A
reforma da providência
Como parece enxergar prender e aprender em apreender, ignorando
que é preciso desbravar o caminho para entender-se com os contraditórios da
metafísica, diz o pai:
─ Sem embromação, vamos falar direto
às pessoas.
Contas feitas, malas desfeitas,
viajando com o DESCONFIE DA CONFIANÇA afixado na porta, diz a mãe:
─ Direto à realidade, à leitura da
realidade, ao que se lê?
Sem reconhecer que, de 1995 a 2018,
foram mortos no Brasil, em função do exercício da profissão, 64 profissionais
da comunicação, tantos pingos para um
mísero i?, o pai diz.
Como, pergunta-se a mãe, uma personalidade
ganha nome, sobrenome e toda uma vida de renome?
Amiga angustiada e amofinado amigo não
culpem os pobres semáforos, as humílimas lombadas eletrônicas, os desterrados
radares móveis ou as extemporâneas câmeras de toda sorte. É preciso dizer que
muita infração cometida é da pessoa que, ao volante, age como um espécime
jurássico. Além do mais, ilude-se quem acredita que esteja colaborando para a
punição do cidadão ou da cidadã ao invocar o deus do trânsito.
No comando da envenenada motoca
mental, e sem ligar de ficar feio na foto, o pai diz que gente ordeira não faz bagunça.
Já que precipitação e superficialidade
não a caracterizam, e estando de olho no caminhão de postagens que, uma atrás
da outra, congestionam as redes neuronais, certa de que a leitura superficial
não está necessariamente ligada ao suporte digital, porque o tamanho da tela de
um celular não é responsável pela fragilidade da leitura de quem lê, diz a mãe:
─ Tiro uma revelação ao confessor: realidade
é ficção.
O pai vai logo dizendo: Saco! Ficar lendo com lupa. O tempo urge! Que
o digam os 62 dias de pauleira na CCJ para admitir constitucional o projeto da
reforma da Previdência.
A mãe emenda que não dá para ignorar
as letrinhas.
Bastante incomodado, o pai dispara que
os insatisfeitos de sempre, os chatos, é que ficam pinçando pinta fora do lugar
em gêmeos univitelinos, isso é perder
tempo, coisa & tal.
Sem abdicar de parágrafos, incisos e artigos,
diz a mãe:
─ Não é conveniente conjecturar sobre
o que se lê? Coisa & Tal, colhe desavenças quem semeia conflitos? Sei...
Otário não leva livros no bolso; só o celular. Novidade...
Pouco familiarizado com bulas, o pai tasca
aviar receitas:
“Melhor evitar a aventura dos
mergulhos profundos porque a pressão só aumenta à medida que vamos descendo
para ir lá escarafunchar a lama. Daí, texto lido com microscópio mostra o batalhão
de bactérias, de coisa esquisita... Quem tem pavor de bicho é que sofre uma
barbaridade. Que doideira isso daí!”
Paulistanos da Paulista, dentro de mim
mora um bicho que me dá forças para parar um tantico nesta parada domingueira. Quando
me quero asfixiado, tinhoso de magrela,
apeio-me na minha, porque, na manha, não pedalo para viver pedalando.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2019.