Conversando
com fantasmas
De vez em quando, para respirar ares
mais carregados de descaminhos, becos sem saída, quebradas que dão na alegria,
preciso sair da vida encantada das palavras. E vou indo por aí, para fora do
mapa mental que me seduz enquanto aprisiona, a me convencer de que a liberdade
abstrata é mais concreta que a realidade do mundo. Para ter vida no mundo:
tenho de anotar o número da linha ou não irei aonde quero comprar um livro; ou
espero minha vez ou me mandarão passear sem ter comprado a casquinha de
chocolate; ou me comporto como os demais ou pago pela consulta com o médico que
escolherei.
Mas é perturbador. Volto voando, prefiro
o mundo da lógica milimétrica de quem conhece os cálculos pelos números que
representam o cotidiano. Na ficção, a realidade faz sentido. E nela, o herói da
nossa gente, um pobre, não passa de vítima, e sofre por querer sentir o
gostinho da boa vida dos afortunados. Para quê? Para morrer no final, com tiros
ilegítimos e ilegais.
Textos, assim, são mesmo literatura. Na
real?
Quem investiga e acusa não julga. Quem
julga não investiga nem acusa. Um Ato Institucional do STF, quem diria...
Chamam-se visionários os que lutam por
mim e iluminam o caminho para que esteja organizado com meus semelhantes ─ pessoas
dramaticamente livres, mas não libertas. Merda! Isso nada tem de humanismo, tem
vícios, muito de autoritarismo.
Então, cretinas e cretinos, não é
comigo servidão voluntária. Faço questão do entendimento. Pois a política é raiz
do que me faz agente e paciente de mim, das pessoas e das conjunturas. Estou
com o Agualusa, livros são territórios de
debate. Se um livro não servir para fazer pensar no presente, na sociedade em
que se vive, então serve para quê?
No livro da vida, há quem ceda às
redes sociais a condição de tribuna livre, porque as pessoas expressam as
vontades por via direta e imediata. Peralá, botecos são comitês do povo?
Foge o recanto das muitas lindezas... Mas
a serenidade luz na alma o espírito que achei perdido de mim. O que me impede de
ter asas? Pés e mãos, na labuta diuturna de quem sonha.
Sorrio, a mão conversa com o papel. Conversando,
penso. A voz que se pronuncia sabe do chão ao caminhar. E pouco sei da
fraternidade descalça que existe para além da possibilidade. Mas entra o acaso
na probabilidade que revigora, alimenta, me recompõe a dizer o que digo, entendo
e compartilho. Quero acreditar na pessoa que julgo ser. Quero confiar no desejo
do que quero.
E tanto está por vir. Conseguirei
chegar a mim? E vou estar lúcido, inteiro, coerente? Que me falhem as palavras,
que erros me enlouqueçam, me condenem as culpas. Estou a caminho.
Um passo a distanciar-se do passo dado?
Quanto mais vou para lá, mais venho para
cá. Porque estou onde estou, e lutando com as palavras. Bem aqui. E onde é?
É o instante do amor. Em construção
permanente.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2019.
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