Sexo,
amor?
Sexo. Com um friozinho na barriga. O
coração vem à boca pelas palavras maviosas que desabrocham com a voz melíflua.
Afora os trejeitos afetados. Tanto açúcar no cérebro, o excesso afeta a mão que
entrega o cartão, o meu.
Sexo. Falta chão para sentir o café
derramado na calça. O enlevo que me embala, pelo perfume que nem sei qual seja,
é sonho que me consome. Padeço da atenção que lhe devoto.
Sexo. Os olhos chegam a lacrimejar
quando a musa entra na livraria, atrás de um presente para sua cara-metade. Como
se ela, a garota dos painéis espalhados pelo Brasilzão, viesse do Olimpo para
curtir a Praia do Forte. Preciso de folga.
Sexo. O choque de mil volts dá-se
quando os nossos braços cometem a imprudência de uma resvaladinha ao querer pegar
o pacotão de fritas na gôndola. Com a plateia contida por dois brutamontes de
firma especializada, vindos do Rio. Deliro.
Sexo. Alguém teve a ideia maravilhosa
de botar o último CD lançado. A divina endiabrada rebola para escapulir dali
num pé. Afinal, quero os holofotes sobre a minha estafa ou não?
Sexo. Não vou ficar vendo o mesmo clipe
o resto da tarde. Que o crepúsculo traga a noite que se condensa com Sangue de Coca-Cola. Quero mais é
mergulhar nas histórias que me alimentam os cães da fantasia que fazem festa
comigo.
Sexo. Não ligo a TV, não acesso a
internet e não capitulo de celular em punho. Resisto à perdição do momento. A
prioridade do instante? Avançar no capítulo que estou quase acabando.
Sexo? Sexo nada. Nada?
Amor, pega para mim aquele pacote de
fritas que está ali na parte de cima? Pego, meu amor. Empurra o carrinho, a lista
na mão: lado a lado. Pessoas que dividem os afazeres domésticos, curtem cerveja
no gargalo, e vão de luz acesa ou apagada. Tais personagens bem poderiam viver
no prédio.
Amor, e sem medo posso dizer que é
amor?
Amor é o que sinto quando acordo e
corro ler o que escrevi na noite anterior. Há textos que sobrevivem ao sono,
capazes do sorriso sereno, encorajador. Contudo, outros há que travam mal
começo a leitura com meus olhos desanuviados. A ambos, porém, preciso provar
que os amo, dando a demão do legível.
Amor, e amor daqueles que contamina a
gente que nem me conhece direito. Em lançamento de obra alheia, tomando como se
fosse minha, me pede uma foto exibindo o livro. Por mim, é um sinal do amor.
Tem também o amor aflito, porque não
fiz a solicitação de reserva. Toma as minhas pernas, controla meus pés e me faz
engolir a distância de casa até o sebo. Uns dois quilômetros, por aí, venço-os
num súbito. Todo esbaforido, suado. Com as ondas de cansaço e com o esgotamento
dos nervos e tendões, testa-me a carne cinquentona. No entanto, o título capital
para o andamento da fabricação do próximo romance ronrona no meu colo. Já posso
bebericar o cappuccino. Além da capa, este amor palpita.
Amor... E quando rola sexo, então?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 01 de agosto de
2019.