Não
alimente o dragão
Queria
me entender comigo, mas nem sempre me agradam as respostas. Às perguntas
tortas, tortas respostas. Falho ao querer me compreender, pois configuro apenas
a caricatura da pessoa que penso que sou. E queria não temer tanto, mas as
cobertas não deletam a madrugada que brota em meus ossos.
Quanta
comiseração. Melhor mudar a prosa, estão de olho no que é dito. Até em
pensamento, espiam. E em rede.
A
cabeça, então, torna-se a prioridade. Não caí da cama, perdi o sono. Viro de um
lado para outro. Puxo a manta. Ajeito o travesseiro. Vou ao banheiro. Olho a
hora. Tiro a manta. Vou beber água. Olho o celular. Afofo o travesseiro. O
lençol não esconde o esqueleto. É tal incômodo, a cabeça.
A
cabeça abarrotada de lutas. Tantas batalhas perdidas. A guerra da vida pela
vida viraliza vítimas. Uma delas perdeu o sono. Não tem a esperança de que os
vencedores venham a se declarar vitoriosos. Como sempre, a ganância os impede
de lacrar às claras. Rastreiam o vírus. E cobram a fatura pelo que já um dia
foi faturado. É a internet das coisas?
A
cabeça percebe que dentro dela está crescendo uma massa esquisita. Um troço que
imagino horrível. E a gororoba me dá a sensação de ter um cheiro nauseabundo. É
pegajosa. Intromete-se nas palavras. Espalha-se pelas ideias. Grudenta.
Nada
invisível, a coisa me quer ausente. Mas...
Cabeça,
não faça perguntas. Ou terá de respondê-las.
A
surdez da obediência nem pede quem a ordene. A ordem da cegueira nem precisa de
quem a oriente. O mudo se faz de calado para mais bem não se ouvir. A mácula do
inocente está na perna curta das conveniências. Falso pirata, e bucaneiro de
primeira. Mas carnaval a vida toda? Maldição!
Tomado
por uma decisão, irei mesmo aonde todo mundo que conheço sabe que pode fazer. Já
está decidido, e farei. Irei lá, sem medo. E sem hesitação alguma. Largarei o
abismo do sonho tornado pesadelo naquela lixeira. Não irei apedrejá-lo. Preciso
socar o peste. Darei as pauladas necessárias, até que suma ali. Vou marretá-lo
com convicção. Mas algo me diz que isso vai me complicar. E quanto mais penso
no que pretendo fazer, mais a coisa cresce. A fúria alimenta a desgraça? O ódio
fortalece o monstro? O ruim da cabeça escapa da caçamba para ir comigo por todo
canto? Não seria melhor mergulhar o corpo na vala já coberta de mato? Então,
viriam os curiosos de sempre. Achariam o afogado naquela baba nojenta. Com medo
de contaminação, porém, não tocariam na carcaça podre. A face do asco me faz
acordar. Contido a tempo, quebro o taco de beisebol que nem é meu.
Ê
cabeça, cabeçona, cabeçorra. Ê cabeção.
Sem
querer, encontrei o bicho que vive para me fustigar. A fera que me enoja quer
mais que me finja de morto. O poder de fogo da besta está nas cinzas de sua
passagem. Por causa do perigo, vou arrumar uma placa.
Caramba...
Justo agora, a bateria está por um fio.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 13 de agosto de
2019.