quinta-feira, 21 de março de 2019

Está na cara



Está na cara

Sabiá canta bonito. Num pé, eis-me na sacada, para ver o bichinho. E como manda bem o danado. Quando canta o sabiá, gosto para dedéu. Disponho do tempo para desfrutar do canto. O artista ignora a plateia, daí se esmera, capricha, pontifica.
Estrela inteligente que é, o ornitóptero tem lá estratagemas.
Para dirigir forças para estufar o peito, trata de imobilizar-se. Meu olhar vira sonar. Suspendo a respiração, como quem tem na manga um full house. Se soubesse fazer cara de jogador de pôquer, seria matador. Entretanto maioral, ele corta o baralho, dá as cartas e canta vitória.
Não sou de parar muito tempo no lugar. A ansiedade tira de mim a ilusão de estátua. Quero, rápido, consumir a beleza da maviosidade eloquente. Mas, para tanto, preciso ter a imagem inteira do corpito exibido, na estirpe da plumagem toda. Ave!
Acho-o, o meu Sinatra das Palmeiras. Deste aqui, os olhos azuis são, verdade seja dita, o corpo preto salpicado de branco nas asinhas bailarinas. Que ele todo canta, de fato, no balanço de prodígio. Tão hipnótico, nem prendo a baba do fã.
Localizo e meço, o passarinho. Menos o sentido do que ele diz por música. Ser de outra espécie, um bípede sem plumas, carregado de penas incomunicáveis, só observo. E sei comer com os ouvidos a iguaria que a natureza produz.
A solidão é minha. Por incapacidades minhas, nem dá para compartilhá-la com meus semelhantes, que dirá com quem tem outras prioridades. Assento a digressão aqui. Entendo tal falta de comunicação interespécies como falha de comunicação e não como sintoma de algum abismo emocional que me possa controlar as faculdades mentais. Se estou emocionado?
À espera do canto do sabiá, há um cheiro que me captura. É outra pepita que nem dá por mim debruçado no que inalo. É perfume que nem sabia que desejava inalar. Inspiro fundo.
E vem da planta na qual está pousado o passarinho.
Ouço, deliciado. Sinto, arrebatado. Sabiá e Dama-da-Noite.
Se estivesse com o celular nas mãos, fotografaria. De perto, dando zoom. De longe, para situar o sabiá nas circunstâncias em que acontece a cantoria. Sim, é um acontecimento.
Para o dia seguinte? Quero ir ao Portinho. Dane-se o bom senso de fazer supermercado, de pagar contas na lotérica, de não furar a consulta no oculista. Portinho, sempre, Portinho.
Que beleza! Ficar de papo com o mato, minúscula ilha entre edifícios, é uma panaceia que apaga da mente a realidade.
Então, preservemos a natureza. Cultivemos o amor natural.
E o sabiá? O sabiá não passa de um reles trinca-ferro que está louco para transar. Sou prontamente informado pelo dono da Dama-da-Noite. De língua afiada, o sujeito chega ralhando com a bicharada que bica as frutas no pé, espalha folhas pelo quintal e emporcalha a piscina.
Arre! Dou asas ao vetusto?
Como todo preconceito é óbvio, meu sabiá segue cantando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 21 de março de 2019.

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