terça-feira, 26 de março de 2019

Conversando com fantasmas



Conversando com fantasmas

De vez em quando, para respirar ares mais carregados de descaminhos, becos sem saída, quebradas que dão na alegria, preciso sair da vida encantada das palavras. E vou indo por aí, para fora do mapa mental que me seduz enquanto aprisiona, a me convencer de que a liberdade abstrata é mais concreta que a realidade do mundo. Para ter vida no mundo: tenho de anotar o número da linha ou não irei aonde quero comprar um livro; ou espero minha vez ou me mandarão passear sem ter comprado a casquinha de chocolate; ou me comporto como os demais ou pago pela consulta com o médico que escolherei.
Mas é perturbador. Volto voando, prefiro o mundo da lógica milimétrica de quem conhece os cálculos pelos números que representam o cotidiano. Na ficção, a realidade faz sentido. E nela, o herói da nossa gente, um pobre, não passa de vítima, e sofre por querer sentir o gostinho da boa vida dos afortunados. Para quê? Para morrer no final, com tiros ilegítimos e ilegais.
Textos, assim, são mesmo literatura. Na real?
Quem investiga e acusa não julga. Quem julga não investiga nem acusa. Um Ato Institucional do STF, quem diria...
Chamam-se visionários os que lutam por mim e iluminam o caminho para que esteja organizado com meus semelhantes ─ pessoas dramaticamente livres, mas não libertas. Merda! Isso nada tem de humanismo, tem vícios, muito de autoritarismo.
Então, cretinas e cretinos, não é comigo servidão voluntária. Faço questão do entendimento. Pois a política é raiz do que me faz agente e paciente de mim, das pessoas e das conjunturas. Estou com o Agualusa, livros são territórios de debate. Se um livro não servir para fazer pensar no presente, na sociedade em que se vive, então serve para quê?
No livro da vida, há quem ceda às redes sociais a condição de tribuna livre, porque as pessoas expressam as vontades por via direta e imediata. Peralá, botecos são comitês do povo?
Foge o recanto das muitas lindezas... Mas a serenidade luz na alma o espírito que achei perdido de mim. O que me impede de ter asas? Pés e mãos, na labuta diuturna de quem sonha.
Sorrio, a mão conversa com o papel. Conversando, penso. A voz que se pronuncia sabe do chão ao caminhar. E pouco sei da fraternidade descalça que existe para além da possibilidade. Mas entra o acaso na probabilidade que revigora, alimenta, me recompõe a dizer o que digo, entendo e compartilho. Quero acreditar na pessoa que julgo ser. Quero confiar no desejo do que quero.
E tanto está por vir. Conseguirei chegar a mim? E vou estar lúcido, inteiro, coerente? Que me falhem as palavras, que erros me enlouqueçam, me condenem as culpas. Estou a caminho.
Um passo a distanciar-se do passo dado?
Quanto mais vou para lá, mais venho para cá. Porque estou onde estou, e lutando com as palavras. Bem aqui. E onde é?
É o instante do amor. Em construção permanente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2019.

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