daquela que está sendo esperada, vem e some da janela do
quarto, surge e corre a cortina. Querendo apenas ter sua companheira dourada de
volta.
Tomado de solidariedade pelo vizinho
de andar, além de irmãos fraternais há meio século, José Cláudio vai bebericar
um golezinho de vinho com o professor de matemática. Compulsoriamente
aposentado aos setenta anos, Henrique decidiu jogar xadrez para não ficar com a
manhã de cada dia enfadonhamente vagarosa, embora nem ligasse ganhar. Topam
jogar.
Aflição: Vó Vovó, que não admite ser chamada
assim pela bisneta, Ana Luísa, que é a mãe de João Cláudio, único trineto da
Maria João, que é mãe da sua mãe, Márcia Maria, cujo SUV tem o péssimo hábito
de disparar seu alarme bem nos momentos decisivos.
Neste caso, como sabe um cão ou um
gato, comovido pra próxima cena, pressentindo o que irá desenrolar-se naquele
canto do mundo, o encontro neste dia de sol, tornando certo o que parecia
impossível mas que se convertera em provável e que vem a ser o fato de maior
relevância neste instante, daí o pisca de alerta e o barulho da vinda.
No meio daquela gritaria de felicidade
contagiante, dona Filomena, que teve alta depois dos dezoito dias no hospital,
doze na UTI, basta-lhe abrir os braços para que os dois narizes, o seu e o do seu
bisneto, protegidos por máscara, beijem-se explícita, alegre, amorosamente.
Um dia feliz.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 10 de maio de 2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário