domingo, 5 de maio de 2019

A reforma da providência


A reforma da providência

Como parece enxergar prender e aprender em apreender, ignorando que é preciso desbravar o caminho para entender-se com os contraditórios da metafísica, diz o pai:
─ Sem embromação, vamos falar direto às pessoas.
Contas feitas, malas desfeitas, viajando com o DESCONFIE DA CONFIANÇA afixado na porta, diz a mãe:
─ Direto à realidade, à leitura da realidade, ao que se lê?
Sem reconhecer que, de 1995 a 2018, foram mortos no Brasil, em função do exercício da profissão, 64 profissionais da comunicação, tantos pingos para um mísero i?, o pai diz.
Como, pergunta-se a mãe, uma personalidade ganha nome, sobrenome e toda uma vida de renome?
Amiga angustiada e amofinado amigo não culpem os pobres semáforos, as humílimas lombadas eletrônicas, os desterrados radares móveis ou as extemporâneas câmeras de toda sorte. É preciso dizer que muita infração cometida é da pessoa que, ao volante, age como um espécime jurássico. Além do mais, ilude-se quem acredita que esteja colaborando para a punição do cidadão ou da cidadã ao invocar o deus do trânsito.
No comando da envenenada motoca mental, e sem ligar de ficar feio na foto, o pai diz que gente ordeira não faz bagunça.
Já que precipitação e superficialidade não a caracterizam, e estando de olho no caminhão de postagens que, uma atrás da outra, congestionam as redes neuronais, certa de que a leitura superficial não está necessariamente ligada ao suporte digital, porque o tamanho da tela de um celular não é responsável pela fragilidade da leitura de quem lê, diz a mãe:
─ Tiro uma revelação ao confessor: realidade é ficção.
O pai vai logo dizendo: Saco! Ficar lendo com lupa. O tempo urge! Que o digam os 62 dias de pauleira na CCJ para admitir constitucional o projeto da reforma da Previdência.
A mãe emenda que não dá para ignorar as letrinhas.
Bastante incomodado, o pai dispara que os insatisfeitos de sempre, os chatos, é que ficam pinçando pinta fora do lugar em gêmeos univitelinos, isso é perder tempo, coisa & tal.
Sem abdicar de parágrafos, incisos e artigos, diz a mãe:
─ Não é conveniente conjecturar sobre o que se lê? Coisa & Tal, colhe desavenças quem semeia conflitos? Sei... Otário não leva livros no bolso; só o celular. Novidade...
Pouco familiarizado com bulas, o pai tasca aviar receitas:
“Melhor evitar a aventura dos mergulhos profundos porque a pressão só aumenta à medida que vamos descendo para ir lá escarafunchar a lama. Daí, texto lido com microscópio mostra o batalhão de bactérias, de coisa esquisita... Quem tem pavor de bicho é que sofre uma barbaridade. Que doideira isso daí!”
Paulistanos da Paulista, dentro de mim mora um bicho que me dá forças para parar um tantico nesta parada domingueira. Quando me quero asfixiado, tinhoso de magrela, apeio-me na minha, porque, na manha, não pedalo para viver pedalando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2019.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Empenho



Empenho

Como a crise anda feia para caramba, com mais de 60 mil homicídios num ano, recomendável é evitar bagunça e evento ridículo. Assim, a festa do cabide que iria oferecer a mendigas e mendigos sofreu cancelamento. Quando soube, ô alegria!, o prédio voltou a dar o bom-dia que a gente bem merece ouvir.
Em razão do guarda-roupa modesto, leitora solidária e leitor compadecido, estou ocupado em doar os cabides que pendurei lá na loja de conhecida minha. Alerto que, como tive mesmo de abrir mão da bicicleta por absoluta falta de potássio no corpo, pois me vi aceito neste grupo dos 13,4 milhões de brasileiras e brasileiros que, súbito, passaram a ter um apreço considerável pelas redes sociais, a retirada é no local. Portanto, corram.
E de onde é que tiro energia para viver? Protegido por meus óculos, encaro a vida de frente. E há um confronto que não se pronuncia. Passo os olhos pelo cenário. Preciso sentir o mais que posso o que o mundo me esconde. A mim nada me fala a sua linguagem dos sinais. Mas, coruja perspicaz, percebo que externar minha ignorância daria a impressão de que avalizo o que me avalia ignorante. Não vou cair no buraco que cavo com minha língua. Prefiro tirar à fortuna o cara ou coroa dos meus fracassos. Mesmo que o medo ou a ansiedade causem tantos estragos, dissimulo outras afetações. Para medrar como quero.
Não pago pela vela que me leva apagado à chama de quem me chama. Querem-me dizimado? Querem-me alquebrado?
Na luta, leio e escrevo para mais bem me apreender.
Escolho os fatos que revelem o homem cujos feitos menos me contradigam. Busco refúgio em mim. Pelo que passei, pelo que tenho passado por aí, reflito sobre o que me reflete. Sem o passivo da descoberta de achar no bucéfalo o bucelário, há que se revelar um desconhecido que veicule o factível.
Jogo com as palavras?
Jogo. Não para superar as contradições, mas, para adensá-las, agudizá-las. Pelo divertido, o lúcido da aposta bem sabe a instrutivo quando, por elas, dou lume ao irritante da máscara. Problematizo, para mascarar o que me faz risível.
Concordo com o escritor Anzanello Carrascoza que propõe: “se você escreve, é porque está ali sentindo sua existência e compartilhando com quem está ao redor”. Existo, e transbordo tal vivacidade que, para a minha mais cívica tristeza, constato que, feito campo de araucárias refratário à presença humana, é uma pena que não posso compartilhar as minhas leituras com nenhum desses presos que estão algemados em viaturas pelo Brasil afora. A Lei de Execução Penal? Ai, ai... As leis...
O sentimento de culpa é a Medusa a me avivar as neuroses. Aprendiz de mil mestres em conflito, desejo mais é viver 30% contingenciado. Ou os cobras da Economia vêm me cobrar o quinhão que tenho para vender ou deitarei na pista principal de Congonhas. Afinal, felicidade tem preço.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de maio de 2019.

terça-feira, 30 de abril de 2019

O aprendiz


O aprendiz

Por me atraírem os simplórios que não se preocupam com o próximo passo, olho onde piso, busco serenar os meus ânimos, ouço o que o mundo tem a dizer. Sem me afogar na correnteza dos acontecimentos, desmonto e remonto suas evidências. Por isso, à realidade dou crédito pela vida que posso experimentar.
Impressionado, leio o que acabei de escrever e assino com a hesitação de costume. Porventura, tal veredito faz sentido ao predizer o uso da razão frente às coisas do dia a dia?
Abismado pela entrevista do neurocientista Ricardo Oliveira publicada no Estadão do dia 26 de abril, a pouco e pouco pela leitura, fui-me descobrindo que, porque tenho emoções morais como culpa mas não me adapto às relações sociais, tenho um distúrbio de personalidade que me põe em desvantagem com quem vive numa boa com o mundo ao seu redor. Porém, o que não se disse é que, feito um misantropo que se apieda, abrindo as janelas para o sol da manhã, tomando um copo de leite bem quentinho na hora de dormir e submetendo-me a horas e horas de psicoterapia, hei de me endireitar, ter uma vida adaptada e produtiva. Confiança é a estrada para a vida nova. Oba!
Admito que gosto muito quando leio conceitos e julgamentos que me contrariam o senso. Desafinam meu cérebro, desafiam a minha mente. Uau! Deito fora a compostura, solto a língua ao passar ao papel o que desejo tecido com o que não sei, porque inédito até o momento em que as palavras passam a vestir tais ideias com o que vai sendo escrito enquanto experimento dar existência ao que penso estar sentindo ao estar sentindo o que penso. Se não desconfio de mim ao me pôr ao natural?
Confessar não é abrir-se à palavra como quem abre o peito para mostrar ao mundo o coração em perfeito funcionamento. Quem se confessa, se humilha. Sem o freio do pudor, dizer o que vai pelo pensamento é abrir mão da própria intimidade. A mim me parece, porém, que a pudicícia não me quer: discreto; acessível a poucos; a me revelar afetado, calculado e fingido.
A vida pede o inventor de mentiras que soem convincentes?
Entrego o jogo, boio nas memórias que mais me convencem de que estou recordando o que me magoa. Machucado, aceito as muletas alheias. E é com essa dor de existir, escolhida para mim, que narro as peripécias de cão velhaco. Ainda mais que sarna inventada também coça...
Com as limitações bem delineadas, preciso aprender a tirar do fundo do baú o que me foge ao entendimento. E, numa hora dessas, o que poderia ocorrer se prendesse a respiração por um tempão e fechasse os olhos com força extrema? Sei, não.
Só digo não achar extravagante nem tampouco inverossímil querer ir de mãos dadas com Montaigne, porque a novidade de uma coisa, mais do que sua importância, incita-nos a procurar-lhe a origem.
Viver é aprender a dar razão a quem não tem?
Acordados, malucos e cachaceiros teimam não acordar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2019.

domingo, 28 de abril de 2019

Cores vivas


Cores vivas

Biologicamente, sou um ser movido à energia limpa, elétrica e cerebral, cuja fonte, para me preservar operante em razoável funcionamento, procede da digestão de materiais orgânicos de origem animal, vegetal e artificial.
Assim, além do sonoro palavrão que o recato aconselha-me a não digitar, assinalo que tomo um susto ao ler que Angra 3 nos sublimou R$ 7 bilhões e, vibrando pela sobrevivência desta unidade, a Eletronuclear ferve pelo dobro.
Agora, leio a matéria de Edison Veiga no portal BBC News a respeito das preocupações ambientais de cientistas europeus, pois, nas terras do segundo maior parceiro comercial do Brasil, há apreensões com o que o governo faz com o Meio Ambiente.
De acordo com dados de 2018 do Ministério da Economia, nossas exportações para a União Europeia chegaram a R$ 42 bilhões, ou 17,56% do total exportado pelo país.
Ressaltemos que a carne corresponde a US$ 500 milhões, o minério de ferro a US$ 2,9 bilhões, o cobre a US$ 1,5 bilhão. Segundo a FAO, órgão da ONU para assuntos de alimentação, a pecuária é responsável por 80% do desmatamento do Brasil.
Para não importar o nosso desmatamento para dentro das suas casas, 602 cientistas de todos os 28 países membros da União Europeia publicaram carta na Science, no dia 26 de abril, solicitando às autoridades do Velho Continente “a defesa da Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas; a melhora dos procedimentos para rastrear commodities no que concerne ao desmatamento e aos conflitos indígenas; e a consulta e obtenção do consentimento de povos indígenas e comunidades locais para definir estrita, social e ambientalmente os critérios para as commodities negociadas”.
Diante do exposto, e sensibilizado com o nosso presidente, pela coragem ao denunciar como falsas verdades as supostas notícias, certo de que procedo com dignidade ao exercer o meu direito de agir com autonomia, vou com os que o apoiam nesta sua exortação de menos cubismo, que enquadra a realidade.
Como, de fato, a verdade que liberta é a do olho que vê pela perspectiva das curvas, prefiro entender que retas resultam nos quadrados que murcham este brasileiro, logo a mim que estou mais para abacate do que melancia.
Todavia, sem deslumbramentos com os arcos-íris da vida, o súbito tira o ar que respiro e acabo roxo de raiva quando tomo conhecimento da última pesquisa CNI-IBOPE. Este inquérito de opinião da nossa gente esfrega na minha cara que os 48% das pessoas entrevistadas acham supimpa o que o governo anda aprontando com o Meio Ambiente. Só 48%!
Santo de casa não faz milagre? Não amarelo, não.
Por isso, faço justiça aos 51% que saúdam positivamente a Educação e, no histórico do MEC, trato de pintar de azul esta leitura fabulosa da agenda que os governantes fazem circular.
Afinal, 51 desce redondo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de abril de 2019.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A pedra do destino



A pedra do destino

Quem nada espera, nada alcança? Quando a alegria vence o medo que assombra o trabalhador, pouco importa a redução de danos dos terceiros? Não espero que ajam, ajo.
Então, o Estadão informa que, dos quinze segmentos industriais avaliados pela FGV, dois, o de papel e celulose e o farmacêutico, estão operando acima da média dos últimos meses, mais 43 mil ficarão sem emprego desde março.
No dia 15 de abril, na Folha, Ronaldo Lemos pergunta sobre quem vigia os vigilantes que têm a obrigação moral, mas não a legal, de zelar pelo sigilo de cadastros dos contribuintes, porém 2,4 milhões de dados do SUS vazaram...
Quem inspeciona quem valida notas, informações e que tais que vivem sendo transfiguradas em notícia no mundo dos sítios mutantes e das folhas impressas?
Não desempenho o papel. É você?
De tão pesada, a carga da realidade foge dos trilhos, invade a boleia dos caminhões, desaba nas sarjetas das cidades. Mas para nosso alívio, célere porque sem licitação, o Ministério da Cidadania quer a abstinência da nossa gente, por isso já está fortalecendo as burras de 496 entidades religiosas que seguem o bê-á-bá oficial sobre a dependência química, isto é, R$ 153,7 milhões do erário acodem já esses humanos direitos.
Como o caos está disfarçado de inferno, melhor é abordar diretamente o inconsciente: o que existe de atual no futuro é o mesmo que há no passado, é o instante que se faz presente no momento que passa para poder-se passar ao próximo instante. Além do instante? De igual para igual, um segundo basta ao Z para intuir-se em ideias, valores, propósitos. Para ir fundo...
Que felicidade quando o pensamento casa bonitinho com as palavras que o expressam. Matei o pensamento? Nada. Agora, é parte do jogo buscar outro modo de dizer a mesma coisa, só que usar outras roupas acaba destacando o manequim, pelas medidas e pelo porte. As palavras, umas engraçadinhas, para dizer o dito: de coturno, bota ou botina? Ainda bem que nossa língua ignora sinônimos perfeitos. Então, leitora amiga e leitor amigo, variações semânticas fingem similaridade com tamanho empenho que a leitura empolgada faz uso da máscara do igual, como uma aproximação entre significados.
Claro que entendo, sei, é uma obsessão, a tal da ideia fixa. Como espelho, a cara do obsessivo fixa ideias. Leio-me.
Opinião vira notícia quando ofende, difama ou calunia. Em outras palavras, opinião não é falsa nem quando é fato.
Moralidade é escolha. Para perorar por silogismo: a ação é histórica. Ou seja, pondo outra roupa nesta ideia: a ação a cujo valor corresponde o que faço é que ganha corpo enquanto é executada. Ou seja, para deixar claríssimo que dou voltas com as palavras: realizada a ação, o valor existe.
Vou facilitar o bordado com o fio do pensamento: faço mal a quem quero, da forma que desejo, sabendo que as leis estão aí na praça para me impedir as malfeitorias. Porém, solitário que sou, mostro o dedo do meio, para mais bem deixar evidente o quanto desprezo o lobo que me quer na alcateia.
As leis definem o inimigo. Quero-o próximo, com o rosto na janela do bonde em que não viajo. Tenho pés, a mim me basta andar como quero. Sou do tipo de andarilho que não corre da chuva nem da geada, vou indo sem destino.
E daí?
Em matéria d’O Globo, nesta segunda-feira, dia 22 de abril, o repórter faz um relato sobre a quanto anda o museu a céu aberto que é o Rio de estátuas e homenagens em bronze.
Na Praça Nossa Senhora da Paz há guerra. A pobre menina dos balões sente no corpo a sua irrelevância: os balões, apesar de material denso e mais pesado que o ar, foram aos céus; as mãos, talvez aflitas com o verão tétrico dos 50ºC, optaram ir se recompor em outra paróquia; agora, foi-se uma das pernas...
O que isto quer dizer?
Mutilados ficamos todos nós outros que sabemos que nada é feito porque o descaso com a coisa pública é o patente sinal que indica que os símbolos da pátria, da nação, da sociedade, da comunidade, da brasilidade traduzida em metal estão fora da agenda das otoridades. Lamentável é saber que tais signos pouco representam a quem deveria guardar nossas emoções, nossas lembranças, nossas memórias traduzidas em bronze. O descaso, porém, atinge os artistas cujo talento torna palpáveis, e admiráveis, as ideias e os sonhos que nos identificam.
Gostemos ou não, as esculturas e os monumentos públicos têm a nossa cara, e dizem de nós o que pensamos sobre nós mesmos. Este abandono, ainda mais, põe a nossa cara para o tapa que as autoridades desferem em nosso rosto. E reagimos como? Com a indiferença dos analfabetos políticos. Quem tem de cuidar de patrimônio público é político, né? Não. Quem tem de cuidar de político, para fazê-lo trabalhar pela integridade da coisa pública, é o eleitor, que é cidadão, pagador de impostos e cumpridor de leis e regulamentos. Há que se exigir dignidade e honorabilidade aos administradores, e se eles não as têm para si, tenham-nas por nós, que não somos da sua laia, na falta de postura e na indigência moral dos que nos querem degradados e sintomáticos ao nível deles. Temos de vigiar estes que nada vigiam. Um celular pode ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem o apagão da negligência. Pois bem, quanto custa colocar câmeras para honrar o que pensamos sobre o nosso passado? Quanto vale vigiar por nós que, na labuta, acabamos presos ao cotidiano no qual seguimos eleitos desprezíveis aos olhos de quem não se ocupa do bem público, da coisa pública, da república. Ei, republicanos, quem dita o valor?
Sem respostas, mas cobrados pelo voto.
Mas, enfim, a Gerência de Monumentos e Chafarizes do Rio não pode cuidar dos 1.374 equipamentos públicos, pois, pelas leis patafísicas, o bronze evapora com o sol...
Melhor converter tudo em pedra.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de abril de 2019.




terça-feira, 23 de abril de 2019

Um complexo simples


Um complexo simples

De ofício, como titular desta ação cultural que desencadeia a presente, provoco a crônica do corrente dia, 23 de abril, a se manter equilibrada, racional o bastante para ter no bom-senso a Estrela da Manhã, como guia e farol. Afinal, porque vivo para escrever, sigo na rotina da leitura do mundo com os sentidos. No entanto, para transformá-la em texto capaz de ter quem o leia, recusarei vulgaridades, banalidades e obviedades, apesar de danado, o oficiante.
Despido da graça do riso fácil, do humor fleumático, do olhar irônico, tenho, ao menos, a petulância de querer-me atento aos sinais dos tempos. Embora tal entendimento não ande lá muito bem da veneta, trato de ir à flor dos nervos, sem invisibilidade.
Assim, tomo inevitável a conclusão que é melhor mesmo ir sozinho, afeito mais à discrição do observador do que dado aos gritos dos celerados, que, incapazes para dominar as próprias chamas, imolam-se a olhos vistos.
Com a licença necessária, estimada leitora e prezado leitor, volto à crônica anterior para dela pinçar duas passagens. Diz a primeira: se lambo o mundo com todos os sentimentos; diz a segunda: a enfermidade está na demasiada fraternidade.
Começo pela última. Pois, uma vez que valorizo sobremodo quem odeio, o meu ódio é para bem poucos. Procuro preservar a sanidade, construindo as distâncias que me permitam ficar na minha, retraído mas alerta. Afinal, quando estou na presença dos odiados, estou fora de casa e isto contamina o meu juízo.
É o desconforto do confronto que me faz passar por cima da indiferença. E me ponho vivo, de olho nas pessoas, curioso em saber o que pensam, pronto a interpelar o que dizem. O ódio é o filtro pelo qual separo o ruído de fundo, distancio-o do que preciso escutar com cuidado. Faço questão de ouvir. Para não perder uma vírgula, me aquieto. Retesando os meus neurônios e dispondo dos meus tímpanos para as sutilezas, percebo as entrelinhas nas pausas da respiração. E sem me deixar cair no entusiasmo, o ódio me resguarda do pior que há em mim, e me motiva a interpretar o contexto e a localizar quem fala.
Da escuta passo à argumentação, escolho as palavras, não falo por falar. Sem levantar a voz, mantenho a objetividade. E quanto mais a irritação me faz pensar contra a minha vontade, mais vou abaixando a voz, mais vou falando devagar. Mil vezes ficar quieto no rancor de pessoa incomodada com essas ideias alheias, mas é a mobilização da mente enfiada num corpo que reage à interação com objetos do ódio que me tira da inércia de permanecer mudo, posando de indiferente.
E...
Ao fim e ao cabo, todo este processo de repulsa me leva ao diálogo com quem menos quero papo. Amo odiar quem me faz vivo, a pensar as circunstâncias, a dar o melhor de mim, a me incentivar à discórdia, à discussão, ao debate.
O antagonista virar protagonista? Merda!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2019.

domingo, 21 de abril de 2019

Mão na cumbuca


Mão na cumbuca

Há 14 milhões de famílias brasileiras que recebem, e realço que devem continuar a receber, o Bolsa Família. É distribuição de renda, discutir sua importância deixou de ser passional, pois o consenso chegou. Triste é saber que a correção do valor do benefício não é efetivada porque iria aumentar os beneficiários. Mesmo assim, palmas a quem deliberou pagar o 13º do Bolsa, porque os pobres vão gastá-lo por necessidade e, certamente, com gosto, traduzindo R$ 2,58 bilhões em utilidades e serviços.
As pessoas têm este lado solar.
Mas a minha passividade diante das contradições do mundo me faz condescender com aquelas gentes que pegam pesado comigo, e fazem-no para extrair o mel que trago escondido no fundo da cumbuca. Quem me põe contra o muro bem sabe que tenho muito a entregar à sociedade, só que o camaleão é-me estado natural de adaptação. Sobrevivo sem maiores dores de estômago, busco a convivência pacífica, longe dos extremos.
Reconheço que há pessoas modernas, atuais, humanitárias, que muito se ocupam de indivíduos com esta minha índole; são seres iluminados pela compreensão. A mim me parece que tais cidadãs e cidadãos têm a determinação de caráter que faz com que tomem, com agilidade de raciocínio e facilidade de partilha, o partido dos direitos, porque ligam para as circunstâncias em que é preciso exercê-los ou exigi-los.
Se a menina veste-se com roupas de menino, precisamos respeitá-la na sua vontade, facilitar os hormônios masculinos e prepará-la psicologicamente para a mudança física do corpo. Principalmente, por ela ter sete anos.
Não há exagero, há cuidado. Uma criança é uma criança é uma criança? O homem saudável está na menina amparada. E quem tem idade para separar o joio do trigo não pode abraçar qualquer infantilização ideológica que não respeite a diferença. Se não existe o respeito, o preconceito prepondera. E quem se gaba de não ter pré-conceitos faz estúpido o seu humanismo.
Convenhamos, contudo, que o manejo do fogo ou o uso da roda são úteis e necessários para a civilização. A enfermidade, assim, está na demasiada fraternidade.
Radicalismos, fundamentalismos, extremismos, não importa a postura nos campos moral, político ou social, se têm raízes à direita ou à esquerda. Toda leitura exacerbada do mundo leva a uma hiperbólica atuação. Parece-me desperdício de revolta, sem, de fato, ir contra o quê e quem oprime e reprime.
No afã de ocupar um papel relevante, a destacá-las como pessoas compreensivas, antenadas com mudanças, propensas a revisões culturais, certas lideranças legítimas e legitimadas, e me refiro a líderes religiosos, comunitários, professores, pais e mães inclusive, nem sempre estão capacitadas para enfrentar os desafios da nova ordem psíquica.
Assumir tais postos com tal entrega de paixão? Sem que se retratem autoritários, casuísticos e preconceituosos, e não por falta de seriedade, estudo, aprofundamento, análise de dados e comprometimento com ideias das áreas de saúde, psicologia, psicanálise, filosofia e ética, que isso, o perfil desmesurado, se dá. Estas lideranças, ao adotar esta visão política da tolerância absoluta, tornam-se: menos gentis porque onipresentes; menos eficazes, por oniscientes; pela onipotência, menos razoáveis.
Daí, diante destes luminares, pessoas de carne e osso que lutam por vaga na creche, batalham pelo emprego na padaria da esquina, guerreiam pela sobrevivência no mundo de robôs, elas acabam desenvolvendo repulsa, ojeriza, ódio.
Todas as pessoas precisamos aprender a escutar. Sem nos afobarmos a ouvir o que não diz quem fala. Precisamos pesar o que alguém faz sem adiantarmos os efeitos. Precisamos ter que outrem é outra pessoa, que até age e pensa como nós.
Diferenças devem ser valorizadas e não padronizadas pela régua da nossa alma. Ou seja, o bem-estar social começa pelo respeito ao outro, passa pela sensatez no convívio com quem discorda da gente, entra pela lucidez ao expressar o que nos comove. E antes da opinião vem a escuta; da organização das ideias, a escolha das palavras; a argumentação pró e contra o que quer que seja. Sem tabus, mimimis, vitimização.
Aliás, com a barba de quatro dias para mais ficar parecido comigo, não fico down quando tomam meus olhinhos miúdos como dica do cromossoma encantado. No entanto, não aprovo infantilizar quem porta a Síndrome. O excesso de amor impede pessoas com trissomia de desenvolver-se, divertir-se, estudar, trabalhar, passear. Sem a proteção castradora dos virtuosos, o Down poderia viver menos angustiado, e mais feliz?
Distraído do lugar onde fui nascido, quero o Nansen em cuja foto reconheça a minha identidade, sem ficar bradando contra os muros a dividir troianos de gregos, taturanas de lacraias, as begônias dos crisântemos, os diamantes das cassiteritas.
Os fatos não mentem? Talvez. Ou muito me engano.
Todavia, procuro não agir feito um imbecil, nefasto e nocivo. Nem pondo um dedo a mais de bom-mocismo no que faço.
Por acordos semânticos, fico de olho na semântica. Pois só entendendo o que se diz é que monólogos são rompidos. Por conseguinte, dialogam uma pessoa com outra?
Se o modesto faz pouco do muito que pode, apenas farelos, sob a mesa, restam aos humildes. Como é?
O mel, pelo que capturo da vida ao meu redor, não o fabrico por hábito, mas pelo desejo de fabricá-lo. Às vezes, por prazer, nego-me a compartilhá-lo; às vezes, por descuido, sei ofertá-lo. Pessoa, se lambo o mundo com todos os sentimentos, colho o imperdoável ao não-esquecimento. Sou de me melecar.
Pois, riso ou lágrima? Ambos, que chego a adorá-los.
E é em nome da liberdade de pensamento e da liberdade de expressão que... nada tenho a dizer à vida. Digo aos vivos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2019.







domingo, 14 de abril de 2019

Compreensível


Compreensível

Em nota sobre o poema O que amarga, Flávio R. Kothe, tradutor e organizador d’A poesia hermética de Paul Celan, diz que a arte é concreta, singular, mas tem nela a elaboração peculiar do abstrato e universal, de um modo inacessível ao conceito. Ainda, o suicídio de Celan em 1970, ao fim e ao cabo, menos que um drama pessoal de um sobrevivente da Shoah, é visto mais como colaboração com o inimigo na guerra contra o terror de Estado praticado mundo afora.
Entendo. Mas: há artistas que, pensando-se a si mesmos, pensam para o outro; e outros há que, pensando-se pelo outro, pensam-se. Ambas as práticas trabalham a consciência, e isso independe da sua atuação, comunal ou egoica, a posteriori.
No papel virtual, corro às folhas. Soltas na realidade, a mim me dão suporte aos pensamentos que tomam o discurso pelas rédeas, em desenfreado jorro que afoga a lucidez na razão.
Na grita em que me calo, balbucia quem não se controla, vê em mim a brecha para ganhar neste mundo qualquer sombra que lhe sirva de veículo. Para manifestar-se em desacordo com os rumos do mundo. Como se buscasse o quê? O palco...
Desempenho meu papel. A pessoa que escreve, posso mais que a rebeldia, mas quero ir? Posso ir além da revolta, se irei? Pego da pena, a arma que aprendo manusear, mirar, disparar.
Penso. Para que a realidade ganhe existência. Sinto.
Uma pizza portuguesa, para começar. Ressalvando-se: com o número igual de fatias para ela e para ele; com a conta paga por ela, por ele ou por ambos; antes de ir-se, agradecer quem trabalha no atendimento. Como se vê ─ pizza é um começo.
Então, basta mudar os hábitos, inventá-los outros e terei um mundo educado e gentil? O mundo é vasto e o meu coração, diminuto. O sangue que levo nas veias e artérias não herdei de ninguém. Todavia? Faço por mim, agindo. Achando que posso, e não posso. Já é muito tolerar os modos. Dá um trabalhão a quem se dispõe servir-se de outros modelos para que venha a tornar-se quem se quer: novo. A caminho de mim. Porque há de rebelar-se contra ódios, gratuitos ou justificados. Pois há de revoltar-se contra amores, servis ou ajustados. Porquanto há de revolucionar-se além das órbitas, previstas e calculadas.
Na esfera pública da intimidade, o plano é...
O povo? O que disparou 80 tiros e o que os recebeu. Povo, das camadas populares, pobres, sem poder. Povo, o que veste uniforme, almoça, janta e toma banho. Povo, os encharcados de álcool a queimar nas ruas. Faz jus a?
Quem se acha dono, reduz custos. Na Educação: de R$ 24 bilhões para R$ 17 bilhões; dos 21 mil cargos comissionados no governo, foram cortados 14 mil em universidades públicas.
Diz-se o que não se diz? Não entendo o que digo, entendo.
Ao delírio das coisas, o meu ofício é a metamorfose.
Com a percepção do afeto, em mente e por palavras, é lícito a arte fugir à ordem ou agir contra a norma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2019.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Corpo estranho


Corpo estranho

Nada mais estranho do que o mundo. Olho a rua. Ocupo-me dos passantes. Antes de passar pela rua em que moro, o que estavam fazendo? Vão para onde? O que irão fazer quando lá chegarem? Será que estão indo trabalhar? Que vida esquisita.
Mas não vou especular. Ou errarei pelo nonsense que nutre as sinapses com uns desequilíbrios químicos, na confusão de dopamina, endorfina, sei lá o que mais.
Para falar de outras esquisitices...
Faz dias, começaram a repetir o George Santayana, a frase: "Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Não sei dizer em que contexto foi dita, mas tem validade pela advertência. O tanto de importância e relevância está na construção: PODE lembrar. É a locução empregada, que diz o direito de lembrar, rememorar, recordar. Mas não diz comemorar, celebrar, ou, sequer, festejar. Ficou claro?
Entendo que seja este o teor do aviso. Por precaução, e o faço sem tirar pela violência, volto àqueles dias.
De fato, e por direito, lembro o que houve em 1964 e o que se seguiu ao golpe. Vi caminhões militares passando diante da janela de casa; em seguida, não sei quanto tempo depois, com meu pai e minha irmã, fui ver, onde havia um declive lamacento hoje está o cemitério novo de Ibiúna, e vimos moças e moços do Congresso da UNE que foram presos num sítio, em 68.
Mas foi só no primeiro ano da faculdade de Jornalismo, em 1984, que liguei minhas memórias com o dia a dia da noite que durou até o ano seguinte, 1985. Ano em que Tancredo morreu. E antes de tomar posse como o primeiro presidente que, desde o tal março de 1964, não era um ditador fardado. Um tranco.
Por dever e por direito, busco saberes sobre o que não sei. Não uso óculos tecnologicamente desenvolvidos para limpar da minha frente a poluição de pululantes telas de tantos trecos.
E é na TV que vejo uma fila quilométrica, com mais de 15 mil pessoas procurando emprego e querendo trabalhar. Leio os índices do IBGE; informam qual o método para os cálculos, o mesmo usado mundo afora. Quer pulga, orelha?
Fecho os olhos, a realidade não some. Sou teimoso, a bicha é mais. Nem sacudindo o troço que servia para telefonar...
Eca! Para não fazer miséria pela casa toda, já que a barriga anda descontrolada como a vida, corro ao banheiro. Ufa.
Peralá! Não é porque nasci antes do advento da Idade Mídia que condeno os trambiqueiros digitais. É porque, no admirável mundo das redes, tolices puxam outras. Novidade?
Para posar de Família Margarina, tem gente usando foto de filho dos outros como se fosse dela. Que fofo...
Depois disso tudo, melhor me comportar direito. Se tudo der certo, vou dar jeito na vida. E passar a comer de 3 em 3 horas, dormir 8 horas, e curtir o celular só umas 20 horas por dia.
Ou os ETs que estão de butuca ─ paradoxalmente calados, Fermi? ─ vão escapulir do Hubble a mil zilhões de anos-luz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de abril de 2019.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Pedaço de mim


Pedaço de mim

Sabe a pedra do Sísifo? Pois, esqueça. Conhece Enigma? O poema do Drummond do livro A rosa do povo, sabe? Pense nele. Desprevenidas, as pedras seguiam na sua vida de pedra, todavia uma forma obscura barra a caminhada, então, é mal de enigmas não se decifrarem a si próprios, vai daí que as pedras, no esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo.
UMA PIADA, minha crônica última do passado 31 de Março, fabriquei-a com o deliberado hermetismo dos objetos obscuros. Nada mais enigmático que o evidente. Como a forma que veio deixar petrificadas as inteligentes e sensíveis pedras do poema do Gauche de Itabira, e fi-lo vir, o meu texto, para zombar da tentativa de interpretação. Piada, a crônica; e não o poema.
Para não perder a mão, nesta, corro de explicar enigmas. É que piada contada ou causa efeito no ato ou já era. Era?
Era uma vez a ocasião de um determinado fulano, o capitão anônimo que foi pescar numa angra dessas em que a pesca é proibida por lei. Daí, veio lá um funcionário de órgão específico de inspeção, cuja lavratura de multa imputou ao capitão fulano a ilegalidade praticada. Conforme-se, é a regra. A barca passa, o praça fica. Rasgaram a multa. O multador foi-se porta afora, por ato do superior recém-lotado no cargo.
O mais, deixo às inteligências leitoras que liguem os pontos para obter o desenho, caricatural e grotesco, da hora. Tão logo resulte o quadro em riso, ou não. Assim fisga quem lê, entre a falta e o excesso, sendo texto, o instante feito para efeito.
Avante!
Há qualquer coisa que se move na minha mente, está lá em algum lugar da minha consciência, algo informe, uma presença que diz meu nome com todas as letras. É da sedução, farol do reflexo. Leio o espelho, pisco de volta. Sinto que pisca, que me espelha. Deseja para si a palavra, na petulância de querer-se final. Como não lembrar a poesia pelos calafrios da agitação? É destino, isso não passa de ato humano.
Tropeço no minério.
A jazida do inesperado me atravessa o caminho. São ímã as palavras do João Pereira Coutinho: quem disse que as nossas paranoias têm de ser reais – para os outros? Elas são reais para nós, e o que interessa é a verdade subjetiva de quem cria.
O texto, publicado na Folha no dia 26 de março, fala de Nós e Corra!, filmes roteirizados e dirigidos por Jordan Peele. Não se tire pela preguiça e não se faça de gugoulista, leia a coluna e veja os filmes. Ouse viver com a perturbação de pensar por si a partir das provocações de quem pensa por si. Duvida? Bingo!
Idiota míope, algo me impede de ler a pedra pela lapidação necessária. Permaneça inacessível ao valor do uso, sua bruta. Oposto ao MEC que ─ a ir, voltar, fazer, desfazer ─ é exemplo do que quer quem não sabe o que quer. Fico na mesma?
Volto ao Drummond, sobrevivo à consciência. Sei, rio algum transborda do homem sedento. Pela vanglória, é pescado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 02 de abril de 2019.

domingo, 31 de março de 2019

Uma piada


Uma piada

Leitoras e leitores, pesco onde a lei permite. Saibam mais: o “Pi” é a resultante da razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo. Não sei o que isso significa — apenas copiei a descrição do jornal. Então, fui pescar ao Ruy Castro.
Com mil tamoios! Logo o Pi?
Pois. Convocam-me, pelo Messenger, a mobilizar a Ciência à resistência aos botocudos que, fulos e acelerados, passam o compressor do rolo sobre vales, montes e cordilheiras. É plano de certa turma provar-se certa, e sem ninguém a fazer questão de perguntas. Duvidar não ilumina, só aumenta a escuridão.
Estou dentro. Hoje mesmo, já agorinha, enviei este amuleto chamado Pi para todos, meus contatos. Para tirar o Galileu das chamas? Pi. É o fetiche do momento. É preciso manter a roda girando, ou a Fortuna não saberá a quem está destinada. Pi!
Não ficarei entre os obtusos que jogam o Santos-Dumont do alto da Sabedoria ao associá-lo à destruição das massas pelos artefatos nucleares. Sem bombardeio, sou anticriminoso.
Não me juntarei aos acólitos da obscuridade que alardeiam, com desperdício de cautelas, ordenarmos em calendário dias e noites, darmos nomes a bois e vacas, e tirarmos pela semente a goiabeira, pois é fruto da dentada cobrir-se nas vergonhas.
Economizarei minha beleza, quero mais na íntegra o BPC. A quem de direito os centavos, cada um deles, pois, de cabeça erguida, hei de seguir lutando pelo lugar à mesa. Xô, migalhas!
Nem patrioteiro ou acaciano. Na justa das narrativas, Celan.
Pela porta da frente, entro e saio. E são tantas as fachadas, mas sem fundos. Nada vezes nada? Sigo a dizer do meu jeito, de ibiunense oswaldiânico: a alegria é a prova dos nove.
Sobre tuítes imbecis? Não me são anzol, sigam nadantes. A caminho do chão de terra, de asfalto, da fuligem do concreto? Não entram na foto, erram da imprescindibilidade. O caminho? Vou por onde passo, posso e não peço. Nem me apresso. Vou, pois ir é voltar-me para o próximo passo, ao que dou valor, no apreço de saber-me de mim nisto, até pelos outros.
O que há? Penso, dou pontos no penso que não me cura. Remediado? Pelas palavras, dou-me à febre, pois: visionário, o poeta é também uma visão; através dele todos podem ver.
Assim, solidão não é levar minhas janelas para espiar a vida ao redor e não ser visto. As janelas, que alguns chamam olhos, dão voltas pelas vizinhanças. A trabalho, que vagamundear é respirar. Não vão a passeio, que os olhares magoam. Fere-me o excesso do visível, que o caos das desmesuras ceva em mim a inadequação. E cevado como um bacalhau?
Bagre, aquele que come na lama o que a lama rejeita.
Todavia, quem pia os seus males arrepia. A zorra não passa de uma realidade. Contudo, quanto mais avanço, mais recuo. A Lei é a 1079. Em... bala... me... o artigo? Pesquei... 7. É o 7!
Ô inferno! A televisão, aqui, pega apenas este canal maldito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de março de 2019.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Boca aberta


Boca aberta

Quem dera a fortaleza dos espontâneos, mas fraco que sou, ensaio bem minhas deixas. Se de mim não cobram nada, cedo. Nem reclamo mais felicidade. E até o sabido do Spotify vê que, de bem com a vida, compro esta onda do feliz.
Disfarçando, soltando piadas quase engraçadas, meneando a cabeça aos de repentes, tiro espinhos do porquinho. Delícia é não ter modos à mesa, para deixar o almoço bem temperado. Assim parece, pois camarada confiante pega da realidade para desviá-la pelo teatro. Embora canastrão, juro ter vocação.
Boca aberta faz questão de matraquear. Com permissão, rir. Quem pouco pode, muito deve? Como se o dever de servir não implicasse o quinhão da sua parte, rir. Voluntariado é o termo apropriado a quem obrigado à entregar-se. Para benefício? Do coletivo ─ e dele está: excluído, na repartição do prato feito; e incluído, pelo amor à ordem estabelecida. A boca é livre?
Por isso, acho incontrolável a sanha de me divertir metendo cacos no que vou escrevendo. Tiques de um automatismo que nada tem de inconsciente, mas digo que é. Para desconsolo do lado racional. Mas o cartesiano em mim faz festa também, até arrisca um pas de deux, estapafúrdio e bizarro. Posto que: um vai de tênis; outro, de agulha sete centímetros. Patético e pateta, chego ao denominador comum: escritor.
À vista disto, deixaria de fora o desejo? Nananinanão.
Unicórnios me mordam! Fabulo ter peito. Quero provar dos valores que os conto ao me narrar, mas sou tépido. Caramba, como tremo na base ao pensar no tiro sem saber de onde vem a bala. Carambola, morro de medo só de me imaginar na mira. Não quero levar bala a troco de miseráveis celular ou dez paus. Câmeras? Continuam por aí. Se o pânico me desnuda, queria piscar de volta. Pois não caçarei os unicórnios.
Digo à minha verdade o que ela não quer ouvir, nem de mim nem de ninguém. A verdade, qualquer que seja, não passa de articulação de palavras, para que se sustente um conceito, seja o que for. Porque entendo o que o ordenamento das palavras significa, me levo a aceitá-lo como verdade. Ou seja, dou fé ao sentido que a linguagem propõe. A semântica revela metáforas que a revelam. Isto é, o significado é passível de ser captado porque palavra é metáfora construída com sons (se é falada) e grafismos (quando vista). A palavra funciona, por convenção. E sem entender o que se diz, palavra é ruído. Contudo?
Não é porque gosto do que faço que estou fazendo um bem danado pela humanidade. Mais do que ofício, escrever é vício.
Que humanidade? A que, das três patas, logo dá a mental por que é a mais curta? A que, por não saber das horas, corre feito louca na gaiola? Ou, ainda, a que vem com esta novidade organicamente legal: chega de enterro e cremação, útil mesmo é cadáver adubar o solo para tulipas e beterrabas?
Assim como os poetas, humanos somos outros.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de março de 2019.

terça-feira, 26 de março de 2019

Conversando com fantasmas



Conversando com fantasmas

De vez em quando, para respirar ares mais carregados de descaminhos, becos sem saída, quebradas que dão na alegria, preciso sair da vida encantada das palavras. E vou indo por aí, para fora do mapa mental que me seduz enquanto aprisiona, a me convencer de que a liberdade abstrata é mais concreta que a realidade do mundo. Para ter vida no mundo: tenho de anotar o número da linha ou não irei aonde quero comprar um livro; ou espero minha vez ou me mandarão passear sem ter comprado a casquinha de chocolate; ou me comporto como os demais ou pago pela consulta com o médico que escolherei.
Mas é perturbador. Volto voando, prefiro o mundo da lógica milimétrica de quem conhece os cálculos pelos números que representam o cotidiano. Na ficção, a realidade faz sentido. E nela, o herói da nossa gente, um pobre, não passa de vítima, e sofre por querer sentir o gostinho da boa vida dos afortunados. Para quê? Para morrer no final, com tiros ilegítimos e ilegais.
Textos, assim, são mesmo literatura. Na real?
Quem investiga e acusa não julga. Quem julga não investiga nem acusa. Um Ato Institucional do STF, quem diria...
Chamam-se visionários os que lutam por mim e iluminam o caminho para que esteja organizado com meus semelhantes ─ pessoas dramaticamente livres, mas não libertas. Merda! Isso nada tem de humanismo, tem vícios, muito de autoritarismo.
Então, cretinas e cretinos, não é comigo servidão voluntária. Faço questão do entendimento. Pois a política é raiz do que me faz agente e paciente de mim, das pessoas e das conjunturas. Estou com o Agualusa, livros são territórios de debate. Se um livro não servir para fazer pensar no presente, na sociedade em que se vive, então serve para quê?
No livro da vida, há quem ceda às redes sociais a condição de tribuna livre, porque as pessoas expressam as vontades por via direta e imediata. Peralá, botecos são comitês do povo?
Foge o recanto das muitas lindezas... Mas a serenidade luz na alma o espírito que achei perdido de mim. O que me impede de ter asas? Pés e mãos, na labuta diuturna de quem sonha.
Sorrio, a mão conversa com o papel. Conversando, penso. A voz que se pronuncia sabe do chão ao caminhar. E pouco sei da fraternidade descalça que existe para além da possibilidade. Mas entra o acaso na probabilidade que revigora, alimenta, me recompõe a dizer o que digo, entendo e compartilho. Quero acreditar na pessoa que julgo ser. Quero confiar no desejo do que quero.
E tanto está por vir. Conseguirei chegar a mim? E vou estar lúcido, inteiro, coerente? Que me falhem as palavras, que erros me enlouqueçam, me condenem as culpas. Estou a caminho.
Um passo a distanciar-se do passo dado?
Quanto mais vou para lá, mais venho para cá. Porque estou onde estou, e lutando com as palavras. Bem aqui. E onde é?
É o instante do amor. Em construção permanente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2019.

domingo, 24 de março de 2019

O bacalhau do tapete


O bacalhau do tapete

Como as banalidades sabotam o cotidiano?
O primeiro passo. Foco na imagem veiculada na TV: o sofá.
O coronel Lima tentou esconder, porém os federais fisgaram os celulares, trazendo no puçá de malha grossa o parceiro do Temer. Se o código penal não serve de arpão, é para o quê?
Desde que a pescaria começou, há 40 anos, este grupo, do Michel, Moreira Franco, Lima e caterva, pôde jogar como bem quis com a baleia branca de hum bilhão e oitocentos milhões de arrobas. Fora os quilates ainda não aferidos.
Deve ser por que usando onda miúda peguei tsunami.
Oxe! Com meu apego a mentirinhas imperceptíveis, feito os pescadores que aumentam aqui e ali, mas que o fazem para ir apimentando o sushi, vai daí que abusei da raiz forte. Eca.
O Brasil está virado num tapete imenso, continental, pois fui tramando voto a voto, a cada eleição. Se me foi preciso? Foi, é que busquei dar um jeito na sujeirama. Já a fedentina...
Truta!
Sempre achei que era um problema de glândulas ou falta de banho de sais e ervas. Nenhum nem outro. É mesmo cheiro de vômito, por golfadas recentes e seguidas. Fon! Fon!
Longe do Magalhães em matéria de circum-navegação, fico estupefato por rodopiar enjoado sem mar nenhum. Que bater o pé no coreto da praça causa ânsias. É isso.
Haja praças por aí afora. Lá em Brasília; no Fla-Flu de todas as latitudes; no caís santista, se vem do mundo, vem também.
O balanço de terramarear enjoa e mantém patente a fetidez na alma. Calma? Quem fecha os olhos e tapa o nariz é calmo.
O próximo passo. Atenção ao que se quer dizer: a urna.
Não se trata de botar fogo no tapete, mas de lavá-lo. Sem a farsa dos incomodados pela poeira que a limpeza levanta. Só que é preciso limpar a casa, toda. Arrumar os móveis, lavar a roupa impregnada de corrupção, servir feijão a quem tem fome, e com poemas, encantar o coração. Dar sonhos às mãos.
Sozinho ninguém dá conta, é muito trabalho. Sem vizinhas e vizinhos, fica difícil o baile. A gente precisa urgente. Já se ouve o alarido da festança. Está vindo a eleição. Não é para depois do carnaval, é durante. Não é para quando a Páscoa der ovos, é pela ressurreição. Não é para trocar os presentes do Natal, é pela hora. Porque a hora é agora. E do modo que for, preciso e necessário. Dentro da lei, mudando as leis. Até tornar o Brasil a casa a nos abrigar, domiciliar e aprazer ─ a todas e todos.
Voto é escolha. Escolher é ato individual. Se escolho certo, beleza; se errado, é o caso de pensar. Repensar, para: abrir-se à claridade da janela aberta; arejar-se; e, à luz do sol, vital para plantas e animais, dispensar-se das trevas de quem insiste em forçar goela abaixo que as 51.589 pessoas assassinadas em 2018 mereceram, ou estariam vivas. Quer confundir, Brasil?
A ALERJ recolher autógrafos em Bangu 8 é bom para atrair câmeras para quem faz pose ao escarrar no tapete, Teresinha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2019.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Está na cara



Está na cara

Sabiá canta bonito. Num pé, eis-me na sacada, para ver o bichinho. E como manda bem o danado. Quando canta o sabiá, gosto para dedéu. Disponho do tempo para desfrutar do canto. O artista ignora a plateia, daí se esmera, capricha, pontifica.
Estrela inteligente que é, o ornitóptero tem lá estratagemas.
Para dirigir forças para estufar o peito, trata de imobilizar-se. Meu olhar vira sonar. Suspendo a respiração, como quem tem na manga um full house. Se soubesse fazer cara de jogador de pôquer, seria matador. Entretanto maioral, ele corta o baralho, dá as cartas e canta vitória.
Não sou de parar muito tempo no lugar. A ansiedade tira de mim a ilusão de estátua. Quero, rápido, consumir a beleza da maviosidade eloquente. Mas, para tanto, preciso ter a imagem inteira do corpito exibido, na estirpe da plumagem toda. Ave!
Acho-o, o meu Sinatra das Palmeiras. Deste aqui, os olhos azuis são, verdade seja dita, o corpo preto salpicado de branco nas asinhas bailarinas. Que ele todo canta, de fato, no balanço de prodígio. Tão hipnótico, nem prendo a baba do fã.
Localizo e meço, o passarinho. Menos o sentido do que ele diz por música. Ser de outra espécie, um bípede sem plumas, carregado de penas incomunicáveis, só observo. E sei comer com os ouvidos a iguaria que a natureza produz.
A solidão é minha. Por incapacidades minhas, nem dá para compartilhá-la com meus semelhantes, que dirá com quem tem outras prioridades. Assento a digressão aqui. Entendo tal falta de comunicação interespécies como falha de comunicação e não como sintoma de algum abismo emocional que me possa controlar as faculdades mentais. Se estou emocionado?
À espera do canto do sabiá, há um cheiro que me captura. É outra pepita que nem dá por mim debruçado no que inalo. É perfume que nem sabia que desejava inalar. Inspiro fundo.
E vem da planta na qual está pousado o passarinho.
Ouço, deliciado. Sinto, arrebatado. Sabiá e Dama-da-Noite.
Se estivesse com o celular nas mãos, fotografaria. De perto, dando zoom. De longe, para situar o sabiá nas circunstâncias em que acontece a cantoria. Sim, é um acontecimento.
Para o dia seguinte? Quero ir ao Portinho. Dane-se o bom senso de fazer supermercado, de pagar contas na lotérica, de não furar a consulta no oculista. Portinho, sempre, Portinho.
Que beleza! Ficar de papo com o mato, minúscula ilha entre edifícios, é uma panaceia que apaga da mente a realidade.
Então, preservemos a natureza. Cultivemos o amor natural.
E o sabiá? O sabiá não passa de um reles trinca-ferro que está louco para transar. Sou prontamente informado pelo dono da Dama-da-Noite. De língua afiada, o sujeito chega ralhando com a bicharada que bica as frutas no pé, espalha folhas pelo quintal e emporcalha a piscina.
Arre! Dou asas ao vetusto?
Como todo preconceito é óbvio, meu sabiá segue cantando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 21 de março de 2019.