Está
na cara
Sabiá canta bonito. Num pé, eis-me na
sacada, para ver o bichinho. E como manda bem o danado. Quando canta o sabiá,
gosto para dedéu. Disponho do tempo para desfrutar do canto. O artista ignora a
plateia, daí se esmera, capricha, pontifica.
Estrela inteligente que é, o
ornitóptero tem lá estratagemas.
Para dirigir forças para estufar o
peito, trata de imobilizar-se. Meu olhar vira sonar. Suspendo a respiração, como
quem tem na manga um full house. Se soubesse
fazer cara de jogador de pôquer, seria matador. Entretanto maioral, ele corta o
baralho, dá as cartas e canta vitória.
Não sou de parar muito tempo no lugar.
A ansiedade tira de mim a ilusão de estátua. Quero, rápido, consumir a beleza
da maviosidade eloquente. Mas, para tanto, preciso ter a imagem inteira do
corpito exibido, na estirpe da plumagem toda. Ave!
Acho-o, o meu Sinatra das Palmeiras. Deste
aqui, os olhos azuis são, verdade seja dita, o corpo preto salpicado de branco
nas asinhas bailarinas. Que ele todo canta, de fato, no balanço de prodígio.
Tão hipnótico, nem prendo a baba do fã.
Localizo e meço, o passarinho. Menos o
sentido do que ele diz por música. Ser de outra espécie, um bípede sem plumas,
carregado de penas incomunicáveis, só observo. E sei comer com os ouvidos a
iguaria que a natureza produz.
A solidão é minha. Por incapacidades
minhas, nem dá para compartilhá-la com meus semelhantes, que dirá com quem tem
outras prioridades. Assento a digressão aqui. Entendo tal falta de comunicação
interespécies como falha de comunicação e não como sintoma de algum abismo
emocional que me possa controlar as faculdades mentais. Se estou emocionado?
À espera do canto do sabiá, há um
cheiro que me captura. É outra pepita que nem dá por mim debruçado no que inalo.
É perfume que nem sabia que desejava inalar. Inspiro fundo.
E vem da planta na qual está pousado o
passarinho.
Ouço, deliciado. Sinto, arrebatado.
Sabiá e Dama-da-Noite.
Se estivesse com o celular nas mãos,
fotografaria. De perto, dando zoom. De longe, para situar o sabiá nas
circunstâncias em que acontece a cantoria. Sim, é um acontecimento.
Para o dia seguinte? Quero ir ao
Portinho. Dane-se o bom senso de fazer supermercado, de pagar contas na
lotérica, de não furar a consulta no oculista. Portinho, sempre, Portinho.
Que beleza! Ficar de papo com o mato, minúscula
ilha entre edifícios, é uma panaceia que apaga da mente a realidade.
Então, preservemos a natureza. Cultivemos
o amor natural.
E o sabiá? O sabiá não passa de um reles
trinca-ferro que está louco para transar. Sou prontamente informado pelo dono
da Dama-da-Noite. De língua afiada, o sujeito chega ralhando com a bicharada
que bica as frutas no pé, espalha folhas pelo quintal e emporcalha a piscina.
Arre! Dou asas ao vetusto?
Como todo preconceito é óbvio, meu
sabiá segue cantando.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 21 de março de 2019.
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