Palhaçada
Como dar cabo de um desejo? Como lidar
com a informação que nos comunica que a realidade não passa de um surto que
dura uma vida? Sendo possível que esta verdade seja de fato falseável, como
digeri-la mantendo a intoxicação do absurdo? Que a febre não baixe, que a fome ainda
arda, que se bata a traduzir-se em atos?
Nada de explicações vulgares sobre essa
crueldade que é chegar à cena com a caveira para o plástico, tomado de vida pelo
espavento materializado, cortar o barato. Ai atrocidades.
Sentado na beira da cama, os pés nus
no piso frio. Ainda que não me recorde como foi que morri ontem à noite, sirvo
às abluções.
Com o retardamento do sono, posto que a
espertina me acidulou, o muito influenciado que fiquei com o Querido Diário da Maria Velho da Costa,
todavia, confundo a esquerda com a direita ― já longe de encontrar o ponto, já achado
de pronto ― como a dizer parênteses.
Quando fogem as palavras, espera-se pelo
eco.
Tal incômodo diz a mim que morro um fardo
a cada gesto. Gesto este que bem pode pregar a peça, piegas de infantil no
engenho de autofabricar-se um parágrafo nuvioso, que dou a mim que me cai tão natural.
E fosse mascar o ar pegajoso do fumo que escarro o quanto posso, tomaria como torta
na cara do barro que ri.
E o palhaço que é?
Eu não sabia que aquilo fosse
possível. Aquilo, digo, isso de ficar atento ao que pede atenção. Mas não é só
isso, é preciso ficar atento ao que merece atenção. Além de ficar querendo se
mostrar, algo fácil de se fazer, é preciso ter mais para mostrar do que querer
aparecer a qualquer custo.
Pois tem custo, sim, senhor, isso de
não ir além da pantomima em si. Como palhaço sem graça, que mais grita do que
diverte.
O pior é que, depois de um tempo vendo
o embuste, percebe-se o que até ele admite. Ninguém se diverte com a sua sem
gracice.
Como fica evidente a picaretagem, a
cena entristece. Em seguida, a raiva roça a língua. O jeito é despir a
carapuça, e bufar.
Sei lá no que você está pensando, mas
a mim me parece de uma vigarice só. Que perda de tempo dar crédito a uma
agressão do tipo.
A gente poderia estar rindo de coisa
engraçada, feita por artista de verdade, e não dum pinóquio pestilento.
Isso entope as veias, com o sangue
sujo de tanto medo da alegria, de tanta porcaria no corpo. Epa. Não vou cometer
o erro de dizer que a origem da sem gracice está no sangue, que isso é coisa
que não se faz. As pessoas de atos desprezíveis horrorizam porque agem.
Então, o palhaço besta, que faz besteira,
merece vaia e as costas. Melhor ainda, que o seu circo de horrores feche por
falta de público.
Ô ridículo por ofício, fede a formol esta
trova rasa.
Atchim!
Para não chorar pelos turcos na Síria
à espera dos bárbaros nem chorar pelos russos na Síria à espera dos bárbaros,
como interromper o fluxo? Será que os bárbaros estão parados pra pensar?
Nem estrondo nem suspiro? É hecatombe,
o espirro.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 08 de março de 2020.